Areia vs argila
Ecos de um Deserto em Mutação
A claridade da manhã em Sunagakure sempre trazia consigo uma secura que ardia nas narinas, mas para Deidara, o ar parecia mais denso do que o habitual. Ele estava sentado na sacada privativa do palácio, observando o movimento das pessoas lá embaixo, nas ruas circulares da vila. Seus dedos, outrora ocupados apenas com a criação de pássaros e aranhas explosivas, agora tamborilavam nervosamente sobre a superfície de uma mesa de pedra.
Ele sentia o peso. Não era apenas o peso físico da gravidez, que agora já se tornava uma presença constante e exaustiva em seu corpo, mas o peso das escolhas de Gaara. O Kazekage havia desafiado o Conselho, enfrentado as pressões de Iwagakure e colocado sua própria reputação em risco por causa de um prisioneiro e de uma criança que muitos consideravam um erro diplomático.
— Você está pensando demais de novo, hum — murmurou Deidara para si mesmo, sentindo um movimento brusco em seu ventre. — Calma aí, moleque. Se você for tão impaciente quanto o seu pai, estamos perdidos.
A porta da sacada rangeu levemente, e o cheiro familiar de areia e sândalo anunciou a chegada de Gaara. O ruivo não usava o chapéu de Kazekage; ele parecia mais jovem e, ao mesmo tempo, mais cansado sem os adornos oficiais.
— Os movimentos estão mais fortes hoje? — perguntou Gaara, aproximando-se com passos silenciosos.
Deidara deu um sobressalto leve, mas não se virou.
— Ele não para quieto, hum. Acho que ele está tentando esculpir o caminho para fora daqui. É um artista nato, com certeza.
Gaara parou ao lado dele, os olhos esmeralda observando o horizonte. O silêncio entre eles não era mais desconfortável, mas carregado de uma intimidade que ainda assustava o loiro.
— Recebi uma mensagem de Iwa hoje cedo — disse Gaara, a voz calma, mas com um subtexto de seriedade. — Onoki desistiu da extradição formal, mas sob uma condição: você deve ser oficialmente declarado morto nos registros de Iwagakure. Para eles, o renegado Deidara não existe mais.
Deidara soltou uma risada seca, finalmente olhando para o Alfa ao seu lado.
— Morto, hum? Que poético. O artista desaparece para que a obra possa continuar. Mas sabemos que isso é apenas uma desculpa para eles não admitirem que perderam um Ômega para o deserto.
— É uma oportunidade — Gaara rebateu, colocando a mão sobre o ombro de Deidara. — Sem o peso do seu passado como renegado, você pode começar algo novo aqui. Sob outro nome, se desejar.
— Outro nome? — Deidara arqueou uma sobrancelha, o brilho azul de seus olhos voltando a faiscar. — Eu sou Deidara, o mestre das explosões! Não vou me esconder atrás de um pseudônimo sem graça como se fosse um civil qualquer. Se o povo de Suna quer me odiar, que me odeiem pelo que eu sou, não por uma mentira que você inventou.
Gaara permitiu-se um pequeno sorriso. A teimosia de Deidara era, de certa forma, o que o mantinha são.
— Eu não esperava que você aceitasse facilmente. Mas a segurança de vocês é minha prioridade. O Conselho de Suna concordou em manter a sua presença em segredo para o público geral, desde que você permaneça sob vigilância constante. Minha vigilância.
— Vigiar um prisioneiro indefeso... — Deidara usou o mesmo tom provocador de meses atrás, inclinando-se um pouco mais perto de Gaara. — Você ainda gosta desse papel, não é, Kazekage? Aproveitou-se de mim naquela fumaça e agora quer me manter trancado na sua gaiola de ouro.
Gaara não recuou. Pelo contrário, ele se aproximou, sua presença de Alfa envolvendo Deidara como uma manta invisível.
— Nós dois sabemos que você nunca foi indefeso, Deidara. Nem naquele dia, nem agora. E se esta é uma gaiola, você sabe muito bem que tem a chave para a porta.
Deidara sentiu o rosto esquentar. Ele odiava quando Gaara era tão direto. Era mais fácil lidar com a areia e com as batalhas do que com aquela sinceridade avassaladora.
— Você é um chato, hum — resmungou o loiro, desviando o olhar. — Mas... obrigado. Por não me deixar voltar para Iwa.
O momento foi interrompido por um barulho de passos rápidos no corredor. Kankuro entrou sem bater, parecendo alarmado.
— Gaara! Temos um problema nos portões leste. Não é Iwa, nem o Conselho. É algo mais... instável.
Gaara franziu a testa, sua areia já começando a flutuar ao redor de sua cabaça.
— O que aconteceu?
— Um grupo de mercenários. Eles parecem estar usando algum tipo de jutsu experimental de dispersão de chakra. Eles não estão tentando entrar na vila, estão tentando "limpar" o perímetro com explosões de fumaça.
