Aquela que o desafia
O Fio de Aço e o Juramento sob as Estrelas de Alabasta
O acampamento improvisado no meio das ruínas de uma cidade soterrada pela areia estava mergulhado em um silêncio pesado. O calor sufocante do dia em Alabasta dera lugar a um frio cortante, típico das noites no deserto. Luffy, Usopp e Chopper já estavam roncando, exaustos pela caminhada sob o sol implacável. Sanji terminava de organizar os utensílios de cozinha, enquanto Nami e Vivi revisavam o mapa do reino pela milésima vez.
Zoro, no entanto, estava afastado. Ele se sentara no topo de um pilar de pedra caído, a Wado Ichimonji repousando sobre seus joelhos. O som rítmico de uma pedra de amolar contra o aço era o único ruído que ele permitia quebrar a quietude. Seus olhos estavam fixos na lâmina, mas seus ouvidos estavam atentos a cada movimento no acampamento.
— Você nunca para, não é? — A voz de Gaby surgiu de repente, vinda das sombras abaixo do pilar.
Zoro não parou o movimento da pedra de amolar. Ele já havia sentido a presença dela há minutos.
— O aço não se mantém afiado sozinho — respondeu ele, a voz rouca. — Especialmente com toda essa areia entrando em cada fresta.
Gaby subiu no pilar com uma agilidade que sempre impressionava Zoro. Ela se sentou ao lado dele, desembainhando a Lâmina Celeste e a Sombra do Abismo. Sob a luz do luar, as espadas dela pareciam emitir um brilho próprio, refletindo a determinação da mulher que as portava.
— Tem razão — disse ela, começando a limpar suas próprias armas com um pano de seda. — Se as lâminas ficarem cegas, o próximo agente da Baroque Works que encontrarmos terá uma vantagem que eu não pretendo dar.
Eles trabalharam em silêncio por um tempo. Era um silêncio confortável, o tipo de quietude que só existe entre dois guerreiros que confiam plenamente um no outro. Zoro observava, pelo canto do olho, a maneira como Gaby cuidava de suas espadas. Havia uma delicadeza quase maternal em seus gestos, um contraste gritante com a violência letal que ela demonstrava em combate.
— Zoro — chamou ela, sem desviar o olhar do aço.
— Hum?
— O que você sentiu quando enfrentamos aqueles mercenários hoje cedo? — Ela parou o movimento do pano. — No momento em que ficamos cercados e você simplesmente... sabia onde eu estaria.
Zoro parou de amolar. Ele olhou para o horizonte escuro do deserto, onde as dunas pareciam ondas de um mar estático.
— Eu não pensei nisso — admitiu ele. — Meus instintos apenas me diziam que você cuidaria do flanco esquerdo enquanto eu abria caminho pelo centro. Não é algo que se explica.
Gaby deu um sorriso pequeno, quase triste.
— Eu passei anos lutando sozinha, Zoro. Como nômade, confiar em alguém era uma sentença de morte. Mas aqui, com vocês... com você... é como se o peso das minhas espadas tivesse ficado mais leve.
Zoro sentiu uma pontada no peito. Ele não era bom com palavras de conforto, e a vulnerabilidade de Gaby o deixava mais inquieto do que um duelo contra um mestre espadachim. Ele guardou a pedra de amolar e olhou diretamente para ela.
— Você não é mais uma nômade, Gaby — disse ele, a voz firme. — No momento em que o Luffy te chamou, e no momento em que você aceitou, você ganhou um lugar. E eu não vou deixar ninguém tirar isso de você. Nem o Crocodile, nem a Baroque Works, nem ninguém.
Gaby sentiu o rosto esquentar. A seriedade de Zoro era avassaladora. Ela se aproximou um pouco mais, o ombro roçando no dele.
— Você fala como se fosse minha responsabilidade pessoal te manter segura — brincou ela, tentando dissipar a tensão.
