Apenas amigos?
O Eco da Ausência
A semana em Smallville passou com uma lentidão torturante, como se o tempo tivesse decidido se arrastar apenas para testar a sanidade de Clark Kent. O sol brilhava sobre os campos de milho da fazenda, mas para Clark, havia uma névoa invisível que parecia abafar todas as cores e sons. Ele sempre se considerara alguém que apreciava a solitude de seus pensamentos, mas a solidão que sentia agora era diferente. Era uma solidão acompanhada de um silêncio ensurdecedor vindo de um lugar específico: o porão do Tocha.
Clark tentou o primeiro contato na manhã seguinte à discussão. Ele apareceu com dois cafés do Talon e o sorriso mais desarmado que conseguiu ensaiar no espelho.
— Oi, Chloe. Eu pensei que você pudesse precisar de cafeína extra para terminar aquela matéria sobre os depósitos de lixo tóxico — disse ele, aproximando-se da mesa dela com cautela.
Chloe nem sequer levantou os olhos do monitor. Seus dedos voavam sobre o teclado com uma precisão cirúrgica.
— Obrigada, Clark, mas já tomei café em casa. E estou realmente ocupada agora. Se não for sobre uma pista de algum "fretado pela kryptonita", eu realmente preciso que você me dê licença.
As palavras foram educadas, mas o tom era gélido. Não havia o brilho sarcástico nos olhos, nem aquela provocação amigável que costumava pontuar suas conversas. Clark deixou o copo de café sobre uma mesa lateral e saiu, sentindo o peso do "não" vibrando em seus ossos.
Nos dias que se seguiram, o padrão se repetiu. Clark a via nos corredores da escola, mas Chloe sempre parecia estar a caminho de algum lugar importante. Quando ele conseguia interceptá-la, as conversas eram rasas, limitadas a monossílabos e informações estritamente necessárias.
— Você viu a Lana hoje? — Clark perguntou em um momento de fraqueza, esperando que o assunto habitual pudesse quebrar o gelo, mesmo sabendo que era exatamente isso que a tinha irritado.
Chloe parou, olhou para ele com uma expressão de neutralidade absoluta que o assustou mais do que qualquer grito.
— Não sei, Clark. Não sou o GPS da Lana. Com licença, tenho uma entrevista com o Diretor Higgins.
Ela passou por ele sem olhar para trás. Clark ficou parado no meio do corredor, sentindo-se invisível. Ele, o homem que podia ver através de paredes e ouvir sussurros a quilômetros de distância, não conseguia encontrar uma única fresta na armadura que Chloe Sullivan havia erguido ao redor de si mesma.
A ausência de Chloe não era física — ela ainda estava lá, a poucos metros de distância na maior parte do dia —, mas a ausência da *sua* Chloe era uma ferida aberta. Ele sentia falta da inteligência rápida, das teorias conspiratórias absurdas que sempre acabavam fazendo sentido e, acima de tudo, da sensação de segurança que ela proporcionava. Chloe era o seu porto seguro, a pessoa que conhecia sua alma sem que ele precisasse dizer uma palavra. E agora, ele estava à deriva.
Naquela noite, Clark sentou-se no celeiro, observando as estrelas através do telescópio. Ele tentou focar em Lana, tentou pensar na discussão que tiveram e em como resolver as coisas com ela, mas sua mente teimava em voltar para o porão da escola. Ele percebeu, com uma pontada de culpa, que o drama com Lana parecia superficial comparado ao vazio deixado por Chloe.
— Filho? — A voz de Jonathan Kent ecoou suavemente enquanto ele subia a escada de madeira. — Você está muito quieto hoje. Mais do que o normal.
Clark suspirou, afastando-se do telescópio.
— Eu estraguei tudo, pai. Com a Chloe.
Jonathan sentou-se em um fardo de feno, observando o filho com a sabedoria de quem já tinha visto Clark enfrentar chuvas de meteoros e vilões superpoderosos, mas sabia que o coração era o campo de batalha mais difícil.
— Ela é uma moça forte, Clark. E muito inteligente. O que aconteceu?
— Eu a usei — admitiu Clark, a voz carregada de autorreprovação. — Eu despejei todos os meus problemas sobre ela, ano após ano, sem me dar conta de que ela também estava sofrendo. Ela me disse que não é meu ombro de choro. E ela tem razão. Eu fui egoísta.
