As crianças que sonham em ser piratas
O Pacto sob a Sombra da Imperatriz
As semanas que se seguiram ao ataque da CP0 foram de uma vigilância exaustiva. Miu mal dormia, passando as noites em claro no convés, observando o brilho das estrelas refletido no metal frio do *Aethelgard*. O navio, embora vasto e poderoso, parecia subitamente pequeno diante da imensidão das ameaças que o cercavam. As crianças, sentindo a tensão de sua protetora, tornaram-se mais silenciosas, seus olhos sempre voltados para o horizonte, esperando pelo próximo navio negro.
Mas o que surgiu no horizonte naquela tarde de sol escaldante não foi a Marinha.
O mar, antes calmo, começou a ser cortado por proas coloridas e grotescas. Um, dois, cinco... dez navios. A frota da Yonkou Big Mom, com suas velas decoradas com sorrisos maníacos e cascos que pareciam feitos de doces e pesadelos, cercou o *Aethelgard* em uma formação de pinça perfeita.
O sino de alerta não precisou ser tocado. O número 12, do alto do ninho de corvo, apenas sinalizou com a mão trêmula. Miu sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela conhecia aquela bandeira. Charlotte Linlin, a mulher que via o mundo como um bufê e as pessoas como ingredientes.
— Miu, o que a gente faz? — perguntou o número 15, flutuando ao lado dela, seus punhos cerrados, mas a voz carregada de uma incerteza que ele raramente demonstrava.
Miu não respondeu de imediato. Ela olhou para o convés, onde centenas de suas crianças já se posicionavam. O número 7 estava agachado, suas garras de felino raspando o chão de madeira, um rosnado baixo e gutural saindo de sua garganta. O número 104 emanava um brilho verde pálido, pronto para liberar sua energia. Os soldados de chumbo e os ursos de pelúcia gigantes formavam uma barreira física à frente dos menores.
— Fiquem calmos — disse Miu, embora suas próprias mãos estivessem tremendo dentro das dobras de seu vestido. — Não ataquem a menos que eu dê a ordem.
Um dos navios de Big Mom, uma caravela imensa com um mastro que parecia um bastão de açúcar, aproximou-se o suficiente para estender uma prancha de desembarque. Um homem alto, vestido com elegância e usando um chapéu que parecia um bolo de festa, caminhou calmamente em direção ao *Aethelgard*. Ele não desembainhou armas. Ele apenas caminhava, com uma aura de confiança absoluta que só os oficiais de um Yonkou possuíam.
Assim que ele pisou no convés de Miu, o som de rosnados aumentou. As "crianças-feras" — aquelas cujas modificações genéticas lhes deram instintos animais aguçados — avançaram um passo, os dentes à mostra. O número 1 e o número 1002 apontaram suas armas e poderes diretamente para o peito do homem.
— Afaste-se dela! — gritou o número 1002, seus braços mecânicos girando com um som metálico ameaçador.
O oficial parou, levantando as mãos em um gesto de paz, embora um sorriso condescendente brincasse em seus lábios.
— Que recepção calorosa para um simples mensageiro — disse ele, sua voz suave contrastando com a tensão explosiva do ambiente. — Eu não vim para lutar. Minha mãe tem um interesse especial neste... santuário flutuante.
Miu deu um passo à frente, atravessando a barreira de seus protetores. Ela parecia tão pequena, tão frágil com seus cabelos brancos tocando o chão, mas seus olhos vermelhos brilhavam com uma determinação desesperada.
— O que a Big Mom quer conosco? — perguntou Miu, sua voz falhando levemente.
O homem não respondeu com palavras. Ele retirou um Den Den Mushi de dentro do casaco. O caracol tinha batom nos lábios e um chapéu de pirata em miniatura. Quando ele começou a tocar, o rosto do animal se transformou, assumindo as feições aterrorizantes e dominadoras da Imperatriz do Mar.
