As Horas Entre Nós
O Eco no Vácuo do Silêncio
A agulha da vitrola encontrou o sulco do vinil com um chiado quase imperceptível antes de os primeiros acordes de piano preencherem o quarto. Roberto Carlos cantava sobre detalhes, sobre coisas muito pequenas, e para Gabriele, naquele momento, cada nota parecia uma acusação. O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada, cortada apenas pelo brilho pálido do abajur de leitura e pela fumaça rala que ainda pairava no ar.
Gabriele estava sentada na beira da cama, as costas retas, a camisola de seda branca escorrendo pelo corpo como água congelada. Seus dedos brincavam nervosamente com a bainha do tecido, enquanto os olhos vagavam pela estante de livros perfeitamente alinhados do outro lado do quarto. Ela se sentia exposta, não pela nudez de momentos antes, mas pela vulnerabilidade que a discussão e o subsequente momento de intimidade haviam deixado nela. O amor de Hylda era como um incêndio florestal: magnífico de se ver, mas devastador para quem passara décadas construindo cercas de proteção.
Atrás dela, os lençóis se moveram. Hylda não estava dormindo, embora tivesse tentado. Ela observava a silhueta de Gabriele, a curva delicada de seus ombros, a nuca que ela tanto gostava de beijar. Hylda sentia um aperto no peito que não vinha do cigarro. Era um medo visceral, uma vertigem que ela só conhecera nos seus dias mais sombrios de vício, mas com uma diferença crucial: daquela vez, ela não queria se anestesiar. Ela queria sentir tudo, mesmo que doesse.
— Você está pensando demais de novo, madame — a voz de Hylda surgiu rouca, quebrando a melodia da música. — Dá para ouvir as engrenagens da sua cabeça daqui.
Gabriele não se virou. Ela fechou os olhos, absorvendo a letra que falava de recordações.
— É uma música triste — murmurou Gabriele. — Fala de ausências.
— Fala de presença, Gabi. De marcas que a gente deixa — Hylda se arrastou pela cama até se sentar logo atrás de Gabriele. Ela não a tocou de imediato. — Você está com medo de que eu vire apenas um desses "detalhes" na sua estante? Uma lembrança que você vai catalogar entre a poesia francesa e os romances russos?
— Tenho medo de que eu não saiba ser o que você precisa, Hylda — Gabriele finalmente confessou, a voz trêmula. — Você é tão... vasta. E eu sou apenas este espaço pequeno e controlado. O que acontece quando o seu barulho cansar do meu silêncio?
Hylda sentiu uma pontada de angústia. O amor que sentia por aquela mulher era algo que ela ainda não sabia nomear sem se sentir ridícula. Ela, a mulher da graxa, da boca suja, da vida gasta, estava perdidamente rendida por uma bibliotecária que tinha medo da própria sombra.
— Eu não vim aqui para fazer silêncio, meu amor — Hylda estendeu a mão, calejada e firme, e começou a alisar as costas de Gabriele. O contraste entre a palma áspera e a seda fina era a síntese perfeita das duas. — E eu não vou me cansar. O único jeito de eu sair por aquela porta é se você me expulsar. E mesmo assim, eu provavelmente ficaria sentada na calçada fumando até você mudar de ideia.
Hylda puxou Gabriele suavemente para trás, forçando-a a se deitar novamente. Gabriele cedeu, deixando-se ser envolvida pelos braços fortes de Hylda. O cheiro de baunilha e metal era o seu único âncora.
— Deita aqui — sussurrou Hylda, acomodando a cabeça de Gabriele em seu peito. — Deixa o Roberto cantar e deixa o mundo lá fora se explodir. Amanhã a gente resolve o resto.
A manhã, porém, trouxe uma névoa pesada e uma indisposição que Gabriele não conseguia ignorar. Quando o despertador tocou às seis e meia, a luz cinzenta que filtrava pelas cortinas parecia agressiva demais. Gabriele tentou se levantar, mas uma tontura aguda a fez recostar-se na cabeceira, a mão pressionando a têmpora.
