As crianças que sonham em ser piratas
O Encontro de Duas Vontades e o Peso do Destino
A luz da manhã infiltrava-se pelas janelas de cristal do *Aethelgard*, mas para Miu, o brilho do sol parecia agressivo demais. Ela se levantou com dificuldade, sentindo o corpo protestar a cada movimento. A febre da noite anterior não havia desaparecido completamente; ela apenas recuara para as sombras, deixando-a pálida e com as articulações pesadas. Seus longos cabelos brancos, geralmente tão imponentes, pareciam agora um fardo de seda que ela arrastava pelo chão.
— Miu-sama, a senhorita não deveria estar de pé — advertiu o número 1, cruzando os braços enquanto a encontrava no corredor. — Madame Rendas disse que seu estado é crítico. O número 104 está pronto para assumir a vigília hoje.
— Eu estou bem, 1 — mentiu ela, forçando um sorriso que não alcançou seus olhos vermelhos e cansados. — O mar está agitado hoje. Sinto algo diferente no ar.
Ela caminhou até o convés superior, ignorando os protestos silenciosos das crianças que passavam por ela. O vento salgado bateu em seu rosto, trazendo um pouco de clareza à sua mente nublada pela doença. No horizonte, uma pequena mancha escura crescia rapidamente. Não era a frota massiva da Marinha, nem os navios carregados de doces de Big Mom. Era uma embarcação única, com uma carranca de leão que parecia sorrir para o sol.
Miu sentiu o coração falhar uma batida. Seus olhos se arregalaram, e ela cambaleou até a borda do navio, segurando-se com força no parapeito de metal.
— Não pode ser... — sussurrou ela.
O navio aproximava-se com uma velocidade impressionante. No topo do mastro, a bandeira de um crânio usando um chapéu de palha tremulava orgulhosamente. E lá, sentado na figura de proa, estava um jovem de colete vermelho, balançando as pernas e olhando para o colosso de metal com uma curiosidade infantil.
— LUFFY! — O grito saiu da garganta de Miu, mas sua voz, enfraquecida pela febre, soou como um sussurro rouco que o vento quase levou.
Ela tentou novamente, reunindo todas as forças que restavam em seus pulmões.
— LUFFY! AQUI!
O jovem de chapéu de palha parou de balançar as pernas. Ele inclinou a cabeça, seus instintos aguçados captando o chamado. Seus olhos focaram na figura pequena e de cabelos brancos no alto daquela ilha flutuante. Um sorriso imenso, de orelha a orelha, iluminou seu rosto.
— MIU! É A MIU! — gritou Luffy, saltando de pé.
Sem hesitar, ele jogou o braço para trás.
— Gomu Gomu no... Rocket!
O braço de Luffy esticou-se até uma das traves de sustentação do *Aethelgard* e ele se lançou pelo ar como um projétil. Ele aterrissou no convés com um estrondo suave, bem na frente dela. Miu não esperou. Ela se jogou nos braços do irmão de criação, enterrando o rosto em seu ombro. Luffy a segurou com força, girando-a no ar antes de colocá-la no chão, mantendo as mãos em seus ombros.
— Shishishi! Miu! Faz tanto tempo! — exclamou ele, rindo com aquela alegria contagiante que parecia purificar o ar ao redor. — Que navio incrível é esse? É maior que uma ilha!
— Luffy... você está aqui... — Miu soluçou, apertando o colete dele. — Eu pensei que nunca mais te veria.
Alguns minutos depois, o resto do bando dos Chapéus de Palha subiu a bordo utilizando cordas e as habilidades de cada um. O convés do *Aethelgard*, geralmente um lugar de disciplina silenciosa, tornou-se um caos de cores e exclamações. As crianças de Miu, que raramente viam estranhos que não tentassem matá-las, cercaram os piratas com uma mistura de medo e fascínio.
— O que é isso? Um guaxinim médico? — perguntou o número 7, cutucando Chopper.
— Eu sou uma rena! — gritou Chopper, embora estivesse claramente encantado com a atenção.
— Olha só esse lugar, é magnífico! — exclamou Nami, os olhos brilhando ao ver os detalhes em metal precioso e a tecnologia do navio. — Miu, você construiu tudo isso?