— Às vezes — começou Jonathan, colocando uma mão firme no ombro do filho —, nós damos como certo as pessoas que estão sempre lá por nós. Achamos que elas são invulneráveis porque elas nos dão força. Mas até a rocha mais sólida pode sofrer erosão se a chuva nunca parar de cair.
— Eu não sei como consertar isso — confessou Clark. — Ela mal fala comigo. Ela é... rasa. Como se eu fosse apenas mais um colega de classe.
— Talvez você não deva tentar "consertar" — sugeriu Jonathan. — Talvez você precise apenas respeitar o espaço que ela pediu. E, quando ela estiver pronta, você precisa mostrar que a valoriza pelo que ela é, não pelo que ela faz por você.
Clark assentiu, mas a inquietação em seu peito não diminuiu.
No dia seguinte, a situação atingiu o ápice. Clark estava no Tocha, tentando organizar alguns arquivos antigos, uma tarefa que ele esperava que o aproximasse de Chloe de forma produtiva. Quando ela entrou, estava acompanhada de um rapaz do clube de debate, rindo de algo que ele dissera.
O riso dela parou assim que viu Clark.
— O que você está fazendo aqui, Clark? — perguntou ela, a voz voltando ao tom profissional e distante.
— Eu achei que pudesse ajudar com o arquivo morto — respondeu ele, sentindo uma pontada de ciúme que não soube identificar. — Você disse que estava sobrecarregada.
— Eu chamei o Justin para me ajudar — disse Chloe, gesticulando para o rapaz ao seu lado. — Ele é ótimo com organização e, o mais importante, ele realmente se interessa pelo jornalismo, não está aqui para desabafar sobre a vida amorosa.
As palavras foram como um chicote. O rapaz, Justin, deu um sorriso sem graça e acenou para Clark.
— Prazer, Kent.
Clark sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. Ele queria dizer algo, queria exigir que ela o ouvisse, mas as palavras de seu pai ecoaram em sua mente. Ele precisava respeitar o limite.
— Tudo bem — disse Clark, sua voz soando mais rouca do que pretendia. — Eu entendo. Se precisar de alguma coisa... de verdade... estarei na fazenda.
Ele saiu rapidamente, mas não foi para casa. Ele usou sua velocidade para chegar ao topo da torre de água de Smallville, onde o vento soprava forte o suficiente para abafar o som de seu próprio coração acelerado.
Lá de cima, ele olhou para a cidade. Ele podia ver o Talon, onde Lana provavelmente estava servindo café e se perguntando por que ele não tinha ligado. Ele podia ver a escola, onde Chloe estava agora, rindo com outra pessoa, construindo uma vida onde ele não era mais o centro das atenções.
A ficha finalmente caiu para Clark Kent. Ele sempre acreditara que sua vida era complicada por causa de seus poderes, por causa de sua origem alienígena. Mas a verdade era que ele a tornava complicada por medo de perder o que era confortável. Ele mantinha Lana à distância com segredos e mantinha Chloe por perto com necessidades. Ele não estava sendo um herói para nenhuma das duas; estava sendo um covarde.
Horas depois, quando a noite já havia caído, Clark voltou ao Tocha. Ele sabia que Chloe ainda estaria lá; ela sempre trabalhava até tarde quando estava obcecada por uma história. Ele não entrou com supervelocidade. Ele caminhou, passo a passo, sentindo cada centímetro do chão frio do porão.
Chloe estava sozinha agora. O brilho do monitor refletia em seus olhos, que pareciam cansados sob a luz fluorescente. Ela não se virou quando ele entrou.
— Clark, eu já disse que...
— Você não precisa dizer nada, Chloe — interrompeu ele, mantendo uma distância respeitosa. — Eu não vim falar da Lana. Eu não vim falar de mim. E eu não vim pedir nenhum favor.
Chloe parou de digitar, mas continuou de costas para ele. Seus ombros estavam tensos.
— Então por que você está aqui?
