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Avatar

Sombras e Grades de Platina

O som dos pneus do camburão contra o asfalto irregular da periferia da Cidade da República era como uma contagem regressiva para o meu fim. Eu estava sentada no banco de metal, as mãos presas por algemas de platina — o único material que eu ainda não conseguia dobrar. Beifong não estava correndo riscos desta vez. Ela sabia que aço comum para mim era como papel crepom.

A viagem até a delegacia central foi um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo meu próprio suspiro de tédio. Eu olhava pela pequena fresta reforçada da porta, vendo as luzes de neon da cidade passarem como borrões. Eu pensava no Leo, na Maya e no resto da turma. Eles tinham escapado, pelo menos isso. Mas eu? Eu estava frita.

Quando o camburão parou, a porta foi aberta com um estrondo. Dois oficiais de dobra de metal me escoltaram para dentro do imenso edifício de pedra e aço. E lá estava ela, no centro do saguão, com os braços cruzados sobre a armadura polida e uma expressão que poderia coalhar leite.

— Mãos para trás, Miller — ordenou a Chefe Beifong, embora minhas mãos já estivessem presas. — Você tem um talento especial para arruinar a minha noite.

— Ora, Chefe, admita que você sentiu saudades — respondi, forçando um sorriso convencido enquanto caminhava entre os guardas. — A delegacia fica tão vazia sem a minha presença iluminada.

— A delegacia fica eficiente sem você — retrucou ela, fazendo um sinal para que me levassem direto para a sala de interrogatório. — Desta vez, seus tios estão em uma conferência em Ba Sing Se. Eles não vão atender o telefone até amanhã de manhã.

Senti um frio na barriga. Sem meus tios para pagarem a fiança imediata, eu teria que passar a noite ali. E passar a noite na mira de Lin Beifong era o meu pior pesadelo.

A sala de interrogatório era exatamente como eu me lembrava: uma mesa de metal aparafusada ao chão, uma lâmpada pendurada que oscilava levemente e o cheiro de café velho e suor. Fui empurrada para a cadeira.

— Fique confortável — disse Beifong, sentando-se à minha frente. — Porque você não vai a lugar nenhum até me contar quem deu a ideia de invadir as Indústrias Futuro.

— Foi uma decisão coletiva, inspirada pelo espírito de exploração urbana — menti descaradamente. — Somos jovens, Chefe. Curiosos. O Avatar precisa conhecer a história industrial do seu povo, não acha?

Beifong inclinou-se para a frente, as cicatrizes em seu rosto parecendo mais profundas sob a luz amarelada.

— O Avatar precisa aprender que não está acima da lei. Você quebrou três janelas de vitrine no seu primeiro dia aqui. Hoje, você invadiu uma instalação federal e quase eletrocutou dois dos meus homens.

— Eles que entraram no caminho do meu raio! — protestei, balançando as algemas. — E aquelas vitrines? O ladrão teria fugido se eu não tivesse usado um pouco de... entusiasmo.

— Você é um desastre ambulante, Anne.

Ficamos em silêncio por um longo tempo. Eu tentava manter a postura rebelde, mas a verdade é que o peso de ser o Avatar começava a me esmagar. Eu não queria templos, não queria meditação, eu só queria correr com meus amigos.

— Escute — disse Beifong, seu tom suavizando apenas um milímetro —, eu conheci muitos Avatares através das histórias da minha mãe e do convívio com o Aang. Todos eles tinham um peso nos ombros. Mas você... você parece estar correndo para longe desse peso com tanta força que está atropelando todo mundo no caminho.

— Eu não pedi para ser o Avatar — sussurrei, desviando o olhar para a parede de metal.

— Ninguém pede. Mas você é. E enquanto estiver na minha cidade, você vai seguir as minhas regras ou vai acabar em um lugar muito pior que esta sala.

Ela se levantou e caminhou até a porta.

— Vou deixar você aqui para esfriar a cabeça. Os guardas vão trazer água. Não tente dobrar a fechadura, Miller. É platina pura. Eu aprendi a lição da última vez.

