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O Beijo do Oceano e o Eco das Descobertas
O sol de Pandora estava começando a se despedir, pintando o céu com pinceladas de violeta, âmbar e rosa profundo. Para a maioria dos Metkayina, aquele era o momento de retornar às maruis e agradecer a Eywa por mais um ciclo. Mas para Kuro Hatake, era o momento de fugir do peso do mundo.
Ele guiou seu Ilu para além dos recifes externos, em direção a uma pequena ilha flutuante que ficava suspensa por raízes colossais sobre uma lagoa de águas tão claras que pareciam feitas de cristal líquido. Era o refúgio secreto de Tatsuyo, um lugar onde as flores de coral bioluminescentes subiam até a superfície para respirar o ar da noite.
Tatsuyo já o esperava. Ela estava sentada na beira de uma raiz grossa, com os pés mergulhados na água, observando as pequenas criaturas aladas que dançavam sobre a superfície. Quando viu Kuro emergir, seu rosto iluminou-se com aquela pureza que sempre desarmava o rapaz.
— Você demorou, Kuro da Nuvem — disse ela, estendendo a mão para ajudá-lo a subir na raiz. — As flores quase voltaram a dormir sem te ver.
Kuro riu, sentando-se ao lado dela. O contraste entre a pele azul-escura dele e o ciano suave dela era gritante sob a luz do crepúsculo, mas ali, sozinhos, parecia a combinação mais natural do universo.
— Aonung me deu trabalho extra hoje. Acho que ele ainda está tentando me cansar para eu não ter energia para vir te ver — comentou Kuro, sentindo o frescor da brisa marinha.
Tatsuyo inclinou a cabeça, encostando-a no ombro dele.
— Ele não entende. Ele acha que você é como uma tempestade que pode me quebrar. Mas eu sei que você é o vento que me faz voar mais alto.
Kuro sentiu o coração acelerar. Ele olhou para Tatsuyo, admirando a curva de seu rosto, a inocência em seus olhos e a maneira como ela parecia estar em total harmonia com tudo ao seu redor. Ele sempre fora o "engraçadinho", o cara das piadas e das cantadas baratas, mas com ela, as palavras pareciam insuficientes.
— Tatsuyo — ele começou, a voz mais baixa e séria do que o habitual —, às vezes eu sinto que não te mereço. Eu sou... barulhento, confuso. E você é como essa lagoa. Perfeita.
Ela se afastou um pouco para encará-lo, seus dedos traçando suavemente as marcas no rosto dele.
— A lagoa só é bonita porque reflete a luz das estrelas, Kuro. E você é a minha estrela. Sem você, eu seria apenas água no escuro.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi carregado de uma eletricidade nova, algo que Kuro vinha sentindo crescer há meses. Ele aproximou o rosto do dela, sentindo a respiração doce de Tatsuyo.
— Eu quero te mostrar uma coisa — sussurrou ele. — Uma coisa que os humanos fazem quando gostam muito, muito de alguém.
Tatsuyo piscou, curiosa.
— Mais do que o Tsaheylu?
— É diferente. É uma conexão de... pele com pele. De alma com alma, mas de um jeito mais humano.
Kuro fechou os olhos e inclinou-se, pressionando seus lábios contra os dela.
O primeiro contato foi desajeitado. Tatsuyo ficou estática, os olhos arregalados, sem saber o que fazer com a boca. Ela não fechou os olhos e acabou batendo os dentes levemente nos dele. Kuro se afastou alguns centímetros, soltando uma risada suave e nervosa.
— O que foi isso, Kuro? — perguntou ela, parecendo genuinamente confusa. — Você está tentando comer meus lábios? Eu não entendia como se fazia isso nas histórias que você contava. Parecia... apertado.
Kuro riu mais alto, o que o ajudou a relaxar.
— Não, pequena. Não é para morder. É para... sentir. Você fecha os olhos, relaxa a boca e apenas deixa que os nossos lábios se toquem com suavidade. É como se a gente estivesse compartilhando o mesmo fôlego.