Miu, sentindo-se tonta pela agitação, acenou positivamente.
— Vamos para dentro — disse ela, a voz falhando novamente. — Está muito sol aqui fora.
Ela os conduziu a uma sala de estar reservada, um lugar confortável com sofás macios e uma lareira que não estava acesa. Assim que se sentaram, uma fila de pequenos ursos de pelúcia, com cerca de trinta centímetros de altura, entrou na sala carregando bandejas de prata com sanduíches, frutas e jarros de suco fresco.
— Brinquedos que andam? — perguntou Usopp, quase caindo do sofá de susto. — Eles são fantasmas?
— São minhas criações — explicou Miu, sentando-se pesadamente em uma poltrona. — Eles cuidam da logística do navio.
Luffy já estava devorando um prato de pernas de frango, mas parou por um segundo para olhar para Miu.
— E então, Miu? O vovô me contou que você tinha fugido para salvar umas crianças, mas não imaginei que eram tantas! O que vocês estão fazendo por aqui?
— Tentando sobreviver, Luffy — respondeu ela com um suspiro. — E vocês? Para onde o mar está levando meu irmãozinho agora?
— Nós vamos para Dressrosa! — anunciou Luffy com a boca cheia. — Vamos quebrar o Doflamingo na porrada! Aquele cara é um idiota e está fazendo um monte de gente sofrer.
Miu soltou uma risada fraca, sentindo uma pontada de nostalgia.
— Você não mudou nada. Sempre correndo em direção ao perigo para ajudar os outros.
— E você — interrompeu uma voz profunda e analítica.
Miu olhou para o lado e viu um homem alto, de cabelos escuros e olheiras profundas, encostado na parede. Ele segurava uma espada longa e usava um chapéu de pele manchado. Era Trafalgar Law, o aliado de Luffy.
— Você não parece nada bem — continuou Law, seus olhos cinzentos escaneando Miu com uma precisão clínica. — Sua respiração está curta e sua temperatura está subindo a olhos vistos.
— Eu estou bem — insistiu Miu, mas assim que terminou a frase, uma onda de náusea a atingiu. Ela baixou a cabeça, os cabelos brancos escondendo seu rosto. — Eu só... estou um pouco cansada.
— Miu, você está mentindo — disse Chopper, aproximando-se e colocando uma pata peluda na testa dela. — Você está queimando em febre! Por que não disse nada?
Miu sentiu as lágrimas voltarem. A presença de Luffy e seus amigos havia derrubado as últimas barreiras de sua resistência. Ela não precisava ser a "Grande Protetora" na frente deles. Ela podia ser apenas a Miu.
— Eu não estou nada bem — confessou ela, a voz quebrada. — Eu estou morrendo de medo, Luffy. O Governo Mundial não para de nos caçar. A Big Mom tentou nos transformar em seus soldados. Eu tenho que cuidar de quase três mil crianças, cada uma com um trauma diferente, cada uma com um poder que pode destruir este navio se elas perderem o controle. Eu não durmo, eu não como direito... eu sinto que meu corpo está desistindo de mim.
Luffy parou de comer. Sua expressão tornou-se séria, aquela seriedade rara que ele reservava para os momentos em que seus amigos sofriam.
— Miu... — ele começou, mas a jovem cambaleou.
Sua visão escureceu e ela começou a pender para o lado. Antes que atingisse o chão, os ursos de pelúcia grandes, que serviam como guardas, agiram rapidamente, amparando-a.
— Levem-na para o quarto médico! Agora! — ordenou Chopper, assumindo o controle da situação.
Luffy, Nami, Law e Chopper acompanharam os ursos enquanto eles carregavam Miu pelos corredores tecnológicos do navio. Eles entraram em um quarto branco e imaculado, equipado com o que havia de mais moderno na medicina. Os ursos a deitaram cuidadosamente na cama.
Law aproximou-se, retirando suas luvas. Ele não precisava de muito esforço para perceber que o problema de Miu não era apenas exaustão. Ele ativou sua habilidade.
— *Room*.
