Até o Amor Desistiu
O Som do Silêncio e o Peso das Promessas
A manhã em Busan nasceu envolta em uma névoa densa, como se o próprio céu estivesse tentando proteger a privacidade daquele refúgio à beira-mar. Dentro do apartamento, o silêncio não era mais carregado de angústia, mas de uma expectativa frágil. Jungkook acordou antes de Alyssa, observando o peito dela subir e descer em um ritmo tranquilo. Por um momento, ele se permitiu apenas ser um homem apaixonado, esquecendo-se da pressão que o nome "Jeon Jungkook" carregava em todos os cantos do globo.
Ele se levantou silenciosamente, cuidando para não despertar a mulher que era seu mundo. Enquanto preparava um café forte, o brilho da tela de seu celular, deixado sobre o balcão da cozinha, chamou sua atenção. Eram notificações incessantes. Jimin havia mandado mensagens perguntando como as coisas estavam, e havia três chamadas perdidas de Bang Si-hyuk. O prazo do seu isolamento estava se tornando um tópico de debate na empresa.
Jungkook suspirou, passando a mão pelo rosto cansado. Ele havia prometido a Alyssa: sem mais segredos, sem mais esconder a existência dela como se fosse algo de que se envergonhar. Mas ele sabia que a transição de "namorada secreta" para "mulher ao lado do maior ídolo do mundo" seria um campo minado.
— Você já está pensando neles, não está? — A voz de Alyssa soou suave, vinda da porta da cozinha. Ela vestia um de seus moletons pretos, que parecia engoli-la, tornando-a ainda mais delicada aos olhos dele.
Jungkook deixou o celular de lado e abriu os braços. Ela caminhou até ele, encaixando-se em seu abraço como se aquele fosse o único lugar seguro na Terra.
— Eu estava pensando em como cumprir minhas promessas — admitiu ele, beijando o topo da cabeça dela. — Eu liguei para o meu advogado particular ontem à noite, tarde. Já dei entrada nos trâmites para os vistos de permanência dos seus pais. Se eles aceitarem vir, Alyssa, eu quero que eles tenham tudo. Uma casa, assistência médica de ponta, segurança.
Alyssa se afastou um pouco para olhar nos olhos dele. Havia uma mistura de gratidão e hesitação em seu semblante.
— Jeon, você sabe que meus pais são pessoas simples. Eles moram no interior de Minas Gerais. A ideia de atravessar o mundo para morar em uma "gaiola de ouro" na Coreia pode assustá-los tanto quanto me assusta.
— Eu sei — ele respondeu, acariciando o rosto dela com o polegar. — Por isso não será uma gaiola. Vamos encontrar um lugar onde eles se sintam em casa. E, sobre a empresa... eu vou ter uma reunião por videoconferência hoje à tarde. Eu vou dizer a eles que não volto para Seul em tempo integral. Vou dizer que minha base agora é Busan.
Alyssa sentiu um frio na barriga.
— Eles vão odiar isso, Jeon. O cronograma do grupo, os ensaios, as gravações... como você vai conciliar tudo?
— Eu pegarei o trem-bala todos os dias se for preciso. Ou o helicóptero da empresa. Eu não me importo com o cansaço físico, Alyssa. O que eu não aguento mais é o cansaço da alma de estar longe de você, sabendo que você está sofrendo sozinha.
Eles tomaram café juntos, planejando os próximos passos como se estivessem montando um quebra-cabeça cujas peças insistiam em não se encaixar. Alyssa ainda sentia a pontada aguda da perda em seu ventre, uma dor fantasma que a lembrava do bebê que nunca chegaria a conhecer. Jungkook percebia esses momentos de distração dela, quando o olhar dela se perdia no horizonte cinzento do mar, e ele simplesmente segurava a mão dela, oferecendo sua presença como um bálsamo.
Às duas da tarde, o clima mudou. Jungkook vestiu uma camisa social preta, ajeitou o cabelo e se preparou para a chamada de vídeo que poderia definir o resto de sua carreira. Alyssa decidiu ficar no quarto, dando-lhe o espaço necessário, mas ele insistiu que ela ficasse por perto, se quisesse.
— Eu não quero que você sinta que estou escondendo algo de novo — disse ele, seriamente.
— Eu estarei na varanda — respondeu ela com um sorriso triste. — Preciso de um pouco de ar fresco.
Jungkook ligou o laptop. Na tela, os rostos sérios de três diretores da HYBE e do próprio CEO apareceram. O silêncio inicial foi tenso.