Tatsuyo franziu a testa, processando a informação com a seriedade de quem estuda um novo mantra espiritual.
— Entendi. Como o movimento das anêmonas quando a maré sobe. Suave.
— Exatamente — disse ele, acariciando o rosto dela. — Tenta de novo?
Desta vez, Tatsuyo fechou os olhos. Quando Kuro a beijou novamente, ela não ficou parada. Ela seguiu o ritmo dele, imitando a pressão leve, sentindo o calor que emanava do corpo dele. O beijo evoluiu de um toque tímido para algo profundo e avassalador. Kuro sentiu as mãos dela subirem para sua nuca, os dedos se entrelaçando em seus cabelos brancos, enquanto ele a puxava para mais perto, querendo fundir sua existência com a dela.
O mundo ao redor deles desapareceu. Não havia mais clãs, nem guerra, nem dedos extras, nem preconceitos. Havia apenas o sabor do mar e a doçura de Tatsuyo. Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, os rostos colados.
— Uau — sussurrou Tatsuyo, os olhos brilhando mais do que qualquer flor bioluminescente. — Isso... isso é muito melhor do que comer frutas doces. É como se o meu coração estivesse nadando com os Tulkuns.
— É — concordou Kuro, com um sorriso bobo no rosto. — É exatamente assim.
Tatsuyo levantou-se de repente, com uma energia renovada.
— Eu preciso ir! Eu preciso contar para a Tsireya!
Kuro arregalou os olhos, pego de surpresa.
— O quê? Agora? Tatsuyo, espera!
Mas era tarde demais. A garota já havia mergulhado na água, chamando seu Ilu com um assobio alegre. Kuro ficou para trás, rindo e balançando a cabeça, sabendo que a discrição não era exatamente o forte de sua doce Metkayina.
Enquanto isso, perto das docas da vila, Tsireya e Lo’ak estavam sentados em uma rede de cordas, conversando em voz baixa sobre os treinos do dia. O clima entre eles era de romance calmo, com Lo’ak tentando, sem muito sucesso, fazer um nó complicado em um bracelete de presente para ela.
De repente, o som de água espirrando anunciou a chegada frenética de alguém. Tatsuyo saltou do Ilu antes mesmo de ele parar completamente e correu em direção à irmã, tropeçando na areia de tanta pressa.
— Tsireya! Tsireya! — gritou ela, a voz ecoando por toda a plataforma.
— Tatsuyo? O que aconteceu? Você está ferida? — perguntou Tsireya, levantando-se alarmada.
Lo’ak também se levantou, a mão instintivamente indo para a faca na cintura, temendo algum ataque.
— Não! — Tatsuyo parou na frente deles, ofegante, com um sorriso que parecia rasgar seu rosto. — O Kuro! Ele me beijou!
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Lo’ak congelou no lugar, com a boca aberta e os olhos arregalados, parecendo uma estátua de sal. Tsireya piscou várias vezes, tentando processar a informação.
— Ele... o quê? — perguntou a irmã mais velha.
— Ele me beijou! — repetiu Tatsuyo, gesticulando com as mãos de forma exagerada. — No início foi estranho, eu achei que ele ia me morder e nossos dentes bateram, foi meio "clac"! Mas aí ele explicou que era como o fôlego da árvore e que eu tinha que relaxar. E aí, Tsireya, foi maravilhoso! Foi como se as correntes do oceano estivessem passando por dentro da minha barriga!
— Tatsuyo... — Tsireya olhou para os lados, vendo que alguns outros Na'vis começavam a observar a cena. — Shhh, fale mais baixo!
— E ele tem um gosto de... de floresta e de sol! — continuou Tatsuyo, ignorando completamente o pedido de silêncio. — E a boca dele é quente, muito quente. E ele me segurou assim, ó!
Ela agarrou o braço de Lo’ak para demonstrar como Kuro a havia puxado. Lo’ak, que ainda estava em estado de choque, nem sequer reagiu ao toque, permanecendo com a mesma expressão de "tela azul" mental.
