Voltar ao resumo

Avatar

O Canto da Água e o Ritmo do Coração

As semanas no recife de Awa'atlu haviam transformado a pele dos Omaticaya. O azul profundo da floresta agora parecia brilhar com uma pátina de sal e sol, e o que antes era um ambiente hostil e estranho, tornara-se, aos poucos, um novo lar. A tensão que quase culminara em tragédia naquelas primeiras tardes fora substituída por uma camaradagem forjada no esforço mútuo. Neteyam agora montava seu Tsurak com a mesma graça que montava um Ikran, e até Lo’ak parara de se debater na água como um peixe fora de combate.

Kuro Hatake, por outro lado, vivia sua própria revolução interna. Seus cabelos brancos, agora perpetuamente úmidos, tornaram-se uma marca registrada na vila. Ele não era mais apenas o "estrangeiro de cinco dedos"; ele era o rapaz que, apesar de ainda ter a língua afiada, passava a maior parte do tempo livre tentando entender os mistérios espirituais dos Metkayina — ou, mais especificamente, os mistérios de uma certa jovem de olhos puros.

Naquela manhã, o grupo estava reunido em uma das plataformas flutuantes de treinamento. O clima era de descontração. Lo’ak e Tsireya estavam sentados em um canto, as mãos quase se tocando enquanto ela explicava a anatomia de uma concha rara. A proximidade entre os dois era óbvia para qualquer um que tivesse olhos, e o sorriso bobo no rosto de Lo’ak era alvo constante de piadas.

— Se o Lo’ak ficar mais vermelho, ele vai acabar parecendo uma daquelas anêmonas venenosas — sussurrou Kuro para Neteyam, enquanto ajustava seu equipamento de mergulho.

Neteyam soltou uma risada baixa, observando o irmão.

— Deixe ele em paz, Kuro. Pelo menos ele está focado em algo que não seja arranjar briga com o Aonung.

Aonung, que agora era um dos melhores amigos de treino de Neteyam, aproximou-se com Rotxo. A rivalidade de antes fora enterrada sob a necessidade de cooperação.

— Falando em foco — disse Aonung, dando um tapinha sarcástico no ombro de Kuro —, onde está sua "professora" hoje? Achei que você não desse um passo sem que a Tatsuyo estivesse por perto para garantir que você não se afogasse em um palmo de água.

Kuro revirou os olhos, mas não conseguiu evitar que o canto da boca subisse.

— Ela está ajudando Ronal com as ervas medicinais. Diferente de você, peixinho, ela tem responsabilidades importantes.

— Responsabilidades importantes? — Kiri, que estava deitada de barriga para baixo observando os peixes sob a plataforma, virou-se para eles. — Ela só gosta de ficar perto de você porque você é a coisa mais estranha que já apareceu nesse recife. Você é como um animal de estimação exótico para ela, Kuro.

— Muito engraçado, Kiri — rebateu Kuro, jogando um pouco de água nela com o pé. — Ela me entende. É uma conexão espiritual, coisa que vocês, brutos da floresta, não compreendem.

— Conexão espiritual? — Lo’ak finalmente se manifestou, desviando a atenção de Tsireya por um segundo. — Cara, você não sabe nem a diferença entre uma prece e um espirro. Você só quer ficar olhando para ela com essa cara de quem comeu muita fruta fermentada.

O grupo explodiu em risadas. Kuro sentiu as orelhas esquentarem, mas antes que pudesse retrucar, uma figura serena apareceu no horizonte da passarela de raízes.

Tatsuyo caminhava com sua elegância etérea, carregando uma cesta tecida com fibras de algas. Seus longos cabelos pretos ondulados balançavam ao ritmo de seus passos, e a pele ciano brilhava sob o sol do meio-dia. Assim que ela viu o grupo, um sorriso radiante iluminou seu rosto.

— Kuro da Nuvem! — chamou ela, a voz doce cortando o ar salgado.

— E lá vai ele — zombou Rotxo, cruzando os braços.

Kuro ignorou os amigos e foi ao encontro dela. A postura dele mudava instantaneamente quando Tatsuyo estava por perto; a arrogância dava lugar a uma curiosidade quase infantil.

