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Areia vs argila

O Som da Areia e o Eco da Arte

O silêncio matinal de Sunagakure era frequentemente interrompido pelo som do vento soprando entre as fendas das construções de arenito, mas dentro dos aposentos privados do Kazekage, o som era outro: o ritmo constante da respiração de Deidara. O loiro estava sentado à mesa de centro, as pernas cruzadas de forma desleixada, enquanto trabalhava com um afinco quase febril em um bloco de argila branca.

Suas mãos — as quatro — moviam-se com uma sincronia hipnotizante. As bocas nas palmas das mãos moldavam os detalhes finos, enquanto seus dedos longos estruturavam a forma maior. Gaara o observava da porta, sem fazer barulho. Ele notou como a silhueta de Deidara havia mudado; a curva de seu ventre agora era impossível de ignorar sob a túnica leve.

— Se continuar me vigiando assim, vou cobrar ingresso, hum — disse Deidara, sem desviar os olhos de sua obra. — Sua presença é tão sutil quanto uma tempestade de areia, Gaara.

Gaara deu um passo à frente, entrando no cômodo.

— Eu não queria interromper o seu processo criativo. Parecia... intenso.

Deidara soltou um suspiro e deixou a peça sobre a mesa. Era uma escultura de uma pequena ave, com as asas abertas em um ângulo que sugeria um voo iminente. Não era uma arma, não tinha chakra explosivo, mas possuía uma vivacidade que parecia pulsar.

— É frustrante — Deidara resmungou, limpando os restos de argila nas calças. — Criar algo que não se destina a sumir em um estrondo é... estranho. É como se a peça estivesse gritando para ser libertada, mas eu a condenei à eternidade.

Gaara aproximou-se e sentou-se no chão, ao lado dele. Ele estendeu a mão e, com a permissão silenciosa de Deidara, tocou suavemente a escultura.

— A eternidade tem o seu valor, Deidara. Nem tudo o que é belo precisa desaparecer para ser apreciado. Veja este bebê, por exemplo.

Deidara revirou os olhos, mas um pequeno sorriso brincou no canto de seus lábios.

— Você e sua obsessão com o "permanente". Mas admito... — Ele levou a mão ao próprio ventre, sentindo um movimento súbito. — Esse pequeno aqui tem o seu temperamento. Ele não para quieto. Acho que ele herdou minha energia explosiva, hum.

— Ou a minha persistência — rebateu Gaara, com um brilho suave nos olhos.

O momento de paz foi interrompido por uma batida firme na porta. Kankuro entrou, parecendo mais sério do que o habitual. Ele olhou para Deidara com uma neutralidade cautelosa — ele ainda não confiava totalmente no ex-membro da Akatsuki, mas respeitava a decisão do irmão.

— Gaara, o Conselho está reunido. Eles receberam notícias de Iwagakure. Parece que o Tsuchikage não está nada satisfeito com os "rumores" de que o prisioneiro dele está vivendo como realeza em Suna.

Gaara levantou-se imediatamente, sua expressão tornando-se a máscara estoica do Kazekage.

— Eu já esperava por isso. Onoki é um homem difícil de convencer, mas ele não tem jurisdição sobre o que acontece dentro destas muralhas.

— Eles estão exigindo uma prova de que ele ainda é um prisioneiro — continuou Kankuro, cruzando os braços. — E, mais do que isso, querem saber sobre a "condição" dele. A notícia da gravidez vazou, Gaara. Não temos como esconder mais.

Deidara levantou-se, a raiva começando a borbulhar em seu peito.

— Aquele velho gagá... — ele rosnou, as bocas em suas mãos abrindo-se e fechando-se em agitação. — Ele quer o quê? Me levar de volta para uma cela? Ele que tente, hum! Eu prefiro explodir esta vila inteira a voltar para aquele buraco úmido!

Gaara colocou uma mão firme no ombro de Deidara, um gesto que era ao mesmo tempo um consolo e um comando.

— Ninguém vai levar você. Kankuro, diga ao Conselho que eu estarei lá em dez minutos. E prepare uma resposta oficial para Iwa. Deidara está sob custódia direta do Kazekage por tempo indeterminado devido a questões de segurança nacional e saúde.

