Voltar ao resumo

Avatar

O Eclipse da Alma e a Areia do Destino

A marui da família Sully nunca pareceu tão pequena e sufocante. O ar estava saturado com o cheiro de ozônio e o peso de palavras que não podiam ser retiradas. Jake Sully estava de pé, sua silhueta projetada contra a luz das brasas, os ombros tensos como um arco prestes a se romper. Diante dele, Kuro Hatake sustentava o olhar, embora suas mãos de cinco dedos estivessem cerradas até os nós dos dedos ficarem brancos.

— Você não entende, Kuro! Você age como se fosse um turista nesse mundo! — a voz de Jake era um trovão contido. — Cada erro seu, cada imprudência com a filha do Olo’eyktan, coloca um alvo nas costas da minha família! Eu te dei uma chance, eu te dei um corpo, eu te dei um nome!

— Você me deu um fardo! — Kuro gritou de volta, a voz falhando pela primeira vez. — Você me transformou em um espelho dos seus próprios fracassos, Jake! Você olha para mim e odeia ver que eu sou humano por dentro, assim como você odeia o fato de que nunca deixou de ser um soldado da Terra!

O silêncio que se seguiu foi cortante. Jake deu um passo à frente, os olhos brilhando com uma fúria fria.

— Se você não consegue viver sob as minhas regras, se não consegue respeitar este povo que nos acolheu... então talvez você realmente não pertença a lugar nenhum. Nem à floresta, nem ao mar, e certamente não a esta família.

— Ótimo — disse Kuro, a voz agora num sussurro perigosamente calmo. — Então considere-me um fantasma.

Kuro virou-se e saiu da marui, ignorando os chamados desesperados de Lo’ak e o olhar aterrorizado de Kiri. Ele correu. Seus pés batiam nas passarelas de madeira, depois na areia úmida, e finalmente ele estava mergulhando na escuridão da noite. Ele não pegou um Ilu. Ele apenas correu pela costa, sentindo o sal queimar em seus cortes e o ódio queimar em seus pulmões.

Ele era um erro. Um experimento de laboratório com consciência humana, um Avatar de cinco dedos que não era aceito pelos Na'vi e que era visto como uma ameaça pelos humanos. Ele era a ponte que ninguém queria atravessar.

Depois de quilômetros, ele chegou a uma duna isolada, longe das luzes bioluminescentes de Awa'atlu. O vento soprava forte, carregando o som do oceano que parecia zombar de sua solidão. Kuro parou, ofegante. Ele abriu a bolsa que carregava transversalmente ao peito. Lá dentro, pesada e fria, estava uma pistola de longo alcance da RDA, que ele havia roubado de um dos depósitos de suprimentos recuperados.

O metal contra sua pele azul parecia a única coisa honesta naquele momento. Era o que ele era: uma arma.

— Chega — murmurou ele para o vento. — Eu cansei de tentar ser o que eu não sou. Cansei de falhar com todo mundo.

Kuro sentou-se na areia fria, as costas apoiadas contra um tronco de madeira trazido pela maré. Ele engatilhou a arma. O som do mecanismo travando soou como um veredito final. Ele olhou para as estrelas de Pandora, tão bonitas e tão indiferentes à sua dor.

Ele posicionou o cano da arma sob o queixo. O metal estava gelado, um contraste gritante com o calor de sua pele. Seus dedos tremiam, mas sua mente estava estranhamente lúcida. Ele fechou os olhos. Se ele apertasse o gatilho agora, o barulho em sua cabeça finalmente pararia. Jake não teria mais que se preocupar, Ronal não teria mais quem odiar, e ele... ele finalmente estaria livre.

— Kuro!

O grito rasgou o silêncio da noite, vindo de algum lugar atrás da duna. Kuro congelou, o dedo ainda no gatilho.

— Kuro, por favor! Onde você está? — Era a voz dela. Tatsuyo.

Ele apertou os olhos com mais força.

— Vá embora, Tatsuyo... — sussurrou ele, embora soubesse que ela não podia ouvir. — Não me veja assim.

Mas ela era uma Metkayina, e o rastro dele na areia era fácil de seguir para alguém que vivia em harmonia com a natureza. O som de passos rápidos na areia fofa aproximou-se.

— Kuro! — Tatsuyo apareceu no topo da duna. Ela estava ofegante, seus cabelos pretos bagunçados pelo vento e seus olhos arregalados de puro terror quando a luz da lua refletiu no metal da arma.

— Não se aproxime! — Kuro gritou, a voz embargada. — Fique longe, Tatsuyo!

— O que você está fazendo? — Ela deu um passo à frente, as mãos estendidas, tremendo. — Kuro, abaixe isso. Por favor.

— Eu não pertenço aqui, Tatsuyo! — Ele soluçou, o cano da arma pressionando mais forte contra seu queixo. — Eu sou um monstro. Eu sou a sombra que estraga tudo o que você toca. Seu pai tem razão. Sua mãe tem razão. Eu só trago dor.

— Você está errado! — Tatsuyo gritou, as lágrimas começando a rolar por seu rosto ciano. — Você é a luz que eu vi na Árvore dos Espíritos! Você é o meu anjo da nuvem!

— Eu sou um humano em um corpo de boneco! — Kuro rugiu, o dedo tensionando no gatilho. — Eu não sou um de vocês! Eu nunca vou ser!

Tatsuyo não parou. Ela correu pela duna, ignorando o perigo. No último segundo, antes que a coragem de Kuro se transformasse em tragédia, ela se lançou sobre ele.

