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Armas e seringas

O Alquimia do Medo e do Couro

A noite em que a cidade de Gotham — ou a pálida imitação dela que era aquela metrópole cinzenta — se calava, era o momento em que Renata se sentia mais viva. O porão de sua casa cheirava a uma mistura inebriante de mofo, ozônio e compostos químicos que fariam um inspetor sanitário desmaiar. As lâmpadas fluorescentes penduradas no teto baixo piscavam, lançando sombras errantes sobre as prateleiras repletas de béqueres, frascos de Erlenmeyer e restos orgânicos preservados em formol.

Renata estava em seu elemento. Ela vestia uma regata preta, o tecido fino revelando a ausência de sutiã e as curvas de seu corpo que a escola tanto ridicularizava. Por cima, um sobretudo verde claro, manchado de ácido em alguns pontos, conferia-lhe um ar de cientista louca de um filme B. Suas mãos estavam enfundadas em luvas de plástico azul, que estalavam toda vez que ela fechava os punhos.

O relógio de parede, com o ponteiro dos segundos quebrado que apenas tremia no lugar, marcava meia-noite.

Um ruído quase imperceptível veio da pequena janela de ventilação, rente ao solo do lado de fora. Uma sombra fluida, mais densa que a própria escuridão, deslizou para dentro. O Batman pousou com a leveza de um predador, o peso de sua armadura sendo absorvido pelos joelhos flexionados. A capa de Kevlar se fechou ao redor dele como as asas de um demônio.

Renata não se virou. Ela continuou mexendo uma solução azulada em um tubo de ensaio, os óculos grossos escorregando pelo nariz suado.

— Você é pontual, Breno. Eu adoro a pontualidade. É uma virtude tão... civilizada para alguém que passa as noites quebrando mandíbulas em becos sujos.

O Batman se levantou. A máscara escondia as feições de Breno, deixando apenas os olhos brancos e inexpressivos visíveis. A voz que saiu dele era processada, rouca e intimidadora, mas Renata sabia que, por trás do modulador, o coração de Breno batia com a ansiedade de um animal encurralado.

— Eu disse que viria. O que você quer desta vez, Renata? E não tente me amarrar de novo. Meus sensores estão ligados.

Renata soltou uma risadinha estridente que ecoou pelas paredes de concreto. Ela finalmente se virou, deixando o tubo de ensaio no suporte. Ela caminhou em direção a ele, a calça de moletom preta arrastando levemente no chão. O contraste entre a figura imponente do herói e a garota desleixada e suada era quase cômico, se não fosse pelo brilho maníaco nos olhos dela.

— Sensores? — Ela parou a poucos centímetros dele, invadindo seu espaço pessoal. O cheiro de borracha e suor dele a atingiu como um perfume caro. — Você acha que eu preciso de cordas para te segurar? Você está aqui por vontade própria, Breno. Você veio porque eu sou a única que vê o que está por baixo dessa fantasia ridícula.

Ela estendeu a mão enluvada e tocou o emblema do morcego no peito dele. O plástico da luva rangeu contra o material blindado.

— O herói de todos — debochou ela, deslizando a mão para cima, até tocar o pescoço onde a máscara encontrava a armadura. — O órfão que quer salvar o mundo porque não conseguiu salvar o próprio papai e a mamãe. Que clichê delicioso.

Breno agarrou o pulso dela. A força dele era esmagadora, mas Renata apenas sorriu, o rosto se aproximando do dele. Ela podia ver o suor escorrendo por baixo da borda da máscara.

— Você fala demais — rosnou ele. — Mostre o que você criou. Ou eu vou embora.

— Ah, a impaciência — disse ela, sem se abalar com a dor no pulso. Na verdade, ela parecia saborear a pressão dos dedos dele. — Venha aqui. Eu quero te mostrar a minha obra-prima.

Ela o conduziu até uma mesa central, onde uma seringa pneumática estava conectada a um pequeno frasco de líquido carmesim vibrante.

— Eu chamo de "O Sorriso do Rato" — explicou ela, os olhos brilhando por trás das lentes. — É uma mistura de adrenalina sintética, um inibidor de endorfina e um composto neuroquímico que eu extraí de glândulas de roedores submetidos a estresse extremo. Ele não cura você, Breno. Ele faz algo melhor. Ele amplifica cada terminação nervosa. Ele transforma a dor em uma sinfonia.

Breno olhou para a substância com desconfiança. Ele sabia que deveria sair dali. Sabia que Renata era instável, perigosa e, acima de tudo, obcecada por ele de uma forma doentia. Mas havia algo no modo como ela o tratava — sem a reverência dos cidadãos ou o ódio dos criminosos — que o prendia. Ela o tratava como uma peça de laboratório. E, de alguma forma, isso era libertador.