— E é — retrucou Zoro, sem um pingo de hesitação.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Estava carregado de algo que ambos vinham evitando nomear desde que saíram de Kenzan. Zoro sentia o cheiro de óleo de espada e o perfume sutil de flores silvestres que, inexplicavelmente, ainda emanava de Gaby mesmo no meio do deserto.
— Por que você faz isso? — perguntou ela em voz baixa. — Por que se importa tanto? Você tem o seu sonho de ser o maior do mundo. Eu... eu sou apenas uma usuária de duas espadas que cruzou o seu caminho.
Zoro apertou o punho da Wado Ichimonji. Ele pensou em Kuina, na promessa que fizera e em como sempre acreditara que sua jornada seria solitária até o topo. Mas Gaby mudara tudo. Ela era o desafio que ele não esperava e o conforto que ele não sabia que precisava.
— Porque você é a única — começou ele, as palavras saindo com dificuldade — que me faz sentir que o topo não vai ser um lugar frio e vazio. Quando eu me tornar o maior espadachim, quero que você esteja lá para me desafiar. Ou para beber saquê comigo.
Gaby sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, mas ela as conteve. Ela estendeu a mão e tocou a mão de Zoro, que ainda repousava sobre a bainha da espada. O contato fez o coração do espadachim disparar, uma sensação mais intensa do que a adrenalina de qualquer batalha.
— Eu vou estar lá, Zoro — prometeu ela. — Eu não vou a lugar nenhum.
Zoro virou a mão, entrelaçando seus dedos nos dela. Seus calos se encontraram, uma união de anos de treinamento e sacrifício. Ele não a puxou para um beijo, nem fez uma declaração poética. Ele apenas apertou a mão dela, um juramento silencioso de proteção e lealdade que valia mais do que mil palavras.
— É melhor irmos dormir — disse ele, recuperando sua compostura habitual, embora não soltasse a mão dela de imediato. — Nami quer partir antes do sol nascer.
— Sim — concordou Gaby, levantando-se com ele. — Amanhã será um dia longo.
Eles desceram do pilar e caminharam de volta para o centro do acampamento. Antes de se deitarem em seus respectivos sacos de dormir, Gaby parou e olhou para Zoro.
— Boa noite, Zoro. E... obrigada. Por tudo.
— Durma logo, Gaby — respondeu ele, virando as costas para esconder o sorriso que teimava em aparecer.
Na manhã seguinte, o deserto de Alabasta provou ser ainda mais cruel. Uma tempestade de areia repentina atingiu o grupo, separando-os durante a travessia de um vale rochoso. Zoro, fiel ao seu péssimo senso de direção, acabou se perdendo do grupo principal, mas, para sua sorte — ou destino —, Gaby estava logo atrás dele.
— Eu disse para seguirmos a Vivi! — gritou Gaby, tentando cobrir o rosto com o lenço enquanto o vento uivava ao redor deles.
— Eu estava seguindo a Vivi! — retrucou Zoro, embora soubesse que tinha virado para o lado errado três dunas atrás.
— Você virou para o sul quando ela foi para o norte, seu marimo idiota! — Ela o segurou pelo braço, impedindo que ele caminhasse direto para dentro de um redemoinho de areia.
Eles encontraram abrigo em uma pequena fenda entre duas rochas imensas. O espaço era apertado, forçando-os a ficarem pressionados um contra o outro para evitar o açoite da areia lá fora.
— Estamos presos aqui até isso passar — disse Zoro, limpando a areia dos olhos.
— Pelo menos estamos juntos — murmurou Gaby, tentando recuperar o fôlego.
A proximidade física era inegável. Zoro podia sentir o calor do corpo de Gaby e a respiração ofegante dela contra o seu peito. A adrenalina da tempestade começou a dar lugar a uma tensão diferente. Gaby olhou para cima, encontrando o olhar de Zoro.
— Você está bem? — perguntou ela, a voz quase sumindo sob o som do vento.
— Já estive pior — respondeu ele. Sua mão, por instinto, subiu para o rosto dela, limpando um pouco de poeira da bochecha da espadachim. — E você?
— Agora estou — disse ela, inclinando-se para o toque dele.
