Avatar
O Peso das Cicatrizes
O brilho aquoso e esverdeado flutuava a meros milímetros da minha pele, mas a sensação era a de agulhas em brasa cravando-se diretamente na minha medula.
— *Breathe, Anne. Just breathe. You need to relax your shoulders, or the energy won't flow* — murmurou o curandeiro, um homem de meia-idade da Tribo da Água do Norte chamado David, cuja voz mansa e compassada só servia para irritar ainda mais os meus nervos à flor da pele.
— *I'm trying!* — rosnei entre dentes, os punhos cerrados contra os lençóis de linho hospitalar com tanta força que o tecido rangeu. — *Just... don't touch the back. Don't press it!*
— *I'm not touching you directly, child. It's just the water* — respondeu ele com paciência infinita.
A água curativa brilhava enquanto circulava em espirais suaves ao redor da base do meu crânio e da minha nuca. O líquido era morno, quase etéreo, mas o simples fato de haver algo envolvendo aquela região exata disparava todos os alarmes primitivos do meu cérebro. Minha visão tremeluzia em tons acinzentados toda vez que a água pressionava os tecidos inflamados do meu cangote. Era como se as mãos de ferro de Kuvira ainda estivessem ali, frias, implacáveis, esmagando minhas vértebras e roubando meu fôlego.
Um espasmo violento sacudiu meu tronco. Sem que eu pudesse controlar, uma descarga de estática azulada explodiu da ponta dos meus dedos, fazendo a lâmpada fluorescente acima da maca estourar em uma chuva de faíscas. A água de David perdeu a coesão e espirrou pelo chão.
Recuei de costas até bater contra a cabeceira da cama, ofegante, as mãos cobrindo instintivamente a nuca enfaixada enquanto gotas de suor frio escorriam pela minha têmpora. Meu coração parecia um pássaro enlouquecido batendo as asas contra a caixa torácica.
— *That's enough for today* — uma voz áspera e imponente cortou o ar antes que o curandeiro pudesse recolher sua água.
A Sra. Hopper estava parada no batente da porta de vidro, com os braços cruzados sobre a couraça de metal da polícia. O som ritmado de suas botas pesadas contra o piso encerado fez o curandeiro recolher seus instrumentos com um aceno respeitoso de cabeça.
— *She's not healing as fast as we anticipated, Chief Hopper* — explicou David em voz baixa, secando as mãos em uma toalha. — *The nerve damage is tangled with psychological trauma. The moment my bending nears the cervical area, her autonomic system triggers an emergency fight-or-flight reflex. She’s locking her own Chi.*
— *I know what she's doing* — respondeu Hopper, com os olhos cinzentos fixos em mim. — *Leave us.*
David assentiu e saiu rapidamente, fechando a porta com um clique abafado. Dois policiais dobradores de metal faziam a guarda no corredor externo, suas silhuetas armadas visíveis através do vidro fosco. A proteção era absoluta, mas a sensação de confinamento começava a me sufocar novamente.
A chefe de polícia aproximou-se da cabeceira, puxou a cadeira de ferro com um movimento seco do pé e sentou-se. Ela não parecia cansada, apesar de estar em vigília há mais de vinte e quatro horas; parecia esculpida em granito maciço.
— *You almost broke that man's nose with your lightning spasm, Miller* — comentou ela, ajeitando uma das braçadeiras de aço no antebraço.
— *He was getting too close* — justifiquei, baixando os olhos e puxando os joelhos contra o peito, mantendo o queixo apoiado neles. — *I told him not to touch it.*
— *He's a doctor trying to keep your spinal column from fusing into a block of scar tissue* — rebateu Hopper, o tom desprovido de rodeios. — *You can't dodge healing just because it makes you uncomfortable. Kuvira knew your weakness, Anne. If you don't face that nerve block, any amateur bender with half a brain will take you down by simply aiming for your collar.*
A menção ao nome de Kuvira fez o sangue pulsar ruidosamente em meus ouvidos. Minhas unhas cravaram-se no tecido da minha calça hospitalar.
— *Kuvira didn't just find a weakness, Mrs. Hopper* — sussurrei, a amargura queimando minha língua. — *She created it. Or rather, she used the ghost of what happened to my mother to tear me apart. And she used Ashley to do it.*
Hopper não respondeu de imediato. Ela retirou as luvas de couro grossas, revelando mãos calejadas por décadas de dobra de terra e combate urbano, repletas de cicatrizes de estilhaços.
