Areia vs argila
O Silêncio de Suna e o Estrondo de Iwa
O gabinete do Kazekage costumava ser o lugar mais silencioso de Sunagakure, um refúgio onde apenas o arranhar da caneta contra o papel e o ocasional sibilar do vento contra as janelas circulares quebravam a monotonia. No entanto, para Gaara, o silêncio havia se tornado um inimigo. Toda vez que ele fechava os olhos, o deserto voltava. Não o deserto vasto e vazio que ele governava, mas aquele pedaço específico de dunas onde o ar cheirava a flores silvestres e pólvora.
Ele se pegava encarando o horizonte por tempo demais. A imagem de Deidara, com os cabelos loiros espalhados pela areia e os olhos azuis nublados pelo desejo e pelo veneno, estava gravada atrás de suas pálpebras como uma cicatriz. Gaara era um homem de lógica, um Alfa que aprendera a domar seus instintos sob camadas de responsabilidade, mas aquela memória era persistente. Era uma explosão que se recusava a terminar.
— Gaara? Você ouviu o que eu disse? — A voz de Temari o trouxe de volta à realidade. Ela estava parada diante da mesa dele, com as mãos nos quadris e uma expressão de preocupação misturada com irritação.
— Peço desculpas, Temari. Estava distraído — respondeu Gaara, sua voz mantendo a neutralidade habitual, embora um leve tremor passasse por seus dedos sob a mesa.
— Você tem estado "distraído" há meses. Desde que voltou daquela missão de escolta para a Vila da Pedra — Temari estreitou os olhos, cruzando os braços. — Você entregou o prisioneiro, cumpriu o acordo diplomático, mas parece que deixou uma parte do seu juízo lá em Iwagakure.
Gaara desviou o olhar para o relatório sobre sua mesa. Ele não podia contar a ela. Ninguém sabia o que realmente aconteceu naquele entardecer escaldante. Para o mundo, fora apenas uma emboscada frustrada. Para ele, fora o momento em que sua armadura de areia finalmente encontrou algo capaz de rachá-la.
— Estou apenas cansado. O trabalho administrativo tem sido pesado — ele mentiu, uma habilidade que raramente precisava usar.
— Bem, talvez este novo relatório te acorde — Temari jogou um pergaminho com o selo oficial da Vila da Pedra sobre a mesa. — Chegou agora pouco por um mensageiro expresso. Parece que o seu prisioneiro favorito está causando problemas novamente, mas não do jeito que todos esperavam.
Gaara sentiu um aperto involuntário no peito. Ele abriu o pergaminho com movimentos lentos, tentando esconder a urgência que rugia em seu sangue. Conforme seus olhos percorriam as linhas escritas com a caligrafia rígida dos oficiais de Iwa, sua expressão, geralmente imperturbável, fraquejou.
O relatório detalhava o estado de saúde de Deidara. O renegado, que estava sob custódia em uma cela de isolamento de chakra, vinha apresentando um comportamento errático. Recusa de alimentos, episódios de tontura e uma queda drástica em sua resistência física. A princípio, os guardas acharam que era uma tentativa de greve de fome ou um plano de fuga, até que os exames médicos confirmaram o impossível.
Deidara estava grávido.
E havia mais. O documento revelava um segredo que o loiro guardara com unhas e dentes durante toda a sua vida como ninja: ele não era um Beta, como seus registros na Akatsuki e em Iwa sugeriam. Deidara era um Ômega, mestre em suprimir seu cheiro com o uso de substâncias químicas e pura força de vontade.
Gaara sentiu o mundo girar. O cálculo era simples, a cronologia era exata. O encontro no deserto. O veneno afrodisíaco que não servia apenas para despertar o desejo, mas para derrubar qualquer barreira hormonal.
— Gaara? — Temari deu um passo à frente, notando a palidez súbita no rosto do irmão. — O que diz aí? O prisioneiro fugiu?
— Não — Gaara disse, a voz soando como se viesse de muito longe. Ele se levantou, a areia em sua cabaça agitando-se em resposta ao seu tumulto interno. — Eu preciso ir para a Vila da Pedra. Imediatamente.
***
As celas subterrâneas de Iwagakure eram frias, úmidas e cheiravam a pedra molhada. Era o oposto absoluto do calor vibrante de Suna. Quando Gaara passou pelos portões de ferro, acompanhado pelos guardas que o olhavam com uma mistura de respeito e desconfiança, ele sentiu o cheiro antes de vê-lo.
Mesmo através dos inibidores de cheiro que a prisão impunha, havia um rastro. Um aroma que agora ele reconhecia como o verdadeiro cheiro de Deidara: argila fresca após a chuva e algo doce, como baunilha queimada. Era o cheiro de um Ômega, mas um Ômega que cheirava a perigo.