— Oi, Tatsuyo. Terminou cedo com sua mãe?

— Sim — disse ela, parando diante dele. Ela inclinou a cabeça, observando o pequeno corte que ainda restava no supercílio dele, agora quase invisível. — Eywa diz que o dia está perfeito para o Canto das Flores. Você prometeu que iria comigo.

Kuro sentiu os olhares de Neteyam, Lo’ak e Aonung queimando suas costas. Ele sabia que seria alvejado por piadas pelo resto da semana se fosse agora, mas um olhar para os olhos inocentes de Tatsuyo foi o suficiente para ele esquecer qualquer dignidade.

— Claro. Eu prometi. Vamos lá.

Enquanto se afastavam, ele ainda pôde ouvir a voz de Lo’ak ao fundo:

— Cuidado, Kuro! Se você começar a cantar, os peixes vão fugir todos!

— Não liga para eles — disse Tatsuyo, enquanto guiavam seus Ilus para uma parte mais afastada e profunda do arquipélago. — Eles têm muita energia na cabeça e pouca no coração.

Eles chegaram a uma gruta subaquática onde a luz do sol penetrava por fendas no teto de rocha, criando pilares de luz dourada que dançavam na água azul-turquesa. Era um lugar sagrado, longe da agitação da vila.

Tatsuyo mergulhou, e Kuro a seguiu. Ele ainda se sentia um pouco desajeitado comparado a ela, mas seus pulmões estavam ficando mais fortes. Sob a água, Tatsuyo parecia uma extensão do próprio oceano. Ela se aproximou de uma colônia de anêmonas gigantes que brilhavam em um tom de ouro pálido.

Ela estendeu as mãos e começou a movê-las em um ritmo lento, quase como uma dança. Kuro flutuava ao lado dela, hipnotizado. Ele não ouvia música, mas via a reação da vida marinha ao toque dela. Os pequenos peixes se aproximavam, e as anêmonas pareciam pulsar em sincronia com seus movimentos.

Quando voltaram à superfície para respirar, Kuro estava sem palavras.

— O que foi aquilo? — perguntou ele, limpando a água dos olhos.

— É o ritmo de Eywa nas águas — explicou ela, apoiando-se em uma rocha saliente. — Minha mãe diz que um dia eu terei que ensinar isso a todo o povo, mas... às vezes eu sinto que as águas falam mais comigo do que as pessoas.

Ela olhou para Kuro de uma forma que o fez sentir que ela estava vendo através de todas as suas camadas de deboche e piadas.

— Você é diferente, Kuro. Você não é do mar, e não é totalmente da floresta. Você é como essa gruta... um lugar onde dois mundos se encontram.

Kuro sentiu um aperto estranho no peito. Ele sempre se sentira um estranho, um humano em um corpo de Avatar, um Omaticaya com cinco dedos vivendo entre Metkayinas. Mas Tatsuyo não via isso como um defeito.

— Às vezes é difícil ser esse "lugar de encontro", Tatsuyo — confessou ele, aproximando-se dela na água. — Às vezes parece que eu não pertenço a lugar nenhum.

Tatsuyo estendeu a mão e tocou o peito de Kuro, exatamente sobre o coração.

— Você pertence aqui — disse ela com uma simplicidade esmagadora. — Eu vejo você, Kuro da Nuvem. Não o seu cabelo, ou seus dedos, ou sua força. Eu vejo a sua faísca.

Kuro, o cara que sempre tinha um comentário "tarado" ou uma piada pronta para desviar de emoções reais, ficou em silêncio. Ele olhou para a pele azul-claro dela, para a inocência que a tornava tão protegida e, ao mesmo tempo, tão poderosa.

— Você é muito especial, sabe? — ele murmurou, a voz rouca. — E eu... eu vou proteger essa sua inocência. De tudo. Até de mim mesmo, se precisar.

Tatsuyo sorriu, sem entender completamente o peso das palavras dele, mas sentindo o carinho nelas.

— Você não precisa me proteger de você. Você cheira a chuva de floresta e sal. É um bom cheiro.