— *Trauma isn't a weapon enemies forge against you, Anne* — disse ela, a voz ligeiramente mais suave, mas ainda carregando o peso de uma veterana. — *It's a crack that was already there. Kuvira just poured water into the fissure and waited for the frost to break the rock. The only way to stop the rock from crumbling is to reinforce it from within.*
— *It sounds very poetic coming from an earthbender* — murmurei com um sarcasmo defensivo, virando o rosto para a janela. — *Too bad I'm made of lightning. Sparks don't get reinforced. They just burn out.*
Antes que Hopper pudesse retrucar, o visor do comunicador em seu pulso vibrou com um zumbido discreto. Ao mesmo tempo, duas batidas hesitantes soaram na porta de vidro da suíte. Um dos oficiais da guarda entreabriu a porta, espiando para dentro com expressão dividida entre o dever e o constrangimento.
— *Chief?* — chamou o guarda. — *There's a couple here demanding entry. They have legal authorization and a team of corporate attorneys. It's the Woods.*
Fechei os olhos com força, deixando a cabeça tombar para trás com um gemido abafado. O timing dos meus tios era sempre impecável para piorar qualquer situação.
Hopper levantou-se com uma lentidão calculada, recolocando as luvas.
— *Let them in* — ordenou ela ao guarda, virando-se para mim antes que os visitantes entrassem. — *Keep your mouth shut if they start grating on your nerves. You don't have the energy for a family feud.*
A porta foi aberta de par em par, e o Sr. Arthur Wood entrou no quarto como se estivesse inspecionando uma filial decadente de sua empresa de logística marítima. Ele vestia um terno sob medida impecável, com um sobretudo de lã italiana sobre os ombros, seguido de perto pela Sra. Eleanor Wood, cuja maquiagem perfeita e joias discretas pareciam gritar aversão ao ambiente hospitalar.
— *Anne, darling, look at this disaster!* — exclamou Eleanor, parando a dois metros da cama e cobrindo o nariz com um lenço de seda aromatizado com lavanda. — *The press outside is insufferable! There are television vans blocking the entire private parking lot. Arthur had to threaten to sue the hospital director just to get our security detail past the lobby.*
— *Good to see you too, Aunt Eleanor* — respondi com uma neutralidade gélida, sem me mover.
Arthur deu um passo à frente, lançando um olhar desconfiado para Hopper antes de se dirigir a mim.
— *We received the preliminary report about the property damages* — disse ele, a voz ríspida e prática de quem lidava exclusivamente com balanços patrimoniais. — *The front gates of the estate were torn down, the south garden is scorched, and there are traces of metal debris embedded in the masonry. We had to hire an emergency contractor to board up the facade before the stock market opened this morning.*
Apertei o tecido do cobertor, sentindo uma pontada aguda de náusea. Nenhuma pergunta sobre o meu pescoço. Nenhuma pergunta sobre os dias que passei sob tortura nas mãos do grupo dissidente. Nenhuma menção a Ashley.
— *Ashley is dead, Uncle Arthur* — cortei, olhando-o diretamente nos olhos. Minha voz saiu trêmula, mas carregada de uma raiva ácida. — *She died on your pristine front lawn. Her blood soaked your south garden. And you're worried about masonry and stock prices?*
Eleanor suspirou, gesticulando com a mão enluvada de pelica como se afastasse uma mosca inconveniente.
— *Anne, please, don't be dramatic. We were very fond of that girl, of course, but she turned out to be the sister of a terrorist! The authorities informed us that she was practically an operative inside our household. If anything, we are the victims of espionage here! The family reputation is hanging by a thread!*
— *That's enough* — a voz de Hopper não foi alta, mas o peso metálico que ela projetou na sala fez com que Arthur e Eleanor congelassem instantaneamente.
A chefe de polícia deu um passo à frente, colocando-se exatamente entre os Wood e a minha cama. Ela era alguns centímetros mais baixa que Arthur, mas sua postura dominava o espaço como uma fortaleza inexpugnável.
