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As crianças que sonham em ser piratas

O Despertar dos Guardiões de Pelúcia

Miu soltou um longo e profundo suspiro, o tipo de som que carrega o peso de mil preocupações e, ao mesmo tempo, a leveza de um dever cumprido. O vento noturno soprava com mais força agora, agitando seus cabelos brancos que se arrastavam pelo convés como uma névoa rasteira. Ela olhou para o relógio de bolso de ouro que carregava — um presente que ela mesma se deu para não perder a noção do tempo naquele oceano sem fim. Já passava da meia-noite.

— Hora de ver se meus pequenos anjos estão realmente descansando — murmurou para si mesma, um sorriso terno brincando em seus lábios vermelhos.

Ela se levantou da proa e começou sua caminhada habitual. O *Aethelgard* era vasto, mas Miu conhecia cada centímetro de metal e madeira daquela fortaleza. Ao passar pelas portas duplas que levavam aos dormitórios, ela não estava sozinha. Um urso de pelúcia gigantesco, com quase três metros de altura, feito de um tecido azul felpudo e usando um chapéu de marinheiro, aproximou-se dela com passos pesados, porém silenciosos.

— Relatório da noite, Sargento Fofura? — perguntou Miu, inclinando a cabeça para o lado.

O urso não falou — ele não possuía cordas vocais — mas acenou com a cabeça afirmativamente e fez um gesto de "joinha" com sua pata imensa. O Sargento Fofura era uma das criações de Miu, fruto da sua *Kuma Kuma no Mi: Modelo Brinquedo Vivo*. Diferente de outras Akuma no Mi que apenas transformavam pessoas, a fruta de Miu permitia que ela desse vida à sua imaginação. Tudo o que ela visualizava como um brinquedo ganhava forma e consciência sob seu comando.

Ela entrou no primeiro corredor dos dormitórios. O silêncio era pontuado apenas pelo som rítmico das ondas batendo no casco e pelo ronco suave que vinha de trás das portas. Miu abriu a porta do Quarto 100 ao 110. Lá dentro, as camas beliches estavam ocupadas por crianças que, apesar de terem poderes que poderiam nivelar cidades, agora pareciam apenas frágeis e inocentes.

Ela se aproximou da cama do número 104, o menino que mais cedo emanava radiação verde. Ele estava inquieto, chutando os lençóis. Miu estendeu a mão e, com um brilho suave emanando de seus dedos, materializou um pequeno coelho de pano que brilhava com uma luz calmante. Ela o colocou ao lado do menino. Instantaneamente, a expressão de 104 relaxou, e ele abraçou o brinquedo, mergulhando em um sono profundo.

— Durma bem, pequeno guerreiro — sussurrou ela.

Miu continuou sua ronda, passando por cada setor. No caminho para a ala leste, ela cruzou com uma boneca de porcelana do tamanho de uma mulher adulta, vestida com um uniforme de governanta impecável. A boneca carregava uma bandeja com xícaras de chá vazias, movendo-se com uma elegância mecânica e graciosa.

— Tudo em ordem na cozinha, Madame Rendas? — Miu indagou em voz baixa.

A boneca fez uma reverência perfeita, os olhos de vidro brilhando sob a luz dos candelabros.

— — As provisões para o café da manhã já estão organizadas, Senhorita Miu — respondeu a boneca com uma voz que soava como uma caixa de música antiga. — O número 2003 tentou assaltar a despensa de doces novamente, mas o Urso Padeiro o enviou de volta para a cama com um biscoito de aveia.

Miu soltou uma risadinha abafada.

— — Ele nunca desiste. Obrigada, Madame Rendas. Por favor, certifique-se de que os ursos da patrulha externa verifiquem se há umidade nos canhões de brinquedo. O ar está ficando denso.

— — Como desejar, minha senhora.

Miu seguiu em frente, mas seu coração apertou um pouco quando chegou à ala das crianças mais novas, aquelas abaixo do número 2500. Essas eram as que haviam chegado mais recentemente, as que ainda tinham os olhos arregalados de pavor quando alguém levantava a mão rápido demais.

