Aquela que o desafia
O Brilho da Lâmina sob o Luar de Alabasta
A noite no Going Merry estava estranhamente abafada. O navio flutuava em uma calmaria inquietante, aproximando-se das correntes que os levariam para as terras áridas de Alabasta. O calor do deserto já parecia soprar de longe, carregando partículas de areia que faziam a garganta secar. No convés, o silêncio só era interrompido pelo ronco rítmico de Luffy e o som distante das ondas batendo no casco.
Zoro estava em seu lugar de sempre: o ninho do corvo. Ele levantava um peso colossal com apenas um braço, o suor escorrendo pelo peito nu, brilhando sob a luz da lua minguante. Cada repetição era um mantra, um esforço para silenciar os pensamentos que, ultimamente, focavam menos em Mihawk e mais em uma certa usuária de duas espadas.
A porta do vigia rangeu levemente. Zoro não precisou olhar para saber que era ela. O peso de sua presença era algo que ele já havia mapeado em seus instintos.
— Você nunca descansa, Roronoa? — A voz de Gaby era suave, mas carregava aquela pitada de provocação que sempre o deixava em alerta.
Zoro soltou o peso no chão, causando um baque surdo que fez o chão de madeira vibrar. Ele pegou uma toalha encostada no canto e limpou o rosto, mantendo o olhar fixo no horizonte escuro.
— O descanso é para os fracos. Ou para quem já é o melhor — respondeu ele, a voz rouca pelo esforço. — E eu ainda não sou nenhum dos dois.
Gaby caminhou até a mureta, encostando-se ao lado dele. Ela usava uma regata simples e suas duas katanas estavam presas à cintura, como se fossem parte de seu próprio corpo. Ela olhou para as mãos de Zoro, calejadas e marcadas por anos de empunhar o aço.
— Às vezes — disse ela, baixando o tom —, a lâmina precisa ser temperada no frio para não quebrar no calor. Você está se forçando demais desde que saímos de Kenzan.
— É a Grand Line, Gaby — Zoro finalmente se virou para ela, os olhos sérios. — Se eu baixar a guarda por um segundo, perco o pescoço. Ou pior, deixo alguém do bando perder o dele.
Gaby deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dele. Ela não recuou diante da estatura intimidadora de Zoro ou de seu olhar severo. Pelo contrário, ela sustentou o olhar com uma teimosia que era o espelho da dele.
— Você não precisa carregar o mundo inteiro nas costas, sabe? — Ela estendeu a mão e, com uma hesitação quase imperceptível, tocou o antebraço musculoso dele. — Eu cuido das minhas costas. E posso cuidar das suas também.
Zoro sentiu uma descarga elétrica percorrer seu braço no ponto onde os dedos dela tocavam sua pele. Ele era um homem de ação, de metal e sangue. Sentimentos eram territórios perigosos, mapas que ele não sabia ler. Mas ali, sob o luar, com o cheiro de maresia e o perfume sutil de Gaby, ele sentiu sua guarda desmoronar.
— Eu sei que pode — murmurou ele, a voz soando mais baixa do que pretendia. — É esse o problema.
Gaby arqueou uma sobrancelha, confusa.
— Problema? Desde quando ter uma aliada forte é um problema para você?
Zoro deu um passo na direção dela, reduzindo a distância a quase nada. Ele era mais alto, forçando-a a inclinar a cabeça para trás para manter o contato visual. O ar entre eles ficou denso, carregado de algo que nenhum treino de mil repetições poderia exaurir.
— Não é sobre ser aliada — disse Zoro, as palavras saindo com dificuldade, como se estivessem sendo forjadas em brasa viva. — É sobre eu não conseguir focar na droga do horizonte quando você está por perto. É sobre eu querer desembainhar minhas espadas contra qualquer um que olhe para você por um segundo a mais.
Gaby arregalou os olhos. Ela esperava muitas coisas de Roronoa Zoro — uma reclamação sobre o saquê, um desafio para um duelo ou até um silêncio absoluto. Mas aquela confissão bruta e honesta a deixou sem fôlego.
— Zoro... — ela começou, a voz falhando.
— Eu não sou bom com palavras, Gaby — interrompeu ele, fechando os punhos ao lado do corpo. — Eu sou um espadachim. Minha vida é o fio da navalha. Eu não deveria... eu não queria sentir isso.
Gaby sorriu, um sorriso pequeno e triste, cheio de compreensão. Ela levou a mão ao rosto dele, a palma da mão quente contra a pele áspera de sua bochecha. Zoro fechou os olhos por um breve momento, inclinando-se inconscientemente para o toque.
— Você acha que é o único? — perguntou ela em um sussurro. — Você acha que eu treino com você todas as manhãs só por causa das técnicas? Eu sou uma nômade, Zoro. Eu nunca quis criar raízes. Mas toda vez que olho para você... eu sinto que finalmente encontrei o porto que eu nem sabia que estava procurando.
