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Aquela que o desafia

O Eco do Aço e a Tempestade de Areia

As águas da Grand Line nunca permaneciam calmas por muito tempo, e a Ilha de Kenzan já havia ficado para trás, perdida na névoa do horizonte. O Going Merry navegava agora sob um céu carregado, onde o ar parecia pesar mais do que o normal. No convés, o som metálico que já se tornara familiar para a tripulação ecoava ritmicamente.

Zoro e Gaby estavam no centro do navio, as lâminas cruzadas em um impasse de força pura. O suor escorria pelo rosto do espadachim, mas seus olhos estavam fixos nos dela, buscando qualquer sinal de hesitação. Gaby, por sua vez, mantinha um sorriso de canto, a lâmina azulada pressionando a Wado Ichimonji com uma precisão técnica que forçava Zoro a usar toda a sua concentração.

— Você está ficando mais rápida — comentou Zoro, forçando as espadas para frente para criar espaço.

— E você continua tentando resolver tudo com força bruta — rebateu Gaby, girando sobre os próprios calcanhares e desferindo um corte lateral com a espada de aço escuro. — Às vezes, o vento corta melhor que a rocha, Zoro.

Zoro bloqueou o ataque com a Sandai Kitetsu, sentindo a vibração do impacto subir pelo seu braço. Ele não admitiria em voz alta, mas o estilo de Gaby o fascinava. Era uma dança letal, um equilíbrio entre agressividade e graça que ele raramente via em outros espadachins.

— Ei, vocês dois! — gritou Nami da amurada superior, agitando um mapa. — Parem de brincar de esgrima! O barômetro está caindo rápido. Tem uma tempestade estranha vindo daquela direção, e não parece chuva comum.

Luffy, que estava sentado na cabeça do Going Merry tentando pescar algo com as mãos, olhou para o horizonte e franziu o nariz.

— Tem cheiro de poeira — disse o capitão, saltando para o convés. — Poeira e... briga!

Ele estava certo. O que parecia ser uma frente de tempestade era, na verdade, uma imensa nuvem de areia e cinzas que se deslocava sobre o oceano, carregada por correntes de ar anômalas. No centro daquela névoa seca, a silhueta de um navio de guerra de design estranho começou a surgir. Não era a Marinha, mas sim um grupo de mercenários conhecidos como "Os Coletores de Lâminas", famosos por caçarem espadachins famosos para vender suas armas no mercado negro.

— Eles vieram atrás de nós — disse Gaby, sua voz perdendo o tom brincalhão. Ela reconheceu o emblema na vela principal: uma foice cruzada com um martelo. — Eles me perseguem desde antes de Kenzan. Querem a "Lâmina Celeste" e a "Sombra do Abismo".

Zoro se posicionou ao lado dela, desembainhando a terceira espada e colocando-a na boca. Seus olhos se estreitaram, focando no navio que se aproximava rapidamente.

— Se eles querem as suas espadas, vão ter que passar pelas minhas primeiro — a voz de Zoro saiu abafada por causa da espada na boca, mas o peso de suas palavras foi claro.

Gaby sentiu um calor súbito no peito que nada tinha a ver com o clima seco da tempestade. Ela não estava acostumada a ter alguém lutando por ela; sempre fora a sua própria proteção. Ver Zoro parado ali, sólido como uma montanha e pronto para enfrentar o mundo ao seu lado, despertou algo que ela tentava suprimir desde que entrara no navio.

— Luffy, posso cuidar disso? — perguntou Zoro, sem desviar o olhar do inimigo.

— Shishishi! Claro, mas deixe alguns para mim! — Luffy esticou os braços, agarrando-se ao mastro. — Gaby, mostre para eles por que você faz parte da minha tripulação!

O navio inimigo disparou ganchos de abordagem, e em questão de segundos, mercenários começaram a saltar para o convés do Merry. O líder deles era um homem imenso, usando uma armadura feita de fragmentos de espadas quebradas.

— Gaby da Lâmina Azul! — rugiu o homem. — Entregue seu tesouro e talvez deixemos seu capitãozinho vivo!

Gaby não respondeu com palavras. Ela avançou como um borrão azul e preto. Suas espadas cortavam o ar com uma velocidade que deixava rastros de luz.

— Estilo Duas Espadas: Valsa do Horizonte! — exclamou ela, girando entre três adversários e desarmando-os antes mesmo que pudessem sacar suas adagas.

Zoro entrou na briga logo atrás, uma força da natureza que abria caminho através da multidão.

— Santoryu: Tatsu Maki! — O furacão de lâminas de Zoro jogou vários mercenários para fora do navio, limpando o convés central.

Enquanto a batalha avançava, Zoro mantinha um olho em Gaby. Ele percebeu que o líder dos mercenários estava se movendo para flanqueá-la enquanto ela estava ocupada com quatro soldados. O gigante ergueu um mangual pesado, cravado de pontas de aço, e desferiu um golpe descendente em direção às costas da espadachim.

— Gaby! Atrás de você! — gritou Sanji, que estava chutando dois inimigos para longe da cozinha.

Mas Zoro já estava lá. Em um movimento que desafiava a gravidade, ele saltou sobre Gaby, cruzando suas três espadas para bloquear o impacto do mangual. O som do metal colidindo foi como um trovão. O impacto fez o convés do Merry ranger, mas Zoro não recuou um milímetro.