— *Mrs. Hopper, this is a private family matter* — Arthur tentou erguer o queixo, ajustando os punhos do terno. — *We appreciate the police presence, but as Anne's legal guardians—*
— *As her legal guardians, you failed to notice a hostile operative living under your roof for six months* — rebateu Hopper, cortando o homem com a precisão de uma guilhotina. — *And as her legal guardians, you left a fourteen-year-old wounded Avatar alone in an intensive care unit to attend a shareholder meeting in Ba Sing Se.*
— *Now listen here—*
— *No, Mr. Wood, you listen* — Hopper aproximou-se um passo a mais, e o metal das suas braçadeiras estalou com uma vibração sutil, respondendo à tensão da sua postura. — *This floor is under martial jurisdiction per the Emergency Defense Act until Kuvira is neutralized. If you take one more step toward that bed to stress this patient with balance sheets and public relations, I will have both of you detained for obstruction of justice and endangering the Avatar’s physical integrity. Do I make myself clear?*
Arthur empalideceu, abrindo e fechando a boca sem conseguir emitir um único som convincente. Eleanor deu um passo para trás, ajeitando a gola do casaco com dedos nervosos.
— *We will speak to our attorneys about this abuse of power* — Arthur sibilou, puxando a esposa pelo braço. — *We expect a full briefing once you decide to stop treating us like criminals, Chief Hopper.*
Eles giraram nos calcanhares e saíram apressados pelo corredor, o bater dos saltos de Eleanor ecoando até sumir na distância.
O silêncio que se instalou no quarto foi pesado. Soltei o ar que nem percebera estar prendendo, meus ombros caindo em derrota.
— *They're always like that* — murmurei, encarando as próprias mãos no colo. — *Ever since my mom died. It’s like I’m a broken vase they keep on a shelf just to prove they have expensive taste.*
Hopper não respondeu com clichês de consolo. Ela simplesmente puxou a cadeira de volta para o lado da cama e cruzou os braços.
— *You don't need their approval, Anne. You never did* — disse ela com firmeza. — *Now drink some water. You have other visitors waiting, and these ones actually care if you're alive.*
Franzi a testa, surpresa.
— *Visitors? Who?*
Hopper fez um sinal para a porta, e o guarda permitiu a entrada de duas figuras conhecidas que pareciam completamente deslocadas entre os oficiais armados.
Eram Leo e Maya.
Leo, alto e desajeitado, com seu casaco da academia três vezes amassado e o cabelo escuro rebelde, trazia uma sacola de papel pardo amassada nas mãos. Ao lado dele, Maya, com seus óculos redondos e uma postura tensa de quem esperava que o teto desabasse a qualquer instante, segurava um fichário abarrotado de anotações escolares. Eram meus únicos amigos da escola além de Ashley — garotos normais que não dobravam elementos, não salvavam cidades e cuja maior preocupação semanal costumava ser a prova de cálculo avançado.
— *Anne!* — Maya quase correu em direção à cama, mas parou bruscamente a um metro de distância, com os olhos arregalados ao ver a faixa grossa envolvendo minha nuca e as marcas arroxeadas nos meus pulsos. Suas mãos tremiam. — *Oh spirits... Anne, look at you...*
— *Hey guys* — tentei dar um sorriso que deve ter parecido mais uma careta de dor. — *Did you break through a police barricade just to bring me homework?*
Leo soltou uma risada nervosa, limpando a garganta e colocando a sacola sobre a mesa de cabeceira. O cheiro de pãezinhos doces de canela da padaria perto do colégio invadiu o quarto instantaneamente.
— *Toby wanted to come too, but his parents locked him in the house after the news broadcast about the industrial district* — explicou Leo, esfregando a nuca sem jeito. — *We brought the pastries from Old Wu's place. The ones you always steal from my tray.*
— *We were so scared, Anne* — Maya sentou-se na beirada da cadeira que Hopper havia desocupado, as lágrimas já brilhando em seus olhos escuros. — *When the news showed the Wood estate destroyed... and then they said Ashley...*
A voz de Maya falhou, e o nome de Ashley pairou no ar como um espectro frio. Leo baixou os olhos para o chão encerado, o semblante escurecendo com o luto juvenil e cru.
— *We know she was... Kuvira's sister* — disse Leo baixinho. — *The whole school is talking about it. People are saying horrible things, Anne. That she was a spy, that she orchestrated the attacks... but we knew her. She spent afternoons at the library helping Maya study history. She wasn't a monster.*
Minha garganta se fechou com uma força terrível. Sentir a validação daquelas palavras da boca deles, de pessoas que não tinham nada a ver com a guerra ou com a política de heróis, fez uma rachadura na represa que eu vinha tentando manter erguida.