Deidara levantou-se abruptamente, ignorando a dor nas costas.
— Fumaça? Que tipo de fumaça, hum?
— É amarelada e cheira a enxofre — respondeu Kankuro, olhando para Deidara. — Os guardas que entraram em contato com ela estão agindo de forma estranha... agressiva e desorientada.
O rosto de Deidara empalideceu. Ele conhecia aquela descrição.
— É a mesma técnica — sussurrou Deidara, olhando para Gaara. — O veneno hormonal. Alguém quer repetir o que aconteceu no deserto, mas desta vez em larga escala.
Gaara sentiu uma fúria fria borbulhar em seu peito. A lembrança do ataque que os levara àquela situação era uma ferida aberta em sua mente. Alguém estava tentando usar a mesma arma contra seu povo.
— Fique aqui com o Deidara — ordenou Gaara para Kankuro. — Reforce o selamento da sala. Eu vou lidar com isso pessoalmente.
— Espere! — Deidara segurou o braço de Gaara. — Se for o mesmo veneno, você não pode ir sozinho. Se você for afetado no meio da vila...
— Eu sou o Kazekage, Deidara. Minha vontade é mais forte do que qualquer veneno — disse Gaara, mas seus olhos mostravam uma preocupação profunda. — Eu não vou permitir que Sunagakure sofra o que nós passamos por causa de um ataque covarde.
— Deixe-me ajudar, hum! — Deidara implorou, as bocas em suas mãos abrindo-se em agitação. — Eu conheço as misturas químicas de Iwa. Eu posso neutralizar a fumaça se eu tiver argila e os componentes certos.
— Você não está em condições de lutar — Gaara disse, olhando para o ventre de Deidara.
— Eu não vou lutar na linha de frente, seu idiota! — Deidara exclamou, irritado. — Eu posso criar pássaros de purificação. Se eu misturar o chakra do meu elemento explosivo com um agente neutralizante, posso detonar a fumaça antes que ela se espalhe. A arte pode salvar vidas também, hum!
Gaara hesitou. A lógica de Deidara fazia sentido, mas o risco era imenso. No entanto, ele conhecia o brilho nos olhos do loiro. Se ele o deixasse trancado, Deidara provavelmente explodiria a porta por dentro.
— Kankuro, leve-o para o laboratório de segurança. Dê a ele tudo o que ele pedir. Deidara... se você sentir qualquer desconforto, pare imediatamente.
— Sim, sim, agora vá logo antes que Suna vire um ninho de Alfas enlouquecidos, hum!
Gaara partiu como um rastro de areia vermelha, enquanto Kankuro guiava Deidara para as profundezas do palácio. O laboratório era um espaço amplo, equipado com o que havia de melhor em tecnologia ninja. Deidara começou a trabalhar imediatamente, suas mãos movendo-se com uma precisão que deixaria qualquer mestre artesão com inveja.
— Você realmente se importa com este lugar, não é? — perguntou Kankuro, enquanto observava Deidara misturar pós químicos com sua argila branca.
— Eu me importo com a minha arte, hum — respondeu Deidara, sem olhar para cima. — E eu me importo com o fato de que alguém está usando a minha técnica favorita para fins tão medíocres. Além disso... se esta vila cair, quem vai me trazer chá de jasmim e aguentar as minhas reclamações?
Kankuro deu um meio sorriso.
— Você é uma figura estranha, Deidara. Mas acho que entendo por que o Gaara gosta de você.
Enquanto isso, nos portões da vila, o caos começava a se instaurar. Gaara via a fumaça amarelada rastejando pelas dunas, como uma serpente faminta. Ele criou uma barreira de areia monumental, mas o veneno era sutil; ele penetrava pelas frestas, afetando os ninjas que tentavam conter a invasão.
Os mercenários eram ninjas renegados de várias vilas, movidos por dinheiro e pelo desejo de desestabilizar as Grandes Nações.
— Kazekage! — gritou um dos atacantes. — Vamos ver como o seu deserto reage quando o instinto fala mais alto que a lei!
Gaara sentiu o primeiro sopro da fumaça atingir seu rosto. Seu coração acelerou, e uma onda familiar de calor começou a subir por seu pescoço. Ele fechou os olhos, concentrando-se em sua defesa absoluta. Mas a fumaça era mais concentrada do que a do deserto. Ele sentiu sua visão embaçar.
De repente, um som agudo cortou o ar.
Lá do alto, vindo da direção do palácio, centenas de pequenos pássaros de argila branca voavam em formação de V. Eles não eram pássaros comuns; emitiam uma luz azulada e suave.
— Agora! — a voz de Deidara ecoou através de um rádio de comunicação no ombro de Gaara. — Explosão de Pureza, hum!
