Avatar
O Retorno da Tempestade
O rangido das travas pneumáticas ressoou no compartimento traseiro do blindado tático da polícia, abafando por breves instantes o barulho ensurdecedor da chuva torrencial que voltava a fustigar a lataria. O uniforme de combate que me entregaram era justo, feito de polímeros reforçados com fibra de carbono e isolamento elétrico nas costuras. Mas o que realmente alterava o eixo do meu mundo era a peça ajustada ao meu pescoço.
A gola tática, forjada em titânio temperado e revestida internamente com gel balístico antichoque, envolvia meu cangote como uma carcaça impenetrável. Três travas magnéticas haviam sido seladas pela própria Sra. Hopper antes de embarcarmos. A pressão contínua e firme contra a base do meu crânio era estranha, evocando fantasmas que faziam meu estômago embrulhar a cada solavanco do veículo sobre os paralelepípedos. No entanto, por baixo do pavor instintivo, havia uma solidez inédita: nenhuma mão humana ou lâmina dobrada poderia alcançar minha carne diretamente ali.
Ao meu lado, sentada com a coluna reta e os braços apoiados sobre o joelho blindado, Hopper verificava o carregador de cabos de metal reforçado do seu disparador de pulso. Quatro policiais da tropa de elite da divisão de dobra de metal mantinham as cabeças baixas, concentrando a energia terrena no assoalho reforçado do veículo para absorver o impacto da aceleração.
— *How does the collar feel, Miller?* — perguntou Hopper sem desviar os olhos do próprio equipamento, sua voz cortando o ronco do motor turbodiesel.
Engoli a saliva seca, sentindo o plástico rígido e o titânio roçarem sob minha mandíbula.
— *Heavy* — admiti, apertando os punhos sobre as coxas para conter o tremor das pontas dos dedos. — *It feels like Kuvira's grip is still there. Like a ghost holding me.*
Hopper ergueu os olhos cinzentos e me encarou com a severidade costumeira, mas sem a frieza de outrora.
— *Good. Let it feel heavy. That weight isn't a reminder of your weakness, Anne. It's armor built on top of your survival. When we hit that perimeter, you don't fight to prove anything to me, or to your uncles, or to the journalists outside that hospital. You fight to breathe.*
— *And for Ashley* — acrescentei em um sussurro firme.
A veterana assentiu uma única vez, um movimento curto e solene.
— *For Ashley.*
Um estrondo abafado reverberou do lado de fora, sacudindo a suspensão do blindado com uma violência brutal. As luzes vermelhas do teto da viatura piscaram, e o rádio do painel cuspiu estática acompanhada por gritos caóticos de socorro.
— *Chief! The substation's eastern sector just collapsed!* — a voz do piloto veio pelo intercomunicador. — *The lavabender is liquifying the foundation of the central cooling towers, and the combustion bender is pinning down our containment teams from the main catwalk! We're thirty seconds out!*
— *Breach on my mark!* — ordenou Hopper, levantando-se e firmando os pés de metal no piso. Ela virou-se para a tropa e depois para mim. — *Standard suppression protocol. My unit takes the ground forces and isolates the lava. Anne, you use your speed to break the firing line of the combustion specialist. Do not engage Kuvira alone. Did you hear me?*
— *Loud and clear* — respondi, puxando o ar gelado para dentro dos pulmões.
O veículo derrapou lateralmente e parou com um impacto seco. As portas traseiras foram escancaradas por uma explosão de ar quente e fumaça alaranjada.
O cenário na Usina de Energia Norte parecia o próprio inferno descendo sobre a terra. O céu noturno estava tingido por labaredas ardentes e faíscas que estouravam de cabos de alta tensão rompidos, pendurados como serpentes agonizantes a trinta metros de altura. No centro do pátio, um rio de magma viscoso e borbulhante consumia os transformadores elétricos, vomitando ondas de calor sufocante que derretiam o asfalto.
Gritos de guardas civis e clarões de luz iluminavam as silhuetas inimigas. No alto de uma das passarelas metálicas suspensas, a mulher alta com a tatuagem do terceiro olho brilhando em brasa pura canalizava sua energia.
O ar zuniu com um sibilo estridente. Uma onda de choque invisível cortou a névoa, culminando em uma detonação massiva que arremessou uma viatura da polícia pelos ares como se fosse feita de papelão.
— *Move!* — berrou Hopper.
