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Amorpio

O Rapto por Engano e o Segredo das Sombras Roxas

A noite no Reino de Magnólia estava incomumente silenciosa, exceto pelo som das cigarras e pelo farfalhar das folhas sob a brisa fresca. No interior do castelo, a atmosfera era de pura euforia. Amora, a princesa herdeira de cabelos roxos e coração de ouro, estava hospedando uma festa do pijama. Lila, sua melhor amiga de cachos azuis vibrantes, tentava equilibrar uma torre de doces enquanto Sadi, a prima de Scorpio, revirava os baús da realeza em busca de "pistas de um crime antigo" que ela jurava existir nos corredores.

— Sadi, você vai acabar quebrando um vaso milenar se continuar pulando desse jeito — avisou Amora, rindo baixinho enquanto ajeitava seu pijama de seda, que tinha um capuz com orelhas de coelho.

— Mistérios não esperam, Amora! — Sadi exclamou, ajustando sua lanterna. — E se o seu tataravô escondeu um mapa do tesouro atrás dessa tapeçaria?

Lila deu uma mordida em um macaron azul. — O único mistério aqui é como você ainda tem energia. Vamos logo, Amora, coloque o capuz. Está ficando frio e a Sadi quer apagar todas as luzes para o "clima de investigação".

Amora obedeceu, cobrindo seus cabelos roxos com o capuz pesado. Na penumbra do quarto, as três garotas pareciam vultos indistinguíveis, todas vestindo roupas largas e escuras para a "missão" de Sadi.

Enquanto isso, do lado de fora da varanda, um vulto muito menos gracioso escalava a trepadeira. Scorpio, com seu cabelo espetado desafiando a gravidade e o coração batendo na garganta, estava decidido. Ele estava cansado das peças que Sadi pregava nele. Na semana passada, ela havia colocado tinta permanente em seu shampoo; hoje, ele daria o troco. O plano era simples: "sequestrar" Sadi, levá-la até o jardim das estátuas assustadoras e deixá-la lá por cinco minutos até ela admitir que ele era o mestre das pegadinhas.

Ele viu uma silhueta de capuz perto da janela aberta. A pessoa estava de costas, distraída.

"É agora", pensou Scorpio, saltando para dentro com a agilidade de um gato desajeitado.

Sem dar tempo para a vítima gritar, ele jogou um saco de veludo leve sobre a cabeça da pessoa e a ergueu nos ombros.

— Te peguei, sua peste! — sussurrou ele, com a voz abafada pela adrenalina. — Agora você vai ver quem é que manda nos sustos!

Ele saiu pela janela tão rápido quanto entrou, descendo pela corda de seda que havia preparado. A pessoa em seus ombros não lutou tanto quanto ele esperava; na verdade, ela parecia em estado de choque, emitindo apenas um som abafado de surpresa.

Scorpio correu pelo jardim, desviando das patrulhas reais, e só parou quando chegou à Antiga Estufa, um lugar afastado e repleto de samambaias gigantes que pareciam monstros no escuro. Ele colocou a pessoa no chão com cuidado, mas ainda mantendo o tom vitorioso.

— Pode tirar o capuz, Sadi. Eu sei que você está morrendo de medo! — Ele cruzou os braços, exibindo um sorriso convencido.

A pessoa puxou o saco de veludo e, em seguida, abaixou o capuz do pijama. Scorpio sentiu o sangue fugir do rosto instantaneamente. Sob a luz fraca da lua que filtrava pelo teto de vidro da estufa, não surgiu o rosto debochado de Sadi. Em vez disso, fios de cabelo roxo caíram suavemente sobre os ombros de Amora.

A princesa olhou para ele com os olhos arregalados, as bochechas coradas e uma expressão que misturava terror e uma curiosidade estranhamente doce.

— Scorpio? — perguntou ela, a voz falhando levemente.

Scorpio sentiu os joelhos fraquejarem. Ele abriu a boca, mas nenhum som saiu por alguns segundos.

— Amora? — Ele finalmente engasgou. — Meu Deus... não, não, não! Eu não acredito que fiz isso!

Ele começou a andar de um lado para o outro, puxando os próprios cabelos espetados, o que os deixava ainda mais bagunçados.

— Eu achei que você era a Sadi! Vocês estavam com as mesmas roupas, e a luz estava apagada, e ela estava falando sobre mistérios... Amora, me perdoe! Eu sou um idiota, um completo e absoluto idiota!

Amora, que ainda estava sentada em um banco de pedra, começou a processar a situação. O medo inicial foi substituído por uma percepção engraçada: Scorpio, o garoto que ela secretamente admirava por sua coragem e jeito marrento, estava tendo um colapso nervoso de culpa na frente dela.

— Você queria sequestrar a sua prima? — perguntou ela, tentando conter um sorriso.

— Era uma peça! — Scorpio exclamou, gesticulando freneticamente. — Ela me irrita o dia todo! Eu ia só dar um susto nela. Mas agora... eu sequestrei a Princesa Herdeira! Isso é traição! Eu vou ser banido! Ou pior, a Sadi vai rir de mim pelo resto da eternidade!

