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As provocações

O Eclipse da Imperatriz de Vidro e a Fúria das Herdeiras Carmesim

O ar em Tempest estava tão denso que poderia ser cortado com uma das espadas de Benimaru. Mas a pressão não vinha de um exército invasor, e sim do escritório central do palácio. Rimuru Tempest, atualmente em sua forma feminina e no sétimo mês de sua terceira gravidez, estava sentado atrás de sua mesa com uma expressão que faria o próprio Veldanava reconsiderar a criação do mundo.

Esta gravidez estava sendo, em termos técnicos e mágicos, um pesadelo. Ciel explicava constantemente que a mistura da essência de Slime com o sangue primordial de Guy Crimson estava gerando uma criança com uma densidade mágica tão absurda que o corpo de Rimuru estava sendo levado ao limite. O resultado? Um enjoo constante, dores nas costas e um humor que oscilava entre a melancolia profunda e a fúria apocalíptica.

— Guy, se você respirar na direção do meu pescoço mais uma vez, eu vou pedir para o Veldora te levar para passear no espaço sideral — rosnou Rimuru, sem desviar os olhos dos relatórios que ele mal conseguia ler.

Guy Crimson, que estava ajoelhado ao lado da cadeira de Rimuru, massageando os pés inchados do Slime com uma delicadeza que ninguém acreditaria ser possível para o Lorde Demônio Original, apenas sorriu de lado. Ele estava em um estado de alerta permanente.

— Você está tensa, meu amor — disse Guy, sua voz vibrando em um tom baixo para não irritar os ouvidos sensíveis de Rimuru. — E a pequena Shizuki está chutando de novo. Posso sentir a mana dela tentando remodelar as barreiras do quarto.

— Ela tem o seu temperamento — resmungou Rimuru, fechando os olhos por um segundo. — Akane era enérgica, Luz era silenciosa, mas esta aqui... esta aqui quer destruir tudo antes mesmo de nascer.

No tapete do escritório, a cena era igualmente tensa. Akane, agora com seis anos e ostentando uma presença que faria reis humanos se ajoelharem, estava sentada em frente à sua irmã mais nova, Luz, de quatro anos. Akane era a definição de possessividade. Ela circulava Luz como um predador protegendo seu tesouro.

— Eu já disse, Diablo — Akane falou, seus olhos roxos brilhando com uma chama carmesim perigosa. — Você pode entregar os papéis para a Mamãe, mas não chegue a menos de dois metros da Luz. Ela está tentando dormir e a sua aura de demônio bajulador está incomodando o sono dela.

Diablo, que estava parado a uma distância segura, mantinha seu sorriso elegante, embora suasse frio. Ele adorava Rimuru, mas as filhas de Guy Crimson eram, reconhecidamente, pequenos terrores.

— Como desejar, Pequena Imperatriz — respondeu Diablo, recuando um passo.

Luz, por sua vez, era o oposto da irmã em termos de ruído, mas não de perigo. Ela estava sentada com as pernas cruzadas, segurando uma chupeta de cristal azul — uma de sua vasta coleção infundida com a mana de Rimuru — e chupando-a com uma determinação silenciosa. Luz raramente falava, mas sua aura era como um escudo absoluto. Ela odiava quando estranhos ou servos de Guy chegavam perto de sua família.

De repente, a chupeta de Luz caiu de sua boca e rolou para debaixo de um armário. O silêncio que se seguiu foi aterrorizante. Os olhos amarelos de Luz, idênticos aos de Rimuru, começaram a brilhar com uma luz dourada pálida e seus lábios começaram a tremer.

— Oh, não... — sussurrou Rimuru, cobrindo o rosto com as mãos.

Luz soltou um choro agudo e potente que fez os vitrais do escritório trincarem. O som era carregado de uma tristeza mágica que afetava diretamente os sentimentos de quem estava por perto.

— MINHA CHUPETA! — gritou Luz, as lágrimas escorrendo por seu rosto perfeito.

Em um piscar de olhos, Guy já estava debaixo do armário, movendo o móvel de várias toneladas com uma mão só como se fosse feito de papel.

— Aqui, Luz! Aqui está! — Guy entregou o objeto de cristal, mas a menina continuou a soluçar, recusando-se a pegá-lo porque havia tocado o chão.

— Está suja! — Luz choramingou, estendendo os braços para Guy.

Guy a pegou no colo instantaneamente, aninhando a menina contra seu peito largo.

— Misery! — rugiu Guy para o nada. A serva apareceu em um segundo. — Limpe e esterilize esta chupeta com chamas purificadoras agora! Se minha filha chorar mais um segundo, eu vou reduzir o Continente de Gelo a vapor!

Enquanto o drama da chupeta se desenrolava, Rimuru sentiu uma pontada forte em seu ventre. Ele soltou um gemido baixo, o que foi o suficiente para que Akane e Guy parassem tudo o que estavam fazendo.

— Mamãe? — Akane correu para o lado de Rimuru, empurrando Diablo para longe sem a menor cerimônia. — O que houve? A Shizuki está te machucando? Eu posso dar um soco na barriga para ela aprender a se comportar?

— Akane, não! — Rimuru riu, apesar da dor. — Ela só está... se movendo.

