Atirei pedras na cruz
O Altar do Eclipse: Onde a Luz Beija a Sombra
O sol estava se pondo no horizonte de Angra dos Reis, pintando o céu com tons de violeta e laranja que lembravam, inevitavelmente, a cor dos olhos dela. Eu me olhei no espelho do quarto daquela casa de praia, sentindo o peso sagrado do tecido sobre o meu corpo. Não era um vestido de noiva comum. Era uma peça de seda branca imaculada, mas com detalhes em renda preta que subiam pelos punhos e contornavam o decote, como gavinhas de uma noite que se recusava a partir.
A barriga de oito meses se projetava com orgulho sob o corte império do vestido. Maya estava calma hoje, como se soubesse que este era o dia em que o mundo finalmente entenderia que ela não era um erro, mas o elo final de uma corrente que ninguém poderia quebrar.
Minha mãe entrou no quarto, segurando um buquê de rosas brancas entrelaçadas com callas negras. Ela me olhou e, pela primeira vez em anos, não vi julgamento em seus olhos. Vi apenas a aceitação de que a sua "santinha" havia encontrado uma santidade que a igreja nunca conseguiria explicar.
— Você está linda, minha filha — disse ela, ajeitando uma mecha do meu cabelo que teimava em cair. — Quem diria que o preto e o branco combinariam tanto no altar?
— É como nós somos, mãe — respondi, tocando as pétalas escuras das flores. — Nem totalmente luz, nem totalmente sombra. O eclipse perfeito.
Caminhei em direção ao jardim que dava para o mar. O som das ondas quebrando na areia era a nossa marcha nupcial. Não havia órgão, não havia corais da igreja, apenas a música da natureza e o silêncio respeitoso dos poucos amigos que restaram — aqueles que amavam a pessoa, não o cargo que ela ocupava.
Quando cheguei ao início do corredor de pétalas bicolores, meu coração parou.
Lá estava ela.
Ravena vestia um terno sob medida, inteiramente preto, que contrastava de forma devastadora com a pele clara e os olhos que agora brilhavam com uma umidade que raramente se permitia mostrar. Ela não usava gravata; a gola da camisa estava aberta, revelando a base das tatuagens que subiam pelo pescoço. Ela parecia uma divindade caída que acabara de encontrar o caminho de volta para casa.
Caminhei lentamente, cada passo sendo uma oração de agradecimento. O vento soprava meu véu, que também carregava aquele degradê do branco para o cinza esfumaçado. Quando cheguei ao seu lado, Ravena estendeu a mão. Seus dedos, antes tão acostumados ao frio do metal, envolveram os meus com a delicadeza de quem segura um sopro de vida.
— Você está me deixando sem ar, pequena — sussurrou ela, a voz rouca vibrando na brisa marinha.
— Guarde o fôlego — respondi com um sorriso trêmulo —, você tem votos para dizer.
O celebrante era um antigo amigo da família, um homem que entendia que o amor não segue as regras dos homens, mas as batidas do espírito. Ele começou a falar sobre a união dos opostos, mas eu mal conseguia ouvir. Meus olhos estavam fixos nos de Ravena, que não desviou o olhar nem por um segundo.
Chegou o momento. Ravena deu um passo à frente, ficando de frente para mim. Ela colocou uma das mãos sobre a minha barriga, sentindo o volume de Maya, e a outra segurou a minha mão direita.
— Eu passei a vida inteira no escuro — começou ela, e sua voz não falhou, embora estivesse carregada de emoção. — Eu achava que o poder era a única coisa que me manteria viva. Eu achava que o medo era o único respeito que eu merecia. Então, uma menina com uma Bíblia e um olhar de julgamento cruzou o meu caminho. E, em vez de me converter com palavras, você me converteu com a sua essência.
Ela fez uma pausa, respirando fundo, o cheiro do mar misturando-se ao perfume de sândalo que ela nunca abandonara.
— Eu deixei o trono por você — continuou Ravena —, mas hoje eu percebo que nunca tive um trono de verdade até o momento em que você disse que me amava. Eu prometo ser o seu escudo e a sua sombra quando o sol estiver forte demais. Prometo ser a escuridão que te permite ver as estrelas. Eu te amo, em preto, em branco e em todas as cores que a gente inventar daqui para frente.
Lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto. Era a minha vez.
— Eu sempre achei que a minha fé era sobre seguir regras — eu disse, sentindo Maya chutar contra a palma da mão de Ravena. — Eu achava que para ser santa, eu precisava fugir do que era diferente. Mas você me ensinou que a verdadeira fé é sobre coragem. A coragem de amar quem o mundo diz para odiar. A coragem de ver beleza onde os outros veem perigo.
Apertei a mão dela com força.
— Você é o meu eclipse, Ravena. A minha luz não seria tão brilhante sem a sua sombra para lhe dar profundidade. Eu te prometo a minha lealdade, o meu corpo e a minha alma. Prometo que a nossa filha saberá que o amor é a única lei que realmente importa. Eu te amo, não como uma alma perdida, mas como a mulher que me encontrou no meio do caminho.
Ravena tirou do bolso as alianças. Elas eram de ouro negro, com um pequeno diamante branco cravado no centro de uma, e uma safira roxa no centro da outra.
— Com este anel — disse ela, deslizando a joia no meu dedo —, eu te faço minha esposa, minha rainha e a dona do meu destino.
— Com este anel — respondi, repetindo o gesto nela —, eu te recebo como minha esposa, minha proteção e o meu porto seguro.
