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As crianças que sonham em ser piratas

O Labirinto de Vidro e o Sussurro da Aliança

A cúpula azul de Trafalgar Law brilhava com uma intensidade etérea, preenchendo o quarto médico do *Aethelgard* com uma luz que parecia pulsar no ritmo do coração fraco de Miu. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo bipe rítmico dos monitores e pelo som suave do bisturi de Law cortando o espaço. Luffy estava sentado no chão, encostado na porta, com o chapéu de palha cobrindo os olhos, mas sua aura estava alerta, uma sentinela silenciosa que afastava qualquer sombra de dúvida.

— *Scan* — murmurou Law, movendo as mãos como um maestro regendo uma sinfonia invisível. — Chopper, prepare o soro de recuperação celular. O tecido está mais danificado do que eu previ. Ela não estava apenas usando a Akuma no Mi; ela estava fundindo a própria força vital às engrenagens deste navio.

— Entendido! — Chopper movia-se com agilidade entre as prateleiras de medicamentos, misturando ervas raras de seu estoque com os compostos sintetizados do laboratório de Miu. — Ela é tão teimosa quanto o Luffy... É como se ela tivesse medo de que, se fechasse os olhos por um segundo, tudo isso desaparecesse.

No centro da sala, o corpo de Miu parecia quase transparente. Seus longos cabelos brancos haviam sido cuidadosamente presos para não interferirem, mas alguns fios escapavam, brilhando como fibras ópticas sob a influência do *Room*. Law trabalhava com uma concentração feroz. Com a *Ope Ope no Mi*, ele não precisava abrir grandes incisões; ele simplesmente "trocava" a doença por saúde, removendo as células corrompidas e reorganizando os órgãos internos que haviam sido deslocados pela pressão constante do estresse.

— — Pronto — disse Law após horas que pareceram séculos. Ele desativou a cúpula azul e cambaleou levemente, limpando o suor da testa com o antebraço. — Eu removi os focos principais. Mas a regeneração total depende dela. O corpo dela é como um brinquedo que ficou sem corda por tempo demais.

Luffy levantou a cabeça. Seus olhos encontraram os de Law.

— — Ela vai ficar bem, não vai?

— — Fisicamente, eu fiz o que pude, Luffy-ya. Mas ela precisa de um motivo para não assumir o fardo de novo assim que acordar. Se ela sentir que o navio está em perigo, ela vai quebrar o próprio corpo outra vez.

Enquanto Miu permanecia em um estado de repouso profundo, o mundo lá fora, no convés do *Aethelgard*, estava passando por uma transformação. Nami e Robin haviam assumido a tarefa de organizar as crianças. Não era uma tarefa fácil; quase três mil crianças modificadas, cada uma com uma habilidade potencialmente letal, eram um barril de pólvora.

— — Escutem todos! — gritou Nami, subindo em cima de uma caixa de provisões e usando um megafone. — A Miu está descansando. Ela passou o bastão para nós por enquanto. Eu quero todos os grupos de limpeza nos setores 4 e 5, e nada de usar poderes de fogo perto das cortinas!

O número 1 aproximou-se de Robin, que estava sentada em um banco, lendo um dos diários de bordo de Miu para entender a rotina do navio.

— — Por que vocês estão fazendo isso? — perguntou o rapaz, seus olhos fixos na pirata. — Vocês são piratas do Novo Mundo. Deveriam estar nos saqueando ou nos entregando para o Governo por uma recompensa bilionária.

Robin fechou o livro lentamente e olhou para o jovem com um sorriso enigmático.

— — Às vezes, o tesouro mais valioso não é feito de ouro, mas de liberdade. Luffy não vê números ou experimentos aqui. Ele vê a irmã dele e um bando de crianças que precisam de um tempo para respirar. Além disso... — Ela gesticulou para o horizonte. — O mundo é um lugar muito barulhento. Silêncio e segurança são luxos que nós entendemos bem.

No refeitório, o caos era mais alegre. Sanji havia assumido a cozinha, expulsando os ursos padeiros com uma colher de pau, embora logo os tenha recrutado como ajudantes de cozinha. O cheiro de um ensopado de carne com especiarias e pães recém-saídos do forno inundava os corredores, fazendo com que centenas de estômagos roncassem em uníssono.

— — Ei, você aí, número 15! — gritou Sanji, equilibrando cinco pratos em cada braço. — Pare de flutuar e ajude a servir o suco! Se você deixar cair uma gota, vai limpar o chão com a língua!

— — Sim, senhor cozinheiro! — respondeu o menino, rindo pela primeira vez em dias.

Enquanto isso, no convés principal, Zoro treinava com os números mais velhos. Ele não usava suas espadas, apenas bastões de madeira, ensinando-lhes a diferença entre força bruta e disciplina.

— — Vocês têm poder, mas não têm foco — dizia Zoro, desviando de um jato de energia do número 104 com um movimento minimalista. — Se vocês dependerem apenas do que os cientistas enfiaram em seus genes, serão sempre escravos dessa herança. Aprendam a dominar a própria vontade.

Dois dias se passaram sob essa rotina incomum. O *Aethelgard* parecia mais vivo, menos como uma fortaleza sombria e mais como uma embarcação de verdade. No terceiro dia, Miu finalmente abriu os olhos.

