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Apenas amigos?

Teoremas de uma Noite de Tempestade

O silêncio no celeiro da fazenda Kent era quebrado apenas pelo som rítmico do grafite de Chloe Sullivan contra o papel e o ocasional estalar da madeira sob o peso de Clark. Eles estavam debruçados sobre uma mesa improvisada, cercados por livros de trigonometria e diagramas de geometria que pareciam mais complexos do que qualquer mistério que já tivessem investigado no Tocha.

Martha e Jonathan haviam partido para Metrópolis naquela manhã. Uma série de exames de rotina que, segundo Jonathan, eram apenas uma desculpa para Martha arrastá-lo a um restaurante chique, mas Clark sabia que o silêncio da casa grande o deixava inquieto. Ter Chloe ali, entre réguas e compassos, era a única coisa que mantinha sua mente longe da preocupação — e de outros pensamentos mais perturbadores que envolviam a proximidade dela.

— Clark, se você continuar encarando esse triângulo isósceles como se ele fosse um fugitivo da Zona Fantasma, ele não vai se resolver sozinho — disse Chloe, sem levantar os olhos do papel.

Clark despertou de seu transe, ajustando os óculos que insistiam em escorregar pelo nariz.

— Eu só estava... tentando entender a lógica por trás disso. Por que precisamos calcular a hipotenusa quando eu posso simplesmente medir a distância com um passo?

Chloe finalmente largou o lápis e olhou para ele com aquele meio sorriso sarcástico que Clark aprendera a adorar.

— Porque, meu caro "Garoto de Aço", nem todo mundo tem pernas de um metro e oitenta e a precisão de um GPS militar. Para nós, meros mortais, a matemática é o que nos impede de construir casas tortas.

— Justo — admitiu ele, retribuindo o sorriso.

Um trovão surdo ecoou à distância, fazendo as janelas do celeiro vibrarem levemente. Clark olhou para o horizonte através da grande abertura do loft. Nuvens carregadas, de um cinza quase negro, avançavam rapidamente sobre os campos de milho de Smallville. O vento começou a uivar entre as frestas, trazendo o cheiro úmido de terra molhada que antecedia as grandes tempestades do Kansas.

— Parece que o tempo vai fechar — comentou Clark, levantando-se para fechar as escotilhas.

— É Smallville, Clark. Se não for uma chuva de meteoros ou um tornado, uma tempestade elétrica é praticamente um dia ensolarado — Chloe brincou, mas sua expressão mudou quando um relâmpago cortou o céu, seguido quase instantaneamente por um estrondo ensurdecedor.

A luz no celeiro oscilou violentamente e se apagou. Por um segundo, tudo o que restou foi a escuridão absoluta, interrompida apenas pelos flashes azulados dos raios que agora caíam com fúria. Clark não precisava de luz para ver; sua visão se ajustou instantaneamente, captando a silhueta de Chloe, que permanecia sentada, imóvel.

— Chloe? Você está bem? — perguntou ele, a voz suave para não assustá-la.

— Sim — respondeu ela, e ele pôde ouvir o leve tremor em sua respiração. — Só... odeio quando a tecnologia me deixa na mão no meio de um cálculo de área.

Clark caminhou até ela, pegando uma lanterna de emergência que ficava em uma prateleira próxima. Ao ligá-la, o feixe de luz revelou o rosto de Chloe, as bochechas levemente coradas e os olhos brilhando. A chuva começou a cair com uma força descomunal, batendo no telhado de zinco como se fossem milhares de pequenas pedras.

— Essa estrada vai virar um lamaçal em minutos — disse Clark, olhando para a escuridão lá fora. — Chloe, não tem como você dirigir até a cidade com esse tempo. É perigoso demais.

Chloe olhou para o celular, que exibia "Sem Sinal".

— Meu pai vai ter um treco se eu não aparecer. Ele já acha que o jornalismo vai me matar, agora ele vai culpar a meteorologia.

— Eu ligo para ele do telefone fixo da casa, a linha costuma ser mais estável — sugeriu Clark. — Fique aqui. Passe a noite. Temos o quarto de hóspedes e... bem, meus pais só voltam amanhã à tarde.

Chloe hesitou. A ideia de passar a noite na fazenda Kent não era nova; ela já tinha dormido ali inúmeras vezes durante a infância e a adolescência. Mas as coisas eram diferentes agora. O ar entre eles estava carregado de uma eletricidade que não vinha da tempestade. Cada olhar, cada toque acidental, parecia um teorema novo que nenhum dos dois sabia exatamente como resolver.

— Tudo bem, Kent — disse ela, finalmente. — Mas se você tentar me convencer a acordar às cinco da manhã para ordenhar vacas, nossa amizade — e o que quer que seja isso aqui — acaba agora.

Clark riu, sentindo um alívio genuíno.

— Prometo que o café da manhã será servido em horário civilizado.

Eles correram do celeiro para a casa principal sob uma chuva torrencial. Mesmo com a supervelocidade de Clark protegendo-a parcialmente com seu corpo, ambos chegaram à cozinha ensopados. Chloe tremia levemente, a blusa de algodão grudada ao corpo.

