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Sangue no Recife e o Canto das Flores
Três dias haviam se passado desde que os Sully e Kuro chegaram às águas cristalinas dos Metkayina. Para Kiri, a adaptação estava sendo mais suave do que o esperado; ela encontrara em Tsireya uma guia paciente e em Tatsuyo uma alma curiosa. Tatsuyo, com seu jeito "lunático" e desconectado das tensões sociais, parecia ver o mundo através de um filtro de cores que ninguém mais enxergava. Ela passava horas explicando para Kiri como as correntes marítimas sussurravam segredos dos ancestrais, e Kiri, pela primeira vez, sentia que alguém entendia sua conexão profunda com a Grande Mãe, mesmo que de uma forma diferente.
Mas, enquanto as garotas criavam laços, a tensão entre os rapazes fervia como um vulcão subaquático prestes a entrar em erupção.
Kuro Hatake estava tentando. Ele realmente estava. Ele passara os últimos dias tentando impressionar Tatsuyo, mas sempre acabava sendo interrompido por Aonung ou Rotxo. A hostilidade dos jovens Metkayina não diminuía; pelo contrário, parecia crescer a cada vez que viam o "demônio de cinco dedos" rindo ou tentando nadar de forma desajeitada.
Naquela tarde, o sol estava escaldante, refletindo intensamente no espelho d'água da enseada. O grupo de rapazes estava em uma plataforma de raízes mais afastada, onde treinavam o uso do laço de caça.
— Olhem só para ele — zombou Aonung, apontando para Kuro, que tentava desembaraçar uma corda. — Além de ter dedos de sobra, é incapaz de fazer um nó simples. Como sobreviveu na floresta? Escondendo-se atrás de Neteyam?
Kuro sentiu o sangue subir. Ele largou a corda e deu um passo à frente, o sorriso cínico de sempre agora mais afiado.
— Eu sobrevivi caçando coisas que fariam você se borrar todo, peixinho. Lá na floresta, a gente não luta contra correntes de água, a gente luta contra predadores que não fazem barulho.
— Você fala demais para alguém que flutua como um tronco podre — retrucou Rotxo, aproximando-se com outros dois jovens Metkayina.
Lo’ak, que já estava no seu limite com as piadas sobre sua linhagem, colocou-se ao lado de Kuro.
— Por que vocês não calam a boca e mostram o que sabem fazer em vez de latir como cinidários? — desafiou o filho mais novo de Jake.
— O que você disse, mestiço? — Aonung empurrou o peito de Lo’ak.
Neteyam, sempre o diplomata, tentou intervir, colocando a mão no peito do irmão.
— Lo’ak, não vale a pena. Aonung, recue. Não queremos problemas com seu pai.
— Problemas? — Aonung riu, olhando para seus amigos. — O problema é que vocês empestearam nossa vila. Vocês não pertencem ao mar.
A provocação final veio de um dos amigos de Aonung, um rapaz robusto que se aproximou por trás de Kuro. Com um movimento rápido e cruel, ele agarrou a cauda de Kuro e a puxou com força total.
A dor foi imediata e lancinante. Para um Na'vi, a cauda é uma extensão sensível da coluna e do equilíbrio. Kuro soltou um grito de agonia que rapidamente se transformou em um rugido de fúria pura. Ele se virou com uma agilidade que surpreendeu os Metkayina, desferindo um soco direto no rosto do agressor.
— Nunca mais toque em mim! — gritou Kuro, partindo para cima do rapaz.
O caos se instalou. Aonung avançou em Lo’ak, e Rotxo tentou segurar Neteyam, que, vendo o irmão ser atacado, esqueceu a diplomacia e desferiu uma cotovelada no estômago de Rotxo.
A briga foi feia. Não era apenas uma troca de insultos, era uma explosão de ressentimento acumulado. Eles rolaram pelas raízes, caindo na água rasa, onde os socos continuaram. Kuro estava possuído; ele usava sua altura e a força dos braços treinados na escalada de árvores para prensar um dos Metkayina contra a areia submersa.