— Mamã-mamã! — A risada estrondosa ecoou pelo convés, fazendo as crianças mais novas recuarem de susto. — Então você é a pequena Miu? A menina que brinca de bonecas com os tesouros do Governo Mundial?
Miu sentiu um nó na garganta.
— Sim, eu sou Miu. O que você quer, Linlin?
— — Ora, que modos são esses? — disse a voz de Big Mom através do caracol. — Eu soube do seu pequeno problema com a CP0. Eles são como formigas persistentes, não são? Sempre tentando recuperar o que acham que lhes pertence. Mas no meu território, o Totland, o Governo Mundial não tem jurisdição.
Miu estreitou os olhos, as lágrimas começando a se formar, não de medo, mas pela percepção terrível do que estava prestes a acontecer.
— — Você está nos oferecendo proteção? — perguntou ela, a voz baixa.
— — Proteção tem um preço, querida — respondeu Big Mom, o caracol arqueando as sobrancelhas. — Use a minha bandeira. Coloque o Jolly Roger da família Charlotte no seu mastro principal. Assim que o mundo vir que este navio é meu, ninguém — nem a Marinha, nem os Tenryuubitos — ousará tocar em uma única dessas suas crianças preciosas. Elas serão parte da minha grande família.
Miu sentiu uma lágrima quente escorrer por sua bochecha. Era a solução que ela passara noites procurando. Com a proteção de um Yonkou, as crianças estariam seguras. Elas poderiam crescer sem o medo constante de serem levadas de volta para os laboratórios. Mas ela sabia que nada era de graça com alguém como Linlin.
— — O que você quer em troca? — perguntou Miu, sua voz embargada. — O que uma Imperatriz quer de uma órfã e seus protegidos?
— — Mamã-mamã! Você tem talentos, Miu. E essas crianças... elas são espécimes fascinantes. Mas não discutiremos termos pelo telefone. Meus navios vão escoltá-la até Whole Cake Island. Vamos tomar um chá e conversar pessoalmente sobre o nosso acordo.
O oficial guardou o Den Den Mushi e fez uma reverência curta.
— — O convite está feito, Senhorita Miu. Os navios da Imperatriz abrirão caminho para o seu navio. Sugiro que não nos faça esperar. A paciência de minha mãe é tão curta quanto o seu apetite é grande.
Miu caiu de joelhos no convés, o peso da decisão esmagando seus ombros. O número 1 correu para o seu lado, colocando uma mão em seu ombro.
— — Miu, não faça isso — sussurrou ele. — Nós podemos lutar. Podemos fugir para o Cinturão de Calmaria, para onde for! Não precisamos nos tornar subordinados de um monstro.
Miu olhou para ele, as lágrimas agora fluindo livremente, manchando seu rosto delicado.
— — Lutar contra quem, 1? Contra o mundo inteiro? — Ela olhou para as crianças menores, que a observavam com olhos cheios de confiança e medo. — Eu não posso mais esconder vocês. Se a CP0 voltar com um Almirante, eu não poderei protegê-los. Se a Big Mom nos atacar agora, o *Aethelgard* se tornará um caixão de metal.
— — Mas ela vai nos usar! — exclamou o número 15, pousando no chão com força. — Ela vai nos tratar como ferramentas, exatamente como eles faziam!
— — Não — disse Miu, levantando-se e limpando o rosto com as costas das mãos. — Eu vou garantir que isso não aconteça. Eu vou negociar. Se eu tiver que vender a minha liberdade, a minha própria vida, para que vocês possam dormir sem pesadelos, eu farei isso.
Ela caminhou até a borda do navio, olhando para a frota colorida que a cercava. O oficial ainda a esperava, imóvel como uma estátua.
— — Nós iremos — anunciou Miu, sua voz ressoando com uma autoridade triste. — Digam aos seus navegadores para liderarem o caminho. O *Aethelgard* seguirá para Whole Cake.