— *She wasn't* — afirmei, a voz embargada enquanto uma lágrima solitária escorria pela minha bochecha. — *She made mistakes, but in the end... she jumped in front of a sniper bullet meant for my neck. She died in my arms.*
Maya cobriu a boca com as duas mãos, um soluço abafado escapando de seus lábios. Leo deu um passo à frente e pousou uma mão hesitante sobre o meu ombro, apertando-o de leve com um calor humano simples e genuíno, bem longe da minha nuca vulnerável.
— *It's not your fault, Anne* — disse ele com firmeza, os olhos marejados. — *You always carry everything alone. You run around the city trying to fix everything with lightning, but you're just fourteen. We miss you at school. We miss you making fun of the gym teacher.*
— *I miss it too* — sussurrei, sentindo o peso esmagador da disparidade entre a minha vida de adolescente e a realidade brutal do meu dever cósmico. — *More than you know.*
Ficamos conversando por mais meia hora. Eles me contaram as fofocas idiotas da academia, os boatos sobre os professores e como o time de atletismo havia perdido sem mim. Por alguns minutos preciosos, o quarto estéril não parecia uma cela de hospital vigiada por benders armados; parecia apenas uma tarde comum de primavera compartilhada com amigos.
Quando o horário de visitas terminou e Hopper sinalizou com a cabeça, Maya me deu um abraço desajeitado e cuidadoso, evitando encostar na parte de trás da minha cabeça.
— *Get better, okay?* — pediu ela, enxugando o rosto. — *The classroom is way too quiet without you.*
— *I will* — prometi, acenando fracamente enquanto eles se despediam e seguiam o oficial pelo corredor.
A porta se fechou novamente. O silêncio retornou, mas desta vez não parecia tão vazio. O aroma dos pãezinhos de canela ainda perfumava o ar, uma lembrança tangível de que ainda existia um mundo pelo qual valia a pena lutar — um mundo feito de amigos desajeitados, risadas idiotas e pessoas normais que não mereciam ser esmagadas pela tirania de Kuvira.
Hopper caminhou até a janela da suíte. A chuva lá fora havia cessado, dando lugar a uma névoa fria que cobria os arranha-céus da metrópole. As luzes da cidade começavam a se acender na penumbra do entardecer.
— *You have good friends, Miller* — comentou a veterana, as mãos apoiadas nas costas.
— *Yeah* — concordei, deslizando as pernas para fora da cama devagar.
A dor na nuca ainda estava lá, latente e perigosa, mas quando meus pés tocaram o chão frio, eu não cambaleei. Respirei fundo, mantendo a postura ereta apesar da queimação que subia pela minha coluna.
— *Mrs. Hopper?*
Ela se virou, arqueando uma sobrancelha grisalha ao me ver de pé.
— *What?*
— *Help me train* — pedi, a determinação finalmente rompendo a névoa de desespero que havia me dominado nos últimos dias. — *I can't wait for my neck to stop hurting. If Kuvira attacks again, I need to know how to fight even if someone grabs me there. I need to bypass the weakness.*
Hopper me encarou por um longo momento, examinando minha postura com um olhar avaliador que parecia pesar minha alma. Ela deu dois passos em minha direção, parando a um metro de distância.
— *Bypassing a nerve block isn't about ignoring the pain, Anne* — disse ela, a voz baixa e profunda. — *It's about grounding it. When an earthbender is thrown off balance, we don't try to fly. We sink deeper into the rock. If your lightning is failing because of your fear, it's because you're letting the fear stay in your head.*
Ela ergueu a mão enluvada, apontando para o meu peito.
— *Try to summon a spark. Right now.*
Fechei os olhos. Concentrei-me no formigamento habitual sob a minha pele, buscando o calor da estática que sempre estivera ao meu dispor. Mas no instante em que a energia começou a fluir, a lembrança do metal gelado apertando meu cangote invadiu meus pensamentos, e uma pontada de dor fez o fluxo se dissipar antes de chegar aos meus nós dos dedos. Apenas um fiapo de fumaça cinzenta escapou da minha palma.
Soltei um gemido de frustração, os ombros caindo.
