Ao sol da tarde
O Eclipse da Alma e do Sangue
O silêncio do apartamento de Nick era carregado, uma redoma de vidro que os isolava da vigilância constante da S.H.I.E.L.D. e do peso do mundo que carregavam nos ombros. Samara sentia o calor do corpo dele contra o seu, uma âncora sólida após a tempestade de sensações da noite anterior. No entanto, ela conhecia Nick o suficiente para saber que a calmaria nele era apenas o prelúdio de algo mais profundo. Ele não era um homem de meios-termos; quando ele se entregava, ele o fazia com uma intensidade que beirava o devocional.
Nick estava sentado na borda da cama, a pele pálida contrastando com os lençóis escuros. Seus olhos negros estavam fixos em Samara, que ainda se enrolava nos lençóis, os cachos espalhados como uma moldura de seda sobre o travesseiro. O olhar dele não era apenas de desejo; era um olhar de quem estava memorizando cada poro, cada curva, como se ela fosse um segredo de estado que ele precisasse proteger com a própria vida.
— Você está me olhando como se eu fosse desaparecer — sussurrou Samara, abrindo um sorriso pequeno e sonolento.
— Eu estou olhando para você porque ainda não consigo acreditar que você é real — respondeu Nick, a voz rouca, estendendo a mão para traçar o contorno do maxilar dela. — Durante anos, eu treinei minha mente para ser uma fortaleza. Ninguém entrava, ninguém saía. E então você chegou, com esse sorriso e esses olhos verdes, e simplesmente derrubou tudo.
— Eu não derrubei nada, Nick. Eu só pedi licença para entrar.
— Você não pediu licença, Sam. Você tomou posse. — Ele se inclinou, a respiração quente batendo no rosto dela. — E agora que você está aqui dentro, eu sinto que o mundo lá fora perdeu a cor. Nada importa, a menos que tenha você no meio.
Samara sentou-se na cama, deixando o lençol cair levemente, revelando as marcas avermelhadas que os lábios dele haviam deixado em sua clavícula. Ela não se envergonhava delas; eram troféus de uma batalha que ambos haviam vencido.
— Nick, o que acontece agora? — perguntou ela, a seriedade tomando conta de sua expressão. — Nós dois sabemos que o Fury não gosta de laços afetivos entre agentes. Ele diz que o amor é uma vulnerabilidade que nossos inimigos podem usar.
Nick soltou uma risada sombria, um som que não chegava aos olhos, mas que carregava uma confiança letal.
— O Fury pode governar o mundo das sombras, mas ele não me governa. — Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a encarar a escuridão possessiva em suas pupilas. — Se alguém tentar usar você contra mim, eu não vou apenas cumprir a missão. Eu vou reduzir o mundo de quem ousar te tocar a cinzas e sangue. Você não é minha vulnerabilidade, Samara. Você é a minha força.
— Isso soa perigoso — murmurou ela, o coração disparando não de medo, mas de uma excitação proibida.
— É perigoso — admitiu ele, aproximando os lábios do ouvido dela. — Eu sou doente por você, Sam. Eu te disse isso e vou repetir todos os dias. Meu desejo por você não é algo que eu possa controlar ou colocar em uma caixa. É uma fome que me consome. Eu quero te trancar aqui, longe de todos, onde ninguém possa te ver ou te desejar além de mim.
— Você sabe que eu não posso ficar trancada, Nick. Eu sou uma agente, assim como você.
— Eu sei. E é isso que me mata. — Ele se afastou um pouco, a frustração brilhando em seu rosto. — Cada vez que você sai em uma missão, cada vez que você entra naquele simulador de combate, meu sangue ferve. Eu quero estar lá, na frente de cada bala, de cada golpe, para que nada chegue perto de você.
— Eu sei me cuidar — disse ela, tocando o peito dele, sentindo os batimentos cardíacos acelerados. — Você mesmo me treinou em algumas táticas.
— Eu te treinei para que você pudesse sobreviver se eu falhasse — corrigiu ele, a voz carregada de uma promessa sombria. — Mas eu não pretendo falhar. Nunca.
O telefone de Nick, deixado sobre a mesa de cabeceira, vibrou com uma insistência irritante. Era o sinal codificado da S.H.I.E.L.D. Uma convocação imediata. O dever chamava, mas o desejo de Nick era uma força gravitacional que o mantinha preso àquela cama, àquela mulher.
— Ignore — pediu Samara, embora soubesse que era impossível.
— Eu adoraria — disse Nick, pegando o aparelho e lendo a mensagem com um suspiro de desprezo. — Mas é uma reunião de emergência no Helicarrier. Parece que o Stark e o Rogers entraram em desacordo novamente sobre algum protocolo de segurança.
Samara suspirou e começou a se levantar, mas Nick a puxou de volta pelos pulsos, prendendo-a contra o colchão com uma agilidade que a deixou sem fôlego. Seus olhos negros queimavam com uma necessidade renovada.