Ao entrar no dormitório, ela viu que o número 2882, uma menininha cujas pernas haviam sido substituídas por próteses cibernéticas pelos cientistas, estava sentada na beira da cama, soluçando baixinho.

Miu apressou o passo, seus cabelos brancos balançando atrás dela, e sentou-se ao lado da pequena.

— — O que houve, querida? Outro pesadelo com as luzes brancas?

A menina olhou para Miu, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido.

— — Miu... eu sonhei que o navio afundava e que os homens de jaleco vinham nos buscar com redes de metal. Eles diziam que nós éramos propriedade deles... que não tínhamos nomes porque objetos não precisam de nomes.

Miu sentiu aquela chama de justiça arder em seu peito, mas a manteve sob controle, transformando-a em puro calor maternal. Ela abraçou a criança, permitindo que a menina escondesse o rosto em seu ombro.

— — Escute-me bem, 2882 — disse Miu, sua voz firme como o aço do navio. — Olhe ao seu redor. Este navio é feito de sonhos e de vontade. Ele é mais forte que qualquer rede de metal. E aqueles homens... eles nunca mais tocarão em um fio de cabelo seu. Sabe por quê?

A menina fungou, olhando para os olhos vermelhos e gentis de Miu.

— — Por quê?

— — Porque eu não sou apenas a Miu. Eu sou a criadora do exército mais fofo e mortal do mundo. E se eles ousarem aparecer, eu vou transformar os navios deles em barquinhos de papel e as espadas deles em pirulitos de limão. E se isso não for suficiente, você viu o Sargento Fofura? Ele está ansioso para testar o novo golpe de "Abraço de Urso Esmagador".

A menina deu um sorriso tímido, limpando os olhos.

— — O Sargento é muito forte.

— — Ele é. Mas você é mais — Miu beijou a testa da criança. — Agora, eu vou criar algo especial para você.

Miu fechou os olhos e concentrou sua energia. Entre suas mãos, fios de luz começaram a se entrelaçar, ganhando substância e cor. Em poucos segundos, um pequeno dragão de pelúcia verde-água, com asas de cetim e olhos de botão dourados, surgiu no ar. Ele soltou um folegozinho de fumaça que cheirava a baunilha e pousou no colo da menina.

— — Este é o Guardião dos Sonhos. Enquanto ele estiver com você, nenhum pesadelo terá coragem de entrar no seu quarto. Ele vai queimar todos os medos antes que cheguem perto.

A menina segurou o dragão com força, sentindo o calor que emanava do brinquedo.

— — Obrigada, Miu. Eu amo você.

— — Eu também amo você, pequena. Agora, descanse.

Miu saiu do quarto, sentindo-se um pouco mais cansada. Manter tantas criações vivas exigia uma quantidade considerável de energia mental, especialmente aquelas com personalidades complexas como Madame Rendas. Mas ela não se importava. Cada grama de energia gasta era um investimento na felicidade daquelas crianças.

Ela subiu para o convés superior, onde o vento soprava com mais força. O navio estava em modo de cruzeiro automático, guiado por um sistema de bússolas gigantescas operadas por um grupo de macacos mecânicos de corda. No entanto, algo no horizonte chamou sua atenção.

Miu estreitou os olhos. Seus olhos vermelhos tinham uma visão aguçada, capaz de perceber mudanças sutis na linha do mar. Havia uma névoa estranha se aproximando, uma névoa que não parecia natural. Ela não era cinza ou branca, mas tinha um tom levemente esverdeado.

— — Sargento Fofura! — chamou ela, sua voz cortando o silêncio da noite.

O urso azul apareceu instantaneamente ao seu lado, vindo das sombras da torre de comando.

— — Alerte os ursos de vigia. Algo está vindo. E não parece ser um simples navio pirata.

O urso bateu as patas uma na outra, e um som metálico ecoou pelo convés. De vários pontos do navio, outros ursos — alguns menores, outros armados com martelos de madeira gigante — surgiram de seus postos de descanso.