— Vá tomar um banho quente no banheiro do corredor — instruiu Clark, já pegando algumas toalhas secas no armário. — Vou pegar um pijama velho da minha mãe para você. Deve servir, embora as calças fiquem um pouco compridas.

— Toalhas, banho quente e roupas de flanela? Você realmente sabe como seduzir uma garota, Clark — provocou ela, embora seus dentes estivessem batendo.

— Vá logo, Chloe. Antes que você pegue um resfriado.

Vinte minutos depois, a casa estava mergulhada em uma penumbra acolhedora, iluminada apenas por algumas velas que Clark espalhara pela sala. Ele já havia trocado de roupa e agora usava uma calça de moletom e uma camiseta cinza simples. Quando Chloe apareceu, ela parecia quase pequena demais dentro do pijama de flanela xadrez de Martha Kent. As mangas estavam dobradas várias vezes e ela caminhava segurando a barra da calça para não tropeçar.

— Eu pareço um elfo de Natal que se perdeu no Kansas — comentou ela, sentando-se no sofá.

Clark, que estava preparando um chocolate quente, olhou para ela e sentiu o coração falhar uma batida. Ela parecia adorável. Desarmada. Real.

— Você está ótima — disse ele, entregando-lhe uma caneca fumegante.

Ele se sentou ao lado dela, mantendo uma distância segura, mas a casa parecia ter encolhido. O som da chuva lá fora criava uma barreira entre eles e o resto do mundo.

— Clark? — chamou ela, após um longo silêncio, enquanto observava as chamas das velas dançarem.

— Sim?

— Sobre o que aconteceu no Tocha... e no Talon... — Ela hesitou, procurando as palavras certas. — Eu não quero que você sinta que precisa agir de um jeito específico só porque as coisas mudaram. Eu ainda sou a Chloe. Eu ainda sou intrometida, sarcástica e obcecada por furos jornalísticos.

Clark virou-se para ela, apoiando o braço no encosto do sofá.

— Eu sei disso. E é exatamente por isso que eu estou aqui. Eu não quero uma versão "editada" de você, Chloe. Eu passei tempo demais ignorando o que estava bem na minha frente porque eu estava ocupado demais tentando perseguir um ideal que não existia.

— A Lana não era um ideal, Clark. Ela era real. E você a amava.

— Eu amava a ideia que eu tinha dela — corrigiu ele, com uma sinceridade que o surpreendeu. — Mas com você... eu não preciso esconder nada. Eu não preciso fingir que sou apenas o "bom moço da fazenda" ou o "herói relutante". Você conhece as cicatrizes, as dúvidas... você conhece o meu lado alienígena e o meu lado humano. E você ainda gosta de mim. Isso é o que é real.

Chloe deixou a caneca de lado e se inclinou para ele.

— Eu não apenas gosto de você, seu idiota. Eu amo você. E isso é a coisa mais assustadora que eu já admiti em voz alta, porque agora eu tenho algo a perder que não pode ser consertado com uma matéria de capa ou uma investigação.

Clark estendeu a mão e acariciou o rosto dela, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.

— Você não vai me perder. Eu prometo.

— Promessas são perigosas, Clark. Especialmente para alguém que tem o peso do mundo nos ombros — disse ela, mas não se afastou. — Mas, por hoje... apenas por esta noite, eu gostaria que o mundo pudesse se resolver sozinho. Sem Lex Luthor, sem meteoros, sem segredos.

— Só nós dois — sussurrou ele.

Clark aproximou-se, e o beijo que se seguiu foi lento, carregado de uma ternura que nenhum dos dois havia explorado antes. Não havia a urgência desesperada do Tocha, mas sim uma descoberta calma. Ele sentiu o sabor do chocolate quente nos lábios dela e o calor de sua pele contra a dele.

Quando se afastaram, Chloe encostou a testa na dele, fechando os olhos.

— Geometria — murmurou ela.

— O quê? — perguntou Clark, confuso.

— Eu estava pensando no trabalho de geometria. Sobre ângulos e pontos de encontro. Sabe, passamos anos como duas retas paralelas. Sempre próximos, seguindo a mesma direção, mas nunca nos tocando de verdade.

— E agora? — Clark sorriu, envolvendo-a em seus braços e puxando-a para descansar a cabeça em seu peito.

— Agora — disse ela, sentindo o batimento rítmico e forte do coração dele — eu acho que finalmente encontramos o nosso ponto de intersecção. E, honestamente? A vista daqui é muito melhor.

Eles ficaram ali por horas, ouvindo a tempestade rugir do lado de fora enquanto o calor da lareira e a presença um do outro criavam um santuário inabalável. Clark percebeu que, embora pudesse voar até as estrelas, o lugar onde ele mais se sentia em casa era exatamente ali, no silêncio de uma noite de chuva, com a garota que sempre fora sua bússola.

A geometria da vida deles havia sido tortuosa, cheia de curvas e desvios, mas naquela noite, sob o telhado da fazenda Kent, todas as linhas finalmente faziam sentido. E enquanto Chloe adormecia em seus braços, Clark Kent soube que, não importava o quanto o futuro fosse incerto, ele finalmente havia resolvido o problema mais difícil de sua existência: ele não estava mais sozinho.