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Areia vs argila

Eco de um Deserto Silencioso

A caminhada sob o manto estrelado do deserto de Suna possuía uma cadência diferente naquela noite. O vento não soprava com a mesma agressividade, e o silêncio que antes era preenchido apenas pelo atrito das correntes de areia agora parecia carregado de uma eletricidade residual. Gaara mantinha os olhos fixos no horizonte, onde as formações rochosas da fronteira com o País da Terra começavam a se desenhar como sombras gigantescas contra o azul profundo do céu.

Atrás dele, Deidara não parecia disposto a facilitar a jornada. O loiro, embora exausto e com as roupas visivelmente castigadas, mantinha o queixo erguido e um sorriso que beirava o insolente.

— Sabe, Kazekage... — Deidara começou, sua voz ecoando com uma vibração divertida — Eu sempre ouvi dizer que o povo da areia era seco, sem vida. Mas você... hum... você tem um fogo bem escondido sob essa armadura de poeira. Quem diria que o "Demônio do Deserto" guardava tanta intensidade para um prisioneiro?

Gaara não parou de caminhar. Seus passos eram medidos, a postura impecável, mas a ponta de seus dedos, escondida pelas mangas longas, ainda formigava. A lembrança do calor da pele de Deidara, do contraste do suor contra a frieza de sua areia, era uma intrusa persistente em sua mente disciplinada.

— O veneno afetou suas faculdades mentais mais do que eu previ — respondeu Gaara, o tom de voz tão plano quanto a linha do horizonte. — Recomendo que guarde suas energias. O interrogatório na Vila da Pedra não será tão... flexível quanto este trajeto.

Deidara soltou uma risada anasalada, balançando o corpo levemente na plataforma de areia que o transportava.

— Flexível? — Ele arqueou uma sobrancelha, os olhos azuis faiscando sob a luz da lua. — Você chama aquilo de flexível? Você me prendeu contra aquelas rochas com tanta força que achei que ia me fundir à paisagem, hum. Foi uma performance técnica impressionante, admito. Mas a culpa é sua, Gaara. Um Alfa do seu calibre deveria ter mais autocontrole, não acha? Eu sou apenas um artista indefeso, vítima da sua... impulsividade.

Gaara finalmente parou. Ele girou o corpo lentamente, as correntes de areia que prendiam Deidara tencionando-se com o movimento. O Kazekage deu dois passos em direção ao loiro, reduzindo a distância entre eles até que Deidara pudesse ver o brilho esmeralda de seus olhos, desprovidos de qualquer hesitação.

— Você usa a palavra "indefeso" com uma liberdade que não condiz com o seu histórico criminal, Deidara — disse Gaara, a voz baixa e perigosamente calma. — E se deseja falar sobre autocontrole, deveria se lembrar de que foi você quem usou as bocas em suas mãos para marcar meus ombros enquanto implorava para que eu não parasse.

O rosto de Deidara esquentou instantaneamente. Ele abriu a boca para retrucar, mas as palavras pareceram travar em sua garganta. O loiro desviou o olhar por um segundo, bufando e tentando recuperar sua postura de superioridade.

— Isso foi... uma reação biológica! — exclamou Deidara, gesticulando com as mãos presas o máximo que a areia permitia. — O jutsu era potente, hum! Eu estava apenas... garantindo que a energia circulasse. Arte requer paixão, e eu não sou de fazer nada pela metade. Mas você... você parecia estar gostando um pouco demais de exercer sua autoridade, Kazekage.

Gaara inclinou levemente a cabeça, um gesto quase imperceptível de curiosidade.

— Eu sou sincero em minhas ações, Deidara. Diferente de você, não sinto necessidade de esconder a verdade sob camadas de sarcasmo. O que aconteceu foi uma consequência inevitável da situação, mas negar que houve uma conexão além do veneno seria... impreciso.

Deidara sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o vento frio da noite. A sinceridade de Gaara era mais desarmante do que qualquer jutsu de selamento. O ruivo não tentava se desculpar, não tentava agir como se nada tivesse acontecido por vergonha. Ele simplesmente aceitava a realidade com uma crueza que deixava Deidara sem chão.

— Você é um cara estranho, hum — murmurou o loiro, o tom de voz perdendo um pouco da agressividade provocadora. — Tão sério, tão direto. É irritante. Como você consegue olhar para mim depois daquilo e ainda fingir que sou apenas um "pacote" a ser entregue?