A gravidez seguiu sob um regime de terror. Rimuru não podia nem ir ao banheiro sem que Guy, Akane e Luz fizessem uma escolta armada. O humor de Rimuru piorava a cada dia. Ele chegou a banir Veldora do palácio por três dias apenas porque o dragão estava rindo muito alto de um mangá.

— Eu não aguento mais essa possessividade! — gritou Rimuru certa tarde, jogando uma almofada em Guy. — Eu sou um Lorde Demônio! Eu não sou um cristal frágil!

— Você é o MEU cristal — respondeu Guy, segurando a almofada no ar com telecinese e sentando-se na cama ao lado de Rimuru. — E você está carregando a minha terceira centelha de vida. Eu não vou arriscar nada.

— O Papai está certo, Mamãe — disse Luz, que havia subido na cama e se encaixado entre os dois, chupando sua chupeta reserva. — Você é pequena e fofa. Precisa de nós.

Rimuru olhou para as três figuras ruivas e possessivas à sua frente e suspirou, derrotado pelo amor exagerado deles.

O nascimento de Shizuki ocorreu durante uma tempestade de neve mágica que cobriu Tempest, algo inédito para a região. O parto foi difícil; a mana de Shizuki era errática e agressiva. Rimuru estava exausto, sua forma feminina brilhando com uma luz prateada intensa enquanto Ciel trabalhava nos bastidores para estabilizar o processo.

— Guy... se você não parar de tremer... eu vou... — Rimuru não conseguiu terminar a frase, apertando a mão de Guy com tanta força que o som dos ossos do Lorde Demônio estalando ecoou pelo quarto.

— Eu estou calmo! — mentiu Guy, cujos olhos estavam em um vermelho vivo de puro pânico.

Quando o choro finalmente ecoou, não foi um grito de tristeza como o de Luz, nem um grito de guerra como o de Akane. Foi uma risada curta, seguida por um resmungo irritado.

Shizuki nasceu. E no momento em que Rimuru a segurou, ele soube que teria problemas. A bebê era a imagem cuspida de Rimuru: cabelos azul-prateados e traços inocentes. Mas quando ela abriu os olhos e olhou para Guy, ela soltou um pequeno rosnado e tentou morder o dedo do pai.

— Ela é... eu? — perguntou Rimuru, chocado.

— A aparência é sua — disse Guy, pegando a pequena Shizuki, que prontamente agarrou um de seus chifres e tentou puxá-lo com uma força incrível. — Mas o espírito... o espírito é puramente meu.

Shizuki provou ser a criança mais peculiar da linhagem. Ela era brincalhona, adorava carinho e passava horas rindo enquanto Diablo a carregava pelo jardim. Diferente das irmãs, ela não tinha ciúmes dos cidadãos de Tempest e adorava ser o centro das atenções, distribuindo sorrisos para os goblins e orcs.

No entanto, sua personalidade "Guy" aflorava de forma brutal com os servos do próprio Guy.

Meses depois, no castelo de gelo, Rain estava tentando limpar o berçário quando a pequena Shizuki, que já engatinhava com uma velocidade mágica, bloqueou seu caminho.

— Sai, serva feia — disse Shizuki, com uma voz infantil, mas carregada de desdém.

— Princesa Shizuki, eu só preciso limpar o chão... — Rain tentou explicar.

Shizuki se levantou, cambaleando, e cruzou os braços exatamente como Guy fazia.

— O chão é da Mamãe. Você não gosta da Mamãe. Eu vi você olhando feio para ela ontem. Se tocar no chão da Mamãe, eu conto para o Papai que você quebrou o vaso favorito dele.

Rain empalideceu. Shizuki era manipuladora, possessiva e irritadiça com qualquer um que ela considerasse um "inimigo" de Rimuru. Ela adorava provocar as servas de Guy, sabendo exatamente quais botões apertar.

Uma tarde, Rimuru estava descansando no trono de gelo com Shizuki em seu colo. Guy estava sentado aos seus pés, com a cabeça apoiada nos joelhos de Rimuru, em sua habitual demonstração pública de adoração. Akane e Luz estavam por perto, formando um círculo de proteção.

— Você está feliz, Rimuru? — perguntou Guy, fechando os olhos enquanto sentia a mão de Rimuru em seus cabelos.

— Eu estou exausto, Guy. Minha vida é cercada por quatro demônios ruivos e possessivos que não me deixam nem respirar sozinhos — Rimuru respondeu, mas seu tom era doce.

Shizuki, percebendo a conversa, inclinou-se para frente e deu um beijo babado no nariz de Guy, antes de se virar e abraçar o pescoço de Rimuru com força.

— Mamãe é o meu tesouro — declarou Shizuki, olhando para Rain e Misery que observavam de longe. — Quem chegar perto sem pedir, eu mordo!

— Ela realmente é a sua cara, Guy — Rimuru riu, sentindo Shizuki se aconchegar em seu peito.

— E ela tem o seu coração, Rimuru — Guy respondeu, levantando-se para beijar os lábios de sua rainha. — O que a torna a criatura mais perigosa deste mundo.

Naquele castelo de gelo, o frio nunca chegava ao centro. O calor emanava de uma família construída sobre o ciúme, a possessividade e um amor tão absoluto que desafiava a própria lógica dos Lordes Demônios. Rimuru Tempest, o Slime que conquistou o mundo, havia sido, no fim das contas, conquistado pelo abraço eterno de sua própria linhagem carmesim.