As Horas Entre Nós
Engrenagens de Seda e Cicatrizes de Papel
O sol da tarde filtrava-se pelas janelas altas da biblioteca de Gabriele, desenhando colunas de poeira dourada que dançavam sobre as lombadas de couro dos livros raros. O silêncio, que outrora era o bem mais precioso de Gabriele, agora parecia incompleto sem o som da respiração pesada de Hylda ou o tilintar das chaves que ela sempre carregava presas ao cinto.
Hylda estava sentada em uma das mesas de carvalho, folheando um catálogo de arte com a mesma intensidade com que examinaria o motor de uma turbina. Ela usava uma regata preta que deixava suas tatuagens à mostra e o cheiro de óleo industrial parecia brigar com o aroma de cera de abelha do ambiente.
Gabriele observava-a de sua mesa, uma caneta-tinteiro suspensa no ar. O episódio na fábrica ainda ecoava em sua mente — o perigo, a sujeira, a agressividade latente daqueles homens. Ela sentia um aperto no peito toda vez que imaginava Hylda naquele ambiente insalubre, cercada por riscos que uma mulher de cinquenta e sete anos, por mais forte que fosse, não deveria mais correr.
— Hylda — começou Gabriele, a voz suave, mas carregada de uma intenção que ela vinha maturando há dias.
— Hum? — Hylda nem levantou os olhos do livro. — Sabia que esse tal de Caravaggio pintava as sombras como se fossem graxa? Gostei dele. Sujeito bruto.
— Estava pensando na sua situação na fundição — continuou Gabriele, ignorando a digressão artística. — Você já tem a chácara, tem suas economias, e sinceramente, aquele lugar... é sujo, Hylda. Cheio de brutamontes como aquele Jurandir. Você já está em uma idade em que deveria considerar algo mais... digno.
Hylda finalmente levantou a cabeça. Seus olhos escuros estreitaram-se, e o catálogo de arte foi fechado com um baque seco que ecoou pelas prateleiras.
— "Digno", madame? — Hylda repetiu, a voz ganhando aquela rouquidão perigosa. — O que você quer dizer com isso? Que o meu trabalho é uma vergonha para a sua biblioteca impecável?
— Não seja dramática — Gabriele levantou-se, contornando a mesa com sua elegância habitual. — Só acho que você poderia dar aulas de mecânica no Senai, ou abrir sua própria oficina de restauração na chácara. Longe daquela fuligem, longe de pessoas que não te respeitam. Você não precisa mais daquilo.
Hylda levantou-se também, a cadeira raspando o chão de madeira com um som estridente. Ela caminhou em direção a Gabriele, invadindo seu espaço pessoal com a sutileza de uma escavadeira.
— Quem disse que eles não me respeitam? Eles me temem, Gabriele. E eu gosto disso. Eu construí aquela porra de império com o meu suor e o meu sangue. Você quer o quê? Que eu use um avental limpinho e ensine garotos mimados a trocar um pneu enquanto tomo chá com você às cinco da tarde?
— Quero que você pare de se destruir! — Gabriele elevou o tom, algo raro nela. — Você fuma demais, trabalha demais e se expõe a riscos desnecessários. Você tem cinquenta e sete anos, Hylda! O seu corpo não é mais de aço.
O silêncio que se seguiu foi tenso, carregado de uma eletricidade estática que fazia os pelos dos braços de Gabriele se arrepiarem. Hylda deu um passo final, encurralando Gabriele contra uma das estantes de madeira maciça. O impacto das costas de Gabriele contra os livros fez alguns volumes de poesia francesa tremerem.
— "Idade"? — Hylda sibilou, as mãos espalmadas na estante, uma de cada lado da cabeça de Gabriele. — Você está me chamando de velha, Gabriele? É isso? Acha que eu estou ficando enferrujada?
Gabriele sentiu o coração disparar. A proximidade de Hylda, o cheiro de tabaco e metal, e a força bruta que emanava dela sempre tiveram um efeito ambivalente em seus sentidos. Ela sentia raiva, sim, mas sentia algo mais — uma pulsação quente que começava no baixo ventre e subia como um incêndio.
— Estou dizendo que você é teimosa e que se recusa a ver o óbvio — Gabriele tentou manter a voz firme, embora sua respiração estivesse curta. — Me solta, Hylda! Você precisa pensar em você, você já tem dinheiro, tem a chácara... não precisa provar mais nada para ninguém.
Hylda inclinou o rosto, a boca a milímetros da orelha de Gabriele.
— Fica quieta, Gabriele! — Hylda rosnou, o hálito quente atingindo a pele pálida da bibliotecária. — Eu odeio quando você tenta me organizar como se eu fosse um desses seus livrinhos de capa dura. Eu prefiro quando você não tenta ser minha mãe. Prefiro quando você só geme meu nome.
O comentário foi como um fósforo em um barril de pólvora. A indignação de Gabriele transbordou e, em um impulso de puro reflexo e frustração, ela desferiu um tapa no rosto de Hylda.
O estalo ecoou pelo silêncio da biblioteca.
A cabeça de Hylda virou para o lado com o impacto. Houve um segundo eterno em que o tempo pareceu parar. Gabriele arregalou os olhos, a mão ainda ardendo, o pânico começando a substituir a raiva. Ela nunca havia batido em ninguém na vida.
