Aquela que o desafia
O Fio que Une e a Tempestade que Divide
O sol de Alabasta era um carrasco implacável, mas a tempestade de areia que se formava no horizonte prometia ser ainda mais cruel. O Going Merry estava atracado em uma enseada escondida, enquanto a tripulação se preparava para o avanço final contra os planos de Crocodile. O ar estava carregado de eletricidade e poeira, e o calor seco fazia cada respiração parecer um gole de fogo.
Zoro estava no convés, o tronco nu coberto por uma fina camada de areia e suor. Ele levantava um peso descomunal com um braço só, os músculos das costas se retorcendo como cordas de aço sob a pele bronzeada. Seus olhos estavam fixos no horizonte, mas sua mente estava a poucos metros dali, onde Gaby afiava suas espadas.
O som rítmico da pedra contra o metal era a única música que Zoro realmente apreciava. Gaby estava sentada sobre um barril, concentrada na Lâmina Celeste. O brilho azulado do aço refletia nos olhos dela, e Zoro se pegou observando a maneira como os dedos dela deslizavam pela lâmina — com uma reverência que ele só vira em mestres de verdade.
— Se continuar me olhando desse jeito, Zoro, vai acabar perdendo a conta das repetições — disse Gaby, sem levantar a cabeça. Um sorriso de canto brotou em seus lábios, aquele tipo de sorriso que sempre desarmava a guarda do espadachim.
— Eu não estou contando — resmungou Zoro, soltando o peso com um estrondo que fez o convés vibrar. — Só estou checando se você está cuidando bem dessas espadas. Seria uma vergonha se elas falhassem quando o deserto começar a lutar de verdade.
Gaby finalmente levantou os olhos, guardando a pedra de amolar na bolsa de couro. Ela se levantou e caminhou até ele, parando a uma distância que fazia o calor do corpo dele irradiar contra o dela.
— Elas nunca falham — afirmou ela, a voz baixa e firme. — E eu também não.
Zoro sentiu aquele puxão familiar no peito. Desde que Gaby se juntara a eles em Kenzan, o mundo de Zoro havia se tornado mais barulhento, mais complicado e, de alguma forma, mais completo. Ele sempre fora um homem de objetivos singulares, mas agora, o sonho de ser o maior espadachim do mundo parecia ter ganhado uma nova camada: ele queria chegar ao topo, mas queria que ela estivesse lá para ver.
— Ei, Zoro! Gaby! — gritou Luffy, saltando da cabeça do navio e aterrissando entre os dois, quebrando a tensão. — O Sanji disse que a comida está pronta! É carne com tempero de deserto! Shishishi!
— Carne com areia, você quer dizer — resmungou Zoro, mas seu olhar permaneceu em Gaby por um segundo a mais antes de seguir o capitão.
O banquete foi a típica confusão dos Chapéus de Palha. Usopp exagerava nas histórias de como derrotaria Crocodile com uma única bala de salitre, enquanto Nami tentava traçar a rota final no mapa, ignorando os pedidos de atenção de Sanji. No meio do caos, Zoro e Gaby trocavam olhares silenciosos. Não precisavam de palavras; a conexão entre eles fora forjada no aço e no sangue das batalhas anteriores.
Ao cair da noite, o frio do deserto substituiu o calor sufocante. Zoro assumiu o primeiro turno da vigia no ninho do corvo. O céu de Alabasta era imenso, salpicado de estrelas que pareciam diamantes frios. Ele estava limpando a Sandai Kitetsu quando ouviu o som leve de botas subindo a escada de corda.
— Achei que você estivesse dormindo — disse Zoro, sem se virar.
— O deserto é silencioso demais — respondeu Gaby, entrando no pequeno espaço e sentando-se ao lado dele. Ela estava enrolada em um manto escuro, mas o frio ainda parecia beliscar sua pele. — Em Kenzan, o som do mar sempre abafava meus pensamentos. Aqui, eles ecoam.
Zoro guardou a espada e olhou para ela. Sob a luz da lua, Gaby parecia quase etérea, mas a determinação em seu rosto era puramente humana.
— O que está te preocupando? — perguntou ele, surpreendendo-se com a própria iniciativa de puxar assunto.
Gaby suspirou, abraçando os joelhos.
— Crocodile. Ele é um Shichibukai. Eu lutei contra muitos espadachins, Zoro, mas nunca contra alguém que pode se transformar em areia. Minhas lâminas... elas podem não ser o suficiente desta vez.