— Por que eu deixaria você injetar isso em mim? — perguntou ele, a voz vacilando ligeiramente.

— Porque você está cansado de não sentir nada — respondeu Renata, a voz agora baixa, quase doce em sua crueldade. — Porque quando você veste essa máscara, você tenta ser um símbolo, uma ideia. Mas aqui, comigo, você é apenas carne e osso. E a carne precisa ser lembrada de que está viva.

Ela soltou o pulso, ou melhor, ele a soltou. Ela pegou a seringa e a testou, um jato fino de líquido espirrando no ar.

— Tire a manopla, Breno. Deixe-me ver a pele. Deixe-me ver onde as cicatrizes começam.

Houve um longo silêncio no porão, interrompido apenas pelo zumbido elétrico de um dos geradores caseiros de Renata. Breno hesitou, sua mente lógica gritando para que ele disparasse o gancho e subisse pela ventilação. Mas sua mão se moveu quase involuntariamente. Ele soltou os fechos da manopla esquerda, revelando o antebraço pálido e musculoso, marcado por cortes antigos e marcas de queimaduras de batalhas passadas.

Renata soltou um suspiro de satisfação. Ela se aproximou, a respiração pesada e quente contra o braço dele.

— Tão bonito — sussurrou ela. — Tão destruído.

Ela posicionou a agulha sobre uma veia saltada. Antes de aplicar, ela olhou para cima, para os olhos brancos da máscara.

— Isso vai doer como nada que você já sentiu. E você vai me agradecer por isso.

Sem esperar por uma resposta, ela pressionou o gatilho. O mecanismo disparou com um estalo metálico.

Breno não gritou. O Batman não gritava. Mas seu corpo inteiro estancou. Seus músculos se contraíram com tanta força que pareciam prestes a rasgar o uniforme. Suas pupilas, escondidas pela lente, dilataram-se tanto que o mundo se tornou um borrão de luz e sombra. A dor não era localizada; era uma onda de choque que percorria sua coluna, fazendo cada nervo gritar em protesto.

Renata observava cada reação com uma atenção clínica e predatória. Ela circulou ao redor dele, as mãos nas coxas, observando o tremor nas mãos do herói.

— Isso... o que é... isso? — Breno conseguiu articular, a voz falhando, o modulador de voz distorcendo o som em um ruído metálico agônico.

— É a realidade, meu querido morcego — disse Renata, parando atrás dele e passando as mãos enluvadas pelos ombros largos da armadura. — Sinta o seu coração. Ele está batendo a cento e oitenta batidas por minuto. O sangue está correndo tão rápido que você pode ouvir o som dele nos seus ouvidos. Cada poro da sua pele está em chamas.

Ela se inclinou, encostando o rosto na nuca dele, onde o tecido era mais fino.

— Agora me diga... quem é a aberração aqui? A garota gorda com espinhas que todos ignoram, ou o bilionário que precisa de uma droga experimental no porão de uma estranha para se sentir humano?

Breno caiu de joelhos. O impacto do metal contra o concreto ecoou como um gongo. Ele apoiou as mãos no chão, a cabeça pendida. Ele estava vulnerável. Ele estava à mercê dela.

Renata ajoelhou-se à frente dele, segurando o queixo da máscara com as mãos de plástico. Ela o forçou a olhar para ela.

— Eu poderia fazer qualquer coisa com você agora, Breno — disse ela, o sarcasmo voltando à voz. — Eu poderia tirar essa máscara e mostrar para o mundo o garotinho chorão que você é. Eu poderia injetar um ácido nas suas veias e ver você derreter de dentro para fora.

Ela passou o polegar pela borda da boca da máscara, onde os lábios de Breno estavam cerrados, sangrando levemente pela pressão dos dentes.

— Mas eu não vou — continuou ela. — Porque eu gosto de você assim. Quebrado, mas funcional. O meu herói particular. O meu brinquedo que sempre volta para a caixa.

Breno sentiu a onda de dor começar a diminuir, sendo substituída por uma euforia fria e cortante. Seus sentidos estavam aguçados ao extremo. Ele podia ouvir o gotejar de uma torneira no andar de cima da casa. Podia sentir o calor emanando do corpo de Renata, o cheiro de óleo de cabelo dela que agora não parecia mais tão repulsivo, mas sim uma marca de propriedade.

— Você... é um monstro — murmurou Breno, tentando recuperar a compostura, embora ainda estivesse de joelhos.

— E você adora monstros — rebateu ela, soltando o rosto dele e se levantando com um ar de triunfo. — Caso contrário, não passaria suas noites caçando-os. Você só está frustrado porque encontrou um que não pode socar até que ele pare de rir.