— Jungkook-ah — começou Bang PD, sua voz cansada, mas firme. — Esperamos que este tempo tenha servido para você recuperar suas forças. O mundo está perguntando por você. O grupo tem compromissos em Las Vegas no próximo mês. Precisamos organizar o seu retorno aos ensaios.
Jungkook respirou fundo, sentindo o peso de milhões de expectativas sobre seus ombros.
— Eu agradeço o tempo que me deram — começou ele, a voz ressoando com uma autoridade que surpreendeu os executivos. — Mas as coisas não vão voltar a ser como eram antes. Eu não vou mais esconder a Alyssa. E eu não vou morar em Seul. Minha residência oficial agora é em Busan.
Um dos diretores limpou a garganta, visivelmente desconfortável.
— Jungkook, entenda a posição da empresa. O escândalo da perseguição e o incidente no hospital já foram difíceis de controlar. Trazer isso a público agora, de forma oficial, pode gerar uma reação sem precedentes das sasaengs. A segurança dela...
— A segurança dela é minha prioridade absoluta — interrompeu Jungkook, os olhos brilhando com uma determinação feroz. — E se a empresa não puder garantir isso com a estrutura que temos, eu mesmo contratarei uma equipe privada. Eu não estou pedindo permissão. Estou comunicando como vou viver a partir de agora. Se eu tiver que escolher entre os palcos e a saúde mental da mulher que eu amo, vocês sabem qual será a minha escolha.
Houve um silêncio mortal do outro lado da linha. A ameaça implícita de uma aposentadoria precoce ou de uma quebra de contrato do maior artista da nação era algo que ninguém ali estava disposto a arriscar.
— O que você sugere, então? — perguntou Bang PD, cruzando os braços.
— Transparência — disse Jungkook. — Vamos emitir um comunicado. Não precisamos de detalhes íntimos, mas precisamos confirmar que estou em um relacionamento sério e que exijo respeito à nossa privacidade. Qualquer veículo de imprensa ou indivíduo que cruzar a linha será processado sem hesitação. E sobre o trabalho... eu cumprirei minha agenda. Estarei em Seul para os ensaios e viajarei para os shows. Mas meu lar é onde ela estiver.
Enquanto a discussão continuava, Alyssa, na varanda, observava as ondas quebrarem na areia. Ela ouvia o tom de voz de Jungkook — firme, protetor, inabalável. Uma parte dela se sentia culpada por ser o "obstáculo" na carreira perfeita dele, mas a parte que havia quase morrido naquele hospital sabia que aquela era a única forma de sobreviverem.
Ela pegou o celular e viu uma mensagem de sua mãe no WhatsApp. Uma foto do café da manhã simples em Minas: pão de queijo quentinho e café coado. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Ela sentia tanta falta da simplicidade. Da vida onde ela não era um alvo, mas apenas a "Alyssinha".
Quando Jungkook finalmente encerrou a chamada, ele foi até a varanda. Ele parecia exausto, mas vitorioso.
— Eles aceitaram? — perguntou ela, sem se virar.
— Eles não tiveram escolha — respondeu ele, abraçando-a por trás e descansando o queixo em seu ombro. — Eles sabem que eu falo sério. O comunicado sairá amanhã. O mundo vai saber que eu pertenço a você, Alyssa.
— E os meus pais? — Ela se virou nos braços dele. — Eu falei com a minha mãe agora pouco. Ela está preocupada. Ela sente que algo está errado, mas eu não tive coragem de contar sobre o bebê pelo telefone.
Jungkook suspirou, seu coração apertando.
— Vamos fazer o seguinte: eu vou organizar tudo para que possamos ir ao Brasil.
Alyssa arregalou os olhos.
— O quê? Jeon, você não pode simplesmente ir ao Brasil! A logística, os fãs, a segurança... seria um caos.
— Não se formos discretos. Eu posso conseguir um voo privado. Ficamos em uma área reservada. Eu quero conhecer o lugar onde você cresceu. Quero olhar nos olhos do seu pai e da sua mãe e pedir perdão por não ter protegido a filha deles e o neto deles como deveria. E então, faremos o convite pessoalmente para que venham morar conosco.
— Você realmente faria isso? — Alyssa sentiu o coração acelerar. A ideia de ter o conforto de sua família por perto, de sentir o abraço de sua mãe, era o que ela mais precisava para terminar de colar os cacos de sua alma.
— Eu faria qualquer coisa por você — ele repetiu, a promessa selada com um beijo suave em seus lábios. — Mas antes de irmos, precisamos enfrentar a primeira tempestade aqui. Amanhã, quando o sol nascer, o nome "Alyssa" estará em todos os lugares. Você está pronta para isso?
