Apenas amigos?
A Geometria dos Sentimentos
O Tocha nunca pareceu tão iluminado, embora a única fonte de luz fosse o brilho estéril dos monitores e a lâmpada amarelada de uma luminária antiga que Chloe insistia em manter em sua mesa. O som rítmico das teclas sendo batidas preenchia o silêncio, mas não era mais aquele silêncio tenso de semanas atrás. Era uma quietude confortável, uma cadência de cumplicidade que Clark Kent havia aprendido a não dar mais como certa.
Ele estava sentado na beirada da mesa de Chloe, fingindo ler um artigo sobre o aumento da atividade sísmica perto das cavernas Kawatche, mas seus olhos não focavam nas palavras. Em vez disso, eles derivavam, quase por vontade própria, para a figura ao seu lado.
Chloe estava com o cenho levemente franzido, concentrada em editar uma matéria. Uma mecha de seu cabelo loiro havia escapado do prendedor e caía teimosamente sobre o olho. Sem pensar, ela a assoprou para cima, um gesto rápido e inconsciente que fez Clark soltar um riso baixo.
— O que foi, Kent? — perguntou ela, sem desviar os olhos da tela. — Minha escrita está tão brilhante hoje que você está tendo um colapso nervoso de admiração?
— Na verdade — disse Clark, fechando a pasta de arquivos —, eu estava apenas pensando em como você consegue ser tão produtiva enquanto toma esse café que já deve estar frio há três horas.
Chloe finalmente se virou para ele, exibindo um sorriso sarcástico que, por um momento, fez o estômago de Clark dar uma volta estranha.
— O café frio é o combustível dos grandes jornalistas, Clark. Além disso, alguém tem que manter este jornal funcionando enquanto o "repórter estagiário" fica aí sentado, decorando o teto.
— Eu não estava decorando o teto — protestou ele, embora soubesse que não tinha uma defesa sólida.
— Não? Estava em Marte, então? — Ela se inclinou para trás na cadeira, cruzando os braços. — Você tem estado... distraído ultimamente. Mais do que o normal. E olha que o seu normal já é um nível "uau" de distração.
Clark sentiu o calor subir pelo rosto. Ele não podia dizer a ela que a distração tinha nome, sobrenome e um vocabulário que o deixava frequentemente sem palavras.
— Só estou pensando nas coisas — murmurou ele, levantando-se e caminhando até a parede onde ficava o "Mural do Esquisito".
— Coisas? — Chloe arqueou uma sobrancelha. — "Coisas" com cabelos castanhos e olhos de cervo que costumam frequentar o Talon?
Clark parou diante do mural. Por anos, o nome de Lana Lang teria sido o gatilho imediato para uma conversa longa e tortuosa sobre segredos e desentendimentos. Mas, ao ouvir a menção implícita a ela, Clark sentiu apenas uma pontada distante, como uma lembrança de um livro que ele já havia terminado de ler.
— Estranhamente... não — respondeu ele, virando-se para encarar Chloe. — Eu não tenho pensado muito na Lana ultimamente.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma nova eletricidade. Chloe o observou por um longo tempo, seus olhos inteligentes escaneando o rosto dele em busca de qualquer sinal de mentira ou de um novo drama iminente. Ela parecia procurar a "pegadinha", mas Clark sustentou o olhar com uma honestidade que a surpreendeu.
— Bom — disse ela, sua voz perdendo um pouco da acidez e ganhando uma suavidade cautelosa. — Isso é... novo. E saudável. O ar puro de Smallville deve estar fazendo bem para os seus neurônios.
— Talvez — concordou Clark, dando um passo de volta em direção a ela. — Ou talvez eu só tenha percebido que estava olhando para a direção errada por tempo demais.
Chloe abriu a boca para responder, mas o som do telefone na mesa a interrompeu. Ela soltou um suspiro frustrado e atendeu, mergulhando em uma conversa rápida sobre prazos de impressão.
Clark aproveitou o momento para observá-la novamente. Ele notou a maneira como ela gesticulava com a caneta enquanto falava, a intensidade em sua voz quando defendia uma pauta, a pequena ruga que se formava entre suas sobrancelhas quando alguém a contradizia. Era uma beleza vibrante, cheia de vida e intelecto. Ele se perguntou, com uma súbita clareza dolorosa, como tinha sido capaz de ignorar a gravidade que Chloe Sullivan exercia sobre ele.
Lana era como um sonho etéreo, algo que ele desejava alcançar mas que sempre parecia escapar por entre seus dedos. Chloe, por outro lado, era a realidade. Ela era o chão sob seus pés, a bússola que o guiava quando ele se perdia em sua própria alienação. Ela o conhecia — o Clark real, não apenas o herói — e, mesmo assim, tinha escolhido ficar ao seu lado.
Quando ela desligou o telefone, parecia exausta.
