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Apenas amigos?

O Brilho da Lente e a Sombra da Dúvida

A manhã em Smallville havia começado com uma clareza incomum para Clark Kent. Após o café compartilhado no Talon e aquele beijo que ainda parecia formigar em seus lábios, ele sentia que o peso do mundo estava, pela primeira vez, distribuído de forma justa. Ele não precisava mais carregar o fardo de ser o "eterno apaixonado por Lana Lang" enquanto negligenciava a pessoa que realmente o sustentava.

Ele caminhou pelos corredores do colégio com um passo leve, quase flutuante. Sua mente estava focada em uma única coisa: ver Chloe. Ele queria saber como ela estava, se o que aconteceu na noite anterior tinha mudado a cor do mundo para ela da mesma forma que mudara para ele. Ele trazia consigo uma pequena sacola de papel com o bolinho de mirtilo favorito dela, um gesto simples para marcar o "primeiro dia" dessa nova fase.

Ao se aproximar da escada que levava ao porão do Tocha, Clark ajustou os óculos e respirou fundo. Ele esperava encontrar Chloe imersa em pilhas de papéis ou digitando furiosamente, talvez reclamando de algum prazo perdido. Mas, ao cruzar o batente da porta, o cenário que encontrou fez seus pés pesarem instantaneamente, como se estivesse caminhando sobre chumbo.

Chloe não estava sozinha. E ela certamente não parecia estressada.

Ela estava debruçada sobre uma mesa de luz com um rapaz que Clark reconheceu vagamente como um dos fotógrafos colaboradores do jornal, um estudante do terceiro ano chamado Graham. Eles estavam muito próximos — as cabeças quase se tocando enquanto analisavam uma série de negativos e ampliações fotográficas.

— Não, Graham, veja bem — disse Chloe, e Clark notou um tom de animação na voz dela que o incomodou profundamente. — Se usarmos essa angulação, a sombra do moinho cria uma moldura natural para o rosto do fazendeiro. É genial. Você tem um olho incrível para o contraste.

O rapaz soltou uma risada baixa, encostando o ombro no dela de maneira casual, uma intimidade que Clark sentiu como um soco no estômago.

— Eu só sigo as instruções da melhor editora chefe que Smallville já viu — respondeu Graham, olhando para ela com uma admiração que Clark conhecia bem demais. — Mas admita, Chloe, aquela luz de fim de tarde ajudou bastante.

— A luz ajudou, mas o talento é seu — rebateu ela, dando um tapinha amigável no braço dele.

Clark ficou parado na entrada, a sacola de bolinhos subitamente parecendo um objeto ridículo em sua mão. Ele limpou a garganta, um som que saiu mais alto e mais ríspido do que ele pretendia.

— Chloe? — chamou ele, dando um passo à frente.

Os dois se viraram simultaneamente. Chloe exibiu um sorriso imediato, mas Clark, em sua súbita insegurança, achou que o sorriso dela não era tão brilhante quanto o que ela dera a Graham segundos antes.

— Clark! — exclamou ela, endireitando o corpo. — Você chegou cedo. Eu e o Graham estávamos terminando de selecionar as fotos para a edição especial sobre a crise agrícola.

— Oi, Kent — disse Graham, com um aceno de cabeça casual. Ele parecia perfeitamente à vontade, o que só serviu para irritar Clark ainda mais. — Ouvi dizer que você é mais da área de "pesquisa de campo", mas devia ver o que a Chloe está fazendo com esse layout. Ela é uma visionária.

Clark forçou um sorriso que não chegou aos olhos.

— É, eu sei bem o que a Chloe é capaz de fazer — disse ele, a voz carregada de uma possessividade que ele tentou, sem sucesso, mascarar.

Houve um silêncio desconfortável por um segundo. Chloe olhou de Clark para a sacola em sua mão e depois para o rosto dele, seus olhos analíticos captando a tensão nos ombros do amigo — ou mais que amigo.

— Bom — disse Graham, sentindo a mudança brusca na temperatura do ambiente —, eu vou levar esses negativos para a câmara escura. A gente se fala depois, Chloe?

— Com certeza, Graham. Ótimo trabalho hoje — respondeu ela.

O fotógrafo passou por Clark, dando um tapinha em seu ombro ao sair. Clark sentiu uma vontade irracional de usar sua superforça apenas para não se mover um milímetro, mas conteve-se, permanecendo imóvel como uma estátua de gelo.

Assim que Graham desapareceu pelo corredor, Chloe cruzou os braços e se encostou na mesa, observando Clark com uma sobrancelha arqueada.

— O que foi isso, Clark? — perguntou ela, direta como sempre.

— Isso o quê? — retrucou ele, caminhando até a mesa dela e colocando a sacola de bolinhos com um pouco de força demais. — Eu só vim trazer um café da manhã. Não sabia que você tinha companhia para o brunch.

Chloe soltou um suspiro, metade riso, metade descrença.

— "Companhia para o brunch"? Clark, o Graham é um fotógrafo. Estamos trabalhando em uma matéria importante. Desde quando você se importa com quem eu divido uma mesa de luz?

— Eu não me importo — mentiu ele, começando a andar de um lado para o outro no pequeno espaço do porão. — É só que... vocês pareciam bem próximos. Ele estava praticamente em cima de você.

Chloe deu um passo à frente, bloqueando o caminho dele.

— Ele estava olhando fotos, Clark. Fotos pequenas. Exigem proximidade física para serem vistas. É uma lei da física, sabia? Aquela coisa que você costuma ignorar quando sai correndo por aí.

