Amorpio
O Despertar da Princesa Púrpura e o Caos de Poções
Querido Diário,
Eu não dormi. Absolutamente nada. Passei a noite inteira encarando o teto do meu quarto no castelo, vendo as sombras das gárgulas dançarem nas paredes enquanto a luz da lua filtrava pelas cortinas. Meus lábios ainda formigam. É uma sensação estranha, como se um feitiço de eletricidade estivesse permanentemente instalado ali.
Tive que usar uma dose extra de Poção Transcrevedora hoje cedo porque minhas mãos estão tão trêmulas que eu provavelmente furaria o papel com a pena. A magia da vovó Dulce é potente, mas nem ela consegue esconder o fato de que eu, Amora, estou agindo como uma completa tonta.
Hoje de manhã, o espelho do banheiro foi cruel comigo. Meus cabelos roxos estavam mais vibrantes do que nunca, como se estivessem comemorando o beijo do Scorpio por conta própria. Tive que gastar quase meia hora aplicando o feitiço de camuflagem para voltar a ser a "Florentina". É exaustivo, Diário. Às vezes eu sinto que a Florentina está começando a ocupar espaço demais, e a Amora está ficando espremida num cantinho escuro da minha alma.
Quando cheguei na escola, o ar parecia mais pesado. Sabe aquele silêncio que precede uma tempestade de areia no deserto de Cristal? Pois é.
— Florentina! Pelo amor de todos os elementares, você está pálida! — Lila me interceptou logo no corredor principal. Seus cachos azuis estavam presos num coque alto e ela carregava três livros de alquimia avançada que pareciam pesados demais.
— Eu estou bem, Lila, sério — respondi, tentando ajustar meus óculos que insistiam em escorregar pelo nariz. — Só não dormi bem. A floresta estava... barulhenta ontem.
Lila me puxou para um canto, longe dos ouvidos curiosos dos outros alunos. Seus olhos escuros brilhavam com uma mistura de preocupação e uma curiosidade que beirava a fofoca proibida.
— Não minta para mim, Amora — sussurrou ela, usando meu nome verdadeiro tão baixo que quase não ouvi. — A Sadi me contou que você não estava em casa quando ela chegou. E o Scorpio estava com aquela cara de quem tinha acabado de ganhar na loteria de poções. O que aconteceu naquela mansão?
— Ele me beijou, Lila — confessei, sentindo meu rosto esquentar tanto que achei que o disfarce de Florentina fosse derreter ali mesmo. — E não foi um beijo de "estou feliz que você não morreu". Foi um beijo de verdade.
Lila soltou um arquejo tão alto que um aluno do primeiro ano que passava por perto tropeçou nos próprios pés.
— Ele o quê? O Scorpio Diabrotic beijou a Florentina? — Ela cobriu a boca com as mãos. — Amora, isso é um desastre romântico! Ele acha que você é a menina sem graça da biblioteca, e você está apaixonada por ele sendo uma princesa disfarçada! Se ele descobrir que você mentiu...
— Eu sei, eu sei! — interrompi, sentindo o pânico subir pela garganta. — Mas o que eu devia fazer? Empurrar ele e gritar "Para, eu sou a neta da Dulce com cabelo de uva"?
Antes que ela pudesse responder, o sinal tocou. E não era qualquer sinal. Era o sinal da aula de Poções Práticas com o Professor Mofado. E adivinha quem é minha dupla oficial? Exatamente.
Caminhei para a sala sentindo que estava indo em direção ao meu próprio julgamento. Scorpio já estava lá, sentado na bancada do fundo, girando uma pena entre os dedos. Quando ele me viu entrar, o movimento da mão dele parou. Aquele sorrisinho de lado apareceu, e meu coração deu um triplo mortal carpado.
— Bom dia, Florentina — disse ele, a voz soando mais profunda do que o normal no silêncio da sala. — Conseguiu descansar depois da sua... "caminhada na floresta"?
— Bom dia, Scorpio — respondi, sentando-me ao lado dele e evitando contato visual direto. — Sim, dormi como uma pedra. Embora eu ache que algumas ervas que colhi me deram alergia.
— Entendo — ele murmurou, inclinando-se um pouco na minha direção. — Engraçado, eu achei que você estivesse com cheiro de incenso de sândalo hoje de manhã. Mas deve ser só minha imaginação.