— NÃO!

Com um movimento desesperado, Tatsuyo golpeou o braço de Kuro. A arma voou da mão dele, caindo pesadamente na areia a vários metros de distância, enterrando-se parcialmente em uma depressão da duna.

Kuro ficou estático, o choque paralisando seus sentidos. Antes que ele pudesse reagir, Tatsuyo se jogou contra o peito dele, envolvendo-o em um abraço tão apertado que parecia querer fundir seus corpos. Ela começou a chorar convulsivamente, soluços profundos que sacudiam seus ombros pequenos.

— Você ia me deixar... — ela soluçava contra o pescoço dele. — Você ia me deixar sozinha neste mundo... como você pôde? Como você pôde pensar que eu ficaria bem sem você?

Kuro sentiu a adrenalina do momento anterior esvair-se, sendo substituída por uma onda de vergonha e tristeza tão profunda que ele sentiu suas pernas cederem. Ele caiu de joelhos na areia, ainda abraçado a ela.

— Eu sinto muito... — Kuro murmurou, enterrando o rosto no cabelo dela, deixando suas próprias lágrimas finalmente caírem. — Eu sinto muito, Tatsuyo. Eu só... eu não aguento mais ser o culpado de tudo.

— Você não é culpado de nada! — Ela se afastou o suficiente para segurar o rosto dele com as duas mãos, forçando-o a olhar para ela. — Eles estão com medo, Kuro. O medo faz as pessoas dizerem coisas horríveis, até os pais. Mas eu não tenho medo. Eu te vejo. Eu conheço o seu coração.

— Seu pai vai me matar se souber disso — disse Kuro, tentando recuperar o fôlego.

— Deixe que ele tente! — Tatsuyo disse com uma firmeza que Kuro nunca vira nela. — Eu não vou deixar ninguém machucar você. Nem mesmo você.

Ela o abraçou novamente, escondendo o rosto em seu peito. Kuro envolveu-a com seus braços longos, sentindo o calor da vida dela contra a sua. O cheiro de flores aquáticas e sal que emanava dela começou a acalmar a tempestade em sua mente.

— Por que você veio atrás de mim? — perguntou ele baixinho.

— O oceano me contou — sussurrou ela. — As águas ficaram agitadas e frias quando você saiu da vila. Eu senti o seu coração gritando. Eu corri o mais rápido que pude.

Kuro olhou para a arma na areia, sentindo um horror súbito pelo que estivera prestes a fazer. Ele percebeu que, se tivesse puxado o gatilho, a última coisa que teria sentido não seria paz, mas a dor de deixar Tatsuyo para trás.

— Eu prometo... — Kuro disse, a voz firme agora. — Eu prometo que nunca mais vou tentar isso. Eu não sabia... eu não percebi o quanto você precisava de mim.

— Eu não preciso de você para me proteger, Kuro — Tatsuyo disse, limpando as lágrimas dele com os polegares. — Eu preciso de você para caminhar ao meu lado. Para me ensinar as histórias das estrelas e para ouvir o canto das águas comigo. Se você for embora, a música para.

Kuro inclinou a testa contra a dela. Ali, naquela duna isolada, o mundo parecia finalmente encontrar um equilíbrio.

— Jake disse que eu não pertenço a lugar nenhum — comentou Kuro.

— Ele é um tolo — Tatsuyo respondeu. — Você pertence aqui. Comigo. No meu coração. Esse é o seu clã agora, Kuro Hatake. O clã de nós dois.

Eles ficaram sentados na areia por muito tempo, observando as luas de Pandora cruzarem o céu. Kuro pegou a arma e, com um movimento de repulsa, arremessou-a com toda a sua força em direção ao mar profundo, onde ela desapareceu sob as ondas, para nunca mais ser encontrada.

— Vamos voltar? — perguntou Tatsuyo, levantando-se e estendendo a mão para ele.

Kuro olhou para a mão dela e depois para a vila ao longe, onde as luzes bioluminescentes brilhavam como pequenas promessas de esperança.

— Sim — disse ele, segurando a mão dela com firmeza. — Vamos voltar.

Enquanto caminhavam de volta pela costa, Kuro percebeu que a batalha contra o preconceito e a aceitação ainda estava longe de terminar. Jake ainda estaria zangado, Ronal ainda seria hostil e o mundo ainda veria seus cinco dedos. Mas, ao sentir a mão de Tatsuyo entrelaçada na sua, ele soube que não precisava mais de uma ponte para pertencer. Ele já havia chegado em casa.

— Kuro? — chamou ela, enquanto se aproximavam das primeiras passarelas.

— Sim, pequena?

— O que você ia fazer com aquele objeto de metal... você ia realmente "parar de respirar"?

Kuro parou por um momento, olhando para a garota que acabara de salvar sua alma.

— Eu ia cometer o maior erro da minha vida, Tatsuyo.

— Que bom que eu sou rápida — ela sorriu, um sorriso triste mas cheio de amor. — Da próxima vez que você quiser "parar", tente apenas mergulhar fundo comigo. A água sempre nos ensina a respirar de novo.

Kuro beijou a mão dela, sentindo-se, pela primeira vez em anos, verdadeiramente vivo.

— Eu mergulharia em qualquer lugar com você, Tatsuyo. Em qualquer lugar.

E assim, sob o olhar atento de Eywa, o rapaz que queria morrer encontrou na inocência de uma garota a razão mais poderosa para viver. O eclipse de sua alma havia passado, e o que restava era a luz suave e eterna de um amor que nem mesmo a morte ousaria separar.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.