— Você está bem? — perguntou Zoro, olhando por cima do ombro.

Gaby, que já havia finalizado seus oponentes e girado para enfrentar a nova ameaça, encontrou o olhar de Zoro. Por um segundo, o caos da batalha pareceu desaparecer. Ela viu a determinação feroz nos olhos dele, mas também uma preocupação silenciosa que ele nunca admitiria.

— Estou agora — respondeu ela, um sorriso confiante surgindo em seus lábios. — Vamos acabar com ele juntos?

— Tente me acompanhar — desafiou Zoro.

Os dois agiram em perfeita sincronia, um contraste de estilos que se complementavam. Enquanto Zoro representava a força inabalável, Gaby era a agilidade letal. Eles se moviam como se treinassem juntos há anos, trocando de lugar, cobrindo as aberturas um do outro e pressionando o líder mercenário contra a amurada.

— Como... como vocês podem lutar assim? — gaguejou o gigante, seu mangual agora reduzido a pedaços de metal retorcido.

— É o que acontece quando se tem companheiros de verdade — disse Gaby, cruzando suas lâminas em forma de "X".

— E quando você irrita o espadachim errado — completou Zoro.

Com um golpe coordenado, os dois lançaram o inimigo para longe do navio. O restante dos mercenários, vendo seu líder derrotado, bateu em retirada, cortando as cordas dos ganchos e fugindo para dentro da nuvem de areia.

A tempestade começou a dissipar-se tão rápido quanto surgiu, deixando o Going Merry em águas calmas novamente sob o sol da tarde. A tripulação começou a limpar o convés, com Usopp reclamando dos arranhões na madeira e Chopper verificando se alguém tinha ferimentos graves.

Zoro sentou-se encostado no mastro principal, limpando o sangue de suas lâminas com um pano seco. Ele sentia o corpo exausto, mas sua mente estava inquieta. Gaby aproximou-se dele, guardando suas próprias espadas com aquele movimento elegante que sempre prendia a atenção de Zoro.

— Aquele bloqueio... — começou ela, sentando-se ao lado dele, a uma distância curta o suficiente para que ele sentisse o calor de sua presença. — Obrigada, Zoro. Você salvou minhas costas.

— Você teria desviado a tempo — resmungou Zoro, fingindo indiferença enquanto se concentrava em polir a Wado Ichimonji. — Eu só... não queria que o treino de amanhã fosse cancelado porque você se machucou.

Gaby soltou uma risada suave, um som que Zoro secretamente considerava mais harmonioso do que qualquer música que Brook pudesse tocar no futuro.

— Você é um péssimo mentiroso, Roronoa.

Zoro parou de polir a espada e olhou para ela. Gaby estava com o cabelo um pouco bagunçado pela luta, e havia um pequeno corte em sua bochecha que Chopper ainda não tinha visto. Sem pensar muito, Zoro estendeu a mão e, com o polegar, limpou um rastro de poeira do rosto dela. O toque foi breve, quase hesitante, mas carregado de um significado que nenhum dos dois conseguia expressar em palavras.

— Só não baixe a guarda de novo — disse ele, sua voz um pouco mais rouca. — Eu não posso estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

— Pode tentar — provocou ela, mas seus olhos brilhavam com um carinho genuíno. — Sabe, Zoro... eu já estive em muitos navios. Mas este é o primeiro onde eu sinto que não preciso dormir com as espadas desembainhadas.

Zoro sentiu um aperto no peito. Ele queria dizer algo profundo, algo que explicasse como a presença dela tornara o navio mais completo para ele, mas as palavras pareciam presas em sua garganta. Em vez disso, ele apenas assentiu e voltou sua atenção para as espadas.

— Ei, Zoro! Gaby! — gritou Luffy do topo da cabine. — Sanji disse que vai fazer um banquete de vitória! Tem carne e saquê!

Gaby levantou-se e estendeu a mão para Zoro, ajudando-o a se levantar. Por um momento, as mãos deles permaneceram unidas, um elo silencioso entre dois guerreiros que compartilhavam mais do que apenas o amor pelo aço.

— Vamos? — perguntou ela.

— Vamos — respondeu Zoro.

Enquanto caminhavam em direção à cozinha, Zoro observou Gaby rindo de alguma piada idiota que Luffy fizera. Ele sentiu uma pontada de ciúme, mas logo a afastou. Ele sabia que, embora ela fosse amiga de todos, havia algo especial nas manhãs de treino e nas vigias noturnas que pertencia apenas aos dois.

Ele ainda não entendia completamente o que era aquele sentimento que o fazia querer protegê-la mesmo sabendo que ela era perfeitamente capaz de se defender. Era algo novo, algo que não estava em seus manuais de esgrima nem em seus anos de treinamento rigoroso. Mas, enquanto via o sol se pondo e Gaby ao seu lado, Zoro decidiu que não precisava de um nome para aquilo.

Por enquanto, bastava saber que ela estava ali. E que, enquanto ele tivesse força para segurar uma espada, ele garantiria que ela nunca mais tivesse que lutar sozinha. Secretamente, o caçador de piratas percebeu que sua maior ambição agora tinha uma companhia: ele queria ser o maior espadachim do mundo, mas queria que Gaby estivesse lá para ver, empunhando suas duas lâminas e sorrindo para ele como só ela sabia fazer.