Miu caminhou até a borda e estendeu a mão para o mar.

— — Se for a Marinha, eles estão sendo tolos. Se for um Yonkou, eles estão sendo arrogantes.

De repente, a névoa se abriu, e três navios de guerra negros, sem bandeiras aparentes, mas com o símbolo do Governo Mundial discretamente gravado no casco, emergiram. Eles não dispararam canhões convencionais. Em vez disso, lançaram cápsulas de metal que voaram pelo ar, caindo com estrondo no convés do *Aethelgard*.

As cápsulas se abriram, liberando fumaça e figuras altas, vestidas com ternos escuros e máscaras de porcelana. Agentes da CP0.

— — Miu, a "Mãe dos Monstros" — disse o líder do grupo, sua voz distorcida pela máscara. — Você tem em sua posse propriedades valiosas do Governo Mundial. Viemos recuperar os experimentos 001 a 2994. Entregue-os agora e sua execução será rápida.

Miu sentiu um calafrio, mas não de medo. Era uma fúria fria, uma tempestade que se formava sob sua aparência delicada. Seus cabelos brancos começaram a flutuar, não pelo vento, mas pela pressão de sua aura.

— — Propriedades? — repetiu ela, sua voz soando como o estalar de gelo. — Vocês se referem às crianças que torturaram? Às vidas que tentaram apagar?

— — Elas foram criadas para servir — respondeu o agente, desembainhando uma lâmina de kairouseki. — E você cometeu um erro ao pensar que brinquedos poderiam protegê-las para sempre.

Miu deu um passo à frente. Ela parecia minúscula diante dos agentes treinados, mas sua presença preenchia o navio.

— — Vocês acham que eu crio brinquedos porque sou infantil? — perguntou ela, um sorriso sombrio surgindo em seu rosto. — Eu crio brinquedos porque o mundo é um lugar cruel demais para ser enfrentado com mãos vazias. E meus "brinquedos" têm uma característica única: eles não sentem dor, eles não hesitam e eles protegem o que amam.

Ela bateu as palmas das mãos.

— — Despertem, Guardiões do Jardim de Aço!

O chão do navio vibrou. Das escotilhas e compartimentos secretos, centenas de soldados de chumbo do tamanho de homens, com rifles que disparavam esferas de energia explosiva, marcharam em uníssono. Do alto dos mastros, bonecas de pano com lâminas de tesoura nos dedos desceram como aranhas silenciosas.

O Sargento Fofura soltou um rugido que não era de um urso, mas de um motor potente, e seus olhos de botão brilharam com uma luz vermelha ameaçadora.

— — Miu! — uma voz gritou do alto.

Era o número 1, que havia acordado com o barulho. Ele estava parado na varanda do dormitório superior, acompanhado pelos números 15 e 22.

— — Nós ouvimos, Miu. Eles voltaram — disse o número 1, seus punhos cerrados e emanando uma pressão de Haki que fez o ar estalar.

Miu olhou para eles e depois para os agentes da CP0, que agora pareciam um pouco menos confiantes diante do exército de brinquedos e das crianças modificadas que começavam a surgir nas sombras.

— — 1, leve os menores para o abrigo seguro no núcleo do navio — ordenou Miu. — 15 e 22, vocês ficam comigo. Mas lembrem-se da regra.

— — Conversar primeiro? — perguntou o número 15, flutuando alguns centímetros acima do chão.

— — Não — disse Miu, seus olhos brilhando com uma intensidade justiceira. — A regra de hoje é: ninguém toca nos meus filhos e sai inteiro deste navio.

Os agentes da CP0 avançaram, usando o *Soru* para se moverem como borrões. Mas eles foram interceptados não pelas crianças, mas por uma parede de ursos de pelúcia que absorviam os impactos de seus chutes e socos como se fossem feitos de borracha reforçada.

— — Meu turno — disse Miu.

