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As Horas Entre Nós

O Batismo do Aço e a Alvura do Linho

A luz da manhã de sábado entrou pelas janelas da biblioteca particular de Gabriele, não para iluminar o pó de séculos, mas para refletir no cetim perolado do vestido que repousava sobre a poltrona. Gabriele Lima, aos cinquenta e cinco anos, observava seu reflexo no espelho com uma calma que ela mesma desconhecia. O coque estava impecável, nenhum fio fora do lugar, mas seus olhos — ah, seus olhos — brilhavam com uma travessura que antes pertencia apenas à mulher que, naquele momento, provavelmente estava lutando contra uma gravata no quarto ao lado.

— Se você entrar aqui e me disser que não consegue dar o nó nessa porcaria, eu juro que cancelo tudo e a gente vai morar na chácara agora mesmo! — A voz rouca de Hylda ecoou pelo corredor, seguida pelo som metálico de algo caindo no chão.

Gabriele sorriu, terminando de prender os brincos de pérola.

— Você não vai cancelar nada, Hylda Carandini. E eu já disse que não precisa de gravata se não quiser.

— Precisa sim! — Hylda apareceu na porta, e o fôlego de Gabriele fugiu por um instante.

Hylda estava magnífica. O blazer preto, de corte moderno e sob medida, abraçava seus ombros largos de forma impecável. A camisa de seda cinza-chumbo estava aberta nos dois primeiros botões, revelando o início das tatuagens no pescoço. O cabelo curto estava penteado para trás com um gel que lhe dava um ar de estrela de cinema clássico, se essa estrela de cinema tivesse passado trinta anos consertando prensas hidráulicas.

— Você está... — Gabriele começou, mas a voz falhou.

— Eu estou parecendo um pinguim de velório, eu sei — Hylda resmungou, aproximando-se e parando diante de Gabriele. Seus olhos escuros percorreram o vestido de Gabriele, a elegância discreta da renda, a beleza intocável da mulher à sua frente. — Mas você... meu Deus, Gabi. Você parece um anjo que caiu direto num reservatório de óleo e saiu ileso.

— Que elogio romântico, meu amor — Gabriele riu, estendendo as mãos para ajeitar a gola do blazer de Hylda.

— É o melhor que eu consigo fazer sem fumar há três semanas — Hylda confessou, segurando a cintura de Gabriele com uma possessividade suave. — Minhas mãos estão tremendo, sabia? Nem quando eu tive que desarmar aquela caldeira com vazamento eu fiquei assim.

— É apenas um papel, Hylda. E alguns amigos.

— Não é o papel, madame. É o fato de que agora o mundo todo vai saber que eu sou sua. E que você é minha. Sem esconderijo, sem "grande amiga". Só nós.

A cerimônia foi pequena, realizada no jardim da chácara de Hylda, que agora estava mais para um refúgio de flores silvestres do que para um depósito de peças velhas. Margareth, a colega da biblioteca, estava na primeira fila, alternando entre limpar as lágrimas e olhar com uma admiração chocada para a transformação de Hylda. Os operários da fábrica, agora ex-colegas de Hylda, ocupavam o fundo, comportando-se com uma reverência quase religiosa diante da "chefe" que agora ensinava jovens aprendizes no Senai.

Quando trocaram as alianças de aço escovado, o sol se pondo atrás das montanhas industriais da cidade, o silêncio foi absoluto.

— Eu, Hylda, prometo não sujar seus lençóis de linho com graxa... com muita frequência — disse Hylda, provocando risos entre os convidados. — E prometo que, de agora em diante, meu único vício vai ser tentar entender como você consegue ser tão bonita logo cedo.

Gabriele segurou a mão de Hylda, sentindo a força e a aspereza que tanto amava.

— Eu, Gabriele, prometo aceitar o seu caos. Prometo que não vou mais tentar catalogar você, porque você é a única história que eu quero ler todos os dias, sem fim.

O beijo que selou a união não foi o beijo contido de uma bibliotecária, mas o beijo faminto de uma mulher que finalmente se sentia em casa.

A recepção durou pouco, exatamente como planejado. Elas queriam o mundo, mas queriam, acima de tudo, a intimidade do silêncio compartilhado. Quando a última caminhonete dos operários saiu buzinando pela estrada de terra, e os amigos se despediram com abraços calorosos, Hylda e Gabriele ficaram sozinhas sob o teto da chácara.

A vitrola antiga de Hylda, que ela insistira em trazer para a sala principal, começou a tocar. Os primeiros acordes de "Can't Take My Eyes off You" preencheram o espaço, a voz de Frankie Valli trazendo uma nostalgia doce.

— Dança comigo? — Hylda estendeu a mão, o blazer já jogado sobre o sofá, a camisa de seda com as mangas dobradas até os cotovelos.

