← Voltar ao resumo

Amorpio

O Segredo das Pétalas Roxas e o Pacto da Meia-Noite

Querido Diário,

Eu costumava acreditar que o maior feitiço que alguém poderia lançar era um de invisibilidade ou, quem sabe, uma poção de levitação bem feita. Mas hoje, enquanto uso a minha última reserva da Poção Transcrevedora — sério, a tinta mágica está quase transparente, parece que estou escrevendo com lágrimas de fada —, percebi que o feitiço mais poderoso (e perigoso) é a verdade.

O jantar na Mansão Diabrotic foi um divisor de águas. Ou melhor, foi uma explosão de caldeirão no meio da sala de jantar. Eu ainda consigo ouvir o grito vitorioso da Sadi quando meu disfarce de Florentina derreteu como cera de vela sob o Sol. "EU SABIA!", ela gritou. E, por um momento, achei que o mundo fosse acabar ali mesmo, entre a sopa de cogumelos e os olhares gélidos da tia Beatriz.

Mas o Scorpio... ah, Diário! Ele segurou minha mão. Na frente da família dele, na frente da Sadi, ele escolheu a Amora. Ele escolheu o roxo.

Agora, estou aqui no meu quarto no castelo. A luz da lua entra pela janela e reflete nos meus cabelos, que finalmente estão livres daquela tinta castanha opaca e fedorenta. Eu me sinto leve, mas ao mesmo tempo sinto que estou andando em uma corda bamba sobre um ninho de dragões famintos.

— Amora? — A voz da Lila me tirou dos meus pensamentos. Ela estava sentada na beira da minha cama, enrolando uma mecha dos seus cachos azuis no dedo, parecendo tão exausta quanto eu. — Você tem noção de que amanhã a escola inteira vai saber? A Sadi não é do tipo que guarda segredos, especialmente segredos que ela levou semanas para desvendar.

— Eu sei, Lila — suspirei, sentindo o peso do diadema invisível na minha cabeça. — Mas o que eu posso fazer? Fugir para as Montanhas de Cristal? Pedir para a Vovó Dulce me transformar em um sapo de estimação?

— Talvez o sapo seja uma opção segura — brincou ela, mas logo ficou séria. — O Scorpio foi incrível, mas a Sadi está furiosa. Ela se sente traída. Ela acha que você usou o primo dela para se infiltrar na família.

— Eu nunca faria isso! — exclamei, e a Poção Transcrevedora brilhou intensamente no papel, captando minha indignação. — Eu só queria ser... normal.

Um barulho na janela nos fez pular. Não era um pássaro, e certamente não era o vento. Era um assobio rítmico, o sinal secreto que o Scorpio inventou (e que ele acha que é muito discreto, embora soe como um trem a vapor com asma).

Corri para abrir a janela. Scorpio estava lá, pendurado na mesma videira mágica de antes, mas desta vez ele parecia mais... agitado.

— Você não desiste, não é? — perguntei, estendendo a mão para ajudá-lo a entrar.

— E perder a chance de ver a princesa no seu habitat natural? — Ele saltou para dentro do quarto, ajeitando o cabelo espetado que parecia ter lutado contra um furacão. Ele olhou para a Lila. — Oi, Azulzinha.

— Oi, Diabrotic — respondeu Lila, cruzando os braços. — Você sabe que se a senhorita Dulce te pegar aqui, ela vai te transformar em um porta-copos, certo?

— Vale o risco — disse ele, voltando sua atenção para mim. O olhar dele... Diário, eu juro que meu coração parou por um segundo. — Amora, a Sadi está planejando algo. Eu a ouvi falando sozinha no laboratório depois que vocês saíram. Ela quer levar isso para o Conselho Escolar. Ela quer que você seja expulsa por "falsidade ideológica mágica".

Senti minhas pernas fraquejarem. Expulsa? Por querer ter amigos de verdade?

— Ela não pode fazer isso — disse Lila, levantando-se. — A Amora não quebrou nenhuma lei fundamental. Ela só usou um disfarce. Metade dos alunos usa poções para esconder espinhas e a outra metade usa feitiços para colar nas provas de História da Magia!

— A Sadi é persistente — disse Scorpio, aproximando-se de mim. — Ela acha que você é um perigo porque é neta da Dulce e tem acesso aos segredos do castelo. Ela está cega pela rivalidade.

— E o que a gente faz? — perguntei, sentindo o pânico começar a borbulhar.