— Nem pense nisso — disse Hylda, já de pé, vestindo apenas a calça jeans, as tatuagens brilhando sob a luz matinal. — Você está pálida como um fantasma de biblioteca.
— Eu tenho que ir, Hylda. Há uma entrega de volumes raros hoje e... — Gabriele tentou falar, mas uma onda de náusea a interrompeu.
— Os livros não vão fugir, Gabi. Eles estão mortos há cem anos, podem esperar mais um dia — Hylda caminhou até a cama e colocou a mão na testa de Gabriele. — Você está quente. Estresse. É o que acontece quando se guarda muita coisa dentro do peito por muito tempo. O corpo acaba cuspindo pra fora.
Hylda não pediu permissão. Ela pegou o celular de Gabriele, que estava na mesa de cabeceira.
— O que você está fazendo? — perguntou Gabriele, alarmada.
— Avisando a Margareth que você não vai. E se ela reclamar, eu digo que vou lá pessoalmente explicar a situação com uma chave inglesa na mão.
— Hylda, não! — Gabriele riu, apesar da dor de cabeça. — Só envie uma mensagem curta. Por favor.
Hylda digitou com certa dificuldade, seus dedos grandes não sendo muito amigos do teclado delicado, mas conseguiu. Depois, ela se inclinou e beijou a testa de Gabriele.
— Eu vou na fábrica resolver umas burocracias, chutar a bunda de uns dois operários preguiçosos e volto logo. Fica aí. Se eu chegar e você não estiver nessa cama, eu juro que desorganizo a sua coleção de enciclopédias por ordem de cor das capas.
Gabriele soltou um suspiro de horror fingido.
— Você não ousaria.
— Tente a sorte, madame.
As horas seguintes foram um borrão para Gabriele. Ela flutuou entre um sono inquieto e momentos de lucidez onde o silêncio do apartamento, antes reconfortante, agora parecia vazio sem a presença vibrante de Hylda. Ela pensou na noite anterior, na exposição no restaurante, no beijo amargo e doce que trocaram. Pela primeira vez em décadas, a opinião alheia parecia um ruído de fundo, algo que ela ainda temia, mas que não era mais o centro de sua gravidade.
Por volta das duas da tarde, o som da chave girando na fechadura a despertou. Hylda entrou carregando duas sacolas de papel pardo e um buquê de flores silvestres que pareciam ter sido compradas em uma banca de beira de estrada.
— Cheguei, meu amor — anunciou Hylda, entrando no quarto com o barulho habitual. Ela deixou as sacolas sobre a poltrona e entregou as flores para Gabriele. — São meio desajeitadas, como eu. Mas achei que combinavam com o quarto.
Gabriele segurou as flores, sentindo um nó na garganta.
— São lindas, Hylda. Obrigada.
— Trouxe canja de galinha daquela padaria que você gosta, e algumas frutas. E comprei isso aqui também — Hylda tirou um pacote pequeno de uma das sacolas. Era um óleo de massagem com cheiro de lavanda. — Para ver se a gente tira essa tensão desses seus ombros de porcelana.
Hylda sentou-se na beira da cama e começou a tirar as botas sujas de graxa. Ela parecia cansada, mas havia uma satisfação genuína em seus olhos.
— Como foi na fábrica? — perguntou Gabriele, observando-a.
— O de sempre. Máquinas quebrando, gente reclamando. Mas eu só conseguia pensar que precisava voltar logo. O pessoal me perguntou por que eu estava com tanta pressa.
Gabriele gelou por um instante.
— E o que você disse?
Hylda parou, com uma bota na mão, e olhou diretamente para Gabriele. O sorriso era suave, desprovido da ironia habitual.
— Eu disse que minha mulher estava doente e que nada naquele lugar era mais importante do que cuidar dela.
