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Até o Amor Desistiu

O Reencontro das Almas e o Peso do Amanhã

Na penumbra dourada do quarto, o tempo parecia ter finalmente parado de correr contra eles. Jungkook mantinha os braços apoiados de cada lado do corpo de Alyssa, observando-a como se ela fosse uma miragem que pudesse se dissipar ao menor toque brusco. Ali, longe dos flashes, das exigências da BigHit e do trauma sufocante do hospital, eles eram apenas dois jovens tentando se reencontrar em meio aos escombros de uma perda devastadora.

— Você tem certeza disso? — sussurrou Jungkook, a voz carregada de uma vulnerabilidade que raramente mostrava ao mundo. — Eu não quero te pressionar. Eu só quero que você saiba que eu estou aqui.

Alyssa estendeu a mão, tocando a tatuagem na mão dele, traçando os contornos que ela havia decorado em suas noites de solidão.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada, Jeon — respondeu ela, puxando-o para mais perto. — Eu senti que uma parte de mim tinha morrido naquele hospital. Mas agora, com você... eu sinto que posso tentar respirar de novo.

O que se seguiu foi uma entrega mútua, um diálogo de corpos que as palavras não conseguiam expressar. Não havia pressa, apenas uma necessidade profunda de reafirmar que pertenciam um ao outro. Cada toque de Jungkook era uma promessa silenciosa de proteção, e cada resposta de Alyssa era um perdão implícito por todo o sofrimento que a fama dele havia trazido para a vida deles. Entre lençóis de algodão egípcio e o silêncio protetor da casa nova, eles se redescobriram, curando as feridas invisíveis com o calor da pele e a intensidade de um amor que sobreviveu ao pior dos cenários.

Horas depois, quando a luz do sol já havia se transformado em um crepúsculo azulado, o som do estômago de Alyssa protestando quebrou o silêncio pós-êxtase. Jungkook soltou uma risada baixa, um som que ela não ouvia há meses e que aqueceu seu coração.

— Parece que alguém está com fome — brincou ele, depositando um beijo casto na testa dela. — Eu prometi um banquete, não prometi?

— Eu achei que você estivesse brincando sobre cozinhar — disse ela, sorrindo timidamente enquanto se enrolava no lençol. — Você mal tem tempo de comer, quem diria cozinhar.

— Você ficaria surpresa com o que eu aprendi assistindo a vídeos no YouTube durante as madrugadas de insônia — ele piscou para ela, levantando-se e vestindo uma calça de moletom cinza. — Vá tomar um banho relaxante. Quando você sair, a cozinha será sua.

Alyssa obedeceu, sentindo o corpo leve pela primeira vez em muito tempo. Quando finalmente saiu do quarto, vestindo uma camiseta dele que ficava enorme nela, o aroma que vinha da cozinha era divinal. Não era apenas o cheiro de comida; era o cheiro de lar.

Jungkook estava concentrado, mexendo em algumas panelas sobre o fogão moderno. Na bancada, pratos de porcelana escura já estavam postos, e o ambiente estava iluminado por luzes quentes e baixas.

— O que temos para hoje, Chef Jeon? — perguntou ela, aproximando-se e abraçando-o por trás, descansando o rosto em suas costas largas.

— Fiz o básico que conforta a alma — disse ele, virando-se para envolvê-la em seus braços. — Um *Bulgogi* marinado com a receita da minha mãe e um *Japchae* com muitos vegetais, do jeito que você gosta. E, claro, arroz fresquinho.

Eles se sentaram e, ao provar a primeira garfada, Alyssa fechou os olhos. A carne estava incrivelmente macia, com um equilíbrio perfeito entre o doce e o salgado, e os temperos pareciam explodir em seu paladar.

— Jeon... isso está maravilhoso! — exclamou ela, genuinamente surpresa. — É a melhor coisa que eu comi em meses.

— Eu coloquei todo o meu arrependimento e todo o meu amor nesse tempero — ele confessou, observando-a comer com satisfação. — Ver você com apetite é o melhor presente que eu poderia receber.

Eles comeram em um silêncio confortável, compartilhando sorrisos e pequenos gestos de carinho. No entanto, à medida que a refeição chegava ao fim, a realidade do mundo exterior começou a se infiltrar pelas frestas da bolha que haviam criado. Jungkook pousou os hashis e limpou os lábios, seu semblante tornando-se mais sério.

