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Atirei pedras na cruz

Entre o Batidão e o Batismo

O som do funk ecoava pelas vielas, fazendo as janelas de vidro da igrejinha tremerem levemente, como se o próprio solo do morro estivesse pulsando. Eu estava em casa, diante do espelho, ajeitando a gola da minha blusa de botões. Minha mãe já estava deitada, e o silêncio do quarto era interrompido apenas pelo "tum-tum" distante que vinha da quadra. Eu sabia que era pecado, ou pelo menos, um desvio de conduta para uma menina como eu, mas a imagem de Ravena na escadaria não saía da minha mente.

— É pela alma dela — sussurrei para o meu reflexo, tentando convencer a mim mesma. — Ela precisa de um convite formal para a Escola Dominical. Se eu não for agora, ela nunca vai levar a sério.

Peguei um folheto da igreja, dobrei-o com cuidado e o guardei na bolsa lateral. Eu usava uma saia jeans longa e uma sapatilha simples, o contraste perfeito para o ambiente onde eu estava prestes a entrar. Saí de fininho, meus pés conhecendo cada buraco daquela calçada mal iluminada. Conforme eu descia em direção ao coração do baile, o cheiro de perfume barato, cerveja e fumaça de narguilé começava a substituir o aroma de orvalho da parte alta.

O Morro de Azarath à noite era um organismo vivo. Homens armados com fuzis nas esquinas me olhavam com curiosidade, mas ninguém me parava. Todos sabiam quem eu era: a "santinha da igreja". E, mais importante, todos sabiam que Ravena tinha um interesse peculiar em mim. Tocar em mim era pedir para conhecer o lado mais sombrio da dona do morro.

Quando cheguei à entrada da quadra, meu coração parecia uma escola de samba. As luzes estroboscópicas cortavam a escuridão em flashes de azul e roxo. E lá estava ela.

Ravena estava sentada em uma espécie de camarote improvisado, um nível acima da pista de dança. Ela não dançava. Apenas observava, com um copo de bebida escura na mão e aquela aura de poder que a envolvia como um manto. Mas ela não estava sozinha.

Uma garota de shorts curtíssimos e top de paetês estava debruçada sobre o ombro de Ravena, rindo de algo que sussurrava no ouvido dela. A menina passou a mão pelo braço tatuado de Ravena, um gesto de possessividade e flerte escancarado. Ravena não a afastou; pelo contrário, ela deu um gole na bebida e inclinou a cabeça levemente, permitindo a proximidade.

Senti uma pontada no estômago que não tinha nada de espiritual. Era um queimo ácido, um fogo que subiu pela minha garganta. Eu queria dar meia-volta, mas minhas pernas caminharam sozinhas em direção à escada do camarote.

— Olha só quem resolveu descer do céu para o inferno — uma voz masculina brincou na entrada, mas eu nem olhei.

Subi os degraus e parei a alguns metros de distância. A música estava tão alta que eu sentia a vibração nos meus dentes. Ravena me viu no exato momento em que a outra garota passava a língua pelos lábios, olhando para a boca da dona do morro. Os olhos roxos de Ravena se fixaram nos meus, e o brilho que vi ali foi de pura surpresa, seguido de um divertimento cruel.

Ela fez um sinal com a mão, e os seguranças se afastaram. Eu caminhei até ela, mantendo a postura ereta, apertando a alça da minha bolsa.

— Interrompo alguma coisa? — perguntei, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia.

Ravena deu um sorriso de canto, aquele que sempre fazia minhas pernas fraquejarem.

— Depende do ponto de vista, santinha. A Juju aqui estava apenas me contando como a noite está quente. Não é, Juju?

A tal garota me mediu de cima a baixo com desdém, soltando uma lufada de fumaça de um cigarro eletrônico na minha direção.

— Quem é a crente, Ravena? Tá perdida, fofa? O culto é lá em cima.

Senti meu rosto esquentar. Eu queria dizer poucas e boas, mas lembrei do meu "papel".

— Eu não estou perdida — respondi, ignorando a menina e focando apenas em Ravena. — Eu vim trazer o cronograma da Escola Dominical de amanhã. Você disse que sua alma precisava de oração, e eu levei a sério. O estudo começa às oito.

Ravena soltou uma gargalhada rouca, levantando-se da cadeira. Ela era mais alta que eu, e sua presença física sempre parecia ocupar todo o oxigênio do lugar. Ela se aproximou, deixando a tal Juju para trás, que bufou de frustração.

— Às oito da manhã? — Ravena parou a centímetros de mim. O cheiro de sândalo agora estava misturado com o de uísque caro. — Você sabe que eu raramente durmo antes das seis. Está querendo que eu faça um sacrifício?

— O caminho da salvação exige sacrifícios, Ravena — eu disse, tentando não olhar para o decote da regata dela. — Mas vejo que você já está muito bem ocupada com outras... atividades.

— Está com ciúmes, pequena serva? — sussurrou ela, inclinando-se para que apenas eu ouvisse. — Eu vi o jeito que você olhou para a Juju. Se os olhos pudessem pecar, você estaria em sérios problemas agora.