Ela saltou do compartimento já socando o chão com as duas manoplas de aço. Duas muralhas monumentais de concreto e granito brotaram do asfalto rachado, erguendo-se em ângulo oblíquo para desviar os estilhaços em chamas da viatura destruída. Os quatro oficiais avançaram em formação cerrada, lançando cabos flexíveis de metal contra as comportas laterais para desviar o fluxo de lava antes que este engolisse os geradores secundários.
Fiquei de pé sobre os escombros, o vento quente fustigando as abas do meu casaco tático. Abaixei meu centro de gravidade, exatamente como Hopper me ensinara horas antes. Enraizei os pés no solo quebrado, sentindo a vibração do concreto através das solas reforçadas das minhas botas.
*Earth feeds fire. Fire gives birth to lightning.*
O medo da dor na nuca tentou me puxar de volta para o abismo escuro da paralisia, mas a rigidez do colar de titânio bloqueou o reflexo involuntário. A dor estava ali, pulsando sob a gaze, mas ela não era mais dona do meu corpo.
Um estalo ensurdecedor partiu da minha caixa torácica.
Arco voltaico azul-cobalto irrompeu dos meus cotovelos, envolvendo minhas pernas em um vórtice de velocidade relâmpago. Quando impulsionei o corpo para a frente, o mundo ao redor desacelerou até virar uma pintura borrada de tons cinzentos e laranjas. As gotas de chuva pareciam flutuar estáticas no ar; os detritos metálicos giravam em câmera lenta.
Cortei o pátio em menos de meio segundo, deixando um rastro de ozônio crepitante por onde meus pés tocavam o asfalto. Subi correndo pela viga de sustentação perpendicular da passarela, desafiando a gravidade através do momentum cinético puro.
No topo da plataforma, a dominadora de combustão preparava outro feixe mortal, mirando diretamente na retaguarda da tropa de Hopper.
— *Hey, third-eye!* — gritei, desacelerando abruptamente a três metros dela.
A mulher girou nos calcanhares com uma careta de desdém, o símbolo em sua testa já faiscando com luz carmesim incandescente. Antes que o feixe pudesse se formar por completo, fechei a mão direita em formato de goteira e disparei um chicote elétrico de baixa voltagem, mas com alta frequência de choque.
O raio azul colidiu com o ponto central de sua testa com a precisão de um dardo cirúrgico. A interferência na circulação do Chi foi imediata: o feixe de combustão falhou em sua garganta, transformando-se em uma pequena explosão abafada que a jogou violentamente para trás contra a grade de ferro da passarela, desprovida de ar e desacordada.
Recuperei o fôlego, o gosto metálico de sangue e ozônio preenchendo minha boca. Olhei para baixo; Hopper havia conseguido erguer uma barreira circular de pedra para conter o magma, prendendo a dominadora de lava em um calabouço improvisado de rocha resfriada. A polícia estava virando o jogo no pátio inferior.
Foi então que o ar acima de mim tornou-se pesado demais para ser respirado.
Uma força invisível esmagou meus ombros contra o piso gradeado da passarela. O ferro rangeu sob meus joelhos quando fui forçada para baixo por uma gravidade artificialmente quadruplicada. Meus dentes se cravaram no lábio inferior até sangrar.
Passos ritmados e metálicos ecoaram pela estrutura metálica logo atrás de mim.
— *You're like a cockroach, Miller* — a voz fria e inconfundível soou por cima do ruído dos geradores danificados. — *No matter how hard I press you against the floor, you keep crawling back to die.*
Kuvira emergiu da penumbra da fumaça, descendo de uma plataforma suspensa com auxílio do dominador de ar de sua equipe, que a depositou suavemente sobre a passarela antes de subir novamente para o céu enevoado.
Ao lado dela, a mulher de braços cruzados que manipulava o campo gravitacional mantinha a mão estendida em minha direção, sustentando a pressão esmagadora sobre meu esqueleto.
Tentei levantar a cabeça, mas o peso sobre minhas costas era como carregar uma montanha de chumbo. O colar em volta do meu pescoço rangia sob a tensão estrutural.
— *Where is your speed now, Avatar?* — zombou Kuvira, aproximando-se com passos deliberados, suas manoplas de aço brilhando sob o clarão intermitente dos postes da usina. — *You hid behind my sister's body, and now you hide behind a collar of metal. Do you really think a piece of iron can save you from me? I bend the very ground your little shield is made of.*
Ela estendeu dois dedos elegantes em direção ao meu pescoço.
O metal temperado da minha gola tática reagiu à dobra de Kuvira. As placas de titânio começaram a ranger, vibrando com intensidade crescente enquanto ela tentava deformar a liga para esmagar minha coluna por dentro da armadura.
