Voltar ao resumo

Avatar

Flores Sobre a Rocha

A claridade estéril do teto do hospital feria minhas retinas toda vez que eu tentava manter os olhos abertos. O zumbido distante dos monitores cardíacos e o cheiro enjoativo de desinfetante não conseguiam mascarar a dor latejante que irradiava da base do meu crânio até a ponta dos meus dedos. O esquadrão de resgate da polícia e dois heróis haviam arrombado o galpão clandestino horas depois de eu ter perdido a consciência sob o jugo de Kuvira, rompendo o cerco com violência antes que ela pudesse quebrar meu pescoço de vez. Mas a sensação do metal esmagando meu cangote ainda parecia gravada na minha carne.

Minha nuca estava imobilizada por uma faixa grossa de compressão térmica e gaze. Cada batimento cardíaco enviava uma pontada aguda para o meu sistema nervoso, me lembrando da minha vulnerabilidade grotesca. Meus tios, o Sr. e a Sra. Wood, haviam passado por ali na noite anterior — deixaram um buquê caro de orquídeas na mesinha de cabeceira, assinaram a autorização para a melhor suíte médica particular da cidade e partiram às pressas para uma reunião corporativa no exterior. O padrão de sempre. Dinheiro para curar ossos, ausência para alimentar o vazio.

Eu não conseguia ficar naquela cama nem mais um segundo. O teto branco parecia descer sobre mim como uma lápide de concreto, e o fantasma dos olhos sem vida de Ashley flutuava em cada sombra do quarto.

Com os dentes cerrados para abafar os gemidos de fraqueza, arranquei o cateter de soro do dorso da minha mão esquerda. Uma gota grossa de sangue brotou na pele pálida, mas mal registrei o incômodo. Deslizei as pernas trêmulas para fora dos lençóis. O chão frio enviou um arrepio pela minha espinha, e precisei me apoiar na haste de metal do soro para não desabar de joelhos quando a vertigem me atingiu em cheio. Minha velocidade relâmpago estava completamente inacessível; as faíscas que costumavam dançar sob minha derme pareciam cinzas molhadas.

Encontrei minhas roupas guardadas em um armário estreito no canto. Vesti minha calça jeans gasta e passei com cuidado extremo um moletom preto, dois números maior do que o meu tamanho habitual. Puxei o capuz sobre a cabeça para esconder o curativo espesso e evitar que qualquer brisa tocasse a minha nuca machucada.

Esperei a ronda das enfermeiras passar pelo corredor e me esgueirei em direção à escadaria de emergência lateral. Cada degrau descido exigia um esforço monumental dos meus músculos exaustos, mas a determinação me impelia para a frente. Eu precisava vê-la. Precisava encarar o que a minha arrogância havia causado.

O ar lá fora estava gélido e cinzento, o céu coberto por nuvens pesadas que ameaçavam desabar em tempestade a qualquer momento. Caminhei cambaleante pelas calçadas do Distrito Leste, mantendo as mãos enterradas nos bolsos fundos do moletom para disfarçar o tremor constante.

Levei quase quarenta minutos para alcançar os portões de ferro batido do Cemitério da Colina Verde. O lugar era vasto, pontilhado por ciprestes antigos e lápides de pedra cobertas de musgo. Meus passos arrastados ecoavam no cascalho úmido enquanto eu subia a colina em direção à ala dos jazigos mais recentes. O vento cortante açoitava as árvores, fazendo farfalhar as folhas secas em um lamento soturno.

Parei diante de um monte de terra ainda fresca, coroado por uma placa de granito escuro.

*Ashley Jackson. Uma chama brilhante que partiu cedo demais.*

Meus joelhos simplesmente cederam. Caí sobre a grama úmida, as mãos espalmadas contra a terra fria, a cabeça pendendo para a frente enquanto a dor no meu pescoço pulsava em ondas febris. A imagem do sangue de Ashley empapando o gramado da mansão dos Wood, os olhos dela me encarando enquanto dava o último suspiro para me proteger... tudo voltou com a força avassaladora de um maremoto.

Apertei o tecido do meu casaco contra o peito, sentindo o choro preso rasgar minha garganta em soluços sufocados.

— *I'm so sorry, Ash...* — sussurrei, a voz quebrando em meio ao vento áspero. — *I'm so, so sorry. You stood in front of that bullet for me, and the last words I ever said to you were full of hate.*

Apoiei a ponta dos dedos trêmulos contra a pedra gelada, contornando as letras gravadas no granito.