Ela caminhou até uma mesa lateral e pegou uma revista em quadrinhos velha, cujas páginas estavam amareladas e gastas. Era uma edição clássica do Batman. Ela começou a folhear as páginas com desdém.

— Sabe o que eu acho engraçado? — Ela não esperou pela resposta dele. — Nos quadrinhos, o herói sempre ganha. Mas aqui? Aqui o herói está de joelhos no porão da Rata Gorda, esperando que ela lhe dê permissão para ir embora.

Breno se levantou lentamente. A agonia havia passado, mas o efeito do "Sorriso do Rato" ainda pulsava em suas veias, deixando-o em um estado de alerta hiperativo. Ele olhou para Renata, que agora estava sentada em um banco alto, balançando as pernas gordinhas e olhando para ele com um sorriso de escárnio.

— Por que você faz isso, Renata? — perguntou ele, a voz voltando ao tom frio habitual, mas com uma nota de exaustão. — O que você ganha com essa... essa tortura?

Renata fechou a revista e a jogou sobre a mesa. Ela ajustou os óculos e olhou para ele com uma seriedade súbita que o pegou desprevenido.

— O que eu ganho? Eu ganho a verdade, Breno. O mundo lá fora é uma mentira. As pessoas na escola fingem que se importam com o futuro enquanto se destroem por status. O seu avô finge que você é um neto normal enquanto financia a sua guerra particular. Você finge que é um símbolo de justiça.

Ela se levantou e caminhou até ele, parando tão perto que ele podia ver os poros obstruídos em suas bochechas.

— Eu sou a única coisa real na sua vida. Eu não finjo que gosto de você. Eu não finjo que sou bonita. Eu sou o que sou: uma cientista brilhante presa em um corpo que a sociedade odeia, com uma mente que poderia queimar esta cidade se eu quisesse. E você... você é o meu espelho. Tão feio por dentro quanto eu sou por fora.

Breno não desviou o olhar. Pela primeira vez, ele não sentiu apenas raiva ou humilhação. Ele sentiu uma conexão distorcida, um vínculo forjado em segredos e fluidos químicos.

— Eu deveria te prender — disse ele, embora não fizesse nenhum movimento para pegar as algemas em seu cinto.

— Mas não vai — sorriu ela, revelando os dentes tortos. — Porque se você me prender, quem vai te dar a sua dose de realidade? Quem vai te lembrar que, no final do dia, o morcego é apenas um rato com asas?

Ela deu um passo para trás, abrindo os braços como se apresentasse seu laboratório decrépito.

— Agora vá embora, Breno. O efeito da droga vai durar mais uma hora. Aproveite para bater em alguns criminosos comuns. Eles vão parecer tão lentos para você... vai ser como esmagar insetos.

Breno se virou para a janela de ventilação, mas antes de sair, ele parou.

— O que você quer para a próxima semana? — perguntou ele, sem olhar para trás.

Renata soltou uma gargalhada genuína, um som que preencheu o porão com uma alegria sombria.

— Traga-me uma amostra do gás do Medo do Espantalho se você conseguir capturá-lo. Eu quero ver se consigo sintetizar algo que faça até o Batman chorar como um bebê.

Breno não respondeu. Ele saltou pela abertura e desapareceu na noite, uma sombra retornando ao seu habitat natural.

Renata ficou sozinha no silêncio do porão. Ela tirou as luvas de plástico, jogando-as no lixo, e sentou-se em sua cadeira de balanço velha. Ela pegou um caderno de anotações e começou a escrever, sua caligrafia era rápida e precisa.

"Cobaia: Breno/Batman. Reação ao Composto 04 (Sorriso do Rato): Sucesso total. Aumento da percepção sensorial em 400%. Resposta emocional: Submissão mascarada por agressividade defensiva. Ele está voltando. Ele sempre volta."

Ela fechou o caderno e abraçou-o contra o peito, sentindo o suor esfriar em seu corpo. Ela sabia que amanhã, na escola, seria chamada de Rata Gorda novamente. Seria empurrada nos corredores e ignorada pelos professores. Mas ela não se importava.

Ela tinha o Rei de Gotham na palma da mão. E, no escuro de seu porão, ela era a única que sabia como fazer o morcego cantar.

Renata apagou a luz fluorescente, deixando o laboratório mergulhado na penumbra. Antes de subir as escadas para o seu quarto, ela murmurou para o vazio:

— Durma bem, meu herói. O laboratório estará esperando por você.

Lá fora, um trovão ecoou, anunciando a chuva que começava a cair sobre a cidade. No coração de Gotham, dois monstros compartilhavam um segredo que a luz do dia jamais poderia suportar. E para Renata, isso era mais do que amor, mais do que obsessão. Era a ciência perfeita da dor.