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Amorpio

O Triunfo da Cor e o Fim das Sombras

Querido Diário,

A Poção Transcrevedora está dando seus últimos suspiros, soltando pequenas faíscas azuis sobre o papel enquanto escrevo. Se este relato parar no meio, você já sabe: a magia acabou e eu provavelmente estarei ocupada demais tentando não tropeçar na minha própria coragem. Mas eu precisava registrar isso. Hoje não é um dia qualquer. Hoje é o dia em que a Florentina morre para que a Amora possa, finalmente, respirar.

Eu não dormi. Como eu poderia? Passei a noite encarando o vestido que o Scorpio mandou entregar por um corvo mensageiro de confiança. Diário, o tecido parece feito de névoa e luar. Quando eu toco nele, sinto um formigamento morno, como se a própria roupa estivesse me encorajando.

— Amora? — A voz da Lila soou na porta, acompanhada por uma batida rítmica. — Posso entrar? O sol já nasceu e nós temos um império para chocar.

Eu abri a porta e a Lila entrou como um furacão azul. Ela carregava uma maleta cheia de elixires de brilho e presilhas de ametista.

— Você está pronta? — perguntou ela, parando para me olhar. — Sem óculos? Sem feitiço de camuflagem?

— Estou apavorada, Lila — confessei, olhando para o meu reflexo. Meus cabelos roxos estavam rebeldes, brilhando com uma intensidade que eu não via há meses. — E se a Sadi conseguir me expulsar? E se todos rirem?

— Deixe que riam — disse Lila, começando a trançar uma mecha do meu cabelo com fios de prata. — Eles vão estar rindo de nervoso porque nunca viram nada tão autêntico. E a Sadi? Ela vai estar ocupada demais tentando fechar a boca, que vai cair no chão.

Levamos quase duas horas. Quando terminei, eu não reconhecia a garota no espelho. Eu não era a "lenda urbana" intocável do castelo, nem a Florentina apagada da biblioteca. Eu era a Amora. Meus olhos, livres dos óculos, pareciam maiores e mais vivos. O vestido de fios estelares mudava de tom conforme eu me movia, variando entre o violeta profundo e o prata.

— Você está magnífica — sussurrou a Vovó Dulce, aparecendo na porta com seu cajado de carvalho. — Lembre-se, minha neta: a verdadeira magia não está nos frascos, mas na audácia de ser quem se é. Vá e mostre a eles o que significa ser uma neta do castelo.

Caminhamos até a escola em silêncio. O ar da manhã parecia elétrico. Quando chegamos aos portões, senti todos os olhares convergirem para mim. Os sussurros começaram instantaneamente, como um enxame de abelhas.

— Quem é aquela? — perguntou um aluno do segundo ano.

— Espera... aquela é a neta da Dulce? A Amora? — disse outra menina, boquiaberta.

Eu mantive a cabeça erguida, embora minhas pernas parecessem feitas de gelatina. Lila andava ao meu lado como uma guarda-costas real, com um sorriso de triunfo nos lábios.

Entramos no Grande Salão para o café da manhã. O barulho de centenas de conversas morreu no momento em que meus pés tocaram o mármore. Foi um silêncio absoluto, denso e pesado.

Lá, na mesa central, estava a Sadi. Ela estava segurando um pergaminho — provavelmente a petição para a minha expulsão. Quando ela me viu, o pergaminho escapou de suas mãos e rolou pelo chão. O rosto dela passou do vermelho de raiva para um branco de puro choque.

E então, eu o vi.

Scorpio estava de pé perto da mesa dos Diabrotic. Ele não estava usando o uniforme escolar padrão; ele tinha um broche de violeta na túnica. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu. Não foi o sorriso de lado, misterioso. Foi um sorriso aberto, orgulhoso.

Ele caminhou pelo corredor central, ignorando os sussurros, ignorando a cara de poucos amigos da prima. Ele parou bem na minha frente.

— Você demorou — disse ele, a voz ecoando no salão silencioso.

— Tive problemas com o cabelo — respondi, sentindo meu rosto esquentar, mas desta vez eu não queria me esconder.

— Eu acho que ele está perfeito — ele disse, e então, diante de toda a escola, ele pegou minha mão e a beijou.

