As Horas Entre Nós
O Brilho do Aço e a Fragilidade do Papel
A biblioteca municipal era um santuário de mármore e madeira polida, onde o som dos passos de Gabriele Lima ecoava como um metrônomo constante. Naquela manhã, ela se sentia diferente. Havia uma leveza em seus gestos, um brilho discreto nos olhos que nem mesmo os óculos de leitura conseguiam ocultar. Ela havia cumprido sua promessa: o convite para o almoço fora feito por mensagem logo cedo, e a expectativa de ver a jaqueta de couro de Hylda cruzando aquele portal pomposo fazia seu coração bater num ritmo que ela não ousava catalogar.
— Gabriele, esses novos exemplares da seção de história da arte são simplesmente magníficos — disse Gabriel, um bibliotecário dez anos mais jovem, cujos cabelos loiros impecáveis e suéter de cashmere pareciam uma versão masculina da própria Gabriele. — Eu os separei especialmente para você dar o parecer final. Ninguém tem o seu olhar clínico.
Gabriele sorriu, um gesto cortês e automático.
— Obrigada, Gabriel. Você é sempre muito atencioso com o acervo.
Gabriel não se afastou. Ele se inclinou sobre a mesa de carvalho, diminuindo a distância de forma sutil, mas deliberada.
— Eu estava pensando... talvez pudéssemos discutir esses volumes durante o almoço? Abriu um bistrô novo na praça, muito silencioso. Exatamente o seu tipo de lugar.
Gabriele abriu a boca para recusar, mas antes que a primeira sílaba saísse, o som pesado de botas de sola de borracha contra o piso de granito anunciou uma mudança climática no recinto.
Hylda Carandini entrou na biblioteca como se estivesse invadindo uma zona de guerra. Ela não diminuía o passo, não baixava a voz e, definitivamente, não se importava com o "silêncio" exigido pelas placas de bronze. Ela usava uma camiseta cinza manchada de alguma substância industrial e sua inseparável jaqueta, exalando aquele perfume de tabaco e baunilha que, para Gabriele, era o cheiro da liberdade.
Hylda parou a poucos metros da mesa, os olhos semicerrados focando imediatamente em Gabriel, que ainda estava inclinado perto demais de Gabriele.
— Atrapalho o momento literário ou a madame já está pronta para comer comida de verdade? — a voz de Hylda saiu mais grave que o normal, carregada de uma aspereza que Gabriele reconheceu instantaneamente.
— Hylda! Você veio — Gabriele levantou-se rapidamente, sentindo um misto de alívio e pânico. — Este é o meu colega, Gabriel. Gabriel, esta é a Hylda.
Gabriel empertigou-se, medindo a mulher tatuada com um olhar de desdém mal disfarçado.
— Ah, a "grande amiga" de quem Gabriele fala. Prazer. Estávamos decidindo onde almoçar.
Hylda não estendeu a mão. Ela apenas cruzou os braços, deixando as tatuagens de seus antebraços bem visíveis.
— É "grande amiga", é? — Hylda deu um sorriso de lado, mas não havia diversão em seus olhos. — Pois é. Mas o almoço hoje é comigo, rapaz. E o cardápio não inclui livros.
— Hylda, por favor... — Gabriele interveio, percebendo a tensão elétrica no ar. — Gabriel, peço desculpas, mas já tínhamos combinado. Vamos?
Ela pegou sua bolsa e caminhou em direção a Hylda, que não tirava os olhos do bibliotecário. Gabriel deu um passo atrás, intimidado pela presença física daquela mulher que parecia feita de ferro fundido.
— Claro, Gabriele. Nos falamos depois.
Assim que saíram para a calçada, o silêncio de Hylda foi ensurdecedor. Ela não fez a piada habitual sobre o "boneco de cera" da biblioteca, nem tentou roubar um beijo rápido antes de entrarem no carro. Ela apenas caminhou a passos largos, subindo na sua caminhonete velha com uma expressão de pedra.
— O que foi aquilo, Hylda? — perguntou Gabriele, assim que se sentou no banco do carona.
— Aquilo o quê? — Hylda deu partida no motor, que rugiu como um animal ferido. — O seu clone de cashmere estava quase deitando no seu colo. E você lá, toda sorridente.
— Ele é apenas um colega, Hylda. Estava sendo gentil.
— Gentil? — Hylda soltou uma risada seca, manobrando o carro com agressividade. — Ele estava te olhando como se você fosse o último prato de sopa do deserto. E você, como sempre, fingindo que não vê nada para não ter que lidar com a realidade.
