Aquela que o desafia
O Despertar da Lâmina e do Coração
O Going Merry deslizava sobre as águas prateadas pela luz da lua, um contraste sereno após a agitação da batalha contra os mercenários. O silêncio da noite era quebrado apenas pelo estalar suave da madeira do navio e pelo som rítmico de uma pedra de amolar contra o aço. No ninho do corvo, Zoro estava imerso em sua rotina, mas sua mente não estava tão afiada quanto suas espadas.
A imagem de Gaby lutando ao seu lado, a sincronia perfeita que parecia ter sido forjada por anos de convivência e não apenas alguns dias, repetia-se em sua memória como um golpe que ele não conseguia bloquear. Zoro suspirou, guardando a pedra de amolar e testando o fio da Wado Ichimonji com o polegar.
— Você está pensando demais, Roronoa. Isso não combina com você.
Zoro não precisou se virar para saber quem era. O aroma de mar e o som leve dos passos dela eram agora tão reconhecíveis para ele quanto o peso de suas próprias katanas. Gaby subiu a escada e sentou-se na borda do ninho do corvo, deixando as pernas balançarem sobre o convés lá embaixo.
— O que faz aqui? — perguntou Zoro, tentando manter a voz neutra. — Achei que estivesse comemorando com os outros. O cozinheiro abriu o barril de saquê especial.
— O barulho lá embaixo estava um pouco alto demais — respondeu Gaby, olhando para as estrelas. — E eu queria agradecer de novo. Não pelo bloqueio, mas por me deixar lutar ao seu lado. A maioria dos homens que conheci teria tentado me mandar para a cozinha no momento em que os mercenários abordaram o navio.
Zoro soltou um riso curto, quase um rosnado de diversão.
— Se eu tentasse te mandar para a cozinha, você provavelmente me cortaria antes que eu terminasse a frase. Além disso, eu não sou idiota. Sei reconhecer um guerreiro, independentemente de ser homem ou mulher.
Gaby virou o rosto para ele, um sorriso suave brincando em seus lábios. Sob a luz da lua, seus olhos pareciam conter a profundidade do oceano.
— Você é diferente dos outros, Zoro. Tem uma honra que é... rara.
Zoro sentiu o calor subir pelo pescoço. Ele odiava elogios, especialmente aqueles que pareciam perfurar sua armadura de estoicismo. Ele rapidamente mudou de assunto, apontando para as espadas dela.
— Suas lâminas. A azulada... ela se chama Lâmina Celeste, certo? Me conte a história dela.
Gaby hesitou por um momento, desembainhando a espada com cuidado. O aço refletiu o luar com um brilho etéreo.
— Ela pertenceu ao meu mestre. Ele dizia que uma espada não é apenas uma ferramenta de morte, mas uma extensão da alma de quem a empunha. Se você hesita, a lâmina pesa. Se você tem clareza, ela corta o próprio destino.
Zoro ouviu em silêncio, sentindo uma conexão profunda com aquelas palavras. Ele entendia o que era carregar o peso de um sonho e de uma promessa em uma lâmina de aço.
— Entendo — disse ele, finalmente. — É por isso que você luta com tanta precisão. Você não tem dúvidas.
— Eu tinha — confessou ela em voz baixa. — Até chegar a este navio. Eu estava fugindo, Zoro. Fugindo de um passado que queria me transformar em algo que eu não era. Mas vendo você, vendo o Luffy... eu percebi que não preciso fugir. Posso apenas abrir meu próprio caminho.
Zoro a observou. Havia uma vulnerabilidade nela naquele momento que o desarmou completamente. Ele queria dizer algo que a confortasse, algo que demonstrasse que ele estaria lá para garantir que ela nunca mais precisasse fugir. Mas as palavras eram como areia entre seus dedos.
— Você tem um lugar aqui agora — disse ele, a voz soando mais profunda no silêncio da noite. — Ninguém vai tirar isso de você.
Gaby inclinou a cabeça, apoiando-a levemente no ombro de Zoro. O contato foi súbito e fez o coração do espadachim disparar como se ele estivesse no meio de um duelo de vida ou morte. Ele ficou rígido por um segundo, mas então, lentamente, relaxou, permitindo que o calor dela o envolvesse.
— Obrigada, Zoro — sussurrou ela.
Eles ficaram assim por um tempo que pareceu uma eternidade e, ao mesmo tempo, um piscar de olhos. Para Zoro, o mundo se resumia ao balanço do navio, ao cheiro de Gaby e ao peso de suas espadas. Pela primeira vez em sua vida, a ambição de ser o maior espadachim do mundo não era o único pensamento em sua mente. Havia um novo desejo, silencioso e persistente: o desejo de ver aquele sorriso todos os dias.
Na manhã seguinte, o sol nasceu forte, dissipando a melancolia da noite. O convés do Going Merry voltou a ser um caos de risadas e atividades. Luffy estava tentando esticar o braço para roubar um pedaço de pão de Sanji, enquanto Nami gritava ordens sobre a rota.
Zoro estava em seu lugar habitual, treinando com pesos imensos, quando Gaby apareceu. Ela estava usando uma bandana nova que Chopper lhe dera, e parecia radiante.
— Prontinho para perder de novo, Roronoa? — desafiou ela, sacando suas duas katanas.