— Lo’ak? — Tsireya cutucou o namorado. — Você está bem?
— O... o Kuro? — balbuciou Lo’ak, finalmente recuperando um pouco da voz. — O meu "irmão" Kuro? Aquele idiota de cabelo branco? Ele... ele fez isso com a sua irmã? A filha da Tsahìk?
— Sim! — exclamou Tatsuyo, radiante. — E eu quero fazer de novo! Amanhã, e depois, e depois!
Lo’ak levou a mão à testa, sentando-se pesadamente na rede.
— O Jake vai matar ele. O Tonowari vai transformar ele em isca de peixe. E eu vou ter que ajudar a esconder o corpo... — resmungou Lo’ak, embora uma parte dele estivesse impressionada com a coragem (ou burrice) do amigo.
Tsireya, por outro lado, começou a sentir a empolgação da irmã. Ela puxou Tatsuyo para sentar ao seu lado, os olhos brilhando de curiosidade.
— E como você se sentiu, de verdade? — perguntou Tsireya em um sussurro cúmplice. — Além das correntes na barriga?
— Eu me senti... vista — disse Tatsuyo, sua voz suavizando subitamente. — Como se ele soubesse exatamente quem eu sou, mesmo sem o Tsaheylu. É uma magia diferente, Tsireya. Os humanos podem ser destrutivos, mas essa coisa que eles inventaram... o beijo... é a coisa mais bonita que eu já vi.
Tsireya sorriu, acariciando o cabelo da irmã.
— É, eu entendo. O Lo’ak e eu... bem, a gente ainda não chegou nessa parte de "explicar como se faz", mas eu entendo o sentimento.
Lo’ak, ouvindo aquilo, finalmente saiu do transe e olhou para Tsireya com uma mistura de pânico e interesse.
— Espera, você quer que eu explique? Quer dizer, eu sei como se faz! Eu vi o Neteyam praticando com uma árvore uma vez... não, quer dizer, eu ouvi dizer!
Tatsuyo riu da confusão de Lo’ak.
— Você devia pedir dicas para o Kuro, Lo’ak! Ele é um ótimo professor. Ele disse que eu aprendo rápido.
— Eu não vou pedir dicas para o Kuro! — protestou Lo’ak, embora sua mente já estivesse planejando como interrogar o amigo mais tarde.
— Mas e a mamãe, Tatsuyo? — perguntou Tsireya, a preocupação voltando. — Se a Ronal descobrir que você está... trocando fôlegos com o Kuro, ela vai entrar em erupção.
Tatsuyo deu de ombros, com aquela inocência inabalável que era sua maior força e sua maior fraqueza.
— Eywa não proíbe a alegria, Tsireya. E o beijo é alegria pura. Se a mamãe experimentasse, talvez ela não fosse tão brava o tempo todo.
Lo’ak soltou uma risada nervosa.
— Eu pagaria para ver alguém dizer isso na cara da Ronal.
— Mas me conte tudo, Tatsuyo! — insistiu Tsireya, puxando a irmã para mais perto. — Cada detalhe! Como ele te olhou antes? O que ele disse depois?
Enquanto as duas irmãs mergulhavam em uma conversa profunda sobre sentimentos, beijos e o futuro, Lo’ak permanecia sentado, olhando para o mar. Ele via a silhueta de Kuro retornando ao longe, remando calmamente em seu Ilu.
— Você está morto, cara — murmurou Lo’ak para si mesmo, com um sorriso crescendo em seu rosto. — Mas, caramba... que jeito incrível de morrer.
Naquela noite, sob as estrelas de Pandora, o segredo do beijo na lagoa espalhou-se como uma corrente quente pelo recife. E enquanto os adultos se preocupavam com guerras e fronteiras, quatro jovens descobriram que, às vezes, a maior revolução de todas acontece no simples encontro de dois lábios, provando que nem mesmo o oceano mais profundo pode apagar o fogo de um primeiro amor.