— Problemas na gráfica? — perguntou ele.
— O de sempre. Eles acham que o Tocha é um panfleto de supermercado e eu tenho que lembrá-los de que este é o único veículo de imprensa honesto neste condado — ela desabafou, massageando as têmporas.
— Você precisa de uma pausa — disse Clark, com uma autoridade suave que raramente usava com ela. — Vamos. O Talon ainda está aberto e eu ouvi dizer que eles têm uma torta de maçã que pode salvar a alma de qualquer jornalista estressada.
Chloe riu, um som que aqueceu o peito de Clark de uma forma que o sol amarelo nunca conseguiria.
— Você está tentando me subornar com açúcar, Kent?
— Está funcionando?
— Absolutamente — disse ela, fechando o laptop e pegando sua bolsa. — Mas você paga. É o preço por ter me usado como enciclopédia humana a semana toda.
Eles caminharam pelos corredores vazios da escola, os passos ecoando no silêncio noturno. Clark sentia-se estranhamente consciente da proximidade de Chloe. Cada vez que seus ombros se roçavam acidentalmente, ele sentia uma descarga elétrica que o fazia querer segurar a mão dela. Era uma sensação nova, assustadora e terrivelmente excitante.
Ao chegarem ao Talon, o ambiente estava calmo. Lana estava atrás do balcão, limpando algumas xícaras. Ao ver Clark entrar com Chloe, ela sorriu, um sorriso genuíno, mas que não causou em Clark o habitual disparo no coração.
— Oi, pessoal — disse Lana. — O de sempre?
— Na verdade, Lana — disse Clark, notando como sua própria voz soava firme —, hoje vamos de torta de maçã. Duas fatias grandes. A Chloe precisa de reforço energético para salvar o mundo jornalístico.
Lana olhou de Clark para Chloe, e por um breve segundo, algo passou por seus olhos — uma percepção, talvez uma surpresa. Ela assentiu, ainda sorrindo.
— Claro. Vou levar na mesa de vocês.
Eles se sentaram em um dos sofás nos fundos, um canto mais reservado. Chloe se acomodou, suspirando de alívio ao afundar no estofado.
— Sabe, Clark — começou ela, olhando para as luzes suaves do café —, eu realmente apreciei o que você disse no Tocha. Sobre não estar pensando na Lana.
— Eu falei sério, Chloe.
— Eu sei que falou. É que... passamos tanto tempo presos naquele ciclo, não é? — Ela brincou com um guardanapo sobre a mesa. — Eu sendo a amiga fiel, você sendo o garoto apaixonado e a Lana sendo... bem, a Lana. É estranho ver as peças do tabuleiro mudando de lugar.
— Às vezes as peças precisam mudar para o jogo finalmente fazer sentido — disse Clark, inclinando-se para frente. — Eu passei muito tempo tentando forçar uma realidade que talvez nunca devesse ter existido. E, nesse processo, eu quase perdi o que era mais importante para mim.
Chloe levantou os olhos, encontrando os dele. Havia uma vulnerabilidade nela que ela raramente mostrava, uma guarda baixa que permitia que Clark visse o quanto aquelas palavras significavam.
— E o que é mais importante para você, Clark? — perguntou ela, a voz mal passando de um sussurro.
Clark sentiu o mundo ao redor desaparecer. Não havia Smallville, não havia segredos, não havia naves espaciais ou destinos heróicos. Havia apenas a garota à sua frente, a pessoa que o desafiava, que o fazia rir e que acreditava nele mesmo quando ele não acreditava em si mesmo.
— Você — respondeu ele, de forma simples e direta. — Você é a pessoa que eu não consigo imaginar minha vida sem, Chloe. E não é porque você me ajuda com os "esquisitos da semana" ou porque guarda meus segredos. É porque você é... você. Inteligente, teimosa, sarcástica e a pessoa mais leal que eu já conheci.
Chloe piscou, as lágrimas ameaçando surgir em seus olhos, mas ela as conteve com uma risada nervosa.
— Uau. Se eu soubesse que bastava uma crise existencial para você se tornar um poeta, eu teria te dado aquele gelo muito antes.
— Eu estou falando sério, Chloe — disse ele, estendendo a mão sobre a mesa e, desta vez, cobrindo a mão dela com a sua.
A pele dela era quente, e Clark sentiu uma conexão que transcendia qualquer coisa que já sentira antes. Não era a obsessão juvenil que sentia por Lana; era algo mais profundo, enraizado em anos de amizade, dor, superação e uma compreensão mútua que beirava o telepatia.
Chloe não afastou a mão. Em vez disso, ela virou a palma para cima, entrelaçando seus dedos nos dele.
— Clark Kent — começou ela, sua voz tremendo levemente —, se você estiver fazendo isso apenas porque está carente ou porque brigou com a Lana de novo, eu juro que vou usar todos os meus contatos no Planeta Diário para garantir que você nunca consiga um emprego nem como entregador de jornal.
