Atirei pedras na cruz
Entre o Cetro e a Coroa
O sol de domingo de manhã não tinha a mesma fúria do asfalto; ele subia o Morro de Azarath com uma preguiça dourada, iluminando as frestas das janelas da igreja de Santa Bárbara. O cheiro de café fresco e de cera de chão pairava no ar. Eu estava na entrada, organizando os hinários, usando meu melhor vestido de domingo — um azul-claro, com mangas bufantes e uma gola fechada que minha mãe dizia ser a imagem da modéstia.
Eu tentava manter o foco, mas meus olhos teimavam em escapar para a ladeira. Ela tinha dito que viria. A dona do morro, a mulher que fazia os homens mais temidos da região baixarem a cabeça, tinha prometido aparecer em uma escola dominical.
— Bom dia, irmã! A paz do Senhor.
A voz masculina e entusiasmada me fez saltar levemente. Era Davi. Ele era o líder da Força Jovem, um rapaz de sorriso largo, camisa social branca impecavelmente passada e um gel no cabelo que desafiava a gravidade. Davi era o genro que toda mãe da congregação pedia a Deus, e o Pastor Elias já tinha deixado claro, em mais de um jantar, que "duas colunas da igreja juntas sustentam um templo inteiro".
— A paz, Davi — respondi, forçando um sorriso gentil. — Chegou cedo para o ensaio?
— Sempre! Um soldado do Reino não pode se atrasar para a batalha — ele disse, aproximando-se mais do que o necessário e segurando a ponta do hinário junto comigo. — Sabe, eu estava lendo sobre o Rei Davi ontem... e pensei em como ele precisava de uma sábia ao lado dele. Abigail era uma mulher de discernimento, não acha?
Eu senti um calafrio, mas não era do tipo bom. Davi era persistente, quase heróico em sua tentativa de me cortejar sob o manto da "vontade divina".
— Abigail era muito virtuosa, sim — respondi, tentando puxar o livro, mas ele não soltou.
— O Pastor comentou comigo que o nosso ministério juntos tem dado muitos frutos. Ele acha que... bem, que deveríamos orar sobre o nosso futuro. Juntos.
Foi nesse exato momento que o ar na entrada da igreja mudou. A temperatura pareceu cair dez graus e o som dos pássaros foi abafado por um silêncio pesado. Eu levantei o olhar e meu coração deu um solavanco que quase me fez perder o equilíbrio.
Ravena estava parada no início da calçada da igreja.
Ela não estava usando a capa, mas a aura de poder permanecia intacta. Vestia uma calça preta justa e uma camisa de seda roxa profunda, levemente aberta no pescoço, revelando a tatuagem de corvo que subia pela clavícula. Os óculos escuros escondiam seus olhos, mas eu sentia o peso do seu olhar queimando sobre as mãos de Davi, que ainda tocavam as minhas sobre o hinário.
Ela caminhou devagar, cada passo das suas botas ecoando como um veredito de morte. Os fiéis que chegavam abriam caminho por instinto, alguns fazendo o sinal da cruz, outros apenas desviando o olhar.
— Interrompo o estudo bíblico? — A voz dela era um trovão contido, carregada de um sarcasmo que cortava como navalha.
— Ravena! — Eu me soltei brusca de Davi, sentindo minhas bochechas arderem. — Você... você veio.
— Eu disse que vinha, não disse? — Ela tirou os óculos escuros, e o roxo das suas íris parecia mais vibrante sob a luz do dia, faiscando de uma irritação que ela mal tentava esconder. — Mas vejo que a recepção está sendo bem... calorosa.
Davi, tentando manter sua postura de "guerreiro", estufou o peito e deu um passo à frente, colocando-se entre mim e ela.
— Bom dia. Sou o Davi, líder da Força Jovem. É sempre uma alegria receber uma alma necessitada na casa do Pai.