— Você está com ciúmes? — Gabriele perguntou, surpresa com a própria audácia.
— Eu não sinto ciúmes, Gabriele. Eu sinto nojo de gente sonsa — Hylda acelerou. — Mas tudo bem. Você tem a sua "reputação" para manter com os seus "grandes amigos".
O almoço foi um desastre silencioso. Hylda mal tocou na comida e passou o tempo todo respondendo mensagens no celular, rindo de algo que Gabriele não sabia o que era. Quando voltaram, o clima não havia melhorado. Hylda apenas a deixou na porta da biblioteca com um "te pego às oito para a festa do Zeca" e saiu cantando pneu.
À noite, o cenário mudou radicalmente. A festa de Zeca, um antigo companheiro de fundição de Hylda, era o oposto da biblioteca. Música alta, cheiro de churrasco, cerveja barata e muita gente falando ao mesmo tempo. Gabriele sentia-se um peixe fora d'água em seu vestido de corte impecável, mas estava disposta a cumprir sua promessa de "fazer a boa vizinhança".
No entanto, Hylda parecia ter esquecido que Gabriele estava lá.
Assim que chegaram, Hylda foi cercada por um grupo de jovens — aprendizes da fábrica e estudantes de engenharia que frequentavam o galpão. Eles a tratavam com uma mistura de adoração e camaradagem. Entre eles, uma garota de vinte e poucos anos, de cabelos curtos e piercings, chamada Bia, não saía do lado de Hylda.
— Hylda, você não tem noção de como a gente sentiu sua falta no bar ontem! — Bia dizia, encostando a mão no braço de Hylda com uma intimidade que fez o estômago de Gabriele se contrair. — Bebe essa aqui comigo, vai. Por conta da casa.
Hylda aceitou a cerveja, rindo alto, a cabeça jogada para trás. Ela parecia outra pessoa — relaxada, vibrante, perigosamente atraente sob as luzes coloridas do quintal.
— Você sabe que eu não nego fogo, garota! — Hylda exclamou, passando o braço pelo ombro de Bia enquanto contava uma história barulhenta sobre uma prensa que explodiu nos anos 90.
Gabriele ficou de pé a um canto, segurando um copo de plástico com água, sentindo-se invisível. Ela observava a forma como Bia olhava para Hylda — com um desejo aberto, jovem e sem as amarras que Gabriele carregava. E Hylda, talvez por vingança pelo episódio da manhã, talvez por pura carência, devolvia a atenção com uma intensidade exagerada.
Passou-se uma hora. Duas. Hylda não se aproximou de Gabriele nem uma vez. Ela estava no centro do círculo, bebendo mais do que o habitual, a mão de Bia agora descansando quase permanentemente em sua cintura enquanto riam de algo ao pé do ouvido.
A dor que atingiu Gabriele não foi apenas ciúme. Foi uma percepção súbita e devastadora de inadequação.
Gabriele caminhou até o círculo, sua presença cortando a animação como uma lâmina fria.
— Hylda, eu vou para casa — disse Gabriele, a voz baixa e cortante.
Hylda virou-se, os olhos um pouco turvos pela bebida, o sorriso ainda no rosto.
— Já, madame? A festa mal começou! A Bia estava me contando sobre o novo projeto de design dela, você devia ouvir, é...
— Eu não me importo com o projeto da Bia — Gabriele interrompeu, os olhos brilhando de uma forma que calou o grupo ao redor. — Eu vou embora. Boa noite para todos.
Ela não esperou resposta. Virou as costas e caminhou em direção à saída, os saltos batendo com força no asfalto irregular. Ela mal tinha chegado à calçada quando ouviu os passos pesados atrás de si.
— Gabriele! Para com essa porra! — Hylda gritou, segurando-a pelo braço. — O que deu em você?
Gabriele soltou o braço com um solavanco, virando-se para encarar a mulher à sua frente. As luzes da rua iluminavam as lágrimas que Gabriele não conseguia mais esconder.
— O que deu em mim? Você passou a noite inteira agindo como se eu nem existisse! — Gabriele explodiu. — Aquela menina... ela tem metade da minha idade, Hylda! Ela te olha como se quisesse te devorar, e você deu todo o espaço do mundo para ela.
— Ela é só uma garota da fábrica, Gabriele! — Hylda tentou se aproximar, mas Gabriele deu um passo atrás.
