Aquela que o desafia
O Alvorecer do Aço e a Promessa das Areias
A poeira de Alabasta parecia ter vontade própria, infiltrando-se em cada fresta das roupas e cobrindo a pele com uma película áspera e quente. O sol, um carrasco implacável no centro do céu, castigava o grupo que avançava pelas dunas intermináveis. Luffy, como sempre, liderava o caminho com uma energia que desafiava a física, enquanto Vivi tentava manter o foco sob o peso da preocupação com seu reino.
Zoro caminhava um pouco mais atrás, o ritmo de seus passos pesado e constante. Seus olhos, no entanto, não estavam focados apenas no horizonte alaranjado, mas sim na figura que caminhava ao seu lado. Gaby, com suas duas katanas batendo ritmicamente contra a lateral da coxa, parecia sentir o calor, mas não deixava que ele a abatesse. O suor escorria por seu pescoço, brilhando como cristais sob a luz impiedosa, e Zoro sentiu aquele aperto familiar no peito — um sentimento que ele ainda tentava rotular como "respeito profissional", embora soubesse, no fundo, que era algo muito mais profundo e perigoso.
— Você está encarando de novo, Roronoa — disse Gaby, sem desviar os olhos do caminho. Um sorriso de canto, quase imperceptível, surgiu em seus lábios. — Se quer um duelo, é só pedir. Não precisa tentar me cortar com os olhos.
Zoro bufou, desviando o olhar rapidamente e ajustando o haramaki em sua cintura.
— Não seja idiota. Eu só estava checando se você não ia desmaiar. O sol daqui é pior do que os caçadores de recompensa da Grand Line.
— Eu sobrevivi a lugares piores do que um pouco de areia quente — rebateu ela, parando por um momento para ajustar a bandana que prendia seus cabelos escuros. — Mas admito que uma brisa do mar agora seria melhor do que qualquer tesouro.
— O mar vai ter que esperar — comentou Zoro, a voz baixando de tom. — Primeiro, temos que lidar com esse tal de Crocodile.
A conversa foi interrompida pelo grito de alerta de Usopp, que apontava freneticamente para uma formação rochosa à frente. Um grupo de agentes da Baroque Works, acompanhados por Billions armados, havia cercado a passagem estreita entre duas dunas gigantescas. Eles não estavam lá para conversar.
— Chapéus de Palha! — gritou o líder do grupo, um homem baixo com uma capa decorada com o número 13. — Vocês não passarão daqui! O Mr. 0 deu ordens claras!
Luffy estalou os dedos, um sorriso largo e predatório surgindo em seu rosto.
— Ótimo! Eu já estava com vontade de bater em alguém!
Zoro desembainhou a Wado Ichimonji com uma calma letal, enquanto Gaby sacava suas duas lâminas, a azulada e a de aço escuro, em um movimento fluido que parecia uma dança.
— Metade para cada um? — perguntou ela, posicionando-se ombro a ombro com Zoro.
— Tente não ficar no meu caminho — respondeu ele, colocando a espada branca entre os dentes.
A batalha começou em uma explosão de areia e metal. Zoro avançava como uma força da natureza, seus cortes de três espadas abrindo caminho através dos Billions como se fossem feitos de papel. Gaby, por outro lado, era a agilidade encarnada. Suas duas espadas moviam-se em arcos precisos, desviando de balas e devolvendo ataques com uma velocidade que deixava rastros de luz no ar seco.
Em um momento crítico, três agentes tentaram cercar Gaby por trás enquanto ela desarmava um oponente. Sem precisar de uma palavra, Zoro girou sobre os calcanhares, executando um redemoinho de aço que lançou os agressores para longe antes que pudessem sequer erguer suas armas.
— Nas suas costas! — gritou Gaby logo em seguida, mergulhando por baixo do braço de Zoro para interceptar um agente que saltava com uma adaga envenenada.
