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Amorpio

O Resgate do Coração e o Enigma da Madrugada

A brisa da madrugada soprava suave, mas para Scorpio, parecia um furacão de emoções. Ele desceu a trepadeira com a agilidade de quem tinha acabado de ganhar superpoderes, embora seus pés tenham tropeçado no último degrau de pedra antes de atingir o gramado. Ele não se importou. A marca do beijo de Amora em sua bochecha parecia arder como brasa, um calor que se espalhava por todo o seu corpo, fazendo-o esquecer que, tecnicamente, ele ainda era um "criminoso" aos olhos da etiqueta real.

No entanto, a bolha de felicidade estourou assim que ele contornou a estátua do Rei Heitor e deu de cara com uma lanterna acesa.

— Ora, ora, se não é o mestre dos disfarces voltando de sua missão secreta — disse uma voz carregada de sarcasmo.

Scorpio deu um pulo, quase caindo dentro da fonte. Sadi estava encostada em um carvalho, com os braços cruzados e um caderninho de anotações na mão. Ao lado dela, Lila tentava manter uma expressão séria, mas seus olhos azuis brilhavam de curiosidade.

— Sadi! O que você está fazendo aqui fora? — Scorpio tentou recuperar a compostura, ajeitando o cabelo espetado que, a essa altura, tinha até alguns pedaços de folhas secas.

— Eu que pergunto, priminho — rebateu Sadi, aproximando-se com passos lentos e calculados. — A Amora sumiu do quarto por mais de uma hora. A Lila disse que ela foi buscar lanches, mas eu conheço o barulho de uma corda de seda batendo na parede de pedra. E, curiosamente, você também sumiu da sua tenda no acampamento dos convidados.

Lila deu um passo à frente, preocupada.

— Scorpio, cadê a Amora? Se você fez alguma coisa com ela, eu juro que uso meus feitiços de glitter permanente em você!

— Calma, calma! — Scorpio levantou as mãos em sinal de rendição. — Ela está bem. Ela já subiu. Nós... nós só estávamos conversando.

Sadi semicerrou os olhos, analisando o primo como se ele fosse um espécime raro de inseto. Ela notou o brilho nos olhos dele e, principalmente, a mancha levemente rosada em sua bochecha.

— Conversando, é? — Sadi deu um sorriso ladino que fez Scorpio estremecer. — E desde quando "conversar" envolve escalar janelas no meio da noite? E por que você está com essa cara de quem acabou de ganhar na loteria do Reino de Magnólia?

— Não é nada disso! — Scorpio protestou, sentindo o rosto esquentar. — Eu confundi ela com você, tá legal? Eu queria te dar um susto, mas peguei a pessoa errada. A gente se entendeu e eu a trouxe de volta. Fim da história!

Lila soltou um suspiro de alívio, mas logo soltou uma risadinha abafada.

— Você sequestrou a Amora por engano? Scorpio, você é o pior vilão da história dos contos de fadas.

— Eu sei, eu sei — resmungou ele. — Agora, por favor, voltem para o quarto antes que algum guarda veja vocês. Eu já tive adrenalina o suficiente para uma década.

Sadi, porém, não parecia convencida a deixar o assunto morrer.

— Eu vou subir, mas isso não acabou, Scorpio. Eu sinto cheiro de mistério... ou talvez seja apenas o cheiro de romance no ar. O que é muito mais nojento, para ser sincera.

As duas garotas se afastaram em direção à entrada de serviço do castelo, deixando Scorpio sozinho com seus pensamentos. Ele olhou uma última vez para a janela de Amora. Uma luz suave de vela piscou lá dentro, um sinal combinado de que ela estava segura. Ele sorriu e, finalmente, seguiu para sua própria cama, embora soubesse que o sono estivesse a quilômetros de distância.

Na manhã seguinte, o salão de café da manhã estava banhado pelo sol. Amora estava sentada à mesa real, tentando manter a postura enquanto sua mãe, a Rainha, falava sobre a programação do festival de primavera. O cabelo roxo de Amora estava impecavelmente preso, mas sua mente estava longe, revivendo cada segundo na estufa.

Quando Scorpio entrou no salão, acompanhando seu pai, o Duque, os olhares dos dois se cruzaram por um milésimo de segundo. Amora sentiu um frio na barriga e rapidamente desviou os olhos para sua torrada. Scorpio, por sua vez, quase derrubou um bule de chá ao tentar se sentar à mesa dos convidados.

— Você está muito distraída hoje, querida — observou a Rainha, tocando a mão da filha. — Aconteceu alguma coisa na festa do pijama?

— Não, mamãe — mentiu Amora, sentindo a culpa pesar. — Só dormimos pouco. A Sadi tem histórias de fantasmas muito... intensas.

Sadi, que estava sentada logo adiante, soltou uma tosse falsa que soou suspeitosamente como "sequestro". Amora chutou a canela da amiga por baixo da mesa.

— Ai! — exclamou Sadi. — Quero dizer... sim, os fantasmas. Eles são muito reais, não é, Scorpio? Às vezes eles até carregam as pessoas para estufas no meio da noite.

Scorpio engasgou com o suco de laranja, tossindo freneticamente. O Duque deu tapinhas nas costas do filho, rindo.

— Cuidado, rapaz. O suco não vai fugir de você.

