Armas e seringas
O Alquimia do Delírio e da Obsessão
O relógio digital na mesa de cabeceira de Renata brilhava em um vermelho estático, marcando 02:45 da manhã. O quarto dela era um santuário de caos organizado e adoração sombria. As paredes estavam cobertas por fotos granuladas de vigilantes, recortes de jornais sobre crimes não resolvidos e, claro, o rosto de Breno em diversas fases da vida, capturado por lentes que ele nunca soube que o seguiam. O cheiro de papel antigo misturava-se ao odor de gordura e ao perfume químico que parecia ter se impregnado na pele de Renata.
Ela estava sentada em sua escrivaninha, curvada sobre um caderno de capa dura. A luz de um abajur amarelado refletia em seus óculos, cujas lentes estavam manchadas com a oleosidade de seus dedos. Renata escrevia freneticamente, descrevendo as contrações musculares que observara em Breno horas antes. Ela parou por um momento para apertar uma espinha em sua têmpora, sentindo a dor aguda e familiar, um pequeno prazer privado que a mantinha focada.
Subitamente, o vidro da janela estremeceu. Antes que ela pudesse se virar, a moldura de madeira foi escancarada com uma violência desmedida. O ar frio da madrugada invadiu o quarto, trazendo consigo o cheiro de chuva e asfalto molhado.
Batman — ou o que restava da compostura dele — tombou para dentro do quarto. Ele não aterrissou com a graça habitual. Seus pés atingiram o assoalho com um baque pesado e ele tropeçou, colidindo contra uma estante de livros e derrubando várias edições de colecionador de revistas de super-heróis no chão.
Renata não se assustou. Ela fechou o caderno calmamente, um sorriso largo e grotesco surgindo em seu rosto redondo.
— Ora, ora... o morcego voltou para o ninho — disse ela, girando a cadeira de rodinhas para encará-lo. — Achei que você estaria ocupado demais quebrando ossos para vir me visitar tão cedo.
Breno arrancou a máscara com um movimento brusco, revelando o rosto pálido e suado. Seus olhos azuis estavam dilatados, as pupilas quase engolindo a íris, e ele parecia lutar para manter o equilíbrio. O efeito do "Sorriso do Rato" não havia diminuído; pelo contrário, parecia ter atingido um platô de agonia sensorial que ele não conseguia processar.
— O que... o que você fez comigo? — Breno rosnou, a voz sem o modulador soando crua e vulnerável. Ele deu um passo em direção a ela, mas cambaleou, segurando-se na borda da mesa dela. — Eu não consegui parar. Eu quase matei um homem num beco. Eu não conseguia sentir o limite... eu só sentia o impacto... o prazer do impacto.
Renata levantou-se lentamente. Ela era bem mais baixa que ele, e sua aparência desleixada — vestindo uma camiseta de pijama manchada e shorts largos — contrastava violentamente com a armadura tecnológica dele. Ela se aproximou, ignorando a fúria nos olhos dele.
— Você está sentindo, não está? — Ela estendeu a mão e tocou o rosto dele. Sua pele estava quente, febril. — A barreira entre o herói e o monstro finalmente caiu. Você não odeia o que eu te dei, Breno. Você odeia o fato de que você amou cada segundo disso.
Breno agarrou os ombros dela com força. Seus dedos enluvados apertaram a carne de Renata, mas ela apenas soltou um suspiro de satisfação, inclinando a cabeça para trás.
— Você é doente, Renata — disse ele, a respiração curta e pesada contra o rosto dela. — Você é uma parasita. Você se alimenta da minha dor porque não tem nada próprio para sentir.
— Talvez — admitiu ela, soltando uma risadinha anasalada. — Mas veja só quem atravessou a cidade no meio da noite para entrar no quarto da "Rata Gorda". Você poderia ter ido para sua mansão. Poderia ter ido para o seu laboratório limpo e caro. Mas você veio para cá. Por quê?
Breno a empurrou levemente contra a escrivaninha, mas não a soltou. Ele parecia estar em um transe, lutando contra o desejo de esmagar o pescoço dela e a necessidade desesperada de que ela fizesse a dor parar — ou continuar.
— Porque você é a única que sabe o que é isso — confessou ele, a voz falhando. — Ninguém mais... ninguém mais me olha como se eu fosse um animal de laboratório. Eles me olham com medo ou esperança. Você me olha como se eu fosse... seu.
Renata sorriu, e desta vez havia algo quase terno em sua expressão maníaca. Ela esticou a mão e ajeitou os cabelos pretos e úmidos dele, tirando-os de cima dos olhos azuis sem vida.
— Porque você é meu, Breno — sussurrou ela. — O mundo pode ter o Batman, mas só a Renata tem o Breno quebrado. Só eu sei como é o gosto do seu medo.
Ela se inclinou e, sem qualquer aviso, mordeu o lábio inferior dele com força. Breno soltou um gemido abafado, uma mistura de protesto e entrega. O gosto metálico do sangue preencheu a boca de ambos. Sob o efeito da droga dela, aquela pequena dor foi amplificada, transformando-se em uma explosão elétrica que percorreu a espinha de Breno.
Ele a beijou de volta com uma agressividade desesperada, um beijo que não tinha nada de romântico; era um choque de duas solidões patológicas. O cheiro dela, o suor, a pele oleosa, as imperfeições que o resto do mundo repudiava — naquele momento, para Breno, tudo aquilo era a única âncora de realidade em um mar de delírio químico.