Ravena mediu Davi de cima a baixo com um desprezo tão palpável que eu quase senti pena dele. Ela deu um passo para o lado, ignorando-o completamente, e parou diante de mim.
— Davi, é? — Ela sorriu, mas era o sorriso de um predador observando uma presa particularmente estúpida. — O rei dos salmos?
— Exatamente — Davi respondeu, recuperando a voz. — E como o rei, eu protejo as ovelhas do rebanho. A irmã é uma das nossas flores mais preciosas. O Pastor Elias até sugeriu que iniciássemos um propósito de namoro em breve.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Eu queria que o chão se abrisse. Ravena inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus, ignorando Davi como se ele fosse um mosquito incômodo.
— Um propósito de namoro? — Ela repetiu a frase como se fosse um insulto. — Que interessante. E você, pequena? Também acha que esse... "rei" é o seu destino?
Uma parte de mim, a parte que ainda estava ferida por ter visto a tal Juju pendurada no pescoço dela na noite anterior, sentiu um lampejo de malícia. Eu ajeitei uma mecha de cabelo atrás da orelha e dei um sorriso tímido, olhando de soslaio para Davi.
— Bem, o Davi é um rapaz exemplar — eu disse, minha voz saindo doce e venenosa. — Ele é dedicado, temente a Deus e tem um futuro brilhante na obra. O Pastor diz que ele tem o coração de um rei. É importante ter alguém com quem compartilhar os mesmos valores espirituais, não acha, Ravena?
Vi o maxilar de Ravena travar. Um pequeno músculo saltou em sua bochecha. O ar ao redor dela pareceu ondular, como se a própria sombra da igreja estivesse se esticando para alcançá-la.
— Valores espirituais — Ravena murmurou, dando um passo para dentro do meu espaço pessoal, forçando Davi a recuar para não ser atropelado por ela. — Engraçado. Eu não sabia que o "espírito" gostava de mãos tão suadas e de sorrisos tão falsos.
— Como é que é? — Davi protestou, ofendido.
— Fica na tua, garoto — Ravena sibilou, sem desviar os olhos de mim. — A conversa ainda não chegou no curral.
— Ravena, por favor, estamos na casa de Deus — eu intervim, sentindo uma satisfação secreta ao ver o ciúme devorá-la viva. — O Davi só está sendo atencioso. Ele até se ofereceu para me levar ao congresso de jovens na semana que vem. No carro novo dele.
— No carro dele? — Ravena soltou uma risada seca e sem humor. — Eu posso te levar para qualquer lugar deste mundo em cinco minutos, e garanto que o transporte vai ser muito mais emocionante do que um sedã financiado.
— Mas não é sobre emoção, Ravena — eu disse, aproximando-me de Davi e tocando levemente seu braço. — É sobre... paz. Sobre construir algo sólido, sobre a rocha.
O toque no braço de Davi foi o limite. Ravena deu um passo súbito, ficando tão perto que eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo, mesmo através das camadas de roupa. Davi tentou intervir, mas Ravena apenas levantou a mão, e um lampejo de energia escura brilhou na ponta de seus dedos, o suficiente para fazê-lo empalidecer e dar três passos para trás.
— Sai. Daqui. Agora — ela ordenou para Davi. A voz não era mais humana; tinha um eco ancestral, profundo, que fazia as vigas de madeira da igreja rangerem.
— Eu... eu vou ver se o Pastor precisa de ajuda com o som — Davi gaguejou, perdendo toda a sua bravura de rei e batendo em retirada para o interior do templo.
Ficamos sozinhas no nártex. O sol batia nas costas de Ravena, criando uma silhueta sombria e imponente.
— Você gosta de brincar com fogo, não gosta? — Ela perguntou, a voz agora baixa, um sussurro perigoso. — Usar aquele boneco de cera para tentar me atingir?
— Eu não sei do que você está falando — respondi, tentando manter a fachada, embora meu coração estivesse correndo uma maratona. — Eu só estava sendo gentil com um irmão da igreja. Diferente de você, eu valorizo as pessoas que têm uma alma pura.
