Voltar ao resumo

Atirei pedras na cruz

O Eclipse do Coração de Vidro

O silêncio do casarão no topo do Morro de Azarath nunca pareceu tão opressor. A chuva que antes trazia paz agora soava como chicotadas contra as janelas de vidro. No centro da sala, o ar estava carregado de eletricidade, uma tempestade que não vinha do céu, mas dos olhos roxos de Ravena, que cintilavam com uma mistura de culpa e fúria defensiva.

— Você não pode estar falando sério, Ravena — eu disse, a voz falhando enquanto eu apertava o tecido do meu vestido largo sobre a barriga de sete meses. — Depois de tudo... depois de me prometer que éramos só nós duas?

— Eu não sabia, pequena! — Ravena rugiu, chutando uma mesa de centro de vidro, que se estilhaçou em mil pedaços, refletindo a nossa própria destruição. — Foi antes de você aceitar ficar aqui. Foi aquela noite no baile que eu tentei te esquecer porque você me rejeitava com aquela sua Bíblia debaixo do braço!

— E agora a Juju aparece aqui, na minha frente, dizendo que carrega um herdeiro seu? — As lágrimas queimavam meu rosto. — Você me disse que ela não era nada!

— E ela não é! — Ravena deu um passo em minha direção, mas eu recuei, o choque de sua proximidade sendo demais para suportar. — Mas se ela estiver grávida... se for meu... eu tenho obrigações no morro. Você sabe como as leis aqui funcionam.

— As leis do morro — cuspi as palavras com desprezo. — Eu achei que a nossa lei era o amor. Mas eu fui burra. Eu troquei o altar por um trono de sombras e agora estou sendo coroada com a traição.

— Não ouse falar de traição! — Ravena sibilou, a veia em seu pescoço saltando. — Eu te protegi com a minha vida! Eu matei por você!

— E de que adianta me proteger das balas se você mesma crava a faca nas minhas costas? — Limpei o rosto com as costas da mão, sentindo Maya se agitar violentamente dentro de mim, como se sentisse a dor da mãe. — Eu não posso ficar aqui. Eu não vou criar a minha filha dividindo o teto com o fruto da sua luxúria de baile funk.

— Você não vai a lugar nenhum — a voz dela baixou para aquele tom de comando que costumava me fazer tremer, mas que agora só me dava náuseas. — Você é minha.

— Eu não sou sua propriedade, Ravena. Eu sou um ser humano que você quebrou.

Saí da sala sem olhar para trás, ignorando os gritos dela chamando meu nome. Naquela noite, com a ajuda de um dos meninos do coro da igreja que ainda me devia lealdade, eu desapareci. Não fui para a casa da minha mãe, nem para a igreja. Fui para um lugar onde Ravena nunca pensaria em olhar: o porão de uma antiga casa de repouso desativada, nos limites de um bairro vizinho, longe da influência de Azarath.

Um mês se passou.

Trinta dias de solidão, de pão dormido e de orações que pareciam bater no teto e voltar. Minha barriga agora era um peso constante, e cada movimento de Maya era um lembrete doloroso de quem ela puxaria. Eu me olhava no espelho e via as olheiras profundas, a santinha que se tornou uma fugitiva da própria escolha. Eu sentia falta do cheiro de sândalo. Sentia falta do calor dela. Mas o orgulho era a única coisa que me mantinha de pé.

Até que, em uma tarde de neblina, a porta do esconderijo foi arrancada das dobradiças.

Eu não gritei. Eu já esperava por isso.

Ravena entrou. Mas não era a Ravena que eu deixei para trás. Ela não usava jaqueta de couro, nem fuzil, nem o olhar de quem manda na vida e na morte. Ela usava um moletom cinza simples, o rosto estava mais magro e havia uma vulnerabilidade nua em seus olhos que me desarmou instantaneamente.

— Achei você — sussurrou ela, a voz rouca, como se não falasse há dias.

— Como? — perguntei, sentando-me na cama improvisada, protegendo meu ventre com as mãos.

— Eu revirei cada pedra deste estado — ela disse, aproximando-se lentamente, como se tivesse medo de que eu evaporasse. — Eu abandonei o morro, pequena.

Eu paralisei.

— O quê?

— Eu entreguei a coroa — ela disse, sentando-se no chão sujo, a uma distância respeitosa. — Blindado está no comando agora. Eu não podia mais ser a "dona do morro" e passar cada segundo do dia morrendo por dentro porque você não estava lá. Eu saí da criminalidade. Limpei as minhas mãos... ou tentei.

— E a Juju? — perguntei, o nome saindo como veneno. — E o seu filho com ela?

Ravena soltou um riso seco, carregado de um escárnio que não era para mim, mas para si mesma.

— A Juju nunca esteve grávida, meu amor.

Eu franzi o cenho, confusa.

— O que você está dizendo? Ela tinha um exame... ela tinha uma barriga aparecendo...