Renata se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dele, seu rosto brilhando de satisfação.
— Você está tremendo, herói — debochou ela, passando a língua pelos próprios lábios, saboreando o sangue dele. — Onde está o seu autocontrole? Onde está o código moral do Batman?
— Ele morreu no momento em que eu deixei você me amarrar naquela cadeira pela primeira vez — respondeu Breno, as mãos descendo dos ombros dela para a cintura, apertando-a contra a armadura fria. — Você me infectou, Renata. Não só com as suas drogas, mas com essa sua... podridão.
— E você nunca esteve tão vivo — rebateu ela. — Admita. Aquelas garotas perfeitas da escola, as herdeiras que o seu avô quer que você namore... elas nunca fariam você se sentir assim. Elas querem o bilionário. Eu quero o monstro.
Breno fechou os olhos, encostando a testa na dela. Ele sentia o coração martelando contra o peito, uma arritmia provocada pela substância carmesim que ainda circulava em suas veias. Ele a odiava. Odiava o modo como ela o rastreava, o modo como ela sabia seus segredos, o modo como ela o transformava em uma cobaia de seus caprichos sádicos.
— Eu deveria te entregar para a polícia — murmurou ele, embora sua voz não tivesse convicção alguma.
— E dizer o quê? — Renata riu, o som vibrando contra o peito dele. — "Socorro, oficial, a garota esquisita da escola me deu um beijo e uma injeção de adrenalina"? Ninguém acredita na Rata, Breno. E ninguém acredita que o Batman é tão fraco a ponto de ser dominado por ela. Nós somos o segredo mais sujo de Gotham.
Ele a soltou abruptamente, cambaleando para trás até bater na parede oposta. Ele levou a mão à cabeça, tentando dissipar a névoa mental.
— Eu preciso de um antídoto — exigiu ele. — Agora.
Renata cruzou os braços sobre o peito, observando-o com um prazer clínico.
— Não existe antídoto, Breno. Seu corpo tem que processar isso. Mas eu posso te dar algo para ajudar a dormir. Algo que vai te fazer apagar por dez horas e acordar sentindo como se tivesse sido atropelado por um caminhão.
— Dê-me — ordenou ele.
Ela caminhou até uma prateleira escondida atrás de uma pilha de caixas de pizza vazias e retirou um frasco pequeno com um líquido opaco. Ela encheu uma seringa descartável com a precisão de quem já fizera aquilo mil vezes.
— Sente-se na cama — disse ela, apontando para o colchão bagunçado e coberto de migalhas.
Breno obedeceu, a exaustão finalmente vencendo a adrenalina. Ele sentou-se pesadamente, a armadura rangendo. Renata ajoelhou-se entre as pernas dele, pegando seu braço novamente.
— Você sabe que eu poderia te matar agora, não sabe? — Ela olhou para ele por cima dos óculos. — Uma bolha de ar na veia, a dosagem errada... e o Batman desapareceria para sempre.
— Você não faria isso — disse Breno, olhando para ela com uma frieza que ainda carregava um rastro da droga. — Você não teria mais com quem brincar.
Renata sorriu, as covinhas aparecendo em suas bochechas cheias de marcas.
— Exatamente. Você é precioso demais para ser descartado.
Ela aplicou a injeção. O efeito foi quase instantâneo. Breno sentiu seus membros ficarem pesados como chumbo. Sua visão começou a escurecer pelas bordas. Ele tombou para trás no colchão de Renata, o peso de sua armadura afundando nas molas velhas.
Renata subiu na cama, engatinhando até ficar sobre ele. Ela observou o rosto de Breno relaxar à medida que a inconsciência o levava. Ele parecia quase uma criança agora — o órfão perdido que ele tentava esconder sob camadas de Kevlar e sombras.
Ela passou os dedos pelos lábios dele, limpando o resto do sangue.
— Tão forte e tão fácil de quebrar — sussurrou ela para o quarto vazio.
Ela se deitou ao lado dele, encaixando seu corpo gordinho contra o flanco blindado do herói. Ela não se importava com o desconforto do metal ou com o fato de que ele acordaria furioso e possivelmente a ameaçaria novamente. Naquela madrugada, no silêncio de seu quarto bagunçado, ela era a dona do destino do maior símbolo de justiça da cidade.
Renata fechou os olhos, um suspiro de contentamento escapando de seus lábios. Ela sonharia com fórmulas químicas e morcegos presos em teias de aranha. E Breno, em seu sono induzido, sonharia com a única pessoa que ousava amá-lo pelo que ele realmente era: um homem tão quebrado e doente quanto a própria cidade que jurara proteger.
Lá fora, a chuva continuava a cair, lavando as ruas de Gotham, mas incapaz de limpar a toxicidade que florescia naquele quarto de subúrbio. A Rata e o Morcego estavam em paz, pelo menos até o próximo sinal do intervalo.
— Meia-noite na próxima sexta, Breno — murmurou ela antes de cair no sono. — Não se atrase.
O silêncio do quarto era interrompido apenas pela respiração pesada de Breno e pelo tique-taque do relógio, que agora marcava 03:15. A noite era longa, e para Renata, ela estava apenas começando.