— *I was so stupid...* — continuei, as lágrimas quentes escorrendo pelas minhas bochechas e pingando na grama. — *You tried to warn me. You begged Kuvira to stop, you chose me over her, and I called you a traitor. I threw you out of my house like you were garbage. You gave your life to fix a mess that was entirely mine, and now you're lying in the cold while I'm still breathing.*

O silêncio do cemitério respondeu com o uivo suave do vento entre as cruzes. Uma lágrima escorreu até o queixo e caiu na terra que cobria sua tumba. Fechei os olhos com força, puxando o ar gelado para dentro dos pulmões doloridos, tentando invocar em vão o calor da dobra de fogo que Ashley costumava irradiar sempre que estávamos sentadas juntas no chão da sala rindo de qualquer bobagem.

— *She made me feel weak, Ashley* — confessei, baixinho, encarando a lápide como se ela pudesse me ouvir do outro lado do véu espiritual. — *She held my neck just like they did when my mom died. I couldn't move. I couldn't fight back. But I swear... I swear to you that I will make things right. I won't let your death be in vain. I'll stop your sister, even if it's the last thing the Avatar ever does.*

Fiquei ali por um longo tempo, ajoelhada na terra, até que minhas pernas perderam a sensibilidade pelo frio e a garoa fina começou a umedecer a lã do meu capuz. A dor na nuca agora queimava com intensidade crua, advertindo que meus limites biológicos estavam prestes a ser ultrapassados mais uma vez.

Ergui-me com extrema lentidão, apoiando-me na lápide vizinha para não cair de cara no chão. Toquei a pedra de granito de Ashley uma última vez antes de me virar de costas e caminhar para fora dos portões com passos pesados.

Duas quadras abaixo do cemitério, vi a luz amarelada e acolhedora de uma pequena cafeteria de esquina, a *Old Foundry Brew*. O sino acima da porta tilintou fracamente quando empurrei o vidro, e o aroma intenso de grãos torrados e canela atingiu meu rosto pálido. O lugar estava praticamente vazio àquela hora da manhã chuvosa; apenas um senhor idoso lia o jornal perto da janela e o atendente secava copos atrás do balcão de madeira.

Arrastei-me até uma mesa no canto mais afastado, perto dos fundos, e me deixei desabar no estofado surrado de couro verde. Meus dentes batiam de frio e exaustão.

— Um café preto grande, por favor — pedi com um fio de voz quando o garçom se aproximou. — Bem quente.

Ele assentiu, lançando um olhar desconfiado para a minha palidez cadavérica e para o jeito rígido com que eu sustentava a cabeça, mas não fez perguntas. Minutos depois, colocou uma caneca fumegante de cerâmica pesada diante de mim.

Envolvi a caneca com as duas mãos, tentando roubar um pouco de calor para os nós dos meus dedos dormentes. Dei um gole lento; o líquido amargo e escaldante desceu queimando pela garganta, trazendo um milissegundo de foco para os meus pensamentos dispersos.

Eu mal havia dado o terceiro gole quando as portas de vidro da cafeteria foram abertas com um estrondo seco que fez a sineta vibrar freneticamente.

O ar do estabelecimento mudou no mesmo instante, tornando-se pesado, quase magnético. Passos firmes de solas de borracha pesada ecoaram pelo piso de linóleo. Ergui os olhos com esforço e senti o estômago despencar.

A Sra. Hopper estava parada no meio do salão.

Seus cabelos grisalhos cortados rentes estavam encharcados pela chuva torrencial que desabava lá fora, colados às têmporas severas. A capa impermeável escura do uniforme da polícia pingava água no chão, e os braceletes grossos de metal reforçado cintilavam em seus pulsos largos. Seus olhos cinzentos, duros como rocha vulcânica, vasculharam o ambiente até travarem diretamente em mim.

O senhor do jornal recolheu suas coisas rapidamente e saiu pelos fundos. O atendente simplesmente se encolheu contra a máquina de café expresso. Hopper caminhou em minha direção com a postura impecável e implacável de quem comanda a força de segurança de uma metrópole inteira.

Ela parou diante da minha mesa, apoiando as duas mãos enluvadas de couro sobre o tampo de madeira e se inclinando ligeiramente para a frente. A aura de terra sólida e metal ao redor dela parecia sufocar o oxigênio do café.

— *Are you completely out of your damn mind, Anne?!* — a voz dela soou baixa, mas carregada de uma fúria estrondosa que fez a louça chacoalhar sobre a mesa. — *Do you have any idea what kind of chaos you caused at the General Hospital?! I had half of my precinct combing every back alley and drainage pipe within a five-mile radius looking for your corpse!*

Encolhi os ombros involuntariamente, a repreensão me atingindo com força, embora eu me recusasse a desviar o olhar. A dor na minha nuca deu uma fisgada violenta com o movimento súbito.