O oficial sorriu e voltou para o seu navio. Lentamente, a frota de Big Mom começou a se mover, e o gigantesco navio de Miu, o santuário que ela construíra com tanto amor e suor, começou a segui-los como um prisioneiro sendo levado para a sua cela.
As semanas seguintes foram de uma calma sepulcral. O navio atravessou as águas do arquipélago de Totland, onde o mar tinha cor de suco e as ilhas eram feitas de chocolate e biscoitos. Para as crianças, era um cenário de conto de fadas, mas para Miu, cada ilha que passavam parecia uma barra de uma cela dourada.
Ela passava os dias preparando as crianças, instruindo-as a serem educadas, a não demonstrarem seus poderes a menos que fosse necessário e, acima de tudo, a permanecerem juntas. Ela passou horas conversando com Madame Rendas e o Sargento Fofura, dando-lhes instruções de emergência caso ela não retornasse da audiência com a Imperatriz.
Finalmente, as torres de creme de Whole Cake Island surgiram no horizonte. O cheiro de açúcar e fermento era tão forte que chegava a ser enjoativo. O *Aethelgard* atracou em um porto especial, longe dos olhares curiosos dos cidadãos.
Miu se vestiu com o seu melhor vestido, um traje branco puro que acentuava sua aparência frágil e seus longos cabelos de neve. Ela não levou armas. Ela levou apenas sua coragem e a pequena caixa de música que usava para acalmar os pequenos.
— — Eu vou com você — disse o número 1, parando diante dela na passarela de desembarque.
— — Não, 1 — disse Miu, tocando o rosto do jovem. — Você é o mais velho. Se algo acontecer comigo, o navio é seu. Você conhece os sistemas, você sabe como operar o motor de emergência. Se eu não voltar em seis horas... você tira este navio daqui. Não olhe para trás.
— — Miu...
— — É uma ordem, filho — disse ela, com um sorriso triste que partiu o coração do rapaz.
Miu desceu a passarela sozinha. O caminho até o castelo de Big Mom era pavimentado com o que parecia ser caramelo endurecido. Guardas feitos de biscoito e soldados de xadrez a escoltavam, mas ela mal os notava. Seus olhos estavam fixos no imenso palácio à frente.
Ao entrar na sala do trono, o calor era opressor. Homens e mulheres de aparência bizarra, todos membros da família Charlotte, estavam alinhados nas laterais. E no centro, sentada em um trono que parecia pequeno para sua estatura colossal, estava Big Mom. Ela estava cercada por comida, mastigando grandes pedaços de um bolo que ainda parecia gritar.
Miu caminhou até o centro da sala e fez uma reverência profunda, seus cabelos brancos se espalhando pelo chão como um tapete de seda.
— — Eu estou aqui, Imperatriz Linlin — disse ela, sua voz ecoando pelo salão imenso.
Big Mom engoliu o último pedaço de bolo e fixou seus olhos amarelados na pequena figura à sua frente. Um sorriso ganancioso se abriu em seu rosto, revelando dentes que poderiam esmagar ossos.
— — Mamã-mamã! Você é ainda mais delicada do que me disseram. Parece uma boneca que eu poderia quebrar com um dedo.
— — Eu não sou uma boneca — disse Miu, levantando a cabeça. Seus olhos vermelhos encontraram os de Big Mom sem vacilar. — Eu sou a protetora de 2994 vidas. E vim saber o que você quer para deixar meu navio em paz.
Big Mom soltou uma gargalhada que fez os candelabros de cristal vibrarem.
— — Eu gosto de você! Você tem espinha dorsal para alguém tão pequena. Muito bem, Miu. Vamos falar de negócios. Meu sonho é criar um mundo onde todas as raças possam se sentar à mesma mesa e comer como uma família. E o seu navio... ele é uma coleção perfeita de tudo o que o mundo tentou descartar.