— Alyssa... precisamos conversar sobre o que vem agora — começou ele, segurando a mão dela sobre a mesa. — Eu tenho esse afastamento da empresa, mas ele não vai durar para sempre. Eu quero que você venha comigo para Seul quando eu tiver que voltar. Eu comprei um apartamento novo, com segurança máxima, ninguém vai nos incomodar. Eu quero acordar todos os dias com você ao meu lado.

Alyssa sentiu um aperto no peito. Ela olhou para as mãos unidas e depois para os olhos expectantes de Jungkook.

— Jeon, eu não sei se consigo — sussurrou ela, a voz tremendo levemente. — Seul... Seul é o centro do furacão. Eu tenho medo, Jeon. Medo das fãs, medo daquela perseguição constante, medo de que a empresa decida que eu sou um problema de novo. Eu não tenho forças para passar por tudo aquilo outra vez.

— Eu vou te proteger, Alyssa. Eu juro pela minha vida que nada vai te acontecer — insistiu ele, apertando a mão dela com mais força.

— Não é só sobre segurança física — explicou ela, com lágrimas nos olhos. — É sobre paz de espírito. Aqui em Busan, eu me acostumei. As pessoas me deixam em paz. Eu sinto que posso ser a Alyssa de novo, e não apenas "a namorada secreta do Jungkook". Na verdade... eu ando pensando muito nos meus pais, Jeon. Eu sinto falta do Brasil. Falta do sol, do cheiro da comida da minha mãe, da sensação de estar em casa de verdade. Eu pretendo voltar para lá em breve.

O rosto de Jungkook empalideceu. A ideia de ter um oceano de distância entre eles era insuportável.

— Não... por favor, não diga isso — ele implorou, levantando-se e dando a volta na mesa para se ajoelhar ao lado da cadeira dela. — Eu não posso te perder de novo. Se você for para o Brasil, como vamos fazer? Eu não posso simplesmente largar tudo e ir morar lá, embora eu quisesse.

— Eu preciso me curar, Jeon. E eu não sei se consigo fazer isso na Coreia — disse ela, acariciando o cabelo dele.

— Então traga eles para cá! — exclamou ele, uma ideia desesperada brilhando em seus olhos. — Eu pago tudo, Alyssa. Passagens de primeira classe, uma casa ao lado da nossa, hospedagem, visto, tudo! Eu contrato tradutores, eu garanto que eles tenham a melhor vida possível aqui. Só não me deixe. Você pode ir visitá-los quando quiser, eu compro um jato se for preciso, mas volte para mim. Fique comigo em Busan, se você prefere aqui, eu convenço a empresa a me deixar morar aqui e eu viajo para Seul só para o trabalho.

Alyssa olhou para ele, vendo o ídolo mundialmente famoso reduzido a um homem suplicando por amor e companhia.

— Você faria tudo isso? — perguntou ela, surpresa com a extensão da oferta.

— Eu faria muito mais — ele respondeu, encostando a testa no joelho dela. — Eu perdi o nosso bebê, Alyssa... eu quase perdi você. Eu não vou deixar o resto do mundo ditar como vamos viver. Se você quer seus pais por perto, eu farei acontecer. Se você quer morar em Busan e nunca mais pisar em Seul, eu farei acontecer. Só me dê uma chance de te mostrar que podemos ter uma vida normal, apesar de tudo.

Alyssa sentiu uma lágrima cair. O peso da saudade do Brasil ainda estava lá, mas o amor que emanava de Jungkook era uma âncora poderosa. Ela não tinha todas as respostas, e o medo ainda era uma sombra constante, mas olhar para o homem à sua frente a fazia querer tentar.

— Eu não posso prometer que vai ser fácil, Jeon — disse ela, levantando o rosto dele para que se olhassem. — E eu ainda quero ver meus pais. Mas... se você está disposto a lutar assim, eu acho que posso tentar ficar. Mas você tem que me prometer: chega de segredos com a empresa sobre nós.

— Eu prometo — disse ele, com uma determinação feroz. — De agora em diante, somos nós contra o mundo. E eu pretendo ganhar.

Ele a puxou para um abraço apertado, e ali, naquela cozinha com cheiro de tempero caseiro e promessas de um futuro incerto, eles começaram a planejar não apenas uma vida, mas uma reconstrução. O caminho seria longo, as cicatrizes da perda do filho nunca sumiriam completamente, mas, pela primeira vez, o horizonte parecia um pouco menos sombrio.