— Kuro, chega! — gritou Neteyam, tentando se desvencilhar de dois adversários.
A briga só parou quando um som estrondoso ecoou pela enseada. O grito de Tonowari, o Olo’eyktan, paralisou a todos.
Minutos depois, o cenário na marui principal era de velório.
Jake Sully estava de pé, com os braços cruzados e uma expressão que fazia Lo’ak querer desaparecer sob as tábuas do chão. Neytiri estava ao lado dele, os olhos faiscando como brasas, uma mão segurando o arco com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Do outro lado, Tonowari e Ronal pareciam divindades da fúria. Ronal, em particular, emanava uma aura tão perigosa que até os guerreiros mais velhos mantinham distância.
— Eu dei a vocês meu lar! — trovejou Tonowari, sua voz vibrando nas paredes da marui. — Dei a vocês a proteção do meu povo! E como vocês agradecem? Lutando como animais no nosso lugar sagrado?
— Eles começaram! — gritou Lo’ak, mas um olhar de Jake o calou instantaneamente.
— Não me importa quem começou! — rugiu Jake. — Vocês são convidados aqui! Neteyam, eu esperava mais de você. Lo’ak... eu já nem sei o que dizer. E você, Kuro...
Jake caminhou até Kuro, que tinha um corte profundo no supercílio e o lábio inchado. O cabelo branco estava desgrenhado e sujo de areia e sangue.
— Você é como um filho para mim, Kuro. Mas agir dessa forma? Atacar o filho do líder? — Jake balançou a cabeça. — Vocês envergonharam o nome da nossa família.
— Eles puxaram a cauda dele, senhor — defendeu Neteyam, com a voz baixa, mas firme. — Foi uma humilhação.
— E vocês responderam com mais humilhação! — interveio Neytiri, sua voz sibilante de raiva. — Agora, por causa da sua falta de controle, colocaram em risco nossa permanência aqui.
Enquanto isso, Ronal estava diante de Aonung e Tatsuyo — que, embora não tivesse participado, estava ali por ser irmã do agressor.
— Você, meu filho, agiu como um tolo — disse Ronal, sua voz fria como as profundezas do oceano. — Provocou aqueles que Eywa trouxe até nós. Você não tem a sabedoria para ser um líder se não consegue controlar seu próprio orgulho.
Aonung baixou a cabeça, o rosto inchado onde Kuro o havia atingido.
— E você, Tatsuyo — continuou Ronal, voltando-se para a filha mais nova. — Por que não impediu seu irmão? Você deveria estar atenta aos sinais.
Tatsuyo, que parecia estar em seu próprio mundo até aquele momento, piscou os olhos grandes. Ela parecia triste, mas não brava.
— O mar estava agitado, mãe — sussurrou ela. — As águas ficaram vermelhas antes mesmo do primeiro soco. Eu tentei avisar as flores, mas elas já tinham se fechado.
Ronal suspirou, frustrada com a natureza aérea da filha.
— Vá para o santuário, Tatsuyo. Reflita sobre sua responsabilidade como futura Tsahìk. E você, Aonung, ficará encarregado das tarefas mais pesadas da vila até que eu decida que você aprendeu a respeitar nossos hóspedes.
A punição foi severa para todos. Os Sully foram mandados de volta para sua marui sob um silêncio opressor. Kuro caminhava por último, sentindo cada músculo do corpo doer, mas a dor maior era o olhar de decepção de Jake.
Naquela noite, Kuro não conseguia dormir. Ele saiu da marui silenciosamente, evitando acordar os outros. Ele precisava de ar, de água fria no rosto. Ele caminhou até a beira de uma lagoa isolada, onde a bioluminescência era mais suave.
Para sua surpresa, ele não estava sozinho.
Tatsuyo estava lá, sentada em uma rocha, observando um grupo de pequenos peixes que brilhavam em tons de violeta. Ela se virou quando ouviu os passos dele.