Clark riu, sentindo uma leveza que parecia fazê-lo flutuar, literalmente. Ele teve que se concentrar para manter os pés no chão.
— Eu não estou carente, Chloe. E isso não tem nada a ver com a Lana. Tem a ver com o fato de que eu finalmente acordei. Eu não quero ser o cara que você apoia. Eu quero ser o cara que caminha ao seu lado. Se você me permitir.
Lana chegou com os pratos de torta, interrompendo o momento. Ela colocou os pratos na mesa com cuidado, observando as mãos dadas dos dois. Ela não disse nada, mas seu sorriso era suave e carregado de uma aceitação silenciosa. Ela se retirou rapidamente, deixando-os sozinhos novamente.
Chloe olhou para a torta e depois para Clark.
— Sabe, Clark... eu esperei muito tempo para ouvir algo assim. Tanto tempo que eu cheguei a pensar que tinha imaginado que havia algo entre nós.
— Você não imaginou — afirmou ele. — Eu é que fui lento demais para admitir.
— Lento? Clark, você é o homem mais rápido do mundo e levou anos para atravessar a sala e notar o que estava na sua frente — brincou ela, mas seus olhos brilhavam com uma esperança renovada.
— Eu nunca disse que era esperto em tudo — admitiu ele com um sorriso tímido. — Mas eu persevero, lembra? Você mesma disse isso.
Chloe apertou a mão dele.
— Sim, você persevera. E eu também.
Eles começaram a comer a torta, mas a conversa fluiu de uma maneira diferente. Não falavam de Lex Luthor, nem de meteoros, nem de furos jornalísticos. Falavam de memórias de infância, de planos para o futuro, de filmes que queriam ver. Era como se estivessem se redescobrindo, limpando a poeira de uma relação antiga para revelar o ouro que sempre estivera por baixo.
Clark se pegou observando a maneira como a luz das velas nas mesas vizinhas refletia nos olhos dela. Ele notou o pequeno sinal perto de sua orelha, a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava pensando em uma resposta. Cada detalhe parecia uma descoberta maravilhosa.
— Por que você está me olhando assim? — perguntou ela, com o rosto levemente corado.
— Assim como?
— Como se eu fosse a história mais interessante que você já cobriu.
— Porque você é — respondeu ele, sem hesitar. — E eu pretendo ler cada página, Chloe Sullivan.
Ela sorriu, um sorriso real e pleno, que iluminou seu rosto de uma forma que Clark nunca esqueceria.
— Bem, senhor Kent, prepare-se. É uma leitura longa, complexa e cheia de notas de rodapé sarcásticas.
— Eu tenho todo o tempo do mundo — disse ele.
Ao saírem do Talon, a noite estava fria, mas Clark não sentia o frio. Eles caminharam até o carro de Chloe, mas em vez de se despedirem imediatamente, ficaram parados sob o poste de luz, a respiração formando pequenas nuvens no ar.
— Então — disse Chloe, mexendo nas chaves —, isso muda as coisas, não muda?
— Muda tudo — afirmou Clark. Ele se aproximou, encurtando a distância entre eles até que pudesse sentir o perfume cítrico dela. — Mas de um jeito bom. O melhor jeito possível.
Ele inclinou a cabeça, hesitante por um segundo, dando a ela a chance de recuar. Mas Chloe não recuou. Ela se inclinou para frente, fechando os olhos.
O beijo foi suave, um encontro de lábios que carregava o peso de anos de palavras não ditas e sentimentos reprimidos. Não foi como o beijo apressado no baile ou as confissões desesperadas do passado. Foi um compromisso. Foi a promessa de algo novo, construído sobre a base sólida de quem eles realmente eram.
Quando se afastaram, Chloe tinha um brilho nos olhos que Clark nunca vira antes.
— Definitivamente — sussurrou ela — melhor que torta de maçã.
Clark riu, sentindo-se mais forte do que nunca. Ele a observou entrar no carro e partir, acenando até que as lanternas traseiras desaparecessem na estrada escura de Smallville.
Ele não usou sua supervelocidade para voltar para a fazenda. Ele caminhou, saboreando cada momento, cada pensamento. Ele sabia que o futuro ainda traria desafios, que sua herança kryptoniana e as ameaças que pairavam sobre a cidade não desapareceriam. Mas agora, ele não estava mais enfrentando o mundo com um coração dividido.
Ele estava inteiro. E, pela primeira vez, Clark Kent sentiu que não era apenas um alienígena tentando se encaixar, ou um herói carregando o mundo nas costas. Ele era apenas um homem, profundamente apaixonado por sua melhor amiga, pronto para o próximo capítulo de sua história. E, para ele, isso era o maior superpoder de todos.