O silêncio que se seguiu não foi o silêncio de medo de Gabriele, nem o silêncio de provocação de Hylda. Foi um silêncio de reconhecimento. Gabriele estendeu a mão e tocou o rosto de Hylda, sentindo o calor da pele e a textura da barba rala que ela às vezes deixava crescer.
— Você não tem filtro, não é? — Gabriele sussurrou, sorrindo com os olhos marejados.
— Filtro é para café, Gabi. Eu sou o que você está vendo. E o que eu vejo é que você precisa comer.
Hylda preparou a mesa no quarto, improvisando com uma bandeja de prata que Gabriele raramente usava. Ela serviu a canja, cortou as frutas com uma precisão que surpreendeu Gabriele e insistiu em dar as primeiras colheradas na boca da outra, como se ela fosse uma joia preciosa que precisasse de restauro.
— Por que você faz isso? — perguntou Gabriele, entre uma colherada e outra. — Eu sou difícil, Hylda. Eu sou cheia de regras, eu me envergonho de coisas bobas, eu te trato mal às vezes por puro pânico.
Hylda deixou a colher de lado e segurou as mãos de Gabriele.
— Porque você foi a única pessoa que me olhou e não viu apenas uma ex-viciada ou uma operária bruta. Você viu algo que eu mesma tinha esquecido que existia. E porque, madame... — Hylda deu uma piscadela travessa — ...você fica muito bonita quando tenta fingir que não está apaixonada por mim.
Gabriele riu, uma risada leve que pareceu espantar os últimos resquícios da dor de cabeça.
— Eu não estou fingindo mais. Só estou... aprendendo a falar em voz alta.
— Então começa agora — desafiou Hylda, aproximando o rosto. — Diz uma coisa que você nunca diria na frente da Margareth.
Gabriele respirou fundo. O cheiro de Hylda estava por toda parte, impregnando os lençóis de seda, as flores no vaso, o ar do apartamento.
— Eu amo o jeito que você cheira a óleo e cigarro — disse Gabriele, a voz firme. — E amo o fato de que você me faz sentir que o mundo é maior do que esta biblioteca.
Hylda sorriu, um sorriso largo que iluminou o rosto marcado pelo tempo.
— É um bom começo, madame. Um excelente começo.
Naquela tarde, não houve grandes discussões ou revelações dramáticas. Houve apenas o som da chuva começando a cair lá fora e o calor de dois corpos que, apesar de todas as diferenças, haviam encontrado um encaixe perfeito. Hylda fez a massagem em Gabriele, suas mãos fortes desfazendo os nós de tensão com uma delicadeza inesperada.
Enquanto a luz do dia morria, elas ficaram ali, abraçadas sob o edredom. Gabriele percebeu que a perfeição que ela tanto buscava não estava na ordem dos livros ou na elegância das roupas, mas naquela aceitação caótica e barulhenta que Hylda lhe oferecia.
— Hylda? — chamou Gabriele, quase pegando no sono.
— Hum?
— Amanhã... amanhã eu vou à biblioteca. E se você quiser passar lá para me buscar para almoçar...
Hylda se levantou um pouco, apoiada no cotovelo.
— Você tem certeza? A Margareth pode ter um síncope.
— Deixe que ela tenha — disse Gabriele, fechando os olhos com um sorriso tranquilo. — Eu acho que já passou da hora de eu apresentar a minha mulher para os meus amigos. De verdade.
Hylda não respondeu com palavras. Ela apenas a puxou para mais perto, beijando-lhe o ombro com uma reverência que nenhum manual de etiqueta jamais conseguiria descrever. O rádio, em algum lugar da casa, ainda murmurava canções antigas, mas o silêncio entre as duas agora era preenchido por algo muito mais sólido do que música. Era o som de uma máquina que, finalmente, depois de muita ferrugem e atrito, começava a rodar em perfeita harmonia.