Eles passaram a tarde ali, entre mergulhos e conversas que misturavam a sabedoria espiritual de Tatsuyo com as histórias tecnológicas e confusas que Kuro lembrava de sua infância como humano. Ela ouvia sobre "aviões" e "cidades de metal" como se fossem contos de fadas de um mundo sombrio, enquanto ele ouvia sobre o ciclo das almas no oceano como se fosse a única verdade que importava.

Ao retornarem para a vila no final da tarde, o sol estava se pondo, tingindo o mar de um carmesim profundo. Na passarela principal, o grupo de jovens estava reunido novamente, desta vez esperando pelo jantar que seria servido na marui comum.

— Olha só quem voltou das profundezas do amor — provocou Aonung, embora houvesse um sorriso amistoso em seu rosto.

— Cale a boca, Aonung — disse Kuro, mas sem a agressividade de antes.

Lo’ak e Tsireya estavam sentados lado a lado, e a mão de Lo’ak agora repousava discretamente sobre a de Tsireya. Kiri observava tudo com um ar de superioridade, embora parecesse satisfeita com a harmonia do grupo.

Neteyam aproximou-se de Kuro enquanto Tatsuyo ia falar com Tsireya.

— Você está diferente, irmão — comentou Neteyam, cruzando os braços e olhando para o horizonte.

— O mar faz isso com a gente, eu acho — respondeu Kuro, tentando manter a pose.

— Não é o mar — disse Neteyam, dando um sorriso de lado. — É ela. Você finalmente encontrou algo que é mais importante do que sua própria vontade de ser o centro das atenções.

Kuro olhou para Tatsuyo, que ria de algo que Tsireya dissera. Ela parecia brilhar sob a luz do crepúsculo.

— Ela é... ela é tudo o que eu não sou, Neteyam. Ela é pura, ela é calma. Ela vê beleza em cada alga podre daquele recife.

— E ela vê beleza em você — acrescentou Kiri, surgindo do nada atrás deles, o que fez Kuro dar um pulo. — O que prova que ela realmente tem um dom espiritual muito avançado, porque encontrar beleza em você exige um milagre de Eywa.

— Kiri, eu juro que vou te jogar no meio dos tubarões — resmungou Kuro, mas todos riram.

A noite caiu sobre Awa'atlu. O jantar foi preenchido com histórias e risadas. Jake e Tonowari observavam os jovens de longe, notando como a união entre eles parecia solidificar a aliança entre os clãs.

Kuro sentou-se ao lado de Tatsuyo. Em um momento de coragem, ele estendeu sua mão de cinco dedos e a colocou sobre a dela. Tatsuyo não recuou; em vez disso, entrelaçou seus quatro dedos nos dele, olhando-o com aquele sorriso que fazia Kuro sentir que o mundo inteiro estava em paz.

— O que você está pensando, Kuro da Nuvem? — perguntou ela baixinho.

Kuro olhou para o céu estrelado de Pandora, refletido nas águas calmas do recife.

— Estou pensando que a floresta era legal — disse ele —, mas o mar... o mar tem a melhor vista que eu já vi.

Ele não estava olhando para o horizonte. Estava olhando para ela.

E ali, no coração do clã Metkayina, entre o rugido das ondas e o brilho da bioluminescência, o "esquisito da floresta" finalmente entendeu que não importava quantos dedos ele tivesse ou de onde vinha. Na pureza de Tatsuyo, ele encontrara seu porto seguro.

— Kuro? — chamou ela novamente.

— Sim?

— Você ainda vai me contar a história do "cachorro" que vivia na Terra? É um animal marinho?

Kuro soltou uma gargalhada genuína, atraindo a atenção de todos na marui.

— Não, pequena. É um animal terrestre. E, sabe de uma coisa? Você ia adorar um cachorro. Eles são quase tão fofos e inocentes quanto você.

Tatsuyo sorriu, encostando a cabeça no ombro de Kuro. A noite seguiu seu curso, e enquanto os outros jovens continuavam suas brincadeiras e flertes, Kuro Hatake permitiu-se, pela primeira vez, simplesmente ser. Sem máscaras, sem defesas. Apenas um rapaz, uma garota e o canto eterno do oceano que agora, finalmente, ele começava a aprender a ouvir.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.