Avatar
Sombras e Grades de Platina
O som dos pneus do camburão contra o asfalto irregular da periferia da Cidade da República era como uma contagem regressiva para o meu fim. Eu estava sentada no banco de metal, as mãos presas por algemas de platina — o único material que eu ainda não conseguia dobrar. Beifong não estava correndo riscos desta vez.
O "Centro de Reabilitação para Jovens Dobradores", ou como eu preferia chamar, "O Depósito de Adolescentes Incômodos", ficava em uma ilha isolada, cercada por águas geladas e correntes fortíssimas. Assim que as portas se abriram, o ar úmido da baía atingiu meu rosto.
— *Welcome to your new home, Avatar. Try not to break anything in the first five minutes* — disse um guarda robusto, me empurrando levemente para fora.
Eu olhei para ele com o meu melhor sorriso de deboche, apesar do cansaço.
— *Oh, don't worry, big guy. I’m a fast learner. I’ll probably break everything in three* — retruquei, piscando para ele.
A recepção foi um desfile de burocracia e olhares feios. A diretora do lugar, uma mulher chamada Sra. Halloway, tinha um coque tão apertado que eu tinha certeza de que era isso que a impedia de sorrir. Ela começou a ler as regras, mas eu não conseguia ficar quieta.
— *Is the food here as bad as your haircut, or do I get a personal chef since I'm the Avatar?* — perguntei, interrompendo o discurso dela sobre "disciplina e harmonia".
— *Silence, Miller!* — gritou Halloway, batendo com a mão na mesa. — *You are here to reflect on your actions, not to be a nuisance.*
— *Reflecting is hard when the decor is this depressing* — continuei, balançando as pernas na cadeira. — *By the way, do you have a gym? I need to practice my moves. Metalbending in a cell sounds like a great way to redecorate.*
Passei as próximas três horas na triagem sendo o pesadelo de qualquer funcionário. Eu narrava cada passo deles. "Oh, veja como ele carimba esse papel com autoridade!", "Nossa, esse uniforme realmente não favorece suas curvas, senhor guarda". No momento em que me jogaram na cela, os guardas pareciam estar prestes a ter um colapso nervoso.
— *Just shut up for five minutes!* — implorou um deles antes de trancar a grade.
— *Five minutes? That’s a lot to ask for a girl with so much to say!* — gritei de volta, rindo enquanto ouvia os passos dele se afastarem apressados.
Mas, assim que o silêncio se instalou, a diversão acabou. Eu pensei no Leo, na Maya (Amiga 1), no Kai (Amigo 4), na Sophie (Amiga 3) e na Chloe (Amiga 5). Eles deviam estar apavorados. Eles eram apenas adolescentes ricos em busca de adrenalina; eu era a Avatar. A responsabilidade de tê-los colocado naquela situação pesava mais que as algemas de platina.
Eu precisava sair. E precisava ser rápido.
Estudei a cela. As paredes eram de pedra densa, mas o teto tinha uma pequena grade de ventilação... de aço comum. Beifong tinha cometido um erro: ela achou que as algemas de platina seriam o suficiente para me conter, mas esqueceu que eu podia usar meus pés para dobrar a terra ou o metal ao meu redor se eu tivesse ângulo.
Deitei no chão, fingindo dormir, e esperei a troca de turno. Quando o corredor ficou silencioso, usei uma técnica de dobra de ar para amortecer meus movimentos. Com um chute preciso, direcionei uma vibração de terra para a fechadura da grade no teto. O metal rangeu.
— *Easy peasy* — sussurrei.
Consegui me impulsionar, usando a dobra de ar para flutuar o suficiente até alcançar a abertura. O metal da ventilação cedeu como manteiga sob minha vontade. Eu me arrastei pelos dutos, o cheiro de poeira e óleo lubrificante enchendo meus pulmões. Era apertado, mas minha agilidade nos esportes finalmente serviu para algo útil além de fugir da escola.
Depois de uns vinte minutos de rastejamento, saí em um pátio externo, perto das docas de carga. O vento soprava forte. Eu ainda estava com as algemas de platina, o que dificultava o equilíbrio, mas eu podia correr. E eu corria como se o próprio Espírito das Trevas estivesse atrás de mim.
Roubei um pequeno barco motorizado que estava atracado para suprimentos. Fiz uma ligação direta usando uma pequena centelha de eletricidade da ponta dos meus dedos — uma das vantagens de ser um prodígio multitarefa.