Ela fechou a mão, e o ar ao redor dos agentes se transformou. O oxigênio parecia se solidificar, transformando-se em cubos de acrílico transparente que os prendiam como se fossem bonecos em caixas de exposição.

— — Vocês gostam de tratar os outros como objetos? — Miu caminhou calmamente até o líder, que lutava para quebrar o acrílico. — Então vamos ver como se sentem sendo parte de uma coleção.

O agente conseguiu quebrar a prisão usando o *Rankyaku*, mas ao aterrissar, foi atingido por um jato de água fervente disparado pela número 22, que controlava as correntes marítimas através de tubulações que Miu havia criado para ela.

A batalha no convés era um espetáculo caótico de cores e violência. Bonecos de madeira executavam manobras de esgrima perfeitas, enquanto o Sargento Fofura arremessava agentes para fora do navio como se fossem sacos de lixo.

Miu não usava força física. Ela era a maestrina daquela orquestra de brinquedos. Com um gesto, ela transformou o convés sob os pés dos inimigos em uma cama elástica, tirando o equilíbrio deles, e com outro, criou correntes de papel que eram tão resistentes quanto o aço para amarrá-los.

— — Vocês subestimaram o *Aethelgard* — disse ela, aproximando-se do último agente de pé. — Este não é apenas um navio. É um organismo vivo que se alimenta da esperança dessas crianças. E a esperança delas diz que vocês não pertencem a este lugar.

Com um movimento final, Miu materializou uma caixa de música gigante no centro do convés. Quando a manivela girou, uma melodia hipnótica ecoou, e todos os invasores restantes caíram em um sono induzido por ondas sonoras modificadas.

O silêncio retornou ao navio, quebrado apenas pelo som da caixa de música terminando sua canção. Os ursos começaram a recolher os corpos desacordados dos agentes para colocá-los em botes salva-vidas — Miu era justiceira, mas não era uma assassina a sangue frio, a menos que fosse absolutamente necessário.

— — Eles vão voltar com mais força, não vão? — perguntou o número 22, aproximando-se de Miu e segurando sua mão.

Miu olhou para o horizonte, onde a névoa esverdeada estava se dissipando.

— — Provavelmente. O Governo Mundial não gosta de perder seus "investimentos".

— — Deixe que venham — disse o número 15, cruzando os braços com um sorriso desafiador. — Nós temos a melhor capitã do mundo. E o exército de pelúcia mais durão dos mares.

Miu sorriu, sentindo o cansaço finalmente começar a cobrar seu preço. Ela olhou para seus filhos — pois era assim que ela os via, independentemente dos números em suas golas. Eles eram fortes, sim. Eram poderosos e, em muitos aspectos, perigosos. Mas ali, sob a luz da lua, eles eram apenas crianças defendendo seu lar.

— — Vamos voltar para dentro — disse ela, abraçando os dois jovens pelos ombros. — Madame Rendas provavelmente preparou chocolate quente para acalmar os nervos de todos. E eu ainda preciso terminar de contar a história para o grupo do dormitório 4.

— — Aquela sobre o herói que transformava montanhas em algodão-doce? — perguntou 22, os olhos brilhando.

— — Exatamente essa.

Enquanto caminhavam de volta para o interior do colosso de metal, os ursos de patrulha retomaram seus postos e os soldados de chumbo voltaram para suas posições de vigia. O *Aethelgard* continuou a deslizar pelas águas escuras do Novo Mundo, uma ilha de inocência guardada por brinquedos vivos e por uma mulher de cabelos brancos que desafiaria o próprio destino para garantir que o amanhã de suas crianças fosse sempre um pouco mais doce que o ontem.

Miu olhou uma última vez para o mar antes de fechar a porta pesada. Ela sabia que a jornada seria longa e que o mundo tentaria derrubá-los novamente. Mas enquanto ela pudesse imaginar, enquanto ela pudesse criar, o *Aethelgard* permaneceria invencível. Pois não havia poder no mundo maior do que a imaginação de alguém que luta por amor.