Kankuro assentiu e saiu, deixando um rastro de tensão no ar. Deidara virou-se para Gaara, seus olhos azuis faiscando de indignação.

— Você ouviu, não é? Eles estão me tratando como um objeto de negociação de novo. Eu odeio isso, Gaara. Eu odeio ser o motivo de você ter que se explicar para aqueles velhos decrépitos.

— Você não é o motivo — disse Gaara, aproximando-se até que seus rostos estivessem a poucos centímetros. — O motivo é a política e o medo. Eles temem o que você representa, e temem a mudança que este bebê traz para o equilíbrio de poder. Mas eu sou o Kazekage por uma razão. Eu protejo o que é meu.

Deidara bufou, mas a tensão em seus ombros diminuiu.

— "O que é seu"... você ainda usa essa frase. Você é muito possessivo para um cara que medita o dia todo, hum.

— Só com as coisas que realmente importam — Gaara respondeu, permitindo-se um breve toque no rosto de Deidara antes de se preparar para sair. — Fique aqui. Não saia por nada. A areia vai vigiar a porta.

— Eu sei, eu sei. Vou ficar aqui moldando bonequinhos de argila inofensivos enquanto você salva o mundo político, hum. Mas se as coisas ficarem feias, não espere que eu fique sentado esperando.

Gaara saiu, e Deidara voltou para sua mesa. No entanto, a inspiração para a ave havia sumido. Ele pegou um novo pedaço de argila e começou a moldar algo diferente. Algo mais robusto, mais imponente. Uma figura que lembrava uma cabaça, mas com detalhes que remetiam a chamas.

Enquanto trabalhava, ele sentiu uma pontada aguda em seu ventre. Ele parou, respirando fundo.

— Calma aí, pequeno artista — ele sussurrou para si mesmo. — Seu pai está lá fora lutando por nós. O mínimo que podemos fazer é não causar um colapso hormonal agora.

As horas passaram devagar. O sol atingiu o zênite e começou sua descida lenta. Deidara estava inquieto. Ele sentia o chakra de Gaara à distância — era uma presença constante, como o calor do deserto, mas parecia agitado. Algo não estava indo bem na reunião.

De repente, o som de vozes alteradas ecoou pelo corredor, vindo de fora de seus aposentos. A areia que Gaara deixara na porta começou a se mover, formando uma barreira defensiva. Deidara levantou-se, o instinto de combate despertando.

— Eu disse que ele está ocupado! — Era a voz de Temari, soando irritada.

— E nós dissemos que temos ordens do Conselho para verificar o estado do prisioneiro! — respondeu uma voz masculina que Deidara não reconheceu, mas que soava autoritária.

A porta foi aberta à força, a areia de Gaara reagindo violentamente, mas sendo contida por jutsus de vento de dois ninjas que acompanhavam um dos conselheiros da vila. Temari tentou intervir, mas estava sendo contida por protocolos que nem mesmo ela podia ignorar facilmente.

— Então é verdade — disse o conselheiro, um homem idoso com vestes cerimoniais, olhando para Deidara com um misto de fascinação e horror. — O renegado da Pedra carrega a linhagem do Kazekage. Isso é uma abominação diplomática.

Deidara sentiu o sangue ferver. Ele não tinha sua argila explosiva, mas tinha sua dignidade.

— Abominação é o seu hálito, velhote — Deidara cuspiu as palavras, dando um passo à frente, apesar do desconforto físico. — O que eu carrego não é da sua conta. Saia daqui antes que eu descubra se a sua cara é resistente a impactos, hum.

— Você ainda ousa ameaçar um membro do Conselho? — O homem sinalizou para os guardas. — Levem-no. Ele será transferido para a ala de segurança máxima até que o Kazekage recobre o juízo. Esta criança pertence a Suna, mas o pai é um criminoso que deve ser isolado.

— Toquem nele e eu garanto que não sobrará pedra sobre pedra nesta vila — a voz de Gaara ecoou pelo corredor, fria como o gelo profundo.

Ele apareceu na porta, e a pressão de seu chakra era tão esmagadora que os guardas recuaram instintivamente. A areia de sua cabaça flutuava ao seu redor, formando garras afiadas que pareciam prontas para dilacerar qualquer um que se atravessasse em seu caminho.