— Kuro da Nuvem — disse ela, sem qualquer sinal de julgamento. — Seu rosto está com cores que não deveriam estar lá.
Kuro soltou um suspiro cansado e sentou-se na areia, a alguns metros dela.
— É sangue, Tatsuyo. E hematomas. Coisas de quem não sabe levar desaforo para casa.
Ela se aproximou dele com aquela leveza característica, ajoelhando-se ao seu lado. Ela estendeu a mão e, com uma delicadeza extrema, tocou o corte no supercílio dele. Kuro estremeceu, mas não se afastou.
— Por que vocês lutam? — perguntou ela, genuinamente confusa. — A água flui ao redor das pedras, ela não tenta quebrá-las. Se vocês fossem como a água, não estariam sofrendo.
— Às vezes, Tatsuyo, a gente tem que ser a pedra — respondeu Kuro, olhando para os olhos dela, que brilhavam no escuro. — Se eu deixar que pisem em mim, eu perco quem eu sou. Especialmente sendo... bem, sendo o que eu sou.
— Um homem do céu em pele de Na'vi? — perguntou ela com uma inocência que tirava o peso da frase.
Kuro riu amargamente.
— É. Um esquisito de cinco dedos. Seu irmão não me deixa esquecer isso.
Tatsuyo inclinou a cabeça, observando a mão de Kuro. Ela a pegou, traçando os contornos dos cinco dedos com o próprio dedo.
— Eu contei — disse ela. — Cinco é um número bonito. É o número das pétalas da flor de lótus do recife sul. Por que meu irmão acha que isso é ruim?
Kuro sentiu seu coração dar um solavanco. Ele esperava piadas, desprezo ou até pena, mas Tatsuyo apenas via... flores.
— Você é muito estranha, sabia? — murmurou ele, um sorriso genuíno finalmente aparecendo em seu rosto.
— Minha mãe diz que eu escuto coisas que ninguém mais escuta — respondeu ela, sorrindo de volta. — Mas eu gosto de como você fala. É como o som do vento nas árvores grandes que Kiri me descreveu.
Kuro sentiu um impulso de ser o "Kuro engraçadinho" de novo, de soltar uma cantada barata para mascarar a vulnerabilidade, mas o olhar de Tatsuyo era tão limpo que ele se sentiu incapaz de mentir.
— Desculpe pela briga — disse ele. — Eu não queria que você ficasse em apuros com sua mãe.
— As flores já me perdoaram — disse ela, levantando-se e oferecendo a mão para ele. — Agora você precisa se perdoar. E lavar esse sangue. A água cura, Kuro da Nuvem. Mas você precisa deixar ela entrar.
Kuro aceitou a mão dela e se levantou. Por um momento, eles ficaram ali, parados na penumbra, dois seres de mundos e mentes completamente diferentes, ligados por um momento de paz em meio ao caos.
— Você vai me ensinar? — perguntou Kuro, sua voz baixa. — A ser como a água?
Tatsuyo riu, um som que pareceu espantar toda a dor que ele sentia.
— Eu vou tentar. Mas primeiro, você tem que aprender a não afundar como uma pedra.
Kuro sorriu, observando-a caminhar de volta para a vila. Ele sabia que os próximos dias seriam difíceis, que a fúria de Jake e Tonowari ainda não havia passado, e que Aonung provavelmente tentaria matá-lo na próxima oportunidade. Mas, enquanto olhava para as próprias mãos de cinco dedos, ele não se sentiu mais como um monstro ou um estrangeiro.
Pela primeira vez em Pandora, Kuro Hatake sentiu que havia algo — ou alguém — que valia a pena o esforço de mudar.
Ele mergulhou na água fria, deixando que o sal limpasse suas feridas, enquanto o canto distante de Tatsuyo parecia flutuar sobre as ondas, prometendo que, mesmo no mar mais tempestuoso, sempre haveria um lugar de calmaria.