A luz não a cegou desta vez. Ela sentiu uma leveza estranha, como se o peso de chumbo que carregava no peito tivesse sido substituído por algodão. Ela tentou se sentar, e desta vez, seus braços não tremeram.

— — Devagar, Miu — disse uma voz suave ao seu lado.

Era Robin, que estava sentada em uma poltrona próxima, lendo.

— — Onde... onde está o Luffy? — perguntou Miu, sua voz soando clara e firme pela primeira vez.

— — Ele está no convés, tentando pescar um monstro marinho gigante com o Usopp e o Brook. Eles quase derrubaram o mastro principal duas vezes hoje.

Miu sorriu. Ela sentiu a energia fluindo por seu corpo. Law realmente fizera um milagre. Ela se levantou, percebendo que Madame Rendas havia deixado um vestido limpo e suas botas favoritas ao lado da cama. Ela se vestiu rapidamente, sentindo uma disposição que não conhecia há anos.

Ao sair para o convés, a cena que encontrou a fez parar. Centenas de crianças estavam sentadas ao redor de Brook, que tocava seu violino enquanto contava piadas de esqueleto. Luffy estava rindo alto, competindo com o número 1 em um concurso de quem comia mais carne. O navio, que antes exalava uma tensão constante, agora vibrava com uma energia de festa.

Luffy a viu imediatamente. Ele pulou do lugar onde estava e correu em sua direção.

— — MIU! Você acordou! E parece bem melhor! — Ele a abraçou, mas desta vez com cuidado, como se temesse quebrá-la.

— — Eu me sinto nova, Luffy. Obrigada. Obrigada a todos vocês.

Law aproximou-se, com as mãos nos bolsos, observando o reencontro com seu habitual desapego aparente.

— — Não se anime muito, Miu-ya. Eu consertei o motor, mas se você sobrecarregá-lo de novo, não haverá peça de reposição que dê jeito.

Miu olhou para Law e depois para o vasto navio ao seu redor.

— — Eu entendi o recado, Cirurgião. Eu aprendi que não preciso carregar tudo sozinha. Meus filhos são mais fortes do que eu pensava.

Naquela noite, sob um céu estrelado que parecia brilhar apenas para eles, Miu e Luffy sentaram-se na proa do *Aethelgard*, observando o oceano.

— — Luffy, o vovô disse que ia tentar falar com o Governo — começou Miu, olhando para o horizonte. — Mas eu sei que isso não vai durar para sempre. Eles sempre vão querer o que está dentro deste navio.

Luffy colocou o chapéu de palha sobre os olhos e sorriu.

— — Então deixe que venham. Você tem o vovô do seu lado, e agora você tem a mim. Se alguém mexer com o seu navio, Miu, eles estarão mexendo com o futuro Rei dos Piratas. E eu não deixo ninguém tocar na minha família.

Miu encostou a cabeça no ombro de Luffy. O vento soprava seus cabelos brancos, que agora pareciam brilhar com uma luz saudável.

— — Sabe, Luffy... por muito tempo eu chamei este lugar de "Jardim de Aço". Eu achava que precisava de paredes de metal para proteger a beleza das crianças.

— — E agora? — perguntou ele.

— — Agora eu vejo que o aço é apenas para o navio. O jardim... o jardim está neles. E contanto que eles tenham espaço para crescer, não importa onde o mar nos leve.

No dia seguinte, o Thousand Sunny preparou-se para partir. A despedida foi emocionante. As crianças acenavam freneticamente, algumas chorando, outras prometendo que se tornariam piratas tão fortes quanto o bando do Chapéu de Palha.

Luffy parou na passarela e olhou para Miu uma última vez.

— — Nos vemos em breve, Miu! No próximo encontro, quero ver você correndo e brincando com eles, não deitada em uma cama de hospital!

— — Pode deixar, Luffy! — gritou ela, acenando de volta. — E tome cuidado em Dressrosa! Não deixe o Doflamingo te irritar demais!

O Sunny afastou-se, tornando-se uma pequena mancha no horizonte. Miu respirou fundo, sentindo o ar encher seus pulmões sem dor. Ela se virou para o seu exército de crianças e brinquedos.

— — Muito bem, pessoal! — anunciou ela, e sua voz ressoou por todo o navio com uma nova força. — O bando do Luffy nos ensinou muito, mas agora é hora de retomarmos o nosso caminho. Número 1, assuma o leme. Sargento Fofura, verifique as provisões. Temos um mar inteiro pela frente, e agora... agora nós sabemos como navegá-lo com alegria.

O *Aethelgard* virou-se para o sol nascente. A justiça de Miu não era mais uma carga pesada e solitária; era uma bandeira de esperança. Ela sabia que os desafios viriam, que o Governo Mundial não desistiria e que outros Yonkous poderiam surgir. Mas ela não tinha mais medo.

Ela olhou para as mãos e, com um pensamento suave, criou um pequeno pássaro de pelúcia que voou alto, circulando o mastro antes de pousar no ombro do número 2882. A menina sorriu e correu para brincar com os outros.

Miu sorriu também. O Labirinto de Vidro havia se quebrado, e o que restou foi um mar de possibilidades. Ela era a Mãe dos Monstros, a Rainha dos Brinquedos, e agora, ela era verdadeiramente livre. O Jardim de Aço seguia adiante, não mais fugindo, mas navegando em direção ao seu próprio destino.