A dor fantasma disparou por todo o meu sistema nervoso. A vertigem nauseante lambeu as bordas da minha mente, o pânico primitivo sussurrando que eu voltaria a ser aquela menininha indefesa jogada no chão da cozinha enquanto o assassino tirava a vida da minha mãe.
*“Don't send the Chi up your neck,”* a voz de Hopper ecoou na minha memória com a firmeza de um penhasco inabalável. *“Route it through your core. Drop your center of gravity.”*
Fechei os olhos com força, ignorando o zumbido nos ouvidos e o aperto invisível que tentava dobrar o metal contra minha nuca.
Não. Eu não era aquela garotinha assustada de onze anos presa na sala de interrogatório, e não era a refém amarrada na mesa cirúrgica implorando por misericórdia. Ashley havia se jogado na frente de um fuzil para que eu pudesse respirar. Ela havia escolhido que a minha vida continuasse.
— *You talk too much, Kuvira* — cuspi as palavras com o resto de força em meus pulmões.
Em vez de lutar para erguer a cabeça, desabei o peso do meu tronco propositalmente contra a grade da passarela. Deixei que a gravidade artificial aumentasse meu contato com a massa metálica de toda a usina. Conectei-me à vasta teia de ferro e cobre que alimentava metade da metrópole.
O chão sob mim era um condutor perfeito.
— *Anne, what are you—*
Kuvira não teve tempo de terminar a frase.
Canalizei a energia primordial do Avatar não pela minha respiração ou pelos meus membros superiores, mas direto pelo abdômen, disparando uma torrente colossal de eletricidade diretamente para as entranhas da passarela de ferro.
Um clarão branco e ofuscante rasgou a escuridão da noite.
Centenas de milhares de volts fluíram pela malha estrutural de aço. A manipuladora de gravidade, descalça sobre o metal, recebeu o retorno elétrico instantâneo: um choque brutal de alta intensidade atravessou seus tornozelos e a arremessou por cima da amurada da passarela, desfazendo o campo compressivo no mesmo milésimo de segundo.
O peso desapareceu das minhas costas.
Ergui-me como uma mola esticada, a velocidade relâmpago queimando em minhas veias com uma fúria incandescente. Desviei do golpe de metal que Kuvira tentou desferir com um reflexo cego, girando o corpo no ar e caindo agachada a dois passos de distância da mulher mais velha.
O colar em meu pescoço estava amassado de um dos lados, mas a trava de titânio sustentara a estrutura. A dor ainda queimava sob as bandagens, mas agora ela era apenas um motor a mais alimentando minha determinação.
Kuvira recuou um passo, a surpresa trincando pela primeira vez a máscara de pedra em suas feições aristocraticamente afiadas.
— *You survived that?* — ela sussurrou, a postura rígida assumindo a guarda ofensiva clássica da dobra de metal.
— *Ashley didn't die for me to break under your parlor tricks* — respondi, minha voz ecoando grave, amplificada pela estática que agora cobria meus ombros e faiscava em meus olhos. — *You told me her blood was on my hands. But you were the one who aimed the weapon at this city, Kuvira. You used your own family as ammunition.*
— *She was weak!* — sibilou Kuvira, perdendo o controle frio que a definia e avançando com lâminas afiadas de metal que se desprenderam de suas braçadeiras, voando como projéteis mortais contra o meu peito. — *And weakness must be pruned!*
Não recuei. Em vez de usar a velocidade para fugir do alcance das lâminas, avancei diretamente em sua trajetória.
Girei os braços em arcos fluidos, combinando os princípios da dobra de fogo com a solidez da postura da terra. Meus dedos defletiram as lâminas metálicas no ar com descargas elétricas concentradas, desviando-as milimetricamente do meu corpo em explosões sonoras de faíscas azuis. Cada golpe repelido me aproximava da mulher que havia destruído os últimos resquícios da minha infância.
A um passo de distância, Kuvira tentou erguer o punho para desferir um soco direto contra a lateral da minha cabeça, mas eu já havia previsto o movimento.
Abaixei sob o braço estendido dela, dei um giro de calcanhar e plantei as duas mãos abertas diretamente no peitoral de sua armadura.
Não convoquei uma rajada letal para perfurar seus órgãos. Lembrei-me dos olhos aterrorizados dela nas docas semanas atrás; lembrei-me de como o ciclo de violência quase me transformara naquilo que eu mais temia. Em vez de uma lâmina de raio, descarreguei uma onda de choque dispersiva e maciça, do tamanho de um estrondo sônico gerado por um relâmpago que colide contra o topo de um arranha-céu.