— *I can't. The moment it flows through my spine, it short-circuits.*
— *Because you're trying to force it past the wound* — Hopper instruiu, aproximando-se e pousando uma mão firme e segura no meu ombro esquerdo, longe da nuca lesionada. — *Don't send the Chi up your neck. Route it through your core. Drop your center of gravity. Earth feeds fire, and fire gives birth to lightning. Anchor yourself in the ground first.*
Olhei para os meus pés descalços contra o linóleo. Flexionei ligeiramente os joelhos, imitando a postura básica de enraizamento da dobra de terra que vira Hopper executar tantas vezes. Senti a solidez da estrutura do hospital sob meus pés, o peso do concreto e das vigas de sustentação.
Pensei na minha mãe. Pensei na frieza do assassino segurando meu pescoço naquela noite terrível. Pensei em Kuvira debochando das minhas lágrimas sobre aquela mesa de ferro. E então, pensei em Ashley saltando na frente do projétil, nos olhos dela me dizendo que me amavam, e nos pãezinhos de canela deixados pelos meus amigos na mesa.
A fraqueza ainda existia. A dor na nuca ainda ardia como uma brasa viva cravada na carne. Mas eu não precisava fugir dela. Eu podia deixá-la ser o combustível.
Inspirei o ar gelado profundamente, canalizando a dor não como um bloqueio, mas como uma centelha.
Um estalo nítido e cortante rasgou o silêncio da sala.
Um arco perfeito de eletricidade azul-celeste serpenteou pelo meu antebraço direito, dançando entre os nós dos meus dedos com uma violência pura e controlada. O zumbido ozônio encheu o quarto, fazendo os cabelos da nuca de Hopper se arrepiarem levemente. A dor no meu pescoço ainda latejou, mas o raio não se apagou. Ele permaneceu vivo, crepitando sob o meu comando.
Fechei o punho, extinguindo a centelha com um estalo seco.
Hopper me encarou, e pela primeira vez desde que eu a conhecera aos onze anos, um esboço quase imperceptível de aprovação suavizou as linhas duras ao redor de seus lábios de pedra.
— *Not bad, kid* — disse ela, cruzando os braços. — *Keep practicing that root. You're going to need it sooner than you think.*
Antes que eu pudesse responder, o alarme de emergência da central de polícia soou no comunicador de Hopper com três bips estridentes e ininterruptos. A luz vermelha piscou no painel metálico do seu pulso, acompanhada pela voz entrecortada e urgente de um operador de rádio da delegacia central.
— *All units, priority red! We have a breach at the Northern Power Grid! Multiple hostiles identified... It’s Kuvira’s squad! The lavabender just melted through the main perimeter wall! They’re draining the city’s primary capacitors!*
O ar no quarto gelou instantaneamente.
Hopper travou a mandíbula, seus olhos cinzentos faiscando com a ferocidade de quem estava prestes a entrar em uma zona de guerra. Ela ajustou os braceletes de metal com um estalo violento.
— *They're trying to black out the entire province* — murmurou ela, girando sobre os calcanhares em direção à porta.
Dei um passo à frente, meu corpo se movendo antes mesmo que eu pudesse hesitar. A eletricidade residual zumbia sob a pele dos meus pulsos, as dores físicas eclipsadas por uma clareza cortante.
— *Mrs. Hopper, wait!* — chamei, a voz soando mais firme do que jamais soara desde o dia em que Ashley caiu. — *I'm coming with you.*
A chefe de polícia parou com a mão na maçaneta. Ela virou o rosto apenas o suficiente para me encarar de perfil, a expressão severa, mas seus olhos examinando a centelha azul que ainda dançava involuntariamente na ponta dos meus dedos indicadores.
— *You're still bleeding under those bandages, Miller* — disse ela, cortante.
— *Then give me a heavier collar and let's go* — rebati, sustentando seu olhar sem pestanejar. — *Ashley didn't die so I could hide behind a hospital door while her sister burns this city to the ground. You said it yourself: power without discipline is an excuse. Well, I have my discipline now.*
Hopper sustentou o meu olhar por três segundos intermináveis. O peso da decisão pairava entre nós como ferro fundido. Finalmente, ela soltou um suspiro áspero e empurrou a porta aberta com força, revelando os dois oficiais em posição de alerta máximo no corredor.
— *Sergeant!* — trovejou a chefe de polícia. — *Get a reinforced tactical neck brace from the armory and a standard field uniform. The Avatar is deploying.*
Uma corrente de adrenalina pura percorreu minhas veias, varrendo os resquícios da febre. A dor no meu cangote ainda lembrava o preço das cinzas que eu carregava, mas enquanto eu caminhava para fora daquele quarto estéril, o trovão adormecido dentro de mim finalmente despertou.