Uma cúpula azul transparente envolveu o quarto. Law moveu os dedos, fazendo com que imagens radiográficas e diagnósticos flutuassem no ar. O que ele viu fez até mesmo o "Cirurgião da Morte" franzir o cenho.
— O que foi, Law? O que ela tem? — perguntou Nami, preocupada.
— Não é bom — disse Law, apontando para as projeções. — Ela tem vários tumores pequenos se espalhando pelos órgãos vitais. Mas não são tumores comuns. Parece que o corpo dela está reagindo à constante pressão psicológica e ao uso excessivo de sua Akuma no Mi para manter tantas criações vivas simultaneamente.
Chopper olhou para os gráficos, os olhos cheios de lágrimas.
— É uma doença de estresse celular crônico... combinado com alguma toxicidade que ela deve ter absorvido durante os resgates nos laboratórios. Se ela continuar assim, o corpo dela vai entrar em colapso total em poucos meses.
Luffy aproximou-se da cama, pegando a mão pequena e pálida de Miu.
— Dá para curar ela? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa.
Law suspirou, cruzando os braços.
— Eu posso remover os tumores com a minha habilidade, mas isso é apenas tratar o sintoma. A causa é o estilo de vida dela. Ela está carregando o mundo inteiro nas costas, Luffy-ya. Se ela não parar de se forçar a ser o escudo de três mil pessoas, não importa o que eu faça, ela vai produzir novos tumores.
Miu abriu os olhos lentamente, ouvindo as palavras de Law. Ela olhou para Luffy, um sorriso triste nos lábios.
— Eu não posso parar, Luffy. Se eu parar... quem vai cuidar deles? Eles só têm a mim.
Luffy apertou a mão dela.
— Você tem a nós agora, Miu. Você não ouviu o que o vovô disse? Você não está sozinha.
— Mas vocês têm sua jornada... vocês têm o Doflamingo...
— O Doflamingo pode esperar um pouco — disse Luffy, olhando para Law. — Você pode operar ela aqui?
— Posso. Este navio tem equipamentos melhores do que muitos hospitais que já vi — respondeu Law. — Mas ela precisará de repouso absoluto depois. Nada de criar brinquedos novos, nada de coordenar o navio.
— Nós cuidamos disso! — exclamou Chopper. — Eu e os ursos médicos dela vamos garantir que ela descanse.
Miu tentou protestar, mas a mão de Luffy em sua testa a acalmou.
— Miu — disse ele, com uma clareza absoluta —, você salvou todas essas crianças. Agora, deixe que a gente salve você. Você é minha irmã, e eu não vou deixar você morrer por causa de um bando de marinheiros idiotas ou piratas feios.
Nami aproximou-se e acariciou o cabelo branco de Miu.
— Nós vamos ficar aqui por alguns dias. Vamos ajudar a organizar as crianças e garantir que o navio esteja seguro enquanto o Law faz o trabalho dele. Você fez o suficiente, Miu. Agora é hora de ser cuidada.
Miu fechou os olhos, sentindo as lágrimas de alívio correrem. Pela primeira vez em anos, ela sentiu que não precisava ser a muralha de aço. Ela podia apenas ser a paciente.
— Obrigada... Luffy...
Law começou a preparar seus instrumentos, enquanto Chopper organizava os medicamentos. Luffy permaneceu ao lado dela, uma presença sólida e inabalável.
— Durma, Miu — disse Luffy. — Quando você acordar, o mundo ainda vai estar aqui, mas você vai estar forte o suficiente para vê-lo sem dor.
Enquanto Miu mergulhava em um sono induzido pela anestesia de Law, o *Aethelgard* continuava sua jornada silenciosa pelas águas do Novo Mundo. Mas agora, o gigante de aço não estava mais sozinho. Ao seu lado, o Thousand Sunny balançava nas ondas, e no convés, piratas e crianças começavam a compartilhar histórias, unindo dois mundos que, no fundo, buscavam a mesma coisa: a liberdade de ser quem realmente eram.
Law deu início à cirurgia, suas mãos movendo-se com a precisão de um deus em seu domínio. O destino de Miu estava agora nas mãos de seus amigos, e pela primeira vez, a justiça de cabelos de neve não precisava lutar. Ela só precisava sobreviver.