— Antes de irmos — ele sussurrou, o corpo pesado sobre o dela —, eu preciso que você prometa uma coisa.
— O quê?
— No momento em que entrarmos naquele complexo, você é a Agente Samara para todos os outros. Mas para mim... você é meu tudo. Não importa quem esteja assistindo, não importa se o Capitão América ou o próprio Thor estiverem na sala. Se eu sentir que alguém está passando do limite com você, eu não vou me segurar.
— Nick, você vai acabar sendo suspenso — ela riu, tentando aliviar a tensão.
— Que me suspendam. Eu prefiro ser um civil ao seu lado do que um herói sem você.
Ele a beijou com uma urgência que parecia querer selar aquela promessa na alma dela. O beijo tinha gosto de despedida e de posse, uma mistura inebriante que deixava Samara tonta. Quando finalmente se separaram, o ar parecia rarefeito.
Horas depois, o ambiente estéril e tecnológico do Helicarrier parecia um mundo de distância do apartamento aconchegante e escuro de Nick. O movimento era frenético. Agentes corriam de um lado para o outro, e o som dos motores das turbinas era um zumbido constante sob seus pés.
Samara caminhava ao lado de Nick, mantendo a postura profissional que a S.H.I.E.L.D. exigia. No entanto, ela podia sentir o olhar dele sobre ela a cada segundo. Não era um olhar casual; era um radar constante, uma presença que a envolvia como uma segunda pele.
Ao entrarem na sala de reuniões principal, a tensão era palpável. Tony Stark estava encostado em uma das mesas holográficas, discutindo acaloradamente com Steve Rogers, enquanto Natasha Romanoff observava tudo com sua calma habitual.
— Ah, finalmente! — exclamou Tony, olhando para Nick e Samara. — O homem de gelo e sua sombra favorita chegaram. Estávamos começando a achar que vocês tinham sido sequestrados por algum vilão de quinta categoria.
Nick não respondeu. Ele apenas caminhou até o centro da sala, sua expressão gélida e impenetrável voltando ao lugar. Ele era o soldado perfeito novamente, exceto pelo modo como se posicionou estrategicamente perto de Samara, protegendo seu flanco de forma quase imperceptível para os leigos, mas óbvia para os observadores treinados.
— Temos um problema nos subúrbios — começou Steve, apontando para o mapa holográfico. — Uma célula dissidente da Hidra está tentando reativar um antigo reator de energia. Precisamos de uma equipe de infiltração.
— Eu e a Samara podemos cuidar disso — disse Nick, sua voz saindo mais como uma ordem do que como uma sugestão.
Natasha arqueou uma sobrancelha, seus olhos astutos alternando entre Nick e a marca levemente escondida pela gola do uniforme de Samara.
— É uma missão de alto risco, Nick — comentou Natasha, o tom de voz neutro, mas carregado de subtexto. — Talvez seja melhor separar a equipe. Samara poderia ir com o Agente Barton para o suporte aéreo, e você...
— Não — cortou Nick, a palavra saindo como um estalo de chicote. — Samara vem comigo. Eu conheço o estilo de combate dela melhor do que qualquer um. Nós trabalhamos melhor juntos.
Tony soltou um assobio baixo, um sorriso sarcástico brincando em seus lábios.
— Uau, alguém está protetor hoje. O que houve, Nick? O gelo derreteu e você está com medo de que ela evapore?
Nick deu um passo à frente, e a temperatura na sala pareceu cair dez graus. Seus olhos negros se fixaram em Stark com uma promessa de violência que fez até mesmo o bilionário hesitar por um segundo.
— Stark — disse Nick, a voz baixa e letal —, se você valoriza a sua capacidade de falar, eu sugiro que escolha suas próximas palavras com muito cuidado.
— Ei, calma lá! — Steve interveio, colocando-se entre os dois. — Estamos todos no mesmo time aqui. Nick, se você acha que a parceria com a Samara é a melhor opção tática, eu confio no seu julgamento. Mas mantenham o foco na missão.
Samara sentiu um aperto no peito. Ela amava a proteção de Nick, mas a intensidade dele estava começando a atrair atenções indesejadas. Ela se aproximou dele, tocando levemente seu braço em um gesto que parecia profissional, mas que era um pedido silencioso de calma.
— Está tudo bem, Nick — sussurrou ela. — Vamos focar na missão.
O toque dela agiu como um calmante instantâneo. A tensão nos ombros de Nick diminuiu, embora seu olhar ainda permanecesse gélido para o resto da sala.
— Prepare o equipamento, Samara — ordenou ele, recuperando a compostura. — Partimos em dez minutos.
Assim que saíram da sala de reuniões e entraram no corredor menos movimentado que levava ao hangar, Nick a prensou contra a parede de metal, sua mão fechando-se ao lado da cabeça dela.
— Eu odeio o modo como eles falam de você — rosnou ele, a testa encostada na dela. — Eu odeio o modo como o Stark olha para você como se pudesse fazer piadas.