Após o café, Amora conseguiu escapar para os jardins, esperando encontrar um momento de paz. Mas ela sabia que não ficaria sozinha por muito tempo. Perto da fonte dos desejos, Scorpio a esperava, fingindo observar as carpas.

— Você quase nos entregou no café — sussurrou Amora, aproximando-se dele.

— Eu? A culpa é da Sadi! Ela é um cão farejador de segredos — Scorpio respondeu, olhando em volta para garantir que ninguém estava ouvindo. — Amora, eu passei a noite pensando... sobre o que você disse. Sobre ser emocionante.

Amora sentiu o coração acelerar.

— E o que você concluiu, Sr. Sequestrador?

Scorpio respirou fundo, perdendo um pouco daquela marra habitual.

— Que eu não quero que a nossa única aventura seja um erro de identidade. Eu... eu queria saber se você não gostaria de ir à vila comigo hoje à tarde. Sem sacos de veludo, sem cordas e, definitivamente, sem a Sadi.

Amora sorriu, o tipo de sorriso que fazia Scorpio sentir que poderia enfrentar um dragão.

— Eu adoraria. Mas como vamos despistar a "equipe de investigação"?

— Deixa comigo — disse Scorpio, recuperando a confiança. — Eu tenho um plano. E desta vez, prometo pegar a pessoa certa.

O plano de Scorpio envolveu uma distração clássica: ele convenceu Sadi de que havia visto um vulto suspeito entrando nas catacumbas do castelo. Enquanto a prima corria com sua lanterna e lupa, e Lila se distraía na biblioteca real procurando por pergaminhos antigos, Scorpio e Amora escaparam por uma passagem secreta que levava diretamente aos limites da vila.

Eles passaram a tarde caminhando entre as barracas de frutas e artesanato. Amora usava um lenço simples para cobrir os cabelos roxos, sentindo-se, pela primeira vez, como uma garota comum. Eles riram de coisas bobas, dividiram um saco de maçãs do amor e Scorpio até ganhou um pequeno pingente de cristal em um jogo de pontaria para dar a ela.

— Sabe, Scorpio — disse Amora, enquanto observavam o pôr do sol de cima de uma colina —, eu sempre achei que você me achasse... bem, chata. Por ser a princesa e tudo mais.

— O quê? — Scorpio parou, surpreso. — Eu nunca achei isso. Eu só... eu ficava nervoso perto de você. Você é tão perfeita, e eu sou só o cara que vive se metendo em confusão com a Sadi. Eu achei que você me via como um estorvo.

— Um estorvo que me resgatou de uma festa do pijama monótona? — Ela riu, aproximando-se dele. — Você é muito mais interessante do que imagina, Scorpio.

Ele olhou para ela, e o silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi um silêncio carregado de promessas.

— Amora, eu... — Scorpio começou, mas foi interrompido por um barulho de arbustos se mexendo atrás deles.

— Eu sabia! — gritou Sadi, surgindo do meio das folhas, com o cabelo cheio de gravetos e uma expressão de triunfo absoluto. — O mistério do "vulto nas catacumbas" era apenas uma cortina de fumaça!

Lila apareceu logo atrás, ofegante.

— Amora! Você nos deixou preocupadas! Quer dizer... eu sabia que você estava com ele, mas a Sadi me obrigou a vir correndo.

Amora e Scorpio se afastaram rapidamente, ambos vermelhos como as maçãs que tinham comido.

— Sadi! Você não pode dar privacidade às pessoas? — reclamou Scorpio.

— Privacidade é para quem não tem segredos suculentos, priminho — disse Sadi, limpando a poeira da roupa. — Mas fiquem tranquilos. Eu decidi que não vou contar para o Rei.

Amora suspirou, aliviada.

— Sério? Por que essa bondade repentina?

Sadi sorriu, um sorriso genuinamente travesso.

— Porque ter um segredo sobre a futura Rainha e o meu primo é muito mais valioso do que uma fofoca passageira. Eu posso usar isso para conseguir favores por anos! Além disso... — ela olhou para os dois e suavizou o tom — vocês formam um casal bem menos irritante do que eu imaginei.

Lila abraçou Amora, rindo.

— Eu concordo. Mas agora, vamos voltar. Se a Rainha descobrir que a Amora saiu do castelo sem escolta, nem o segredo da Sadi vai nos salvar.

Enquanto o quarteto voltava para o castelo sob a luz das primeiras estrelas, Scorpio conseguiu caminhar ao lado de Amora. Suas mãos se roçaram e, por um momento, ele entrelaçou seus dedos nos dela.

— Então — sussurrou ele —, o que acontece agora?

Amora apertou a mão dele, olhando para o horizonte onde o castelo de Magnólia se erguia majestoso.

— Agora? Acho que temos muitos outros "mistérios" para resolver, Scorpio. E talvez algumas festas do pijama que precisem ser interrompidas.

Scorpio sorriu, sentindo que, embora tivesse começado a noite anterior como um sequestrador atrapalhado, ele tinha acabado de encontrar o tesouro que Sadi tanto procurava: algo real, doce e completamente inesperado. E, enquanto caminhavam de volta, ele soube que, não importava quantas peças Sadi pregasse, ele já tinha ganhado o melhor prêmio de todos.

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