A porta se fechou com um clique metálico final. Eu estava sozinha.

O tempo passou devagar. Eu tentei me distrair contando os parafusos na mesa, depois tentei fazer pequenas faíscas entre meus dedos, mas a platina nas minhas mãos parecia sugar minha energia, deixando-me letárgica. Eu estava quase cochilando quando ouvi algo.

Não era o som de passos de guardas. Era um som metálico, como se algo estivesse sendo cortado com um maçarico silencioso. O teto da sala de interrogatório, feito de placas de aço reforçado, começou a brilhar em um tom alaranjado.

— Mas o quê...? — comecei a dizer, levantando-me da cadeira.

De repente, um pedaço circular do teto desabou, caindo pesadamente sobre a mesa de metal. Poeira e faíscas encheram a sala. Três figuras vestidas com trajes pretos táticos e máscaras que cobriam todo o rosto desceram por cabos de aço.

— Mas que recepção é essa? — perguntei, recuando até a parede. — Se vieram me tirar daqui, o Leo caprichou no orçamento!

As figuras não responderam. Um deles, um homem alto com ombros largos, fez um movimento rápido com as mãos. Ele não era um dobrador de metal comum. O movimento dele era fluido, quase como se estivesse dançando.

— Anne Miller — disse uma voz distorcida por um modulador. — O mundo não precisa de um Avatar rebelde. O mundo precisa de ordem.

— Ordem? Eu prefiro o caos, obrigada — respondi, tentando concentrar eletricidade nas pontas dos dedos, mas as algemas de platina bloquearam o fluxo. — Quem são vocês? Ladrões de museu?

— Somos o fim da sua liberdade — respondeu a figura central.

Antes que eu pudesse gritar por Beifong, um deles lançou uma esfera metálica no chão. Ela explodiu em uma nuvem de gás denso e arroxeado. Eu tossi, sentindo meus pulmões queimarem. Tentei dobrar o ar para afastar o gás, mas minha cabeça começou a girar. O mundo ficou instável.

Ouvi o som da porta da sala sendo arrombada.

— Miller! O que está acontecendo aí dentro? — Era a voz de Beifong.

Ouvi sons de luta, o retinir de metal contra metal e o impacto de dobras de terra. Mas eu não conseguia ver nada. O gás era forte demais. Senti mãos fortes agarrarem meus braços.

— Soltem ela! — gritou Beifong, e ouvi o som característico de seus cabos de metal sendo lançados.

— Tarde demais, Chefe — disse o homem mascarado.

Senti um puxão violento para cima. Eu estava sendo içada pelo buraco no teto. Minha visão estava escurecendo, mas vi, por um breve segundo, Lin Beifong no chão, lutando contra outros dois invasores enquanto tentava alcançar meu pé.

— Anne! — ela gritou, sua voz cheia de uma urgência que eu nunca tinha ouvido antes.

Então, o ar frio da noite atingiu meu rosto. Estávamos no telhado da delegacia. Um planador motorizado, silencioso e escuro como um morcego, estava pairando sobre o prédio.

Fui jogada para dentro da cabine da aeronave. Tentei lutar, tentei chutar, mas meus membros pareciam feitos de chumbo. O homem mascarado se inclinou sobre mim e aplicou um ponto de pressão no meu pescoço.

— Durma, Avatar. Quando acordar, a Cidade da República será apenas uma lembrança.

A última coisa que vi antes do apagão total foram as luzes da estátua do Avatar Aang, lá no meio da baía, ficando cada vez menores enquanto o planador ganhava altitude e desaparecia nas nuvens.

Eu tinha me metido em muitas encrencas na vida. Tinha quebrado janelas, fugido da escola e desafiado a maior autoridade policial da cidade. Mas, enquanto a consciência me abandonava, eu sabia de uma coisa: desta vez, eu não ia sair dali com um cheque dos meus tios.

Eu tinha sido capturada. E o pior? Eu não tinha a menor ideia de por quem.

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