Alyssa olhou para o mar, para a imensidão cinzenta que parecia refletir seu próprio futuro. Ela pensou na traição de sua amiga, no ex-namorado que a machucou, na perda devastadora de seu filho e no homem que moveu o mundo para estar ao seu lado.
— Com você segurando a minha mão? — Ela respirou fundo, sentindo uma força que achava ter perdido para sempre. — Eu estou pronta.
Naquela noite, eles não dormiram muito. Ficaram abraçados na cama, trocando histórias sobre suas infâncias tão diferentes. Jungkook contou sobre os dias de trainee, a pressão de crescer sob os refletores e como ele muitas vezes se sentia sozinho, mesmo rodeado por milhares de pessoas. Alyssa contou sobre as tardes quentes em Minas, o cheiro de terra molhada depois da chuva e os sonhos simples que tinha antes de sua vida virar do avesso.
— Sabe o que é engraçado? — começou Jungkook, brincando com os dedos dela. — Eu sempre cantei sobre amor, Alyssa. Milhares de letras sobre paixão, perda e saudade. Mas eu só entendi o que cada uma daquelas palavras significava quando vi você naquele hospital. Eu percebi que não sei ser o "Jungkook do BTS" se não houver a Alyssa para me lembrar de quem é o Jeon Jungkook.
— Nós vamos ficar bem, Jeon? — Ela perguntou, a voz pequena na escuridão do quarto.
— Nós vamos ser felizes, Alyssa. Vai levar tempo, e haverá dias em que a tristeza pelo que perdemos vai ser mais forte que tudo. Mas nós vamos construir algo novo sobre essas ruínas. Eu prometo.
No dia seguinte, exatamente às dez da manhã, a HYBE emitiu a nota oficial. O servidor do site caiu em questão de segundos. As redes sociais explodiram. O nome de Alyssa tornou-se o assunto mais comentado do planeta. Milhões de mensagens de apoio se misturavam a outras tantas de ódio e curiosidade mórbida.
Jungkook desligou o roteador da casa. Ele não queria que ela visse os comentários, nem os bons, nem os maus. Ele queria apenas que aquele dia fosse sobre eles.
— O café está pronto — anunciou ele, tentando manter o clima leve.
Alyssa caminhou até a sala, vendo que ele havia espalhado fotos de casas no Brasil e na Coreia sobre a mesa.
— O que é isso? — perguntou ela, curiosa.
— São opções. Se seus pais não quiserem morar em Busan, eu encontrei algumas propriedades em áreas rurais perto de Seul que lembram fazendas. E também pesquisei algumas casas em Minas, perto da sua cidade, para quando formos visitar. Eu quero que você escolha onde quer que seja o nosso refúgio.
Alyssa sentou-se, observando as fotos. Pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu o peso do medo esmagando seu peito. Ela sentiu esperança. Uma esperança frágil, como um broto tentando nascer no asfalto, mas ainda assim, vida.
— Eu quero uma casa com um jardim grande — disse ela, apontando para uma das fotos de Busan. — Onde possamos plantar flores. Muitas flores.
Jungkook sorriu, o primeiro sorriso verdadeiramente radiante que ele dava em semanas.
— Então teremos o jardim mais bonito da Coreia — ele afirmou. — E um dia, Alyssa... quando as feridas estiverem cicatrizadas e o mundo estiver um pouco mais calmo... talvez possamos tentar de novo. Ter a nossa família.
Alyssa sentiu uma lágrima quente escorrer, mas desta vez não era de desespero. Era de cura. Ela pegou a mão de Jungkook e a levou ao coração.
— Um passo de cada vez, Jeon.
— Um passo de cada vez — ele concordou, puxando-a para perto.
Lá fora, o mundo rugia com o seu nome, com teorias e flashes. Mas ali dentro, entre as paredes de vidro voltadas para o oceano, havia apenas o som da respiração de dois sobreviventes que, contra todas as probabilidades, decidiram que o amor era a única coisa pela qual valia a pena lutar. A jornada para o Brasil, o encontro com os pais dela e o retorno aos palcos seriam desafios colossais, mas Jeon Jungkook não era mais apenas um ídolo solitário. Ele era um homem com um propósito. E Alyssa, a jovem brasileira que cruzou seu caminho de forma tão trágica e bela, era a sua bússola.
O sol finalmente rompeu a névoa de Busan, iluminando o apartamento e as promessas que ali foram feitas. O futuro ainda era incerto, mas, pela primeira vez, eles não tinham medo de caminhar em direção a ele. Juntos.