— Não seja ridícula — respondi, desviando o olhar para a pista de dança, onde a multidão se apertava. — Eu só me preocupo com as companhias que você mantém. Como diz a Bíblia: "as más companhias corrompem os bons costumes". Embora, no seu caso, não sei se resta muito o que corromper.

Ravena soltou um som que era metade rosnado, metade riso. Ela esticou a mão e, com o dedo indicador, levantou meu queixo, obrigando-me a encará-la.

— Você é uma mentirosa tão linda — ela murmurou. — Vem aqui falar de escola dominical, mas está morrendo de raiva porque tinha outra mulher tocando no que você acha que é seu.

— Eu não acho que você é minha — rebati, sentindo meu coração martelar contra o peito. — Você não pertence a ninguém, Ravena. Nem a Deus, nem ao mundo. Você é apenas... uma alma perdida que eu tento resgatar.

— Então me resgata — desafiou ela, a voz descendo para um tom perigosamente rouco. — Me tira daqui. Me leva para um lugar escuro e me explica por que você fica tão tensa quando eu chego perto. É o Espírito Santo ou é o seu sangue fervendo?

Eu engoli em seco, sentindo a tensão sexual entre nós esticar como uma corda de violino prestes a arrebentar. A Juju, vendo que estava sendo ignorada, aproximou-se novamente e tocou no ombro de Ravena.

— Ih, Ravena, vai ficar dando ideia para essa daí? Vamos dançar, deixa a beata com os folhetos dela.

Eu olhei para a mão da garota no ombro de Ravena e senti uma onda de possessividade tão forte que quase perdi o fôlego. Eu não podia brigar, eu não podia xingar. Então, usei a única arma que eu tinha: a minha suposta santidade.

— Realmente — eu disse, dando um passo para trás com um sorriso forçado e angelical. — Eu já fiz o meu trabalho. O convite está entregue. Se preferir passar a manhã de domingo dormindo ou em companhias... efêmeras, a escolha é sua. Livre arbítrio, não é?

Virei as costas para sair, mas Ravena foi mais rápida. Ela segurou meu pulso. A pele dela estava quente, e o toque enviou um choque direto para o meu baixo ventre.

— Espera — disse ela, o tom de brincadeira sumindo por um instante. — Você vai embora assim?

— O que mais você quer, Ravena? — perguntei, olhando por cima do ombro. — Que eu fique aqui assistindo você flertar com metade do morro? Tenho que acordar cedo. Diferente de certas pessoas, eu tenho um compromisso com algo maior.

— Você é tão orgulhosa — ela disse, soltando meu pulso devagar, mas deslizando os dedos pela minha palma antes de soltar completamente. — Eu vou.

Eu pisquei, surpresa.

— O quê?

— Eu vou nessa sua escola dominical — ela repetiu, abrindo um sorriso predatório. — Mas não espere que eu me converta. Eu vou apenas para ver você de pé, lá na frente, fingindo que não quer me arrancar essa roupa com os dentes enquanto canta os seus hinos.

— Ravena! — exclamei, horrorizada e excitada ao mesmo tempo. — Mais respeito!

— Respeito é para quem não conhece a verdade — ela deu um passo à frente, invadindo meu espaço mais uma vez, ignorando completamente a outra garota e o som ensurdecedor ao redor. — E a verdade é que você veio aqui hoje só para me marcar território. E funcionou. Eu sou toda ouvidos para você amanhã... e talvez para outras coisas depois que o culto acabar.

— Eu só quero salvar sua alma — repeti, mas minha voz saiu fraca, sem convicção nenhuma.

— Salva então — sussurrou ela, roçando os lábios na minha bochecha, perto da orelha. — Mas cuidado para não se perder comigo no caminho.

Ela se afastou, voltando para sua cadeira com a elegância de uma rainha. Juju tentou se aproximar de novo, mas Ravena fez um gesto seco com a mão, dispensando-a. O recado estava dado.

Saí da quadra com as pernas trêmulas e o rosto em chamas. Enquanto subia o morro de volta para a segurança da minha casa, o som do funk ia diminuindo, mas o tumulto dentro de mim só aumentava.

Eu olhei para as minhas mãos e vi que elas ainda tremiam. Eu tinha conseguido o que queria: ela iria à igreja. Mas, no fundo, eu sabia que a minha motivação não era puramente divina. Eu queria Ravena lá, sob a luz do dia, onde eu pudesse fingir que a amava apenas como alma, enquanto meu corpo gritava o contrário a cada vez que nossos olhares se cruzavam.

— Senhor, perdoa-me — murmurei ao cruzar o portão de casa.

Mas, pela primeira vez, a oração pareceu vazia. Porque, no fundo do meu coração, eu já estava contando as horas para ver a dona do morro sentada no banco de madeira da minha igreja, desafiando Deus e a mim com aqueles olhos que prometiam um paraíso muito diferente do que estava escrito nos meus livros.