— Aqui? No meio da sala cheia de caixas de presente? — Gabriele sorriu, mas já estava se aninhando nos braços dela.

— Especialmente aqui.

Elas se moveram lentamente, um balanço desajeitado e íntimo. Hylda enterrou o rosto no pescoço de Gabriele, aspirando o perfume de lavanda e o cheiro da própria felicidade.

— Sabe o que eu estava pensando? — Hylda murmurou contra a pele dela.

— No quanto você quer que eu tire esse vestido?

— Também. Mas eu estava pensando na nossa viagem. No litoral.

— A casa de praia em Paraty — Gabriele completou, fechando os olhos. — Livros, mar e o som das ondas. Nada de máquinas, Hylda.

— Nada de máquinas — concordou Hylda. — Só eu, você e talvez um vinho que não custe o preço de um pneu de trator. Mas, por enquanto...

Hylda parou de dançar e olhou profundamente nos olhos de Gabriele. A luz das velas que restavam sobre a mesa refletia-se no aço da aliança em seu dedo.

— Por enquanto, eu só quero aproveitar a minha esposa — Hylda disse a palavra com um gosto novo, uma reverência que fez o coração de Gabriele dar um salto.

Sem aviso, Hylda pegou Gabriele no colo. O grito de surpresa de Gabriele foi abafado por uma risada deliciosa.

— Hylda! Minhas costas! Você não tem mais vinte anos!

— Eu posso ter cinquenta e sete, madame, mas eu ainda carrego um motor de seis cilindros sozinha se precisar. Você não pesa nem metade de uma transmissão de caminhão.

Hylda a carregou para o quarto, chutando a porta para fechar atrás delas. O ambiente estava imerso em uma penumbra acolhedora. Ela colocou Gabriele sobre a cama com uma delicadeza que contrastava com sua força bruta.

— Deixa eu ver se eu ainda lembro como se lida com seda — Hylda sussurrou, ajoelhando-se sobre o colchão, os dedos encontrando os botões minúsculos nas costas do vestido de Gabriele.

— Você aprende rápido — Gabriele respondeu, sentindo o arrepio familiar subir por sua espinha.

As mãos de Hylda, agora livres do cheiro pesado de cigarro e substituídas por um aroma de sândalo, moviam-se com uma paciência devota. Cada centímetro de pele revelado era batizado com um beijo ou um toque firme. O vestido de noiva escorregou, revelando a pele pálida de Gabriele sob a luz da lua que entrava pela janela.

— Você é a coisa mais linda que eu já vi em toda a minha vida, Gabi — Hylda disse, a voz trêmula de emoção. — E eu ainda não acredito que você é real.

— Eu sou real, Hylda. E eu sou sua.

Gabriele puxou Hylda para baixo, as mãos explorando o peito largo sob a camisa de seda. Quando a pele se encontrou, não havia mais a tensão das discussões passadas ou o medo do julgamento alheio. Havia apenas uma entrega absoluta.

O amor delas era como o encontro do metal com o fogo: intenso, transformador e capaz de moldar algo inteiramente novo. Hylda se movia com uma urgência que Gabriele respondia com uma entrega que nunca permitira a ninguém. Naquele quarto, entre os lençóis que agora misturavam o cheiro de ambas, o tempo parecia ter parado.

Mais tarde, deitadas lado a lado, as respirações voltando ao normal, Hylda acariciava o ombro de Gabriele.

— Você está bem? — perguntou Hylda, a voz rouca.

— Estou maravilhosa — Gabriele sorriu, aninhando-se no peito de Hylda. — E você? Não está sentindo falta de... nada?

Hylda olhou para a mesa de cabeceira, onde antes sempre haveria um maço de cigarros. Ela sentiu o desejo de fumar por um breve segundo, um hábito de décadas, mas então olhou para Gabriele, para a aliança de aço e para a vida que agora tinha diante de si.

— Não sinto falta de nada, meu amor. Eu tenho tudo o que preciso bem aqui.

A música na sala ainda tocava baixinho, o refrão de "Can't Take My Eyes off You" chegando como um eco distante.

— Amanhã a gente começa a planejar o roteiro de Paraty? — perguntou Gabriele, quase pegando no sono.

— Amanhã — concordou Hylda, fechando os olhos e beijando a testa da esposa. — Mas agora, dorme. Eu vou ficar aqui vigiando o seu sono. Afinal, eu sou a chefe de operações dessa casa agora, não sou?

Gabriele riu baixinho, o som mais doce que Hylda já ouvira.

— Você é o meu amor, Hylda. E isso é mais do que suficiente.

Naquela noite, na pequena cidade industrial, o aço e a seda finalmente descansaram em perfeita harmonia. A ferrugem fora limpa, o veludo fora estendido, e o futuro, embora incerto como qualquer estrada, parecia, pela primeira vez, um caminho que valia a pena ser percorrido de mãos dadas.