— ISSO É UM ABSURDO! — O grito da Sadi quebrou o transe. Ela marchou até nós, apontando o dedo. — Diretor! Professores! Esta garota é uma impostora! Ela se infiltrou nesta escola sob uma identidade falsa! Ela é a Amora, e ela nos enganou a todos!

O Diretor Mofado se aproximou, limpando os óculos.

— Senhorita Diabrotic, acalme-se. A senhorita Amora é, de fato, a neta da nossa fundadora honorária. O uso de pseudônimos não é proibido, desde que os registros acadêmicos estejam corretos. E os dela estão.

— Mas ela mentiu! — gritou Sadi, olhando para o Scorpio. — Ela mentiu para você, Scorpio! Como você pode ficar do lado dela?

Scorpio se virou para a prima, sua expressão tornando-se séria e firme.

— Ela não mentiu para mim, Sadi. Ela se protegeu de pessoas que, como você, não conseguem enxergar além de um sobrenome ou de um segredo. Eu conheci a Florentina e me apaixonei pela alma dela. E agora eu conheço a Amora, e descobri que ela é ainda mais incrível do que eu imaginei.

Sadi recuou, como se tivesse levado um tapa físico. Ela olhou em volta, procurando apoio, mas a maioria dos alunos estava ocupada demais admirando a coragem da cena ou cochichando sobre como o casal era "icônico".

— Isso não acabou — resmungou Sadi, pegando suas coisas e saindo do salão a passos largos.

Eu soltei um suspiro que parecia estar preso nos meus pulmões há semanas.

— Você está bem? — perguntou Scorpio, puxando-me para um abraço rápido.

— Eu estou maravilhosa — respondi, e era verdade.

— Ei, Amora! — gritou um dos meninos do time de quadribol mágico. — O roxo é muito mais legal que o castanho!

O salão explodiu em aplausos e risadas. Lila me puxou para a mesa, e pela primeira vez, eu não me sentei no canto. Eu me sentei no meio, entre a minha melhor amiga e o garoto que tinha roubado meu coração — e que eu tinha sequestrado de volta, de certa forma.

O resto do dia foi um borrão de cores e emoções. As pessoas vinham falar comigo, curiosas, e eu descobri que, sem o peso do segredo, eu era muito mais sociável do que a Florentina jamais foi.

À tarde, Scorpio me encontrou no Jardim das Sombras. Mas desta vez, o sol estava batendo nas folhas negras, tornando tudo menos assustador.

— Então, Princesa — disse ele, encostando-se no tronco da árvore. — Agora que todo mundo sabe, o que vem a seguir?

— Eu não sei — confessei, aproximando-me dele. — Acho que agora eu só quero ser a Amora. Sem disfarces. Sem poções de camuflagem. Apenas eu.

— "Apenas você" é a minha coisa favorita no mundo — ele disse, puxando-me pela cintura.

— Scorpio — eu disse, ficando séria por um momento —, por que você me levou para aquela mansão naquela noite? Você realmente achou que eu estava em perigo?

Ele desviou o olhar por um segundo, parecendo um pouco envergonhado.

— Para ser sincero? Eu queria um motivo para te tirar do castelo. Eu sabia que a Sadi estava desconfiada e achei que, se eu te levasse para a minha casa, eu poderia te proteger... e talvez ter coragem de te dizer o que eu sentia sem a Lila nos vigiando com aquele olhar de "eu vou te transformar em um sapo".

Eu ri, lembrando do beijo na mansão.

— Bom, o seu plano de sequestro foi um desastre, mas o resultado final... — eu o puxei pela gola da túnica — ...o resultado final foi aceitável.

— Aceitável? — ele arqueou uma sobrancelha, aquele sorriso desafiador voltando ao rosto. — Eu vou ter que me esforçar mais, então.

Ele me beijou de novo. Desta vez, não havia fumaça de pimenta, não havia medo de ser descoberta, e não havia óculos no caminho. Era apenas a Amora e o Scorpio, no meio de um jardim mágico, começando um capítulo onde as cores não precisavam ser escondidas.

Diário, a Poção Transcrevedora está parando agora. As letras estão sumindo... mas não faz mal. Eu não preciso mais de magia para contar minha história. Eu tenho a minha própria voz.

A Florentina desastrada ficou para trás, mas a Amora... ah, a Amora está apenas começando a brilhar. E o roxo? O roxo nunca foi tão vibrante.

— Com amor (e muita cor), Amora.

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