Zoro sentiu uma onda de proteção percorrer seu corpo. Ele estendeu a mão e, com uma hesitação que ninguém mais veria, colocou-a sobre o ombro dela. O contato foi breve, mas firme.
— Suas lâminas são uma extensão de quem você é — disse ele, a voz soando como um trovão baixo na noite. — Se você acredita que elas podem cortar, elas vão cortar. E se o aço não for o bastante... eu estarei lá.
Gaby virou o rosto para ele, os olhos brilhando.
— Você sempre diz isso.
— Porque é verdade — afirmou Zoro. — Eu não deixo meus companheiros para trás. E você... você não é apenas uma companheira de tripulação, Gaby.
O silêncio que se seguiu foi denso. Zoro sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele queria dizer mais, queria explicar que o estilo de duas espadas dela o fascinava, que a coragem dela o inspirava e que, secretamente, ele temia o dia em que seus caminhos pudessem se separar. Mas as palavras eram como areia entre seus dedos.
Gaby inclinou a cabeça, encostando-a no ombro de Zoro. O calor dele era um refúgio contra o frio gélido da noite.
— Sabe, Zoro — sussurrou ela —, às vezes eu sinto que você é a única âncora que me impede de sair flutuando por aí de novo. Eu sempre fui uma nômade. Mas aqui... com você... eu sinto que finalmente parei de correr.
Zoro não respondeu com palavras. Ele apenas inclinou a cabeça levemente, sentindo o perfume de metal e brisa marinha que sempre acompanhava Gaby. Naquele momento, no topo do Going Merry, o mundo lá fora — com seus Shichibukais, guerras civis e conspirações — parecia estar a milênios de distância.
A manhã chegou com o rugido do vento. A tempestade de areia finalmente os alcançara. O céu ficou de um amarelo doentio e a visibilidade caiu para poucos metros.
— Todos para fora! — gritou Nami. — Temos que nos mover agora! Se ficarmos parados, o navio será soterrado pela areia da enseada!
A tripulação desembarcou rapidamente, movendo-se em direção ao ponto de encontro com Vivi. No entanto, a Baroque Works não pretendia facilitar as coisas. Dezenas de agentes Billions e Millions surgiram da névoa de areia, liderados por um oficial que Zoro não reconheceu de imediato, mas que portava uma alabarda imensa.
— Chapéus de Palha! — rugiu o oficial. — Vocês não passarão pelo portão leste!
— Eu cuido dele! — gritou Luffy, já esticando os braços para um ataque, mas ele foi interceptado por uma explosão de areia que o separou do grupo.
— Luffy! — gritou Gaby, tentando segui-lo, mas cinco agentes barraram seu caminho.
— Fique com os outros! — ordenou Zoro, desembainhando suas três espadas. — Eu limpo o caminho para você!
A batalha foi um caos de poeira e gritos. Zoro era um borrão verde, suas katanas cortando o ar com uma precisão letal. Mas a tempestade dificultava tudo; o chão de areia cedia sob seus pés e o vento soprava contra seus golpes.
Gaby estava no centro de um turbilhão. Suas duas espadas moviam-se com uma agilidade acrobática. Ela desviou de um golpe de alabarda, girou no ar e desferiu um corte duplo que desarmou dois agentes ao mesmo tempo.
— Estilo Duas Espadas: Valsa do Deserto! — exclamou ela, as lâminas criando um arco de luz azulada que rasgou a névoa de areia.
Zoro observou-a por um segundo, admirado. Ela era magnífica em combate. Mas o oficial da alabarda era persistente. Ele aproveitou um momento de distração de Gaby e desferiu um golpe descendente com uma força avassaladora.
— Gaby! — rugiu Zoro.
Ele não pensou. Seus pés se moveram por instinto. Ele saltou, cruzando suas espadas acima da cabeça de Gaby, bloqueando a alabarda no último segundo. O impacto foi tão forte que os pés de Zoro afundaram na areia até os tornozelos.
— Eu disse que estaria aqui — rosnou ele através da espada em sua boca.
Gaby não perdeu tempo. Usando Zoro como escudo, ela deslizou por baixo do braço dele e cravou suas duas espadas na armadura do oficial, encontrando as brechas com uma precisão cirúrgica. O homem caiu, soltando a arma.
Os agentes restantes, vendo seu líder derrotado, recuaram para dentro da tempestade.