— *I'm sorry, Mrs. Hopper...* — murmurei, minha voz fraca soando minúscula em comparação ao trovão contido na postura dela. — *I didn't mean to cause trouble. I just... I needed to get some fresh air. I needed to breathe.*

— *To breathe?!* — Hopper rebateu com um sarcasmo cortante, endireitando a coluna e cruzando os braços musculosos sobre o peito blindado. — *You have severe nerve trauma at the base of your skull, your electrical output is completely depleted, you're running a fever, and you think this is the time for a leisurely stroll in the freezing rain to grab a cup of coffee?!*

Mordi a parte interna da bochecha, baixando os olhos para a caneca escura.

— *I had to see her* — falei, as palavras saindo quase inaudíveis, mas firmes. — *I had to see Ashley. If I stayed in that hospital room for another ten minutes, I was going to lose my mind.*

A expressão gélida de Hopper vacilou por uma fração de segundo. Seus olhos examinaram a terra úmida nas barras da minha calça jeans, as manchas de grama nos joelhos e o rastro seco de lágrimas no meu rosto abatido. A fúria em seus traços não desapareceu por completo, mas a tensão militar em seus ombros relaxou minimamente, dando lugar àquele peso exausto que só os adultos que enterravam soldados conheciam.

Ela puxou a cadeira à minha frente e se sentou pesadamente, o metal de seus coldres tilintando contra a madeira.

— *Ashley is dead, Anne* — disse Hopper, a voz agora rouca, despida dos gritos, mas carregada de uma solenidade dolorosa. — *And walking through this city looking like a ghost ready to collapse isn't going to bring her back. Kuvira is still out there. Her squad slipped through the perimeter yesterday during the extraction. If they had found you walking alone by the cemetery, you wouldn't even have had the strength to produce a spark to defend yourself.*

— *I know...* — sussurrei.

— *No, you don't know* — rebateu a chefe de polícia, apontando um dedo firme para o meu rosto. — *You act like you're invulnerable because of that title of yours, but the moment someone touches the back of your neck, you crumble into pieces. We nearly lost you on that table. When I ripped that metal clamp off your spine, your pulse was practically gone.*

Um arrepio frio percorreu minha pele ao ouvir aquilo. Eu sabia que Hopper havia liderado o ataque contra o esconderijo, mas ouvir sobre o momento em que a morte quase me alcançou fez o ar fugir dos meus pulmões.

Hopper jogou algumas notas sobre a mesa para cobrir a conta do café, levantou-se e apontou com a cabeça em direção à saída.

— *Get up* — ordenou ela, sem espaço para réplica. — *You're going back right now.*

Tentei me levantar com dignidade, mas assim que empurrei meu peso sobre as pernas, meus joelhos cederam como gelatina. Antes que eu batesse a cabeça na borda da mesa, a mão calejada de Hopper segurou meu braço esquerdo com a firmeza inabalável de um pilar de sustentação de terra pura. Com cuidado milimétrico para não encostar na minha nuca ou no colar cervical, ela me puxou para cima e passou o meu braço sobre os ombros largos dela, sustentando metade do meu peso.

— *Hold on to me* — resmungou ela, mantendo o olhar fixo para a frente enquanto me guiava para fora do estabelecimento.

A chuva caía implacável no lado de fora. A viatura preta reforçada da polícia de metal estava estacionada com as luzes vermelhas e azuis cortando a névoa fria da manhã. Hopper abriu a porta do passageiro, me ajudou a sentar no banco de couro e ajustou o cinto de segurança com a precisão mecânica que ela dedicava a tudo na vida. Ela deu a volta no capô, sentou-se ao volante e bateu a porta, isolando completamente o barulho do temporal.

O aquecedor do painel foi ligado imediatamente no máximo, lançando uma corrente de ar quente que fez meu corpo tremer ainda mais em reação ao choque térmico. Hopper engatou a marcha e acelerou pelo asfalto molhado.

O silêncio dentro da cabine blindada durou várias quadras, quebrado apenas pelo chiado baixo do rádio comunicador policial emitindo relatórios de patrulha. Olhei de soslaio para o perfil austero de Hopper; as mãos enluvadas controlavam a direção com absoluta destreza, a mandíbula travada, cicatrizes antigas desenhando a linha da sua têmpora.

— *You really hate having to babysit me, don't you?* — comentei fracamente, recostando a cabeça com cautela no encosto estofado. — *Ever since that day I smashed those storefronts when I was eleven.*

Hopper soltou um suspiro nasal áspero, seus olhos permanecendo fixos na estrada cinzenta.