Zoro soltou os pesos, que causaram um estrondo ao atingir a madeira do convés. Ele sorriu, aquele sorriso de predador que ele reservava para os desafios que realmente valiam a pena.
— Nos seus sonhos, Gaby.
A luta começou como uma explosão. O som do aço contra o aço era como música para os ouvidos de ambos. Eles se moviam pelo convés como dois raios, um azul e um verde. A tripulação parou para assistir, impressionada com a intensidade do treino.
— Eles parecem estar em outro mundo, não é? — comentou Robin, fechando seu livro e observando os dois espadachins com um olhar perspicaz.
— Sim — concordou Nami, cruzando os braços. — Eu nunca vi o Zoro treinar com tanta... empolgação. Normalmente ele é só um bloco de músculos mal-humorado.
No meio do treino, Gaby executou um movimento acrobático, saltando sobre Zoro e tentando um corte descendente. Zoro bloqueou com a Wado Ichimonji e a Kitetsu, cruzando as lâminas acima da cabeça. Eles ficaram presos naquele impasse, os rostos a centímetros de distância.
— Você está ficando previsível — provocou Zoro, embora sua respiração estivesse pesada.
— Ou talvez eu só queira ver a sua cara de perto quando eu te vencer — retrucou ela com uma piscadela.
Zoro sentiu aquela pontada no peito novamente. Em um impulso que ele não conseguiu controlar, ele usou a força de suas espadas para desequilibrá-la levemente e, antes que ela pudesse se recuperar, ele girou e parou a ponta de sua terceira espada — a que estava em sua mão — a milímetros do pescoço dela. Ao mesmo tempo, Gaby tinha a Lâmina Celeste apontada para o coração dele.
— Empate? — perguntou ela, arqueando uma sobrancelha.
— Empate — concordou Zoro, guardando as espadas.
Ele estendeu a mão para ela, ajudando-a a se levantar após o desequilíbrio. Quando ela segurou sua mão, Zoro não a soltou imediatamente. Ele olhou nos olhos dela e, por um momento, a máscara de seriedade caiu.
— Você é realmente forte, Gaby — disse ele, com uma sinceridade que a pegou de surpresa. — Fico feliz que o Luffy tenha te chamado.
Gaby corou levemente, um detalhe que não passou despercebido pelo espadachim.
— Eu também fico feliz, Zoro.
A rotina continuou, mas algo havia mudado fundamentalmente entre eles. Havia uma cumplicidade silenciosa, uma troca de olhares durante as refeições, uma mão que roçava a outra "por acidente" enquanto ajudavam a ajustar as velas.
Zoro, que sempre fora um homem de poucas palavras e sentimentos simples, encontrava-se agora em um território desconhecido. Ele se pegava observando Gaby enquanto ela dormia no convés durante as tardes quentes, ou admirando a maneira como ela cuidava de suas espadas com o mesmo carinho que ele.
Ele percebeu que o amor, para alguém como ele, não era feito de poemas ou flores. Era feito de proteção. Era o ato de ficar acordado durante a vigia dela para que ela pudesse descansar um pouco mais. Era o ato de afiar as lâminas dela em segredo. Era a promessa silenciosa de que, não importa o quão perigosa a Grand Line se tornasse, ele seria o escudo dela.
Certa tarde, enquanto o navio passava por uma zona de correntes fortes, um monstro marinho imenso surgiu das profundezas, ameaçando partir o Merry ao meio.
— Luffy! — gritou Usopp, entrando em pânico.
— Deixem comigo! — exclamou o capitão, preparando um ataque.
Mas antes que Luffy pudesse agir, Zoro e Gaby já estavam no ar.
— Estilo Três Espadas: Santoryu... — começou Zoro.
— Estilo Duas Espadas: Nitoryu... — acompanhou Gaby.
— ...Corte das Mil Correntes! — gritaram os dois em uníssono.
O ataque combinado foi devastador. Uma massa de energia cortante atingiu a criatura, mandando-a de volta para as profundezas antes mesmo que ela pudesse rugir. Eles aterrissaram no convés simultaneamente, guardando as espadas com um estalo sincronizado.
— Shishishi! Vocês dois são incríveis juntos! — comemorou Luffy, pulando de alegria. — Somos imbatíveis!
Zoro olhou para Gaby e ela retribuiu o olhar. Não precisavam de palavras. Naquele momento, Zoro aceitou sua verdade. Ele estava apaixonado por aquela mulher, pela guerreira que portava duas espadas e um espírito indomável. Ele não diria isso hoje, talvez nem amanhã. Mas ele demonstraria em cada batalha, em cada treino e em cada noite estrelada.
Enquanto o Going Merry seguia em direção ao próximo horizonte, Zoro sentiu uma paz que nunca conhecera. Ele tinha seu sonho, tinha seus companheiros e, agora, tinha um motivo a mais para se tornar o melhor. Porque, para proteger alguém como Gaby, ele precisaria ser nada menos que uma lenda.
E assim, sob o sol da Grand Line, o espadachim de três espadas e a usuária de duas continuaram sua jornada, escrevendo sua história no fio das lâminas e no silêncio de seus corações. O amor de Zoro era profundo e constante como o mar, e ele sabia que, enquanto Gaby estivesse ao seu lado, não havia tempestade que eles não pudessem enfrentar.