— Porque eu tenho um dever a cumprir — respondeu Gaara, voltando a caminhar e puxando a plataforma consigo. — Mas o fato de eu ser o Kazekage não apaga o fato de que sou um homem. E você, por mais que seja um criminoso, é um oponente que exige respeito... em todos os sentidos.

Eles continuaram em silêncio por algum tempo. O deserto parecia observar a dupla, as dunas mudando de forma conforme o vento soprava, como se quisessem apagar os rastros do que ocorrera horas antes. No entanto, para os dois, as marcas eram internas.

— Ei, Gaara — chamou Deidara após alguns minutos, o tom agora mais reflexivo, embora ainda carregado de sua ironia característica.

— Diga.

— Se não tivéssemos sido atacados por aquela fumaça... se estivéssemos apenas aqui, sob a lua... você teria me olhado daquele jeito? — O loiro fez uma pausa, lambendo os lábios. — Ou eu continuaria sendo apenas poeira no seu caminho?

Gaara parou novamente, mas desta vez não se virou. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que haviam protegido sua vila, mas que também haviam segurado Deidara com uma possessividade que o assustava.

— O destino é uma rede complexa, Deidara — disse Gaara suavemente. — O jutsu apenas acelerou algo que a tensão entre nós já estava construindo desde o momento em que nos enfrentamos pela primeira vez. A arte e a areia... ambas são moldadas pela vontade. Talvez, em outra vida, ou em outras circunstâncias, o resultado fosse o mesmo, apenas com um ritmo mais lento.

Deidara soltou um suspiro longo, fechando os olhos e sentindo o balanço suave da areia sob seu corpo.

— Você tem um jeito poético de ser um estraga-prazeres, hum. Mas admito... a sua areia não é tão monótona quanto eu pensava. Ela tem uma textura... interessante.

— Fico satisfeito que sua apreciação estética tenha se expandido — rebateu Gaara, e Deidara jurou ter ouvido um leve traço de humor na voz do Kazekage.

— Não se acostume com os elogios! — Deidara exclamou, recuperando sua energia birrenta. — Assim que eu me livrar dessas correntes, vou mostrar para você o que é arte de verdade. E desta vez, as explosões não serão... metafóricas.

— Estarei esperando — disse Gaara.

Conforme se aproximavam dos limites do território de Suna, a realidade da missão começava a pesar novamente. Em poucas horas, eles encontrariam o destacamento da Vila da Pedra. Deidara seria levado para uma cela de segurança máxima, e Gaara retornaria ao seu escritório, cercado por papéis e responsabilidades. O breve interlúdio de paixão e caos no deserto se tornaria uma memória proibida, um segredo guardado pelas areias escaldantes.

No entanto, enquanto o sol começava a dar os primeiros sinais de vida no leste, tingindo o céu de um rosa pálido que lembrava terrivelmente a cor da fumaça do jutsu, Deidara inclinou-se para frente, sussurrando perto do ouvido de Gaara quando a plataforma se aproximou do ruivo em uma subida íngreme.

— Sabe, Kazekage... se você sentir saudades do meu "temperamento explosivo", sabe onde me encontrar. Só não garanto que serei tão gentil quanto fui sob o efeito daquela droga.

Gaara parou na crista da duna, o vento agitando seu manto vermelho. Ele olhou para Deidara, e por um breve momento, a máscara de soberano caiu, revelando o Alfa persistente que havia dominado o renegado horas antes.

— Eu nunca deixo uma tarefa incompleta, Deidara. E nossa... conversa... ainda me parece inacabada.

Deidara sentiu um arrepio percorrer sua espinha, um sorriso largo e desafiador surgindo em seus lábios.

— Então é melhor você se preparar, hum. Porque a próxima vez que nos encontrarmos, eu vou garantir que seja você quem perca a voz.

Gaara assentiu levemente, um pacto silencioso selado entre o Kazekage e seu prisioneiro. Ele voltou a caminhar, levando consigo o homem que era sua antítese e, por um breve e intenso momento, sua metade mais selvagem. O deserto, eterno e imutável, guardava o segredo de que até a areia mais firme pode ser moldada pelo calor de uma explosão.