Aquela que o desafia
O Eco das Lâminas e o Juramento do Deserto
A areia de Alabasta era impiedosa, entrando em cada fresta das roupas e arranhando a pele como se o próprio deserto estivesse tentando devorar os intrusos. O sol de meio-dia não era apenas uma fonte de luz, era um peso físico que esmagava a resistência de qualquer um que não tivesse uma vontade de ferro. Mas, para a tripulação do Chapéu de Palha, o calor era o menor dos problemas.
Zoro caminhava um pouco atrás do grupo principal, sua mão repousando habitualmente no punho da Wado Ichimonji. Ao seu lado, Gaby mantinha o passo firme, embora o suor estivesse empapando a bandana que ela usava para prender o cabelo. Desde a noite no ninho do corvo, havia uma eletricidade silenciosa entre os dois — um entendimento que não precisava de confissões em voz alta para existir, mas que se manifestava na forma como seus ombros se roçavam "acidentalmente" ou no modo como Zoro vigiava o consumo de água dela com mais atenção do que o seu próprio.
— Esse lugar é um forno — resmungou Gaby, ajustando as bainhas de suas duas espadas. — Prefiro mil vezes uma tempestade na Grand Line do que esse sol estático.
— O deserto não perdoa erros — respondeu Zoro, a voz rouca. — Mantenha o foco. Aqueles agentes da Baroque Works estão em todo lugar.
— Eu sei, Zoro. — Ela lançou um olhar de soslaio para ele, um brilho de diversão atravessando o cansaço. — Você está agindo como um capitão preocupado. O Luffy vai ficar com ciúmes.
Zoro bufou, desviando o olhar para as dunas infinitas.
— Só não quero ter que carregar você nas costas se desmaiar de insolação. Dá muito trabalho.
— Mentiroso — sussurrou ela, apenas para ele ouvir.
A conversa foi interrompida pelo grito de alerta de Vivi. À frente, em uma depressão entre as dunas, um grupo de agentes da Baroque Works — os Billions — estava posicionado, bloqueando o caminho para o oásis mais próximo. Eles estavam bem armados e pareciam prontos para uma emboscada.
— Mais lixo no caminho — disse Luffy, estalando os dedos com um sorriso largo. — Zoro, Gaby, Sanji! Limpem o caminho!
— Com prazer — disse Gaby, desembainhando a Lâmina Celeste e a Sombra do Abismo em um movimento fluido que fez o aço cantar.
Zoro colocou a Wado Ichimonji na boca e sacou as outras duas. O trio de espadachins e o cozinheiro avançaram como uma força da natureza. Enquanto Sanji distribuía chutes poderosos, Zoro e Gaby se moviam como uma extensão um do outro. Era uma dança de morte coordenada: onde Zoro deixava uma abertura, as lâminas de Gaby preenchiam; onde um inimigo tentava flanquear a espadachim, o aço de Zoro o interceptava com uma força devastadora.
— Estilo Duas Espadas: Redemoinho de Areia! — exclamou Gaby, girando sobre o próprio eixo e criando um vácuo que puxou três agentes para o alcance de suas lâminas azuis e escuras.
Zoro aproveitou a brecha, saltando sobre ela para finalizar o serviço.
— Santoryu: Onigiri!
O impacto foi imediato, e os agentes foram lançados para longe, inconscientes antes mesmo de atingirem a areia. No entanto, o líder do grupo, um homem alto que usava manoplas de ferro reforçadas, aproveitou a poeira levantada para lançar um ataque surpresa contra Gaby.
— Cuidado! — gritou Chopper de longe.
O homem desferiu um soco carregado de força bruta em direção às costelas de Gaby. Ela tentou cruzar as espadas para bloquear, mas a areia sob seus pés cedeu, fazendo-a perder o equilíbrio por um milésimo de segundo.
O impacto nunca chegou. Com um som metálico estridente, Zoro estava lá, bloqueando a manopla de ferro com suas duas katanas cruzadas. As veias em seu pescoço saltaram pelo esforço de conter a pressão.
— Eu disse para manter o foco — rosnou Zoro por entre os dentes, a espada na boca abafando levemente suas palavras.
— A areia... — começou Gaby, recuperando o equilíbrio rapidamente.
— Não dê desculpas. Apenas corte-o.
Gaby não precisou de um segundo convite. Com um movimento ágil, ela deslizou por baixo do braço de Zoro e desferiu um golpe cruzado nas articulações da armadura do inimigo. O homem gritou de dor, e Zoro finalizou com um chute potente que o mandou rolando duna abaixo.
A batalha terminou tão rápido quanto começou. Os agentes restantes fugiram, deixando o caminho livre. Luffy e os outros continuaram avançando, mas Zoro e Gaby pararam por um momento para limpar o sangue de suas lâminas.
— Você me salvou de novo — disse Gaby, guardando as espadas. Ela parecia irritada consigo mesma. — Eu deveria ter previsto aquele movimento.
Zoro guardou suas armas e caminhou até ela. Ele não parou a uma distância educada; ele parou dentro do espaço pessoal dela, bloqueando a visão do resto da tripulação com seu corpo largo.