O som do metal colidindo ecoou pelo deserto. Eles se moviam em uma sincronia assustadora, um ritmo que só poderia ser alcançado por dois guerreiros que confiavam plenamente na lâmina um do outro. Para quem assistia de fora, parecia que eles compartilhavam a mesma mente.
Quando o último agente caiu na areia, o silêncio retornou, pesado e quente. Luffy e os outros já haviam avançado para dispersar o restante dos inimigos mais à frente. Zoro e Gaby ficaram para trás por alguns segundos, recuperando o fôlego.
— Nada mal — disse Zoro, guardando as espadas. Ele olhou para Gaby e percebeu um pequeno corte em seu ombro, onde o tecido da camisa havia sido rasgado. — Você se machucou.
Gaby olhou para o ferimento e deu de ombros, embora a expressão em seu rosto fosse de leve irritação consigo mesma.
— Foi um erro de cálculo. A areia escorregou sob meus pés.
Zoro caminhou até ela. O espaço entre eles diminuiu, e o calor que emanava de seus corpos não era apenas o do sol de Alabasta. Ele estendeu a mão, hesitando por um milésimo de segundo antes de tocar levemente a pele ao redor do corte. O toque foi breve, mas carregado de uma tensão que fez o ar parecer ainda mais rarefeito.
— Não cometa erros de cálculo — disse ele, a voz rouca e baixa. — Eu não quero ter que carregar o seu corpo pelo deserto. Dá muito trabalho.
Gaby olhou nos olhos dele, encontrando a preocupação que ele tentava esconder atrás daquela fachada de durão. Ela sorriu, uma expressão suave que raramente mostrava a outros.
— Você é um péssimo mentiroso, Zoro. Você ficaria arrasado se algo acontecesse comigo, admita logo.
Zoro desviou o olhar, as orelhas ficando levemente avermelhadas.
— Vamos logo. O capitão idiota já deve estar quilômetros à frente.
Ao cair da noite, o deserto mudou de face. O calor sufocante deu lugar a um frio cortante e gélido. A tripulação montou um acampamento improvisado atrás de uma duna para se proteger do vento constante. Enquanto Sanji tentava improvisar uma sopa com os poucos suprimentos que restavam e Luffy dormia profundamente, Zoro se afastou para fazer a vigia.
Ele sentou-se no topo da duna, observando as estrelas que brilhavam com uma intensidade impossível no céu límpido. O silêncio da noite foi quebrado pelo som de passos leves na areia.
— O frio aqui é tão ruim quanto o calor — disse Gaby, aproximando-se e sentando-se ao lado dele. Ela estava enrolada em um manto de lã, mas ainda parecia tremer levemente.
— É o deserto — respondeu Zoro, sem olhar para ela. — Ele tenta te matar de todas as formas possíveis.
Gaby ficou em silêncio por um momento, observando o perfil de Zoro. A luz da lua suavizava suas feições, tornando-o menos intimidador e mais... humano.
— Por que você treina tanto, Zoro? — perguntou ela, a voz quase um sussurro no vento. — Eu vejo você todas as noites, mesmo quando está exausto. O que te move?
Zoro apertou o punho da Wado Ichimonji. A promessa feita em sua infância, o peso da espada de Kuina, o desejo de ser o maior para que seu nome chegasse aos céus... tudo isso passou por sua mente.
— Eu fiz uma promessa — disse ele, finalmente. — Eu vou ser o maior espadachim do mundo. Não importa o que eu tenha que sacrificar ou quanto sangue eu tenha que derramar. Eu não posso parar até chegar lá.
Gaby assentiu, compreendendo. Ela também tinha seus próprios fantasmas, suas próprias razões para empunhar o aço.
— É um sonho pesado — comentou ela. — Mas eu acredito que você vai conseguir.
Zoro virou o rosto para ela, surpreso com a convicção na voz dela.
— Você acredita?
— Eu vi você lutar, Zoro — disse ela, olhando-o nos olhos. — Eu vi a sua vontade. Espadachins comuns lutam com as mãos. Você luta com a alma. É por isso que eu aceitei o convite do Luffy. Eu queria ver até onde você pode chegar.