— A gente toma a iniciativa — disse Scorpio, com um brilho travesso nos olhos. — Se a verdade vai sair, que saia do nosso jeito. Amanhã, no Grande Salão, antes que a Sadi abra a boca, você vai entrar como Amora. Sem óculos, sem tinta castanha, sem medo.

— Você ficou louco? — eu quase gritei. — Eu vou ser o centro das atenções! Todo mundo vai apontar, vai comentar...

— Eles já fazem isso com a "lenda urbana" da Amora — disse ele, segurando meus ombros. — Mas agora eles vão ver que a Amora é real. E que ela não está sozinha.

Lila deu um passo à frente, um sorriso começando a surgir em seu rosto.

— Ele tem razão, Amora. Se você se esconder, vai parecer que tem culpa. Se você assumir, você tira o poder das mãos da Sadi.

Eu olhei para os dois. Minha melhor amiga, que sempre esteve comigo, e o garoto que eu achava que nunca me notaria, mas que agora estava disposto a enfrentar a própria família por mim.

— Tudo bem — eu disse, respirando fundo. — Mas eu vou precisar de um vestido novo. E de muita coragem.

— A coragem eu te empresto — sussurrou Scorpio, inclinando-se para me dar um beijo rápido na testa. — E o vestido... bom, eu conheço um cara que deve favores para o meu pai e faz tecidos com fios de luz estelar.

— Scorpio Diabrotic, você é impossível — eu ri, sentindo uma ponta de esperança.

Ele se despediu, descendo pela janela com a mesma agilidade de sempre. Lila ficou comigo por mais uma hora, planejando cada detalhe da nossa "entrada triunfal". Quando ela finalmente foi embora, eu me deitei, mas o sono não vinha.

Passei o resto da noite conversando com você, Diário. A Poção Transcrevedora está falhando agora, as letras estão ficando borradas, como se a própria magia estivesse cansada de tanto drama.

Mas eu tomei uma decisão. Chega de Florentina. Chega de me esconder atrás de óculos que não preciso e de uma personalidade que não é minha. A Florentina era doce, sim, e ela me ensinou que o Scorpio podia gostar de mim pelo que eu falo, não pelo que eu pareço. Mas a Amora... a Amora é quem realmente sente o frio na barriga quando ele chega perto.

— Amora? — A voz da Vovó Dulce soou do outro lado da porta, suave e sábia.

— Pode entrar, vovó.

Ela entrou, trazendo uma bandeja com chá de pétalas de lua. Ela olhou para mim, para o meu cabelo roxo espalhado pelo travesseiro e para o brilho nos meus olhos.

— Então o segredo saiu da garrafa, não é? — perguntou ela, sentando-se na poltrona.

— A Sadi descobriu tudo, vovó. E o Scorpio... ele sabe desde ontem.

Vovó Dulce tomou um gole de chá, pensativa.

— Os Diabrotic sempre foram bons em descobrir o que está escondido. É o sangue deles. Mas você, minha querida, é uma neta do castelo. Nós não nos escondemos porque temos medo. Nós nos escondemos para observar. E agora que você já observou o suficiente, está na hora de mostrar o que aprendeu.

— O Scorpio quer que eu apareça na escola amanhã como eu mesma.

— E o que você quer, Amora?

Eu olhei para o meu reflexo no espelho da penteadeira. A garota de cabelos roxos parecia pronta.

— Eu quero parar de ter medo, vovó.

— Então faça isso — disse ela, dando-me um beijo na bochecha. — E não se preocupe com o Conselho Escolar. Eu tenho alguns segredos sobre os pais daqueles conselheiros que fariam as orelhas deles caírem de vergonha.

Eu ri. Vovó Dulce era a melhor aliada que uma princesa desastrada poderia ter.

Agora, o sol está começando a nascer. O céu está ficando com tons de rosa e laranja, quase da cor das flores que o Scorpio me deu uma vez. Eu vou me levantar, vou tomar um banho demorado e vou deixar o roxo brilhar.

Lila deve chegar em breve com o tal "vestido de fios estelares". Eu não sei o que me espera naqueles corredores de pedra da escola. Não sei se vou ser vaiada ou aplaudida. Mas eu sei de uma coisa: quando eu caminhar pelo Grande Salão, o Scorpio estará lá.

E, pela primeira vez na minha vida, eu não vou ser a Florentina desastrada ou a Amora invisível.

Eu vou ser apenas eu.

Deseje-me sorte, Diário. A magia está acabando... a tinta está sumindo... mas a minha história está apenas começando.

— Amora (a garota que finalmente encontrou sua cor).

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.