Clark parou e olhou para ela. A irritação estava estampada em seu rosto, mas por baixo dela, havia uma insegurança que ele nunca pensou que sentiria em relação a Chloe. Por anos, ele fora o centro do mundo dela. A ideia de que outro rapaz pudesse fazê-la rir, ou que pudesse compartilhar uma paixão profissional com ela, era como uma ameaça ao novo solo firme que ele acabara de encontrar.

— Ele estava flertando com você — afirmou Clark, a voz baixa.

— E se estivesse? — desafiou Chloe, embora soubesse que Graham era apenas um colega dedicado. — Clark, passamos anos em que você flertava com a Lana na minha frente, ou sofria por ela, ou me usava como consultora romântica. Agora, porque eu tive uma conversa produtiva de dez minutos com um colega, você entra aqui parecendo um vulcão prestes a entrar em erupção?

— É diferente agora! — exclamou ele.

— É mesmo? — perguntou ela, aproximando-se mais, o olhar desafiador. — Por que é diferente? Porque ontem à noite nós nos beijamos? Porque você decidiu que eu sou a "pessoa certa" agora?

Clark sentiu o golpe. Ele sabia que ela tinha razão em apontar a hipocrisia, mas o sentimento de incômodo não passava.

— Não é isso, Chloe. É que... eu finalmente percebi o que tenho. E a ideia de alguém tentar tirar isso de mim, ou de você perceber que existem caras mais normais, mais... fáceis de lidar do que eu...

Chloe suavizou a expressão. Ela viu o medo nos olhos dele, o medo de perder a única pessoa que realmente o via por inteiro. Ela estendeu a mão e tocou o peito dele, sentindo o batimento acelerado que nem mesmo o coração de um kryptoniano conseguia esconder.

— Clark Kent, você é um idiota — disse ela, mas desta vez o tom era carinhoso. — Você acha mesmo que um fotógrafo com uma boa lente e um papo furado sobre contraste vai me fazer esquecer tudo o que passamos?

— Ele parecia bem interessante — resmungou Clark, embora estivesse começando a relaxar sob o toque dela.

— Ele é interessante. Ele é um ótimo profissional — admitiu Chloe, fazendo Clark tensionar novamente. — Mas ele não é o cara que me salvou de tornados, de maníacos por meteoros e da minha própria solidão. Ele não é o cara que eu amo desde que cheguei a essa cidade poeirenta.

Clark relaxou os ombros, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele cobriu a mão de Chloe com a sua, sentindo-se pequeno diante da maturidade dela.

— Desculpe — murmurou ele. — Eu não sabia que o ciúme era assim. É uma sensação horrível.

— Bem-vindo ao meu mundo dos últimos quatro anos — brincou ela, puxando-o para mais perto pela gola da camisa. — Mas vamos estabelecer uma regra, ok? Sem crises de super-ciúme no Tocha. Eu tenho um jornal para dirigir e não posso ter meu repórter principal afugentando os colaboradores com olhares laser.

— Prometo tentar — disse Clark, sorrindo de verdade pela primeira vez naquela manhã.

— Tentar não é o suficiente, Kent. Mas por enquanto... — Ela olhou para a sacola de papel. — Aquele bolinho é de mirtilo?

— O seu favorito.

Chloe sorriu e pegou a sacola, mas antes de abrir, ela se inclinou e deu um beijo rápido nos lábios dele.

— Você ainda é o meu favorito, Clark. Mesmo sendo um brutamontes ciumento.

Clark sentiu o calor retornar ao seu peito, dissipando a sombra de Graham e de qualquer outra dúvida. Ele percebeu que a insegurança vinha do fato de que, pela primeira vez, ele tinha algo que realmente temia perder. Não era uma ideia idealizada de amor, mas uma parceria real, viva e, às vezes, complicada.

— Eu vou para a aula — disse ele, relutante em se afastar. — Mas passo aqui depois para te levar para casa?

— Só se você prometer não usar sua visão de raio-x para ver se o Graham ainda está na câmara escura — provocou ela.

— Chloe! — protestou ele, rindo.

— Brincadeira, Clark. Vá logo antes que o sinal toque.

Ele saiu do porão com o coração leve novamente. Ao passar pelo corredor, viu Graham saindo da câmara escura. O fotógrafo acenou novamente, e desta vez, Clark apenas retribuiu com um aceno curto, sem a necessidade de provar nada.

Ele sabia que Chloe era livre, inteligente e independente. E era exatamente por isso que o fato de ela o ter escolhido significava mais do que qualquer outra coisa. O ciúme ainda estava lá, uma pequena chama residual, mas ele percebeu que precisava confiar não apenas nela, mas no que eles haviam construído.

Enquanto subia as escadas para o andar principal, Clark Kent sentiu que estava aprendendo uma nova lição, uma que não envolvia poderes ou destinos grandiosos. Ele estava aprendendo a ser humano, a sentir medo, a falhar e, acima de tudo, a confiar que o amor verdadeiro não precisava de guardiões ou de muros. Precisava apenas de verdade.

E, no porão do Tocha, Chloe Sullivan deu uma mordida no bolinho de mirtilo, sorrindo para a tela do computador. Ela sabia que teria que lidar com o ego de Clark de vez em quando, mas, pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que o esforço valia a pena. Porque agora, ela não era mais o ombro de choro de ninguém. Ela era a protagonista da sua própria história, e o herói, finalmente, estava ao seu lado, exatamente onde deveria estar.