Os pássaros mergulharam na fumaça amarela e detonaram simultaneamente. Mas não houve o estrondo destrutivo de sempre. Em vez disso, houve uma liberação de pó branco que reagiu com o veneno, transformando a névoa tóxica em cristais inertes que caíram na areia como neve.
Em poucos segundos, o ar estava limpo.
Gaara respirou fundo, sentindo a clareza retornar à sua mente. Ele não perdeu tempo; com um movimento de mãos, a areia do deserto se ergueu como ondas gigantes, engolindo os mercenários antes que eles pudessem entender o que havia acontecido.
— Capturados — murmurou Gaara, antes de acionar o rádio. — Deidara? Você conseguiu.
Houve um silêncio do outro lado, seguido por um suspiro cansado.
— É claro que consegui, hum. Minha arte nunca falha. Mas... Gaara... é melhor você voltar logo. Acho que o esforço... acelerou as coisas.
O coração de Gaara falhou uma batida. Ele não esperou pelo relatório de Kankuro ou pela contagem de prisioneiros. Ele voou de volta ao palácio em uma velocidade que desafiava a própria física.
Quando chegou ao laboratório, encontrou Deidara sentado no chão, encostado em uma bancada. Kankuro estava ao lado dele, parecendo completamente perdido. Deidara estava pálido, o suor colando os cabelos loiros à testa, mas ele ainda mantinha um sorriso fraco.
— Você demorou, hum — disse Deidara, respirando com dificuldade. — A fumaça já era. Mas o seu herdeiro... ele quer ver o show de perto.
Gaara ajoelhou-se ao lado dele, pegando sua mão.
— Eu estou aqui. Vai ficar tudo bem.
— É bom que fique — Deidara apertou a mão de Gaara com uma força surpreendente. — Porque se esse moleque não for um gênio artístico depois de tudo o que eu passei, eu vou ter uma conversa séria com você, Kazekage.
As horas seguintes foram um borrão de dor, tensão e, finalmente, um grito agudo que ecoou pelas paredes de pedra do laboratório. Gaara, que já enfrentara exércitos e demônios, sentiu suas pernas tremerem quando Kankuro, com as mãos trêmulas, entregou-lhe o pequeno embrulho.
Era um menino. Tinha a pele clara de Deidara, mas quando abriu os olhos por um breve momento, o verde esmeralda de Gaara brilhou intensamente. E, para a surpresa de todos, o bebê tinha pequenas fendas nas palmas das mãos, ainda fechadas, mas presentes.
Deidara, exausto e quase sem voz, estendeu os braços. Gaara colocou o filho neles com uma reverência que nunca dedicara a nenhum líder mundial.
— Olhe só para você, hum — sussurrou Deidara, tocando o rosto do bebê. — Você é... uma obra de arte perfeita. Permanente, como o seu pai chato gosta.
Gaara sentou-se ao lado deles, envolvendo os dois em seus braços. Pela primeira vez em sua vida, o deserto não parecia um lugar de solidão, mas um berço.
— Ele é lindo, Deidara — disse Gaara, a voz embargada. — E ele terá o nome de um herói.
— Nada de nomes chatos de Suna, hum! — Deidara protestou fracamente. — Ele vai se chamar Akio. Aquele que brilha. Como uma explosão no céu noturno.
— Akio — Gaara concordou, beijando a testa de Deidara. — Akio de Sunagakure.
Nos dias que se seguiram, a vila de Suna começou a mudar. O nascimento do filho do Kazekage com o "prisioneiro morto" tornou-se um segredo aberto, um símbolo de que a união entre a areia e a explosão poderia criar algo novo. Temari, apesar de sua rigidez inicial, foi a primeira a segurar o sobrinho, e até o Conselho silenciou suas críticas diante da felicidade evidente de seu líder.
Deidara, agora vivendo oficialmente como o companheiro do Kazekage — embora ele ainda insistisse no termo "prisioneiro de luxo" para manter as aparências — passou a ensinar arte para as crianças da vila, embora sob estrita supervisão para garantir que nada realmente explodisse.
Em uma tarde tranquila, Gaara encontrou Deidara na mesma sacada de meses atrás. O loiro segurava Akio, que tentava morder um pequeno pássaro de argila inofensivo.
— Sabe, Gaara — começou Deidara, sem olhar para trás. — Eu ainda acho que você se aproveitou daquela situação no deserto. Um Alfa oportunista, hum.
Gaara abraçou-o por trás, pousando o queixo no ombro de Deidara e observando o filho.
— Talvez — admitiu Gaara. — Mas foi o melhor erro que eu já cometi.
Deidara sorriu, encostando a cabeça na de Gaara.
— Não foi um erro, seu idiota. Foi arte. E a arte... a arte é eterna, hum.
E ali, sob o sol poente do País do Vento, o deserto finalmente floresceu, não com água, mas com a promessa de que até as almas mais explosivas podem encontrar a paz no abraço silencioso da areia.