— Alma pura? — Ravena riu, aproximando o rosto do meu. — Aquele garoto não consegue nem olhar para você sem imaginar o que tem por baixo desse vestido de crente. Eu vejo o desejo dele, e é medíocre. É pequeno. É nada perto do que eu sinto quando olho para você.
— Ravena, os seus sentimentos são... carnais — eu disse, a palavra saindo trêmula. — O que eu sinto por você é uma preocupação com a sua salvação.
— Mentirosa — ela disse, e dessa vez sua mão subiu, não para me agredir, mas para segurar meu rosto com uma delicadeza que doía. Seu polegar roçou meu lábio inferior. — Você usou aquele idiota para me ver perder o controle. Você queria ver se a "dona do morro" se ajoelhava diante da santinha.
— E você se ajoelhou? — perguntei, desafiadora, sentindo a tensão sexual entre nós atingir um ponto de ebulição.
Ravena respirou fundo, o cheiro de sândalo e poder inundando meus sentidos. Ela se inclinou, seus lábios quase roçando os meus, exatamente como na escadaria, mas com uma intensidade dobrada pelo ciúme.
— Eu não me ajoelho para ninguém — ela sussurrou contra a minha boca. — Mas por você... eu queimaria este morro inteiro só para garantir que ninguém mais toque no que é meu.
— Eu não sou sua — eu murmurei, mas minhas mãos, por vontade própria, agarraram a gola da camisa de seda dela.
— Suas mãos dizem outra coisa — ela rebateu. — Sua alma pode pertencer ao seu Deus, mas o seu corpo... o seu corpo reconhece a rainha dele.
De dentro da igreja, o som do piano começou a tocar o primeiro hino. Era o sinal de que o culto ia começar.
Ravena se afastou milímetros, seus olhos roxos brilhando com uma promessa sombria.
— Vai lá — disse ela, soltando meu rosto. — Vai lá cantar seus hinos e sentar do lado do seu "Rei Davi". Mas saiba de uma coisa: eu vou estar sentada na última fila. E cada vez que ele encostar em você, ou que você sorrir para ele, lembre-se de que sou eu quem você vai ver quando fechar os olhos para orar.
— Você é um demônio, Ravena — eu disse, tentando recuperar o fôlego e ajeitar meu vestido.
— E você é o meu anjo caído — ela sorriu de lado, recuperando sua máscara de frieza. — Agora entra. Não queremos deixar o Pastor esperando, querermos?
Eu entrei na igreja com as pernas bambas. O culto começou, e Davi sentou-se ao meu lado, tentando recuperar a dignidade, sussurrando passagens bíblicas no meu ouvido sobre "vencer o maligno". Eu fingia ouvir, mas meus olhos estavam fixos no fundo do salão.
Lá estava ela. Ravena, sentada sozinha no último banco, com os braços cruzados sobre o peito e as pernas longas esticadas. Ela era a única mancha de escuridão em um mar de roupas claras e sorrisos ensaiados.
Durante o hino de adoração, quando todos fecharam os olhos e levantaram as mãos, eu me permiti olhar para trás uma última vez. Ravena não estava orando. Ela estava me encarando com uma possessividade que me fazia tremer mais do que qualquer sermão sobre o inferno.
Eu tentei cantar, mas as palavras ficaram presas na garganta. Eu fingia que a amava apenas como alma, mas ali, sob o teto da casa de Deus, com o ciúme de Ravena ainda vibrando no ar, eu percebi que a minha queda era inevitável. Davi podia ter o nome de um rei, mas era Ravena quem governava o meu reino interior.
E enquanto o Pastor falava sobre resistir às tentações, eu só conseguia pensar em como seria, finalmente, deixar de fingir e me entregar à escuridão que me olhava do fundo da igreja com olhos de quem já tinha vencido a batalha.