Amora se levantou e caminhou até ele, colocando a mão pequena em seu braço. O toque fez Scorpio congelar no lugar.

— Calma, Scorpio. Ninguém vai te banir. Foi um erro honesto — disse ela com aquela voz gentil que sempre fazia o coração dele acelerar.

— Você não entende — disse ele, olhando para os olhos dela e desviando logo em seguida. — Se eu te devolver agora, a Sadi e a Lila vão estar no corredor com os guardas. Elas devem ter visto! Se elas souberem que eu te confundi com a Sadi, eu nunca mais vou ter paz. E se o Rei souber...

Amora olhou para a porta da estufa e depois para o relógio de sol no jardim.

— Elas provavelmente acham que eu fui ao banheiro ou buscar mais lanches — ponderou Amora. — Mas se voltarmos agora, o risco de sermos vistos entrando pela janela é enorme. Os guardas trocam de turno à meia-noite.

Scorpio olhou para ela, esperançoso. — Então... você não vai contar?

— Só se você me ajudar a voltar sem ninguém perceber — respondeu ela, piscando para ele. — E, talvez, se você me contar como pretendia assustar a Sadi. Eu adoraria saber o que você planejou para ela.

Scorpio soltou um suspiro de alívio tão longo que parecia ter guardado o ar por anos. Ele se sentou no banco de pedra e deu um espaço para ela.

— Eu ia usar esse gravador — disse ele, tirando um pequeno dispositivo do bolso. — Ele tem sons de fantasmas e de correntes arrastando. Ia deixar ela aqui na estufa com as plantas que se mexem à noite.

Amora riu, um som claro e melodioso que ecoou pelas paredes de vidro.

— Sadi teria adorado, na verdade. Ela passaria a noite tentando entrevistar os "fantasmas" para o blog de mistérios dela.

Os dois ficaram em silêncio por um momento. O pânico de Scorpio começou a diminuir, dando lugar a uma sensação diferente. Ele estava sozinho com Amora. A luz da lua tornava o cabelo roxo dela quase prateado. Ele sempre gostou dela, desde a primeira vez que a viu tropeçar nos próprios pés durante um baile real, mas nunca teve coragem de dizer nada além de provocações bobas.

— Sabe — disse Amora, quebrando o silêncio enquanto brincava com uma mecha de cabelo —, não foi tão ruim ser sequestrada por você. É a coisa mais emocionante que aconteceu na minha semana.

Scorpio sentiu o rosto queimar. — Desculpe pelo saco de veludo. Eu... eu não queria ser bruto.

— Foi macio — ela brincou. — Mas você é bem forte, Scorpio. Nem me deu chance de lutar.

— Eu treino bastante — ele murmurou, tentando parecer descolado, embora estivesse morrendo de vergonha. — Mas falando sério, Amora, você é muito gentil. Outra pessoa teria gritado até os guardas chegarem.

— E perder a chance de ver você entrar em pânico? — Ela riu novamente. — Nunca.

Eles passaram a hora seguinte conversando. Scorpio contou sobre as dificuldades de lidar com as ideias malucas de Sadi, e Amora confessou o quanto às vezes se sentia pressionada pelas expectativas de ser a princesa perfeita. Pela primeira vez, eles não eram apenas "o primo da Sadi" e "a princesa herdeira". Eram apenas dois jovens dividindo segredos em uma estufa escondida.

— Acho que o turno dos guardas já mudou — disse Scorpio, consultando a posição da lua. — Precisamos ir, antes que a Lila chame a cavalaria real.

— Você tem razão — concordou Amora, levantando-se. — Mas Scorpio...

— Sim?

— Se você prometer não me sequestrar por engano de novo, eu prometo não contar para a Sadi que você quase chorou de medo de ser banido.

Scorpio sorriu, um sorriso genuíno que raramente mostrava. — Feito, Princesa. Mas eu ainda vou pegar a Sadi.

— Eu ajudo você no próximo plano — sussurrou ela, aproximando-se dele enquanto caminhavam de volta para o castelo.

Scorpio sentiu que, apesar do erro catastrófico, aquela tinha sido a melhor noite da sua vida. O problema agora seria como agir normalmente no dia seguinte, sabendo que o coração dele estava batendo tão forte que Amora provavelmente conseguia ouvi-lo.

Eles conseguiram chegar à janela do quarto. Scorpio ajudou Amora a subir primeiro. Antes de entrar, ela se virou e depositou um beijo rápido na bochecha dele.

— Boa noite, meu sequestrador favorito — disse ela, antes de desaparecer para dentro do quarto escuro.

Scorpio ficou parado na corda por longos minutos, com a mão no rosto e um sorriso bobo, esquecendo completamente que ainda precisava descer e se esconder da prima investigadora que, a essa altura, já devia estar desconfiada de que algo muito mais interessante do que um mapa do tesouro estava acontecendo nos jardins.

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