Zoro sentiu sua determinação vacilar. Ele sempre fora um homem de foco absoluto, mas ali, naquele esconderijo apertado, o mundo lá fora não importava. O Crocodile, o One Piece, a ambição... tudo parecia secundário diante da mulher em seus braços.
— Gaby — sussurrou ele.
Antes que ela pudesse responder, Zoro inclinou a cabeça e selou seus lábios nos dela. Foi um beijo urgente, carregado de toda a tensão e o afeto que vinham acumulando desde que se conheceram. Não foi delicado; tinha o gosto de areia e a força de uma tempestade, uma colisão de duas almas que falavam a mesma linguagem de aço e honra.
Gaby respondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para a nuca de Zoro, puxando-o para mais perto. Naquele momento, no coração de Alabasta, o fogo do deserto não era nada comparado ao que ardia entre os dois.
Quando se separaram, ambos estavam ofegantes. Zoro manteve a testa encostada na dela, os olhos fechados.
— Eu não sou bom nisso — admitiu ele, a voz rouca.
Gaby soltou uma risada curta, o som mais doce que Zoro já ouvira.
— Você é ótimo nisso, Zoro. Só precisa praticar mais.
Zoro deu um meio sorriso, aquele sorriso raro que ele guardava apenas para os momentos em que se sentia verdadeiramente em casa.
— Teremos muito tempo para praticar na Grand Line.
A tempestade começou a ceder horas depois. Quando finalmente saíram do abrigo, o céu estava limpo, revelando o caminho que deveriam ter seguido. Eles caminharam de volta em direção ao sinal de fumaça que Sanji fizera, mantendo uma distância profissional, mas com uma nova luz em seus olhares.
Ao chegarem ao grupo, Luffy correu até eles, rindo alto.
— Zoro! Gaby! Vocês se perderam de novo! Shishishi!
— Foi o Zoro! — exclamou Gaby, lançando um olhar divertido para o espadachim.
— Calada — resmungou Zoro, mas não havia raiva em sua voz.
Sanji, observando os dois com seu habitual olhar perspicaz, estreitou os olhos enquanto tragava seu cigarro.
— Tem algo diferente em vocês dois — comentou o cozinheiro, soprando a fumaça. — O marimo parece menos mal-humorado e a senhorita Gaby está radiante. O que aconteceu naquela caverna?
— Nada que te interesse, cozinheiro de araque — retrucou Zoro, sentando-se para limpar suas espadas novamente.
Gaby sentou-se ao lado dele, começando a cuidar de suas próprias lâminas. Seus dedos roçaram nos de Zoro por um breve segundo, um toque elétrico que prometia muito mais do que apenas amizade.
— Vamos, pessoal! — gritou Vivi. — Alubarna está logo ali! Temos que impedir a rebelião!
A tripulação se pôs em movimento. Zoro e Gaby caminhavam lado a lado, as bainhas de suas espadas batendo ritmicamente. Eles sabiam que a batalha que viria seria a mais difícil de suas vidas até então. Crocodile era um monstro, e a Baroque Works não teria piedade.
Mas, enquanto olhavam um para o outro antes de entrarem no calor da batalha final, ambos sentiam uma força renovada. Zoro tinha seu sonho, seus companheiros e, agora, um motivo a mais para sobreviver e se tornar o melhor. Ele protegeria Gaby com sua vida, e sabia que ela faria o mesmo por ele.
No horizonte de Alabasta, o sol começava a se pôr, pintando o céu de sangue e ouro. O destino da tripulação do Chapéu de Palha estava prestes a ser testado, mas, para os dois espadachins, o futuro nunca parecera tão claro. Eles enfrentariam o deserto, o mar e qualquer inimigo que viesse, contanto que estivessem juntos, com o aço em punho e o coração em sincronia.
A jornada continuava, e o amor silencioso de Roronoa Zoro, forjado no calor das batalhas e no frio das noites estreladas, era agora a sua lâmina mais afiada. E Gaby, a nômade que encontrara um lar, estava pronta para seguir aquele caminho, não importa para onde ele os levasse.