— Eu vim dizer que sinto sua falta — disse ele, a voz sincera e despojada de qualquer artifício. — Não sinto falta da pesquisadora, ou da pessoa que guarda meus segredos. Sinto falta da minha amiga. Sinto falta da garota que me faz querer ser uma pessoa melhor, mesmo quando eu sou um idiota completo.
Chloe soltou um suspiro longo, e Clark viu seus ombros relaxarem apenas um milímetro.
— Clark...
— Eu sei que você precisa de espaço — continuou ele, dando um passo à frente, mas parando logo em seguida. — E eu vou te dar esse espaço. Mas eu não podia deixar mais um dia passar sem que você soubesse que eu finalmente entendi. Eu entendi que eu não mereço o seu apoio se eu não for capaz de te apoiar de volta. Eu entendi que você é muito mais do que um porto seguro. Você é a pessoa mais corajosa que eu conheço, Chloe. Porque você teve coragem de me dizer a verdade quando ninguém mais teve.
Chloe finalmente se virou. Seus olhos estavam úmidos, mas sua expressão ainda era cautelosa.
— Isso é muito bonito, Clark. De verdade. Mas palavras são fáceis para você. Você sempre foi o mestre das desculpas sinceras que acabam não mudando nada.
— Então me deixe provar — pediu ele. — Não como o "Garoto Maravilha", mas como o Clark. Sem segredos de jornal, sem dramas românticos. Apenas nós.
Chloe o observou por um longo tempo. O silêncio entre eles não era mais gélido, mas ainda era frágil, como um vidro que acabara de ser colado.
— Eu não posso voltar a ser o que era antes, Clark — disse ela, a voz firme. — Eu não posso voltar a ser a garota que espera por você enquanto você corre atrás de outra pessoa. Eu me valorizo demais para isso agora.
— Eu não quero que você volte a ser aquela garota — respondeu Clark, aproximando-se lentamente. — Eu quero que você seja quem você é agora. Alguém que me coloca no meu lugar. Alguém que exige o melhor de mim.
Chloe deu um pequeno sorriso, o primeiro em dias, embora fosse tingido de uma certa tristeza.
— Você é um idiota, Clark Kent.
— Eu sei — admitiu ele, retribuindo o sorriso com uma pontada de esperança. — Mas sou o *seu* idiota. Se você ainda me quiser por perto.
Chloe olhou para o teclado e depois de volta para ele.
— Vá para casa, Clark. Está tarde.
Clark sentiu o desânimo começar a surgir, mas ela continuou:
— Mas... se você quiser, pode passar aqui amanhã de manhã. Tem uma cafeteria nova perto do correio que dizem ter um expresso que acorda até os mortos. E eu vou precisar de muita cafeína para aguentar o Justin tentando me impressionar com citações de jornalismo clássico.
O coração de Clark deu um salto. Não era um perdão completo, não era a volta ao que tinham antes, mas era um começo. Era uma nova base, construída sobre a verdade e o respeito, e não sobre a dependência emocional.
— Estarei aqui às oito — disse ele, os olhos brilhando.
— Oito e cinco — corrigiu ela, voltando-se para o monitor. — Não se atente tanto à supervelocidade. Eu gosto de pessoas que sabem esperar.
Clark riu, um som leve que pareceu dissipar as sombras do porão.
— Oito e cinco, então. Boa noite, Chloe.
— Boa noite, Clark.
Desta vez, quando Clark saiu da escola e caminhou sob as estrelas, o silêncio não era opressor. Era um silêncio de expectativa. Ele sabia que o caminho para recuperar a confiança total de Chloe seria longo e que ele teria que enfrentar seus próprios sentimentos por ela, sentimentos que ele vinha enterrando sob a obsessão por Lana há tempo demais.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, Clark Kent não estava apenas reagindo ao mundo ou às pessoas ao seu redor. Ele estava agindo com clareza. Ele olhou para as luzes de Smallville e percebeu que, embora pudesse voar acima de tudo aquilo, o que realmente importava era o que ele construía no chão, com as pessoas que amava.
E Chloe Sullivan, com sua inteligência afiada e seu coração resiliente, era a fundação de tudo o que ele esperava ser. Ele não a perderia novamente. Não por egoísmo, não por cegueira. Porque agora, ele finalmente estava vendo com os olhos do coração, e a imagem era mais clara do que qualquer visão de raio-x poderia proporcionar.