A explosão cinética arrancou Kuvira do piso de aço. Ela foi lançada horizontalmente por mais de quinze metros, colidindo com estrépito violento contra o cilindro reforçado do capacitor principal da usina. As placas de aço de sua couraça se soltaram e caíram tilintando no chão molhado enquanto ela desabava sobre um dos joelhos, tossindo sangue e arfando com os olhos desprovidos de qualquer traço de superioridade.
Antes que ela pudesse tentar se reerguer, o som característico de metal dobrado soou atrás dela.
Cabos pesados de aço cru dispararam das sombras abaixo da passarela, serpenteando como cobras vivas para prender os pulsos, os tornozelos e o torso de Kuvira contra a parede metálica do reservatório.
Olhei para a beirada da plataforma.
A Sra. Hopper acabava de subir os degraus de emergência, os nós dos dedos manchados de fuligem e fulgor de concreto moído, a respiração pesada, mas o olhar firme como sempre fora. Com um movimento ríspido dos pulsos, ela soldou os cabos no metal da usina, selando Kuvira em uma jaula impenetrável.
O dominador de ar inimigo, percebendo a derrota incontestável da líder e a contenção da dominadora de lava no pátio inferior, cortou as correntes térmicas e fugiu em direção à névoa densa do horizonte, abandonando os cúmplices à própria sorte.
O silêncio finalmente começou a engolir a Usina Norte, quebrado apenas pelo gotejar contínuo da chuva sobre os destroços em chamas e pelo zumbido distante dos transformadores secundários, que voltavam a pulsar de forma estável. As luzes da cidade ao longe, que haviam tremeluzido à beira de um blecaute total, estabilizaram-se em uma constelação dourada sob a névoa noturna.
A adrenalina que sustentara meu corpo começou a esvair-se com a mesma velocidade com que havia chegado. Minhas pernas vacilaram, e precisei me apoiar na amurada da passarela para não ir ao chão. A dor no meu cangote retornou em uma onda lancinante e ardida, lembrando-me do preço biológico que meu organismo acabara de pagar.
Kuvira ergueu o rosto machucado contra as amarras de aço, os cabelos negros desgrenhados e colados à testa molhada. Seus olhos fitavam minha figura trêmula, mas firme, com uma mistura amarga de rancor e incredulidade.
— *You should have killed me when you had the chance, Miller* — sibilou ela, cuspindo um traço de sangue no chão gradeado. — *I am not going to stop.*
Caminhei com lentidão até parar a um metro da prisioneira, sustentando seu olhar ferino com uma tranquilidade que não sentia há muito tempo.
— *You're not going anywhere, Kuvira* — respondi, minha voz rouca, mas despida de qualquer tremor de medo. — *Ashley was worth ten of you. And she didn't die so I could become like you.*
Hopper parou ao meu lado, colocando uma das mãos pesadas sobre meu ombro direito. Desta vez, não houve repreensão, nem cobranças militares sobre protocolos quebrados. Ela apenas me manteve ereta com seu apoio sólido.
— *Units are securing the perimeter* — disse a chefe de polícia para o rádio em seu ombro antes de voltar a atenção para mim. — *You held the line, Anne.*
Olhei para as minhas mãos cobertas de fuligem e pequenos cortes superficiais. Uma faísca azul diminuta e tranquila pulava entre meu polegar e meu indicador, sem queimar, sem doer, apenas existindo em perfeito equilíbrio com a minha respiração.
— *I had to, Mrs. Hopper* — sussurrei, erguendo o rosto para a garoa fria que limpava a cinza das minhas bochechas. — *Someone has to protect this city.*
Hopper soltou um suspiro quase inaudível, e pela primeira vez desde o dia em que me arrastara algemada para aquela sala de interrogatório cinzenta aos onze anos, seus lábios se curvaram em um meio sorriso discreto e genuíno.
— *Come on, kid* — disse ela, gesticulando com a cabeça em direção à escada de emergência enquanto as sirenes do comboio principal de resgate ecoavam pela avenida lá embaixo. — *Let's get that neck bandaged properly. You have a long way to go, and tomorrow you're finally going to attend your classes.*
Soltei uma risada fraca que logo se transformou em uma careta de dor, mas acompanhei seus passos firmes pelo concreto. As cinzas do passado ainda pesavam sobre meus ombros, e a saudade de Ashley jamais deixaria de arder em meu peito, mas enquanto descíamos em direção às luzes da cidade protegida, eu sabia que a garota quebrada pelo medo havia ficado para trás.
O Avatar finalmente havia encontrado suas raízes sob a tempestade.