Zoro sentiu um calor súbito no peito, algo que não tinha nada a ver com o clima de Alabasta. Ele nunca foi bom com palavras, nunca soube como expressar o que sentia sem usar uma lâmina, mas com Gaby, parecia que ele não precisava de frases complexas.
— E você? — perguntou ele. — O que vai fazer quando eu chegar lá?
Gaby riu baixinho, um som que aqueceu o coração de Zoro mais do que qualquer fogueira.
— Eu vou estar lá para te desafiar pelo título, é claro. Você não achou que eu ia deixar você ficar no topo sozinho, achou?
Zoro deu um meio sorriso, um vislumbre raro de diversão genuína.
— Eu não esperaria nada menos de você.
Eles ficaram ali, sentados lado a lado, enquanto o vento soprava ao redor deles. A proximidade era reconfortante. Sem pensar muito, Zoro estendeu o braço e puxou Gaby para mais perto, permitindo que ela se encostasse em seu ombro para se proteger do frio. Ela não recuou; pelo contrário, aconchegou-se a ele, sentindo a solidez e o calor do espadachim.
— Zoro — chamou ela, após um tempo.
— O quê?
— Se um dia... se um dia as coisas ficarem difíceis demais... você me deixa lutar por você? Só por um momento?
Zoro ficou em silêncio por um longo tempo. Para ele, a ideia de ser protegido era estranha, quase ofensiva à sua honra. Mas, olhando para Gaby, ele percebeu que com ela era diferente. Não era sobre fraqueza, era sobre parceria.
— Só se você me deixar fazer o mesmo — respondeu ele, a voz firme.
— Combinado.
Eles permaneceram naquela posição até que o sono começasse a vencer a resistência de Gaby. Quando ela finalmente adormeceu, com a cabeça descansando no peito dele, Zoro permitiu-se um momento de vulnerabilidade. Ele encostou o queixo no topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de aço e poeira que agora ele associava à mulher que havia virado seu mundo de cabeça para baixo.
Ele sabia que Alabasta seria apenas o começo. Crocodile e seus oficiais não seriam fáceis de derrotar. Mas, pela primeira vez em sua vida, Roronoa Zoro não sentia que estava enfrentando o horizonte sozinho. Ele tinha uma tripulação de loucos e, ao seu lado, uma mulher que era sua igual em todos os sentidos.
Secretamente, enquanto observava o sol começar a dar os primeiros sinais de vida no horizonte, Zoro fez um novo juramento. Ele seria o maior espadachim do mundo, sim. Mas ele também seria o homem que garantiria que Gaby estivesse lá para ver cada vitória.
— Acorde — disse ele suavemente, quando os primeiros raios de luz atingiram a duna. — O deserto não vai esperar por nós.
Gaby abriu os olhos, piscando contra a claridade, e sorriu para ele.
— Eu já estou pronta, Roronoa. E você?
Zoro levantou-se, desembainhando suas espadas por um breve momento apenas para sentir o peso familiar e o equilíbrio perfeito.
— Eu nasci pronto.
Enquanto desciam a duna para se juntar aos outros, o brilho das lâminas de Zoro e Gaby refletia o sol nascente. Eles eram dois guerreiros, dois estilos diferentes, mas um único propósito. E em meio às areias de Alabasta, um amor silencioso e indomável como o aço estava sendo forjado, pronto para enfrentar qualquer tempestade que a Grand Line ousasse enviar.
A jornada continuava, e o amor silencioso de Roronoa Zoro, forjado no calor das batalhas e no frio das noites estreladas, era agora a sua lâmina mais afiada. Ele não precisava de grandes declarações; cada bloqueio, cada ataque coordenado e cada vigia noturna compartilhada eram suas palavras de afeto. E Gaby, a nômade que encontrara um porto, estava pronta para seguir aquele caminho, não importa para onde ele os levasse, desde que o aço de suas espadas continuasse a cantar em harmonia com o dele.