Ela se inclinou para frente, sua sombra cobrindo Miu completamente.
— — Eu quero a sua lealdade. Eu quero que o seu navio seja a minha creche real. Você continuará cuidando das suas crianças, mas elas serão treinadas pelos meus oficiais. Elas serão a elite do meu exército. E em troca... — Big Mom estendeu a mão, apontando para a janela, onde a bandeira de Miu ainda tremulava ao longe. — Eu darei a elas o meu nome. Ninguém tocará nelas, pois tocar nelas será o mesmo que declarar guerra a mim.
Miu sentiu o coração disparar. Treiná-las para serem soldados? Era exatamente o que ela queria evitar. Mas o que era pior? Ser um soldado de um Yonkou ou uma cobaia de laboratório do Governo Mundial?
— — Eu tenho condições — disse Miu, sua voz surpreendendo até a si mesma pela firmeza.
Os membros da família Charlotte sussurraram, chocados com a audácia. Perospero, o filho mais velho, soltou uma risadinha nervosa.
— — Condições? — rugiu Big Mom, o céu lá fora começando a escurecer conforme seu humor mudava. — Você ousa ditar termos para mim?
— — Eu exijo que elas continuem sendo crianças primeiro — disse Miu, dando um passo à frente, ignorando a pressão esmagadora do Haki de Big Mom. — Elas não participarão de guerras até que tenham idade para decidir por si mesmas. Elas terão educação, tempo para brincar e não sofrerão nenhum experimento adicional. Se você quer a lealdade delas, deve conquistá-la com o que eu lhes dou: amor e cuidado. Brinquedos quebrados não servem para nada, Linlin. Mas crianças felizes... elas moverão montanhas por quem as protege.
O silêncio na sala era absoluto. Big Mom encarou Miu por um longo tempo, a tensão crescendo até o ponto de ruptura. De repente, a Imperatriz soltou outra risada, desta vez mais leve, mas não menos assustadora.
— — Amor e cuidado? Que conceito patético e fascinante! — Ela pegou uma taça de suco e a ergueu. — Aceito suas condições, por enquanto. Mas saiba de uma coisa, Miu: se você falhar em me entregar resultados, se essas suas crianças "felizes" se mostrarem fracas... eu mesma comerei cada uma delas no meu próximo banquete.
Miu sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mas manteve a postura. Ela sabia que tinha acabado de fazer um pacto com o diabo, mas era o único pacto que garantia um amanhã para seus pequenos.
— — Elas não falharão — disse Miu. — E eu também não.
— — Ótimo! — exclamou Big Mom. — Agora, chega de conversa séria. Tragam o chá! Temos um novo navio na frota e uma nova filha para celebrar!
Miu permaneceu ali, cercada por monstros e doces, sentindo as lágrimas voltarem aos olhos. Ela havia salvado as crianças do Governo Mundial, apenas para entregá-las a uma Imperatriz. Mas, enquanto caminhava de volta para o navio naquela noite, sob a escolta de soldados de chocolate, ela olhou para o *Aethelgard* e viu as luzes acesas.
Ela viu o Sargento Fofura fazendo a patrulha. Viu o número 1 esperando por ela na proa. E, pela primeira vez em semanas, ela sentiu que, embora o caminho à frente fosse perigoso e sombrio, eles ainda tinham uma chance.
— — Eu sinto muito — sussurrou ela para o vento, enquanto a bandeira de Big Mom era içada ao lado da sua. — Mas eu prometo... eu farei deste inferno um lugar onde vocês ainda possam sorrir.
O Jardim de Aço agora tinha uma nova dona, e Miu, a justiceira de cabelos de neve, tornara-se a governante de um paraíso vigiado. A guerra pelo futuro das crianças estava apenas começando, e agora, ela tinha o monstro mais poderoso do mar ao seu lado — mesmo que o preço fosse a sua própria alma.