Ele estava brincando comigo. Ele sabia que eu sabia que ele sabia. Era um jogo perigoso, Diário, e eu estava perdendo de goleada.
A aula começou e o Professor Mofado anunciou que faríamos a Poção da Verdade Instantânea. O pânico que eu sentia antes? Multiplique por cem. Se eu tocasse naquela poção ou se um vaporzinho sequer entrasse no meu nariz, eu ia começar a gritar que sou a Amora para toda a escola.
— Tudo bem, parceira? — Scorpio perguntou, enquanto começávamos a picar raízes de mandrágora. — Você parece nervosa. Suas mãos estão tremendo.
— É o café — menti. — Tomei muito café.
— Florentina — ele disse, parando de picar e colocando a mão sobre a minha, parando o movimento da minha faca. O toque dele era quente e firme. — Sobre ontem... eu não me arrependo. De nada.
— Scorpio, a gente está na aula — sussurrei, olhando em volta para ver se a Sadi ou a Lila estavam olhando. A Sadi estava a duas bancadas de distância, observando a gente com uma expressão que dizia "eu vou descobrir tudo".
— Eu não ligo para a aula — ele continuou, ignorando o caldeirão que começava a borbulhar. — Eu só queria saber se você... se você sentiu o mesmo.
Eu olhei para ele. Por trás dos meus óculos de Florentina, meus olhos de Amora imploravam para serem vistos, mas a minha boca estava selada pelo medo.
— Eu... eu senti — respondi, tão baixo que foi quase um suspiro.
Nesse momento, um estrondo ecoou pela sala. A Sadi, em sua tentativa de prestar atenção em nós e na poção ao mesmo tempo, tinha derrubado um frasco de essência de pimenta malagueta no caldeirão dela. Uma fumaça vermelha e espessa começou a preencher o ambiente.
— TODO MUNDO PARA FORA! — gritou o Professor Mofado, tossindo. — EVACUAÇÃO IMEDIATA!
No caos da fumaça, todo mundo começou a correr para a saída. Senti uma mão agarrar meu pulso. Era o Scorpio. Ele me puxou para um canto da sala onde a fumaça ainda não tinha chegado totalmente.
— Espera — ele disse, me prensando levemente contra a parede de pedra. — A gente não terminou de conversar.
— Scorpio, a gente vai morrer sufocado por pimenta! — eu exclamei, tossindo um pouco.
— Vale a pena — ele respondeu, e antes que eu pudesse protestar, ele me beijou de novo.
Desta vez foi diferente. Foi urgente, meio atrapalhado por causa da fumaça, mas tão intenso quanto o primeiro. No meio do beijo, senti algo estranho. O calor da fumaça de pimenta estava reagindo com o meu feitiço de camuflagem. Eu senti minha pele pinicar.
— Scorpio, para! — Eu o empurrei, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu preciso sair daqui!
Corri para fora da sala, passando pela Sadi e pela Lila que estavam no corredor. Eu sentia que meu cabelo estava começando a mudar de cor nas pontas. A magia estava falhando!
— Florentina! Onde você vai? — ouvi a voz da Sadi atrás de mim.
Não respondi. Corri em direção ao banheiro das meninas e me tranquei na última cabine. Olhei no pequeno espelho de bolsa que eu carregava. Minhas pontas estavam roxas vibrantes. O feitiço estava se desfazendo por causa da interferência da poção de pimenta da Sadi.
— Droga, droga, droga! — resmunguei, tentando refazer os gestos mágicos com as mãos trêmulas. — *Obscurus foscus, cor de terra, esconda o roxo que em mim erra!*
A cor castanha voltou lentamente, cobrindo o roxo bem a tempo de a porta do banheiro ser aberta com força.
— Florentina? Você está aí? — Era a Lila. Ouvi seus passos rápidos. — Amora, abre essa porta. A Sadi está logo ali fora perguntando por que você saiu correndo como se tivesse visto um fantasma.
Abri a porta e puxei a Lila para dentro da cabine comigo.
— O feitiço falhou, Lila! A pimenta da Sadi quase me revelou! — eu disse, meu peito subindo e descendo com a respiração curta. — E o Scorpio... ele me beijou de novo. No meio da fumaça.