— *Bye bye, prison life! Tell Beifong I missed her!* — gritei para o nada enquanto o motor roncava e eu acelerava em direção às luzes da Cidade da República.
A travessia foi tensa. A água batia no casco e eu temia que a guarda costeira aparecesse a qualquer momento. Mas, conforme eu me aproximava dos distritos industriais da periferia, comecei a relaxar. Eu ia encontrar o Leo e os outros no nosso esconderijo habitual, uma antiga fábrica de macarrão abandonada.
Atracarei o barco em um píer caindo aos pedaços e pulei para a terra firme. A cidade parecia diferente àquela hora da madrugada. Mais sombria. Mais vazia.
Eu estava caminhando por um beco estreito, tentando decidir como me livrar das algemas de platina sem as ferramentas certas, quando o ar ao meu redor ficou subitamente pesado. A temperatura caiu drasticamente.
— *Finally. We’ve been waiting for a spark like you* — uma voz distorcida e profunda ecoou pelas paredes de tijolos.
Eu parei bruscamente.
— *Who’s there? If you’re from the police, I already gave at the office!* — tentei manter o tom sarcástico, mas meu instinto de Avatar estava gritando "perigo".
Das sombras, quatro figuras emergiram. Eles não usavam uniformes de polícia. Vestiam mantos cinza-escuros e máscaras que lembravam crânios de animais antigos. O líder, um homem alto cuja mera presença parecia sugar a luz ao redor, deu um passo à frente.
— *The Avatar is a child playing with fire* — disse ele. — *Literally.*
— *And you’re a bunch of cosplayers in a dark alley* — respondi, assumindo uma posição de luta, mesmo com as mãos presas. — *What do you want?*
— *We want the cycle to end, Anne Miller. But first, we need your light to feed our dark.*
Antes que eu pudesse reagir, o chão sob meus pés se transformou em lama líquida. Tentei usar a dobra de ar para saltar, mas uma rajada de vento contrária, muito mais poderosa do que qualquer coisa que eu já tivesse enfrentado, me empurrou de volta.
— *What the...?* — exclamei, tossindo.
Eles eram dobradores. Mas não eram comuns. A maneira como moviam os elementos era fluida, cruel e precisa. Uma mulher entre eles moveu os braços e chicotes de água fervente envolveram meus braços algemados. A dor foi aguda, me fazendo perder a concentração.
Eu tentei disparar eletricidade, mas o líder simplesmente estendeu a mão e "engoliu" o raio, redirecionando-o para o chão ao meu lado com uma facilidade aterrorizante.
— *Is that all?* — zombou ele.
Eu estava em desvantagem. Algemada, cansada da fuga e enfrentando adversários que pareciam conhecer meus movimentos antes mesmo de eu executá-los. Tentei criar uma barreira de terra, mas um dos mascarados chutou o ar e uma onda de choque invisível estilhaçou minha defesa.
— *Leo! Maya!* — gritei, embora soubesse que eles não podiam me ouvir.
A mulher da dobra de água avançou, seus olhos brilhando através da máscara. Ela fez um movimento circular e o vapor ao meu redor se condensou em gelo instantâneo, prendendo minhas pernas e me fixando ao chão.
— *You’re coming with us, little spark* — disse o líder, aproximando-se.
Eu lutei, forcei as algemas de platina até meus pulsos sangrarem, tentei entrar no Estado Avatar, mas o medo e o bloqueio mental daquelas correntes de platina me impediam de acessar o poder cósmico. Era como se houvesse uma parede entre mim e Raava.
O líder tocou minha testa com dois dedos. Senti uma descarga de energia fria percorrer minha espinha, e minha visão começou a escurecer.
— *Sweet dreams, Avatar* — foi a última coisa que ouvi.
Quando meus olhos se fecharam, a última imagem que tive foi a das luzes da Cidade da República brilhando ao longe, tão perto e, ao mesmo tempo, em um mundo que eu não sabia se veria novamente. Eu não estava mais nas mãos da lei. Eu estava nas mãos de algo muito pior. E, desta vez, não haveria advogados, tios ricos ou fugas por dutos de ventilação para me salvar.
O equilíbrio do mundo acabara de ser sequestrado. E eu era apenas uma garota de quatorze anos, presa na escuridão.