— Nick, ele é o Stark. Ele faz piada com tudo.
— Não com você. — Ele se inclinou, beijando-a com uma possessividade febril. — Ninguém brinca com o que é meu.
— Eu não sou um objeto, Nick — repetiu ela, mas seus braços envolveram o pescoço dele, puxando-o para mais perto. — Mas eu sou sua. Você sabe disso.
— Eu sei. E é por isso que essa missão vai ser rápida. Eu vou acabar com cada um daqueles soldados da Hidra que ousarem olhar na sua direção.
— Tente não destruir o reator inteiro no processo — brincou ela, tentando trazer um pouco de leveza para o momento.
Nick sorriu, aquele sorriso sombrio e sedutor que só ela conhecia.
— Não prometo nada.
A missão foi uma demonstração de eficiência e brutalidade. Nick agia como um espectro de morte, movendo-se pelas sombras da instalação da Hidra com uma precisão cirúrgica. Mas o que mais chamava a atenção era como ele nunca perdia Samara de vista. Cada vez que ela entrava em combate, ele estava lá, eliminando ameaças antes mesmo que elas chegassem perto dela.
Em um momento crítico, um soldado da Hidra conseguiu surpreender Samara por trás, apontando uma arma para sua cabeça. Antes que o homem pudesse puxar o gatilho, uma faca de combate atravessou sua garganta com uma força descomunal.
Nick surgiu das sombras, o rosto manchado de poeira e uma expressão que faria o próprio diabo tremer. Ele não verificou se o inimigo estava morto; ele foi direto para Samara, agarrando-a pelos ombros e examinando-a em busca de qualquer ferimento.
— Você está bem? Ele te tocou? — perguntou ele, a voz carregada de uma ansiedade doentia.
— Eu estou bem, Nick! — respondeu ela, recuperando o fôlego. — Eu ia desarmá-lo, eu estava pronta.
— Ele chegou perto demais — disse Nick, a respiração pesada. — Perto demais.
Ele a puxou para um abraço esmagador, ignorando o fato de que ainda estavam em território inimigo e que reforços poderiam chegar a qualquer momento. Naquele instante, para Nick, a missão não importava. O reator não importava. A única coisa que existia era a batida do coração de Samara contra o seu peito.
— Nunca mais — sussurrou ele contra o cabelo dela. — Eu nunca mais vou deixar você ficar em uma posição onde eu não possa te proteger instantaneamente.
— Nick, nós temos que terminar isso — disse ela, afastando-se gentilmente, embora seus olhos brilhassem com o amor que sentia por aquele homem tão intensamente quebrado e devoto.
Eles terminaram a missão, destruindo a célula da Hidra e garantindo o reator. Na volta para o Helicarrier, o silêncio entre eles era carregado de uma eletricidade que todos podiam sentir. Nick não se afastou de Samara nem por um centímetro durante todo o trajeto.
De volta ao complexo, após o relatório oficial, Nick a conduziu novamente para o seu apartamento. Assim que a porta se fechou, a máscara de agente caiu completamente. Ele a pegou no colo, levando-a para o sofá e cobrindo-a com seu corpo, seus beijos tornando-se mais urgentes, mais famintos.
— Eu quase te perdi hoje — murmurou ele entre os beijos. — Aqueles segundos em que vi aquela arma na sua cabeça... eu senti minha alma morrendo.
— Você me salvou, Nick. Você sempre me salva.
— Eu não quero apenas te salvar, Samara. Eu quero ser o seu mundo. Eu quero que você dependa de mim tanto quanto eu dependo de você para respirar.
Ele começou a despir o uniforme dela com mãos trêmulas, uma mistura de desejo e alívio. Samara se entregou a ele, sentindo a profundidade daquela obsessão. Ela sabia que o amor de Nick era um incêndio que poderia consumi-la, mas ela preferia queimar com ele do que viver no frio de qualquer outra pessoa.
— Diga que você é minha — exigiu ele, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que a fazia estremecer.
— Eu sou sua, Nick. De corpo, alma e sangue. Para sempre.
Naquela noite, sob as luzes da cidade que nunca dorme, Nick e Samara exploraram os limites de sua paixão. O desejo dele, que começara como olhares profundos e toques demorados, agora era uma força da natureza, uma tempestade que os unia de forma irremediável. Nick sabia que o mundo exterior continuaria a ser uma ameaça, que o Fury continuaria a observar e que novos inimigos surgiriam. Mas enquanto ele tivesse Samara em seus braços, ele seria o monstro necessário para mantê-la segura, o amante devoto que nunca a deixaria ir e o homem que transformaria sua obsessão na armadura mais forte que o universo Marvel já vira.
O amor deles não era uma história de ninar; era um épico de sombras, fogo e uma lealdade que desafiava a própria lógica. E para Samara, não havia lugar mais seguro — ou mais excitante — do que no centro daquela tempestade chamada Nick.