Lila encostou a cabeça na parede da cabine e suspirou.
— Amora, isso está saindo do controle. O Scorpio está apaixonado por uma mentira, e a Sadi é inteligente demais para não notar que você e a "neta da Dulce" nunca estão no mesmo lugar ao mesmo tempo.
— Eu sei, mas o que eu faço? Se eu contar agora, ele vai achar que eu estava brincando com os sentimentos dele. Ele disse que a Amora é uma "lenda urbana metida", Lila! Como eu conto que a lenda urbana é a garota que ele beijou?
— Você vai ter que escolher — disse Lila, segurando minhas mãos. — Ou você conta a verdade, ou você para de ver ele antes que o coração dele quebre... ou o seu.
Saímos do banheiro tentando parecer normais. A Sadi estava encostada na parede oposta, de braços cruzados, nos esperando.
— Que demora — disse ela, arqueando uma sobrancelha. — A fumaça já dissipou. O Scorpio está lá fora procurando por você, Florentina. Ele parece... preocupado. Ou obcecado. É difícil dizer com ele.
— Eu só precisava de um pouco de ar — respondi, tentando manter a voz estável.
— Sei — Sadi se aproximou de mim, seus olhos fixos no meu pescoço. — Engraçado, Florentina. Eu não sabia que você tinha uma marca de nascimento roxa bem atrás da orelha.
Levei a mão ao local instantaneamente. O feitiço não tinha coberto tudo!
— É... uma mancha de tinta! — menti. — Eu estava escrevendo no meu diário e...
— Tinta roxa? — Sadi sorriu, mas não era um sorriso amigável. Era o sorriso de quem tinha acabado de encontrar a primeira peça de um quebra-cabeça. — A Amora também usa tinta roxa, não usa? A senhorita Dulce comentou uma vez que a neta dela só escreve com essa cor.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Lila tentou intervir, mas a Sadi apenas levantou a mão, pedindo silêncio.
— Eu não sou boba, Florentina. Tem algo muito errado nessa história. E eu vou descobrir o que é. Pelo bem do meu primo, porque se você estiver brincando com ele... você vai descobrir por que o sobrenome da nossa família é Diabrotic.
Ela deu meia volta e saiu batendo os saltos das botas no chão de pedra.
Eu olhei para a Lila, que estava tão pálida quanto eu.
— Estamos perdidas — sussurrei.
— Não — disse Lila, tentando ser corajosa. — Você só precisa ser mais rápida que ela.
Voltei para o castelo no final do dia com a cabeça latejando. A vovó Dulce estava na cozinha, preparando um chá de camomila com pétalas de estrela.
— Você parece cansada, minha pequena Amora — disse ela, sem se virar. Ela sempre sabia.
— O dia foi longo, vovó — respondi, sentando-me à mesa e deixando o disfarce cair completamente. O roxo do meu cabelo pareceu suspirar de alívio ao ser libertado.
— O amor é uma poção complicada, querida — ela comentou, colocando uma xícara na minha frente. — Às vezes, o ingrediente mais difícil de encontrar é a coragem de ser quem realmente somos.
— E se ele não gostar de quem eu sou, vovó?
— Então ele não merece a princesa que você é.
Fui para o meu quarto e peguei você, Diário.
Agora estou aqui, pensando no Scorpio. Ele me beijou hoje. No meio do caos, da fumaça e do perigo, ele escolheu a mim (ou a Florentina). Eu sinto que estou vivendo em uma corda bamba sobre um fosso de dragões. De um lado, o segredo que me protege. Do outro, o garoto que faz meu mundo girar.
E no meio de tudo isso, a Sadi está começando a caçar a verdade.
Eu preciso de um plano. Ou de uma poção de memória muito forte para esquecer aquele beijo, porque enquanto eu lembrar dele, não vou conseguir ter juízo.
Mas quem quer ter juízo quando se tem o Scorpio Diabrotic olhando para você daquele jeito?
Amanhã será um novo dia. Um dia de mais disfarces, mais mentiras e, se eu tiver sorte (ou azar), mais beijos roubados.
Boa noite, Diário. Reze por mim.
— Amora (a princesa que está prestes a ser descoberta).