Quando a porta da cela pesada se abriu, Gaara viu a figura sentada no banco de pedra. Deidara parecia mais magro, o cabelo loiro estava opaco e preso de qualquer jeito, e suas roupas de prisioneiro eram largas demais. Ele estava com a cabeça encostada na parede, os olhos fechados, mas abriu-os assim que sentiu a presença de Gaara.
— Ora, ora... se não é o "Kazekage de Gelo" — Deidara tentou dar o seu sorriso insolente de sempre, mas a voz saiu rouca e sem força. — Veio ver o resultado da sua obra de arte? Hum.
Gaara sinalizou para que os guardas saíssem e fechassem a porta. Ele caminhou até o centro da cela, parando a uma distância segura, embora sua vontade fosse reduzir aquele espaço a zero.
— Você mentiu sobre o que era — disse Gaara, sua voz vibrando com uma intensidade que fez Deidara se encolher levemente.
— Eu não menti, eu omiti! — Deidara rebateu, recuperando um pouco de sua chama habitual. — Sabe o que acontece com um Ômega na Vila da Pedra, Gaara? Eles te transformam em uma ferramenta de reprodução ou te escondem em um escritório. Eu queria explodir coisas. Eu queria ser um artista. Betas podem ser artistas. Ômegas... Ômegas são propriedades.
Deidara tentou se levantar, mas uma onda de tontura o fez vacilar. Antes que ele pudesse cair, a areia de Gaara disparou, formando um suporte macio sob seus braços, mantendo-o firme. O loiro olhou para a areia com desprezo, mas não a afastou.
— E agora? — Gaara perguntou, aproximando-se. — O que você pretende fazer?
— O que eu pretendo? — Deidara soltou uma gargalhada amarga, levando a mão ao ventre ainda plano, mas que ele agora sabia carregar uma vida. — Eu estou em uma cela, sem argila, sem chakra e carregando o filhote de um Kazekage Alfa que me usou no meio do deserto. A minha arte... ela virou um desastre biológico, hum.
— Eu não usei você — Gaara disse, sua voz ficando mais profunda, o tom de um Alfa reivindicando sua verdade. — Nós fomos vítimas de um ataque, mas eu assumo a responsabilidade por cada toque, por cada escolha que fiz naquele momento. Eu não sabia que você era um Ômega, mas sabia que era você. E eu não vou deixar você aqui.
Deidara parou de rir. Ele olhou nos olhos de Gaara e viu a mesma persistência inabalável que encontrara nas dunas. Não havia piedade ali, o que ele agradecia. Havia uma determinação feroz.
— Você é louco — murmurou Deidara. — Iwa nunca vai me entregar para você. Eu sou um criminoso de guerra, um renegado.
— Iwa não quer um prisioneiro Ômega grávido de um líder de outra nação. Isso é um pesadelo diplomático para eles — Gaara deu mais um passo, desta vez ficando a centímetros de Deidara. — Eu já iniciei as negociações. Você será transferido para Suna, sob minha custódia pessoal. Você terá um lugar para ficar, cuidados médicos e...
— E o que mais? — Deidara o desafiou, inclinando a cabeça, o brilho azul de seus olhos desafiando o verde esmeralda de Gaara. — Você vai me trancar em uma torre de areia e me transformar em sua "esposinha" oficial? Hum?
Gaara estendeu a mão, hesitando por um segundo antes de tocar o rosto de Deidara. A pele do loiro estava fria, mas ele inclinou-se para o toque, um instinto Ômega que ele não conseguia mais suprimir.
— Eu vou te dar um lugar onde sua arte não precise de mentiras — disse Gaara. — E onde nosso filho não cresça em uma cela.
Deidara sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos, algo que ele odiava. Ele desviou o rosto, mas não se afastou do toque da mão de Gaara.
— Você ainda é um convencido, hum. Acha que pode resolver tudo com essa sua cara de santo.
— Eu sou um Alfa persistente, você mesmo disse — Gaara permitiu-se um pequeno e raro sorriso. — E você é um Ômega teimoso. Acho que a combinação ainda vai causar muitas explosões.
Deidara soltou um suspiro longo, o peso dos últimos meses parecendo diminuir um pouco. Ele olhou para Gaara, o sarcasmo ainda presente, mas suavizado por uma vulnerabilidade que ele só permitia que aquele homem visse.
— Se a comida em Suna for ruim, eu explodo o seu escritório, está ouvindo? Hum.
— Eu cuidarei para que seja do seu agrado — respondeu Gaara, envolvendo os ombros de Deidara com seu braço, sentindo o calor começar a retornar ao corpo do loiro.
Enquanto saíam da cela, Gaara sabia que o caminho à frente seria cheio de conflitos políticos e julgamentos. Mas, ao sentir o cheiro de Deidara — agora mais forte e misturado ao seu próprio cheiro de sândalo e terra — ele teve a certeza de que a maior obra de arte que eles criariam juntos estava apenas começando. No silêncio das pedras de Iwa, um novo estrondo se preparava, e desta vez, seria eterno.