— Kazekage-sama! — o conselheiro exclamou, tentando manter a compostura. — Estamos apenas protegendo os interesses da vila! Este homem é um risco...

— Este homem é minha família — interrompeu Gaara, caminhando até ficar entre Deidara e os intrusos. — E qualquer um que ameace minha família, ameaça a mim diretamente. Eu fui claro na reunião, mas parece que alguns de vocês precisam de uma lição mais... prática.

A areia de Gaara avançou, não para atacar, mas para envolver os invasores e empurrá-los para fora do quarto com uma força irresistível. Ele fechou a porta com um estrondo, selando-a com uma camada densa de areia infundida com chakra.

O silêncio voltou, mas era um silêncio carregado de adrenalina. Gaara virou-se para Deidara, sua expressão suavizando-se instantaneamente quando viu o loiro segurando o ventre, com o rosto pálido.

— Você está bem? Eles tocaram em você?

— Eu estou bem, hum — Deidara ofegou, sentando-se novamente. — Só um pouco de agitação. Esse moleque realmente não gosta de discussões políticas. Ele chutou como se quisesse explodir minhas costelas.

Gaara ajoelhou-se diante dele, colocando as mãos sobre o ventre de Deidara. Ele fechou os olhos, enviando uma pequena pulsação de chakra calmante. Lentamente, Deidara sentiu a tensão diminuir.

— Sinto muito por isso — murmurou Gaara. — Eu achei que eles respeitariam minha autoridade por mais tempo.

— Eles nunca vão nos deixar em paz, não é? — Deidara olhou para Gaara, e pela primeira vez, não havia sarcasmo ou provocação em sua voz. Havia apenas uma verdade crua. — Enquanto eu estiver aqui, você será alvo de críticas. E enquanto ele estiver aqui, será visto como uma arma ou um erro.

Gaara pegou a mão de Deidara e a beijou suavemente.

— Então mudaremos o mundo para que ele tenha um lugar. Se Suna não for suficiente, criaremos um novo deserto. Mas eu não vou desistir de você, Deidara. Nem de nós.

Deidara sentiu o coração apertar. Ele sempre vivera para o momento, para a beleza que desaparece em um piscar de olhos. Mas ali, nas mãos de Gaara, ele estava começando a entender que a verdadeira arte não era apenas a explosão, mas a força necessária para manter a chama acesa contra o vento.

— Sabe, Gaara... — Deidara disse, recostando a cabeça no ombro do ruivo — ...você é um péssimo Kazekage por priorizar um criminoso contra o seu próprio conselho. Mas você é um Alfa decente, hum.

Gaara soltou uma risada leve, abraçando-o com cuidado.

— Eu farei o que for preciso. Agora, descanse. A tempestade lá fora ainda não acabou, mas aqui dentro, a areia sempre vai te proteger.

— Eu sei que vai — Deidara sussurrou, fechando os olhos. — Afinal, você é persistente demais para fazer qualquer outra coisa.

Naquela noite, enquanto a lua de Suna brilhava sobre as dunas, o Kazekage e o artista permaneceram juntos. Eles sabiam que os desafios apenas começavam — Iwagakure ainda exigiria respostas, o Conselho ainda tramaria nas sombras e a Akatsuki poderia surgir a qualquer momento. Mas, no silêncio daquele quarto, cercados por esculturas de argila e promessas de areia, eles encontraram uma paz que nenhuma explosão poderia destruir.

A arte, afinal, tinha muitas formas. E para Deidara, a mais bela de todas estava sendo moldada dia após dia, não em argila fria, mas no calor de uma vida que unia o deserto e a explosão em um único e eterno compasso.

— Gaara? — Deidara chamou baixinho, quase pegando no sono.

— Sim?

— Quando ele nascer... eu quero que ele tenha olhos como os seus. Mas o temperamento... o temperamento tem que ser meu. O mundo precisa de mais arte, hum.

Gaara sorriu na escuridão, apertando-o um pouco mais.

— Acho que o mundo não está preparado para outro Deidara. Mas eu estarei.

E no abraço da areia, o renegado finalmente encontrou o seu lar.