— O deserto é traiçoeiro — disse ele, a voz baixa e séria. — Mas é por isso que estamos lutando juntos. Não tente ser invencível o tempo todo, Gaby.
— Eu não gosto de ser um fardo para você, Zoro. Você quer ser o maior do mundo. Não pode ficar parando para me segurar toda vez que eu tropeçar.
Zoro estendeu a mão e segurou o queixo dela, forçando-a a olhar nos olhos dele. O olhar dele era intenso, desprovido de qualquer dúvida.
— Escute bem — disse ele. — Você não é um fardo. Você é a única pessoa neste mar que consegue acompanhar o meu ritmo. Se eu te protejo, é porque eu quero que você esteja ao meu lado quando eu chegar ao topo. Entendeu?
Gaby sentiu o coração martelar contra as costelas. A sinceridade bruta de Zoro era mais avassaladora do que qualquer técnica de espada.
— Entendi — respondeu ela, a voz quase um sussurro.
Zoro relaxou o aperto, mas não se afastou. Por um momento, o calor do deserto pareceu desaparecer, substituído pela tensão familiar e reconfortante entre eles.
— Ótimo — disse ele. — Agora beba água. Você está pálida.
— Sim, senhor, instrutor — brincou ela, tentando dissipar a seriedade, embora suas mãos ainda estivessem tremendo levemente.
Horas depois, o grupo montou um acampamento improvisado sob a sombra de algumas rochas altas. Enquanto Luffy e Usopp tentavam caçar lagartos gigantes e Sanji reclamava da falta de ingredientes frescos, Zoro se afastou para fazer sua vigia noturna.
Gaby o encontrou sentado no topo de uma rocha, observando as estrelas que começavam a surgir no céu límpido do deserto. Ela se sentou ao lado dele em silêncio, oferecendo uma garrafa de água que ele aceitou com um aceno de cabeça.
— O que você estava pensando hoje? — perguntou ela, após um longo silêncio. — Durante a luta. Você parecia... diferente. Mais agressivo do que o normal.
Zoro deu um gole na água e olhou para as próprias mãos.
— Eu odeio a ideia de ver você machucada — confessou ele, a voz quase perdida no vento noturno. — No começo, eu achava que era apenas respeito profissional. Mas agora... é irritante. Eu perco a calma quando vejo alguém tentando te tocar.
Gaby sorriu, encostando a cabeça no ombro dele. O tecido da camisa de Zoro estava quente, e o cheiro de metal e suor era, para ela, o cheiro de casa.
— O grande Roronoa Zoro está admitindo que tem um ponto fraco? — provocou ela suavemente.
— Você não é um ponto fraco — corrigiu ele, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para mais perto. — Você é uma força. Mas até as forças mais poderosas precisam de um porto seguro.
Gaby fechou os olhos, aproveitando o momento de paz.
— Sabe, Zoro... antes de conhecer vocês, eu achava que a minha vida seria apenas uma sucessão de duelos e fugas. Eu nunca imaginei que encontraria alguém que me desafiasse e me protegesse ao mesmo tempo.
— Você é difícil de lidar — resmungou ele, mas havia um carinho inegável em seu tom. — Mas eu não escolheria outra pessoa para estar no meu navio. Ou na minha vida.
Eles ficaram ali, observando a imensidão de Alabasta sob o luar. Zoro sabia que os próximos dias seriam de provação extrema. Crocodile e seus oficiais não seriam fáceis de derrotar, e o destino de um reino inteiro estava em jogo. Mas, pela primeira vez, ele não sentia que o peso da batalha era um fardo solitário.
— Gaby — chamou ele, a voz carregada de uma promessa silenciosa.
— Sim?
— Quando tudo isso acabar... quando o Reino de Alabasta estiver a salvo e voltarmos para o mar... eu quero que você treine comigo um novo estilo.
Gaby levantou a cabeça, curiosa.
— Um novo estilo? Qual?
Zoro olhou para ela, e por um breve segundo, o guerreiro implacável deu lugar ao homem que estava aprendendo a amar.
— Um estilo onde não precisemos de espadas para nos entender — disse ele, aproximando o rosto do dela.
O beijo que se seguiu foi calmo, um contraste absoluto com a violência do dia e a crueza do deserto. Era um juramento selado na calada da noite, uma promessa de que, não importa o que acontecesse nas areias de Alabasta, eles enfrentariam o destino juntos.
— Combinado — sussurrou Gaby contra os lábios dele. — Mas eu ainda vou te vencer no treino de amanhã.
Zoro soltou uma risada baixa, uma das poucas que ele permitia que o mundo ouvisse.
— Tente a sorte, mulher. Tente a sorte.
Enquanto o vento do deserto soprava ao redor deles, os dois espadachins permaneceram unidos, prontos para o que quer que o amanhecer trouxesse. Em um mundo de piratas, sonhos e batalhas épicas, eles haviam descoberto que a lâmina mais afiada era aquela que protegia o coração de quem se ama. E Roronoa Zoro, o homem que seria o maior espadachim do mundo, nunca estivera tão pronto para lutar.