— Eu as declaro casadas — disse o celebrante, com um sorriso largo. — Pode beijar a noiva.
Ravena não esperou. Ela envolveu minha cintura com um braço, trazendo-me para perto, e a outra mão subiu para a minha nuca. O beijo foi o selo de tudo o que vivemos. Tinha o gosto da redenção, do morro de Azarath que ficou para trás e do mar que se estendia à nossa frente. Foi um beijo que calou todas as dúvidas e apagou todas as cicatrizes.
Os convidados aplaudiram enquanto pétalas pretas e brancas eram jogadas ao ar, criando um efeito visual de um cinema antigo ganhando vida.
Mais tarde, durante a pequena recepção na areia, estávamos sentadas em um sofá de vime, observando a lua cheia que começava a subir. Ravena estava com o paletó jogado de lado, as mangas da camisa dobradas, servindo-me uma taça de suco de uva enquanto ela bebia um vinho tinto escuro como sangue.
— Você está cansada? — perguntou ela, a preocupação constante de quem agora vigiava um tesouro.
— Um pouco — confessei, encostando a cabeça no ombro dela. — Mas é um cansaço bom. É a sensação de que finalmente chegamos.
— Nós chegamos — concordou ela, beijando o topo da minha cabeça. — Sabe, eu vi o Davi ontem, antes de sairmos de vez da área.
Eu me afastei um pouco para olhá-la.
— E o que aconteceu?
— Ele tentou me desejar felicidades — Ravena deu um sorriso de canto, aquele sorriso de dona do morro que ela ainda não conseguira perder totalmente. — Mas ele não conseguia olhar para mim. Ele ainda tem medo de que eu o transforme em cinzas.
— E você faria isso? — perguntei, provocando-a.
— Hoje? Não — ela respondeu, séria. — Hoje eu sinto pena dele. Ele nunca vai saber o que é ter uma mulher como você lutando por ele. Ele queria uma santinha de gesso. Eu tenho uma santa de carne, osso e uma vontade de ferro.
Rimos juntas, o som se perdendo no barulho das ondas.
— A Juju ligou para o Blindado — comentou Ravena, mudando de assunto. — Ela está em outro estado. Parece que está tentando a vida como dançarina. Ela pediu desculpas, pequena. Disse que o medo do Comando de Sangue a fez fazer aquela loucura.
— Eu já perdoei, Ravena — eu disse, sentindo uma paz genuína. — Se não fosse pela mentira dela, talvez a gente ainda estivesse vivendo naquela guerra. A mentira dela nos forçou a escolher a verdade.
Ravena assentiu, olhando para a minha barriga.
— O que você acha que a Maya vai ser quando crescer?
— Espero que ela tenha a sua força — respondi prontamente. — E talvez um pouco da minha paciência.
— E os seus olhos — completou Ravena. — Eu quero que ela tenha esses olhos que enxergam através das pessoas.
Ficamos em silêncio por um tempo, apenas sentindo a presença uma da outra. O casamento em preto e branco não era apenas um tema estético; era o nosso manifesto. Estávamos dizendo ao mundo que não precisávamos escolher um lado. Que o sagrado pode habitar o profano, e que a escuridão pode ser o berço da luz mais pura.
— Você já se arrependeu? — perguntei em um sussurro, olhando para a aliança de ouro negro no meu dedo. — De ter deixado o poder? De não ser mais a mulher mais temida de Azarath?
Ravena se virou para mim, segurando meu rosto com as duas mãos. A luz da lua refletia em seus olhos roxos, tornando-os quase luminescentes.
— Todo o poder que eu tive no morro não vale um décimo do poder que eu sinto quando você me olha assim — disse ela, com uma sinceridade que me desarmou. — Eu não era rainha lá, pequena. Eu era uma prisioneira do meu próprio medo. Aqui... com você... eu sou livre. Pela primeira vez na vida, eu sou livre para ser apenas a Ravena.
Ela se inclinou e beijou minha barriga, sussurrando algo para Maya que eu não consegui ouvir, mas que fez meu interior se aquecer.
— Vamos entrar? — sugeri. — O vento está ficando frio.
— Vamos — ela se levantou e me ajudou a levantar com aquele cuidado exagerado que eu já tinha aprendido a amar.
Caminhamos em direção à casa, a noiva de branco e preto e a sua esposa de sombras. Ao cruzarmos a porta, Ravena parou por um segundo e olhou para trás, para o mar infinito.
— Sabe de uma coisa, santinha? — disse ela, fechando a porta e trancando o mundo lá fora.
— O quê?
— Eu ainda acho que a gente deveria ter colocado pelo menos um fuzil de ouro na decoração. Só para manter a tradição.
Eu soltei uma gargalhada alta, jogando uma almofada nela.
— Nem pensar, Ravena! Hoje é só paz.
— Só paz — repetiu ela, pegando-me nos braços apesar do meu protesto sobre o peso da gravidez e me carregando escada acima.
Naquela noite, sob o teto de uma casa que não tinha guardas, nem armas, nem leis de tribunal de morro, a santinha e a pecadora dormiram o sono dos justos. O eclipse estava completo. A luz e a sombra haviam se fundido em algo novo, algo que nem a igreja nem o crime poderiam explicar. Era apenas amor. Simples, complicado, preto, branco e infinitamente roxo.
Maya chutou uma última vez, como se desse o "amém" final para a cerimônia, e o silêncio da praia de Angra guardou o segredo de que, às vezes, a melhor maneira de encontrar o céu é perdendo-se nos braços de quem conhece o inferno.