Zoro abriu os olhos. A determinação que ele usava para enfrentar monstros marinhos e caçadores de recompensa estava lá, mas havia algo mais — uma vulnerabilidade que ele só mostrava para as estrelas.
Ele não era um homem de gestos românticos ou declarações poéticas. Ele era Roronoa Zoro. E o jeito que ele amava era como ele lutava: com tudo o que tinha, sem recuar.
Ele colocou a mão grande e calejada sobre a nuca de Gaby, os dedos se embrenhando nos cabelos dela. Ele não perguntou. Ele não hesitou. Ele simplesmente a puxou para perto.
O beijo não foi suave como uma brisa de verão. Foi intenso, urgente e profundo, como o encontro de duas correntes marítimas poderosas. Tinha o gosto de saquê, de sal e de uma promessa silenciosa feita entre dois guerreiros que sabiam que o amanhã nunca era garantido.
Gaby soltou um suspiro contra os lábios dele, as mãos subindo para os ombros largos de Zoro, segurando-se nele como se ele fosse seu único ponto de equilíbrio em um mundo que não parava de girar. Zoro a apertou contra si, sentindo o batimento acelerado do coração dela contra o seu peito nu. Naquele momento, as três espadas e as duas espadas não importavam. Eles não eram piratas, não eram espadachins. Eram apenas dois seres humanos encontrando calor no meio da imensidão do oceano.
Quando se separaram, apenas o suficiente para recuperar o fôlego, Zoro manteve a testa encostada na dela. Seus olhos estavam escuros, brilhando com uma intensidade que faria inimigos tremerem, mas que para Gaby era o lugar mais seguro do mundo.
— Se você contar para o cozinheiro sobre isso — rosnou Zoro, embora não houvesse veneno em sua voz —, eu te jogo ao mar.
Gaby soltou uma risada genuína, o som limpando a tensão que restava no ar.
— E se você se perder no caminho para o meu quarto — retrucou ela, passando os braços pelo pescoço dele —, eu juro que te corto em pedacinhos, Roronoa.
Zoro deu um meio sorriso, aquele raríssimo vislumbre de satisfação plena.
— Eu nunca me perco quando o objetivo vale a pena.
— Mentiroso — disse ela, puxando-o para outro beijo, desta vez mais lento, saboreando a descoberta do que sentiam.
Lá embaixo, no convés, o Going Merry continuava sua jornada. Sanji, que havia subido para fumar um último cigarro antes de dormir, olhou para cima, para o ninho do corvo. Ele viu as silhuetas fundidas contra o luar e, com um suspiro dramático e um sorriso amargo, apagou o cigarro no cinzeiro.
— Marimo sortudo — resmungou o cozinheiro para si mesmo, voltando para a cozinha. — Espero que ela saiba no que está se metendo.
No ninho do corvo, o tempo parecia ter parado. Zoro finalmente soltou Gaby, mas manteve uma das mãos firmemente em sua cintura. Ele olhou para o horizonte novamente, mas desta vez, a escuridão não parecia tão solitária.
— Alabasta vai ser um inferno — comentou ele, voltando ao seu tom sério de costume. — Aquela organização, a Baroque Works... eles não brincam em serviço.
Gaby desembainhou levemente a Lâmina Celeste, apenas o suficiente para o aço brilhar.
— Deixe que venham. Eles têm números, mas nós temos algo que eles nunca vão entender.
Zoro olhou para ela, a admiração brilhando em seus olhos.
— E o que seria?
Gaby guardou a espada com um estalo seco e olhou para ele, os olhos cheios de um fogo que rivalizava com o sol.
— Nós temos um ao outro. E eu tenho o melhor espadachim do mundo protegendo minhas costas.
Zoro sentiu um orgulho imenso inflar seu peito. Ele não era de falar sobre sentimentos, e provavelmente voltaria a ser o homem calado e turrão assim que o sol nascesse. Mas ali, naquela bolha de tempo, ele se permitiu ser apenas o homem que amava a mulher à sua frente.
— Corrigindo — disse Zoro, puxando-a para um abraço lateral enquanto ambos olhavam para o mar. — Você tem o homem que *vai ser* o melhor espadachim do mundo. Mas, por enquanto... você tem a mim. E isso é mais do que qualquer recompensa que o Governo Mundial possa oferecer.
Eles ficaram ali, vigiando o oceano juntos, até que as primeiras luzes do amanhecer começassem a pintar o céu de laranja e rosa. O segredo deles estava seguro, guardado pelas estrelas e pelas tábuas de madeira do Merry. A jornada para Alabasta seria perigosa, cheia de areia, sangue e incertezas, mas Roronoa Zoro sabia de uma coisa: ele nunca mais lutaria apenas por sua própria ambição. Agora, ele tinha um tesouro muito mais valioso para proteger.
E, para Zoro, proteger era a forma mais pura de amar.