— *I don't hate you, Miller. I hate foolishness* — respondeu ela, a voz firme. — *When you arrived in this city with your nose in the air, thinking you could wreck half a commercial district just because you had lightning at your fingertips, you were a danger to everyone around you. You needed to learn that power without discipline is just destruction with an excuse. And sitting in that interrogation room for three hours was the kindest lesson I could have given you.*

— *You made me sit there with three cops staring through the glass* — lembrei, um vislumbre fantasma de sorriso tentando cruzar meus lábios secos, logo ofuscado pela dor. — *My uncles were furious when they had to come pick me up.*

— *Your uncles didn't give a damn about what you did; they only cared about the press covering the incident* — cortou Hopper, a franqueza desprovida de qualquer anestésico. — *I know who those people are, Anne. They pay the bills and leave an eleven-year-old child alone in a mausoleum to raise herself.*

Virei o rosto para a janela molhada, as palavras dela atingindo um nervo exposto que eu passara anos tentando ignorar. As gotas de chuva escorriam em diagonais frenéticas pelo vidro temperado.

— *Ashley didn't leave me alone* — murmurei, a garganta apertada novamente. — *She was the only one who actually stayed.*

O rádio estalou com a voz de um sargento reportando um perímetro limpo no setor industrial, mas Hopper abaixou o volume com um movimento ágil do punho. Ela parou o carro em um semáforo vermelho, virou ligeiramente o rosto em minha direção e me fitou com seriedade profunda.

— *Ashley made her choice, Anne. She made a terrible mistake in the beginning by listening to that fanatic of a sister, but she chose to protect you in the end. Do you know why?*

Engoli em seco, meus olhos marejados sustentando o olhar cinzento da chefe de polícia.

— *Why?*

— *Because she saw that beneath all this loud, reckless Avatar bravado, you're just a kid carrying the weight of an entire world that doesn't know how to protect you back* — disse Hopper, a voz soando surpreendentemente gentil sob a casca de ferro. — *She died so you could live. If you walk into Kuvira's trap now, if you let yourself rot away from guilt or throw your life away in some suicidal ambush, you make her sacrifice completely worthless.*

As lágrimas silenciosas voltaram a molhar a gola do meu moletom. Fechei os punhos com tanta força que as unhas machucaram as palmas das mãos, mas não contestei. Eu sabia que cada palavra dita por aquela mulher de cinquenta anos carregava a verdade crua que eu vinha tentando fugir.

O semáforo abriu, e a viatura cruzou os portões da entrada de emergência do Hospital Geral.

Quando o carro parou, uma equipe de três médicos e dois enfermeiros já aguardava na baía com uma maca e aparelhos de monitoramento. Hopper saltou do veículo e abriu a minha porta, mas antes que a equipe pudesse me tocar, ela ergueu uma mão aberta, paralisando os médicos no lugar com um simples gesto de comando.

Ela se inclinou para perto de mim, fixando seus olhos nos meus.

— *I'm stationing four armed metalbenders on your floor* — disse ela, o tom reassumindo a autoridade militar inabalável. — *Nobody enters your wing without my personal biometric clearance. Your uncles can complain to the mayor all they want, but as long as you're recovering, this hospital is under police jurisdiction. You are going to rest, Miller. You are going to heal that neck, and you are going to let the healers do their job.*

— *And Kuvira?* — perguntei, a respiração curta enquanto eu tentava reunir forças para me mover para a maca.

Hopper deu um passo para o lado, permitindo que os enfermeiros me amparassem com extremo cuidado, sustentando meus ombros e imobilizando meu pescoço antes de me deitarem na superfície acolchoada. Seus olhos cinzentos faiscaram com uma promessa silenciosa e letal.

— *Kuvira is my problem for now* — declarou a veterana, fechando os nós dos dedos blindados com um estalo seco de metal contra osso. — *When you're ready to fight again, I won't hold you back. But until then... stay alive, little Avatar.*

Fui levada pelos corredores assépticos em um movimento rápido, o som das rodas da maca ecoando no chão encerado. Enquanto as portas de vidro da ala intensiva se fechavam atrás de mim, vi Hopper parada sob a chuva na entrada da emergência, os braços cruzados, ereta e inabalável como uma montanha guardando a passagem.

Pela primeira vez em semanas, enquanto os sedativos começavam a ser injetados para conter a febre que voltava a subir, não me senti completamente abandonada pelo mundo. A dor na nuca ainda ardia como brasas vivas, e o luto por Ashley ainda pesava como chumbo em meu coração, mas sob a dormência que se espalhava pelos meus membros, uma centelha tênue de eletricidade estalou silenciosamente na ponta dos meus dedos.

A chama de Ashley havia se apagado, mas a tempestade em mim estava apenas começando a se formar.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.