Zoro guardou as espadas, a respiração pesada. Gaby estava diante dele, ofegante, com alguns cortes superficiais no rosto e nos braços, mas com os olhos brilhando de adrenalina e algo mais.
— Você é um idiota, Roronoa — disse ela, limpando o sangue do lábio inferior. — Eu tinha tudo sob controle.
— É, eu vi — rebateu ele, estendendo a mão para ajudá-la a sair da areia fofa. — Por isso eu tive que sujar minhas botas para te segurar.
Gaby segurou a mão dele, mas em vez de se soltar quando ficou de pé, ela permaneceu segurando-a. Seus dedos se entrelaçaram com os dele, calejados e firmes.
— Obrigada — sussurrou ela, a voz quase perdida no uivo do vento.
Zoro sentiu o rosto esquentar, grato pela poeira que escondia sua reação. Ele apertou a mão dela por um breve momento antes de soltá-la.
— Vamos. Temos que encontrar o capitão antes que ele se perca ou coma algo que não deve.
Eles correram pela tempestade, mantendo-se próximos o suficiente para que um pudesse sentir a presença do outro através da cortina de areia. Horas depois, conseguiram se reagrupar com o restante da tripulação em uma caverna protegida.
Luffy estava sentado no chão, coberto de poeira, mas rindo como se nada tivesse acontecido. Vivi parecia exausta, mas aliviada ao ver todos seguros.
— Vocês demoraram! — exclamou Luffy. — Perderam a parte em que eu lutei contra um caranguejo gigante!
— Estávamos ocupados garantindo que você ainda tivesse uma tripulação, seu idiota — retrucou Zoro, sentando-se em um canto e começando a cuidar de suas lâminas.
Gaby sentou-se ao lado dele. Ela pegou um pano limpo e começou a limpar as feridas de Zoro, ignorando as dela por enquanto.
— Eu posso fazer isso sozinho — resmungou ele, embora não fizesse menção de se afastar.
— Fique quieto — ordenou ela, com uma autoridade que o fez obedecer. — Você me protegeu lá fora. O mínimo que posso fazer é garantir que você não pegue uma infecção de deserto.
Sanji, observando a cena de longe enquanto preparava um chá quente, soltou um suspiro longo e melancólico.
— O amor é um campo de batalha cruel — murmurou o cozinheiro, acendendo um cigarro. — E aquele marimo cabeça de mato está vencendo sem nem saber as regras.
A noite na caverna foi silenciosa. Enquanto os outros dormiam, Zoro permaneceu acordado, encostado na parede de pedra. Gaby havia adormecido ao lado dele, a cabeça pendendo levemente para o lado, quase tocando seu ombro.
Zoro a observou por um longo tempo. Ele pensou em Kuina, em sua promessa e em tudo o que sacrificara para chegar até ali. Ele sempre acreditara que o caminho para ser o maior espadachim era um caminho solitário. Mas, olhando para Gaby, ele percebeu que a força dela não diminuía a dele; ela a multiplicava.
Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza que ele não sabia que possuía, afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. Gaby se mexeu levemente no sono, murmurando algo incompreensível, e se inclinou mais para perto dele.
— Eu não vou deixar nada acontecer com você — sussurrou ele, uma promessa feita apenas para as sombras da caverna. — Nem que eu tenha que cortar o próprio destino.
Secretamente, Roronoa Zoro sabia que já havia perdido uma batalha que nunca tentara lutar. Ele estava irremediavelmente apaixonado por aquela mulher de duas espadas. E, pela primeira vez em sua vida, ele não se importava em perder.
Enquanto a tempestade de areia lá fora começava a diminuir, uma nova tempestade crescia dentro dele — uma feita de lealdade, proteção e um afeto profundo que ele ainda não sabia como nomear, mas que jurara defender com cada gota de seu sangue.
A jornada em Alabasta estava longe de terminar, e Crocodile ainda era uma ameaça formidável. Mas Zoro sentia-se invencível. Porque ele não estava mais lutando apenas por um sonho distante no horizonte. Ele estava lutando pela mulher que dormia ao seu lado, e isso era mais do que suficiente para enfrentar qualquer deus ou demônio que a Grand Line colocasse em seu caminho.
Com um último suspiro, ele fechou os olhos, permitindo-se um breve descanso antes do amanhecer, com a mão repousando protetoramente perto das de Gaby. O aço de suas espadas brilhava fracamente na penumbra, um eco silencioso do juramento que unia os dois espadachins além das palavras e do tempo.