— Hylda... eu... — Gabriele começou, a voz falhando.
Hylda voltou o rosto devagar. Havia uma marca vermelha em sua bochecha, mas seus olhos não brilhavam com fúria. Eles brilhavam com algo muito mais perigoso: um desejo selvagem e uma determinação absoluta. Ela soltou uma risada curta e sombria.
— Foi um bom tapa, madame. Quase digno de uma mulher de verdade.
Sem aviso, Hylda atacou. Suas mãos agarraram a cintura de Gabriele com uma força que não deixava espaço para protestos, e seus lábios colaram-se aos de Gabriele em um beijo que tinha gosto de possessão e redenção. Gabriele tentou resistir por um segundo, as mãos empurrando os ombros de Hylda, mas o fogo que sentia por dentro era forte demais. Seus dedos se fecharam na regata de Hylda, puxando-a para mais perto, enquanto sua língua buscava a da outra com uma urgência faminta.
Hylda deslizou uma das mãos pela coxa de Gabriele, levantando a saia de lápis de grife, os dedos calejados encontrando a pele macia sob a meia-calça fina. Gabriele soltou um gemido abafado contra a boca de Hylda, uma mistura de protesto e rendição total.
— Você é insuportável — murmurou Gabriele entre os beijos, a respiração vindo em haustos.
— E você é louca por mim — respondeu Hylda, a mão subindo perigosamente pela coxa de Gabriele.
Hylda interrompeu o beijo por um momento, mas não se afastou. Ela encostou a testa na de Gabriele, ambas ofegantes, o calor de seus corpos criando uma bolha de intimidade no meio da biblioteca fria.
— Se eu fizer o que você quer... — Hylda começou, a voz mais baixa, quase vulnerável. — Se eu deixar aquela porcaria de fábrica e me tornar um pouco menos "bruta"... o que eu ganho em troca?
Gabriele olhou para ela, os óculos levemente tortos, os lábios inchados.
— Você ganha uma vida mais longa. Comigo.
Hylda deu um sorriso torto, o coração batendo forte contra as costelas. Ela se afastou apenas o suficiente para enfiar a mão no bolso da jaqueta de couro que estava pendurada na cadeira próxima. Ela tirou uma pequena caixa de metal, gasta e arranhada, que parecia conter peças de motor.
— Eu não sou de flores, Gabi. E não sou de veludo — Hylda abriu a caixinha. Dentro, não havia um diamante lapidado, mas um anel de aço escovado, pesado e simples, com uma pequena ranhura que lembrava uma engrenagem. — Mas se você aceitar ser a Sra. Carandini... se você aceitar que essa ferrugem aqui faça parte da sua estante para sempre... eu considero a ideia de mudar de profissão. Só para não morrer antes de te ver ficar velhinha e ainda mais ranzinza.
Gabriele sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. O pedido era tão Hylda — desajeitado, bruto e profundamente honesto. Ela olhou para o anel de aço, que brilhava sob a luz da tarde, e percebeu que nenhuma joia de ouro teria o mesmo valor.
— Você está me pedindo em casamento no meio da seção de História, depois de me prensar contra a estante? — perguntou Gabriele, com um riso soluçante.
— É o lugar mais romântico que eu conheço, já que é onde você vive — Hylda deu de ombros, mas seus olhos traíam o nervosismo. — E então? Vai aceitar o aço ou vai continuar querendo só a seda?
Gabriele não respondeu com palavras. Ela estendeu a mão esquerda, os dedos trêmulos. Hylda deslizou o anel de aço pelo dedo anelar de Gabriele. O metal estava frio, mas o gesto era puro fogo.
— Sim — sussurrou Gabriele. — Eu aceito. Mesmo que você seja um desastre ambulante.
Hylda soltou um suspiro de alívio que pareceu esvaziar todo o seu peito. Ela puxou Gabriele para outro abraço, desta vez mais suave, escondendo o rosto no pescoço da bibliotecária.
— Eu vou ser o desastre mais bem cuidado desse mundo, madame.
— Vai mesmo — Gabriele sorriu, acariciando os cabelos curtos e grisalhos de Hylda. — E eu vou pessoalmente levar o seu currículo para a escola técnica.
— Não estraga o momento, Gabi — Hylda riu, a mão voltando a deslizar por baixo da saia de Gabriele, subindo com uma audácia renovada. — Agora, por que você não tranca a porta dessa biblioteca e me mostra o quanto você ficou "irritada" com aquele meu comentário sobre os seus gemidos?
Gabriele sentiu o rosto queimar, mas desta vez, ela não se afastou. Ela apenas segurou o rosto de Hylda, os polegares traçando a marca do tapa que já começava a sumir, mas que ficaria gravada na memória das duas como o momento em que as engrenagens finalmente se ajustaram.
— A porta já está trancada, Hylda — sussurrou Gabriele, puxando-a para baixo, em direção ao tapete persa que decorava o centro da sala.
Ali, entre o conhecimento acumulado de séculos e o cheiro de óleo industrial, o veludo e o aço encontraram seu repouso. Não havia mais segredos, não havia mais vergonha. Apenas o som de duas mulheres que, apesar de todas as cicatrizes e diferenças, haviam decidido que o resto de suas vidas seria escrito juntas, em uma caligrafia feita de força, teimosia e um amor que não cabia em nenhum catálogo de biblioteca.