— Não, Hylda. Ela é o que você quer, não é? Alguém que não tem vergonha de você, alguém que não tem traumas, alguém que pode te acompanhar nos bares sem se sentir deslocada. Alguém jovem.
— Do que você está falando? — Hylda parecia genuinamente confusa, o álcool começando a evaporar sob a pressão da adrenalina.
— Eu sou muito velha para você, Hylda? — a voz de Gabriele falhou, transformando-se num sussurro dolorido. — É isso? Se você queria alguém que combinasse melhor com esse seu mundo barulhento, era só ter dito. Você não precisava me trazer aqui para me humilhar dessa forma.
O rosto de Hylda empalideceu sob a luz amarelada dos postes. O desespero atravessou seus olhos como um raio. Ela percebeu, tarde demais, que o jogo de ciúmes que iniciara pela manhã havia se tornado uma arma de destruição em massa.
— Gabriele, você enlouqueceu? — Hylda deu um passo à frente, e desta vez não permitiu que Gabriele se afastasse, segurando seus ombros com mãos trêmulas. — Olha para mim. Olha nos meus olhos!
Gabriele tentou desviar o olhar, mas Hylda a obrigou a encará-la.
— Você acha mesmo que eu dou a mínima para aquela menina ou para qualquer outra pessoa naquele lugar? — a voz de Hylda agora era um rosnado desesperado. — Você acha que eu trocaria um único segundo do seu silêncio, das suas manias chatas, do seu cheiro de livro velho, por dez daquelas garotas?
— Você parecia estar se divertindo muito — soluçou Gabriele.
— Eu estava sendo uma idiota! — Hylda gritou, as lágrimas também começando a surgir em seus olhos. — Eu estava com raiva por causa daquele engomadinho da biblioteca, e quis te mostrar que eu também podia ser desejada. Eu fui pequena, Gabi. Eu fui uma imbecil. Mas nunca, em nenhum momento da minha vida, eu quis outra pessoa desde que eu te vi pela primeira vez.
Hylda colou sua testa na de Gabriele, a respiração vindo em haustos curtos.
— Você é a única pessoa que eu amei em todos esses anos — confessou Hylda, a voz quebrada. — A única que me faz querer ser alguém melhor do que uma ex-viciada que trabalha com graxa. Se você for embora agora, Gabriele... se você me deixar por causa da minha burrice, eu não vou ter para onde voltar.
Gabriele sentiu o peso daquelas palavras. A insegurança de Hylda era tão profunda quanto a dela, apenas manifestada de forma diferente — através do barulho e da bravata, em vez do silêncio e do isolamento.
— Eu tive tanto medo — admitiu Gabriele, enterrando o rosto no pescoço de Hylda, sentindo o cheiro de suor e perfume barato que ela tanto amava. — Medo de que você percebesse que eu sou sem graça demais para você.
— Sem graça? — Hylda riu entre os soluços, apertando Gabriele contra si como se sua vida dependesse disso. — Você é a mulher mais fascinante que eu já conheci. Você é um quebra-cabeça que eu quero passar o resto da vida tentando montar.
Elas ficaram ali, no meio da calçada escura, dois mundos colidindo e se fundindo novamente. A música da festa ao longe era apenas um ruído sem importância.
— Vamos para casa — pediu Gabriele, limpando o rosto de Hylda com o polegar. — Eu não aguento mais esse lugar.
— Vamos — concordou Hylda, mas antes de caminharem para o carro, ela segurou o rosto de Gabriele com as duas mãos. — Mas antes, eu quero que você saiba de uma coisa.
— O quê?
— Amanhã, eu vou passar naquela biblioteca. E eu vou beijar você na frente daquele Gabriel e de quem mais estiver olhando. E se você me chamar de "grande amiga" de novo, eu juro que eu grito para a cidade inteira que você é a minha mulher.
Gabriele deu um sorriso fraco, sentindo uma coragem nova borbulhar em seu peito.
— Você não vai precisar gritar, Hylda — Gabriele disse, puxando-a para um beijo profundo e urgente. — Eu mesma vou dizer.
Hylda suspirou contra os lábios dela, o terror de perder Gabriele sendo substituído por uma paz feroz. Elas entraram na caminhonete, e enquanto se afastavam da festa, Gabriele percebeu que, embora o papel fosse frágil e o aço fosse duro, quando se fundiam da maneira certa, tornavam-se algo indestrutível. A ferrugem e o veludo, finalmente, haviam encontrado seu equilíbrio.