— Era tudo farsa — Ravena explicou, passando as mãos pelo rosto cansado. — Ela foi paga por um dos meus rivais do Comando de Sangue para desestabilizar a minha mente, para me fazer perder o foco. Eles sabiam que você era o meu ponto fraco. Ela usou uma prótese, falsificou os papéis. Blindado descobriu a verdade há duas semanas. Ela confessou tudo antes de fugir do morro.

O ar pareceu voltar para os meus pulmões de uma vez só. O peso que eu carregava no peito por um mês finalmente começou a ceder.

— Então... não tem outro bebê?

— Nunca existiu outro bebê — Ravena rastejou até ficar de joelhos diante de mim, colocando as mãos hesitantes sobre os meus joelhos. — Só existe a Maya. Só existe você. Eu destruí o nosso mundo por causa de uma mentira que eu fui arrogante demais para enxergar.

— Você me deixou acreditar que tinha me traído — eu disse, as lágrimas voltando a cair. — Você me deixou sofrer aqui sozinha por um mês, Ravena. Eu quase perdi a fé em tudo.

— Eu sei. E eu vou passar o resto da minha vida tentando compensar isso — ela encostou a testa nos meus joelhos, e eu senti os ombros dela tremerem. Ravena estava chorando. A mulher inabalável de Azarath estava quebrada aos meus pés. — Eu não tenho mais o morro. Não tenho mais o poder. Eu só tenho o que sobrou de mim. Você ainda me quer? Mesmo sendo apenas a Ravena?

Eu olhei para ela, para aquela mulher que abriu mão de um império de sombras para me encontrar em um porão sujo. A santinha dentro de mim queria perdoar; a mulher apaixonada já o tinha feito no momento em que ela cruzou aquela porta.

— A Ravena é a única que eu sempre quis — eu sussurrei, puxando o rosto dela para cima. — A dona do morro era apenas a casca que me dava medo.

Ravena se levantou e me envolveu em um abraço tão cuidadoso que parecia que eu era feita de cristal. Ela beijou meu rosto, meu pescoço, e finalmente parou diante da minha barriga de sete meses. Ela se ajoelhou e pressionou os lábios contra o tecido, ficando ali por um longo tempo.

— Oi, Maya — disse ela, a voz vibrando contra a minha pele. — A mamãe voltou. E desta vez, eu não vou deixar nada, nem ninguém, nem as minhas próprias sombras, ficarem entre nós.

— Onde vamos morar? — perguntei, acariciando o cabelo dela. — Não podemos voltar para o casarão.

— Eu comprei uma casa pequena, longe daqui. Perto do mar — ela sorriu, um sorriso que eu nunca tinha visto, leve e esperançoso. — Sem armas. Sem guardas. Apenas nós três. Vou trabalhar com segurança privada, algo legalizado. Eu quero que a nossa filha cresça sabendo que o nome da mãe dela não é sinônimo de medo, mas de proteção.

— Você faria isso mesmo? — perguntei, incrédula. — Deixaria tudo para trás por uma vida comum?

— Eu deixaria o mundo inteiro para trás por um minuto de paz com você — ela se levantou e me deu um beijo que selou a nossa nova aliança. Não era o beijo de fogo e perigo de antes, era um beijo de redenção.

Saímos daquele porão de mãos dadas. O sol estava começando a sair por entre as nuvens, iluminando o caminho. Eu ainda era a menina que amava a alma dela, mas agora, eu amava a mulher que ela escolheu se tornar por mim.

Enquanto caminhávamos em direção ao carro, Ravena parou e olhou para o horizonte, onde a silhueta do Morro de Azarath ainda podia ser vista ao longe.

— Adeus, sombras — murmurou ela.

— Bem-vinda à luz, Ravena — respondi, apertando a mão dela.

A gravidez de sete meses pesava, mas meu coração estava leve. A mentira da Juju tinha sido o fogo purificador que precisávamos para queimar o que restava do crime em nossas vidas. Agora, não havia mais a "menina da igreja" e a "dona do morro". Havia apenas duas mulheres, um bebê a caminho e um horizonte que, pela primeira vez, não parecia um abismo, mas um recomeço.

— Sabe de uma coisa? — disse Ravena, abrindo a porta do carro para mim com uma delicadeza que me fez sorrir. — Eu ainda acho que você é uma santinha.

— Ah, é? E por que?

— Porque você conseguiu o que nenhum exército conseguiu — ela piscou para mim, ligando o motor. — Você conquistou o coração da pessoa mais perigosa do Rio e a transformou em alguém que só quer aprender a montar um berço.

Eu ri, uma risada que ecoou pelo bairro silencioso.

— O berço é de ferro, Ravena?

— Não — ela respondeu, segurando minha mão enquanto dirigíamos para longe do passado. — O berço é de madeira clara. E ele vai ficar no quarto mais ensolarado da casa.

E ali, entre o asfalto e o mar, eu soube que a nossa história não terminaria em tragédia ou em um altar de hipocrisia. Terminaria em um lar, onde o único batidão permitido seria o do coração de Maya, crescendo segura no mundo que o amor, e não o poder, construiu.