Avatar
Vibrações no Escuro
O despertar não foi como as manhãs na mansão dos meus tios, com o sol batendo nos lençóis de seda e o cheiro de torradas vindo da cozinha. Foi frio, úmido e acompanhado por uma dor de cabeça que parecia um bando de bisões-voadores marchando dentro do meu crânio. Tentei levar a mão à testa, mas o som metálico e o puxão seco nos meus pulsos me trouxeram de volta à realidade.
As algemas de platina ainda estavam lá. E eu não estava mais no planador.
Abri os olhos devagar. O lugar era escuro, iluminado apenas por lâmpadas de descarga de gás que emitiam um brilho esverdeado doentio. As paredes não eram de pedra ou metal comum; pareciam ser feitas de uma liga fundida, lisa e fria, que não respondia ao meu chamado sensorial. Eu estava sentada em uma cadeira metálica no centro de uma sala circular.
— Ótimo, você acordou — disse uma voz vinda das sombras. — O sedativo foi um pouco forte, mas você é resistente. O metabolismo de um Avatar é fascinante.
Forcei a visão e vi o homem mascarado de antes. Ele tinha tirado a máscara. Era mais velho do que eu imaginava, com cabelos grisalhos cortados rente e olhos que pareciam duas pedras de ônix polidas. Ele não parecia um vilão de desenho animado; parecia um professor de história muito severo e perigoso.
— Onde eu estou? E quem é você para me tirar do meu interrogatório perfeitamente confortável com a Beifong? — Tentei manter o tom sarcástico, mas minha voz saiu rouca.
O homem deu um passo à frente, entrando no círculo de luz.
— Meu nome é Kaelen. E você está em um lugar onde o ruído da Cidade da República não pode nos alcançar. Quanto ao "quem", somos aqueles que acreditam que o ciclo do Avatar se tornou um erro evolutivo. Um desequilíbrio fantasiado de ordem.
— Ah, entendi. O discurso do "vilão filosófico" — eu disse, tentando discretamente sentir qualquer impureza no metal da cadeira. Nada. Platina pura. — Olha, Kaelen, se você quer acabar com o ciclo, veio ao lugar errado. Eu mal consigo dobrar meus lençóis de manhã, imagine o destino do mundo.
Kaelen sorriu, um gesto sem nenhuma diversão.
— Sua modéstia é irritante, Anne Miller. Vimos você no depósito das Indústrias Futuro. A forma como você conduz a eletricidade, a fluidez da sua dobra de metal... você tem um dom bruto que a Lótus Branca levaria décadas para polir. O problema é que você usa esse poder para brincar de ladra e polícia.
— É um hobby divertido — retruquei. — E agora? Vai me pedir um resgate? Meus tios são ricos, mas acho que eles prefeririam gastar o dinheiro em um iate novo do que em uma sobrinha que vive na delegacia.
— Não queremos dinheiro — disse Kaelen, aproximando-se e inclinando-se sobre mim. — Queremos a Centelha. A essência que Raava mantém escondida em você. Se não podemos ter um Avatar que traga a verdadeira ordem, teremos um mundo sem Avatar.
Ele fez um sinal e outros dois mascarados apareceram, carregando um dispositivo que parecia uma mistura de bobina elétrica com instrumentos de tortura médica. Meu coração disparou. Eu precisava sair dali. Agora.
— Sabe, Kaelen — comecei, respirando fundo e tentando canalizar a pouca energia que me restava —, vocês cometeram um erro básico.
— E qual seria? — perguntou ele, ajustando os eletrodos do dispositivo.
— Vocês me deixaram falar demais. E quando eu falo, eu geralmente estou distraindo alguém.
Usei cada grama de força de vontade para ignorar a platina nos meus pulsos e me concentrar no chão. Não havia terra ali, mas havia tubulações de água passando por baixo da estrutura. Eu podia sentir a vibração. Com um grito de esforço, bati os pés no chão, não para dobrar o metal, mas para criar uma onda de choque de ar que me impulsionou para trás, cadeira e tudo.
A cadeira tombou, e eu rolei para o lado no exato momento em que o dispositivo de Kaelen disparou um arco de energia azul onde minha cabeça estava um segundo antes.
— Peguem-na! — rugiu Kaelen.
Eu estava presa à cadeira, mas minhas pernas estavam livres. Quando um dos guardas se aproximou, chutei o ar com força, criando uma lufada que o jogou contra a parede. Usei o impulso para me levantar, equilibrando-me precariamente com o peso da cadeira nas minhas costas.
— Beifong vai acabar com a raça de vocês! — gritei, correndo em direção à única porta que vi.
— A Chefe de Polícia está ocupada explicando ao conselho como deixou o Avatar ser sequestrado sob seu nariz — a voz de Kaelen ecoou atrás de mim.
Corri pelo corredor, o peso da cadeira de platina batendo contra minhas costas, tornando cada passo um suplício. Eu precisava me livrar daquilo. Avistei uma sala de manutenção aberta. Entrei e chutei a porta para fechar. Havia ferramentas ali. Serras, maçaricos... e um esmeril elétrico.
— Vamos lá, Anne... pensa rápido — murmurei para mim mesma.
Posicionei a cadeira de modo que as algemas ficassem próximas ao esmeril. Liguei o aparelho com um toque de dobra de fogo nas fiações expostas. O ruído era ensurdecedor. Encostei a corrente de platina na pedra giratória. Faíscas voaram, queimando meus braços, mas eu não parei.
A platina é resistente, mas não é invencível contra o atrito mecânico constante. Depois de alguns segundos que pareceram horas, a corrente cedeu. Eu ainda tinha os braceletes nos pulsos, mas minhas mãos estavam livres uma da outra. E o mais importante: eu não estava mais presa à cadeira.
A porta da sala de manutenção começou a ser amassada de fora para dentro. Eles estavam usando dobra de metal.
— Hora de ir embora — eu disse, olhando para uma pequena janela de ventilação no alto da parede.
Dobrei o metal da janela com um movimento fluido, sentindo o alívio de usar meu poder sem restrições. Pulei, agarrando a borda e me içando para fora.
O que vi do outro lado me deixou sem fôlego. Eu não estava em um prédio na cidade. Eu estava em uma fortaleza flutuante, uma espécie de plataforma suspensa por enormes balões de ar quente, escondida entre as nuvens pesadas das montanhas que cercavam a Cidade da República.
— Ah, fala sério... — resmunguei, olhando para o abismo de nuvens abaixo de mim. — Odeio alturas quando não tenho um planador.
— Você não vai a lugar nenhum, Miller! — Kaelen apareceu na borda da plataforma, cercado por seus dobradores.
— Quer apostar? — desafiei, sentindo a adrenalina purificar o medo.
Eu não podia voar, mas eu era a Avatar. E, embora eu odiasse admitir, as aulas de história sobre o Avatar Kyoshi tinham me ensinado uma coisa ou outra sobre quedas livres.
Concentrei-me. O ar ao meu redor começou a girar. Eu não ia cair; eu ia descer com estilo. Pulei da plataforma, ouvindo os gritos de raiva de Kaelen sumirem enquanto o vento assoviava nos meus ouvidos.
A queda foi aterrorizante e incrível ao mesmo tempo. Usei a dobra de ar para criar uma bolha de resistência, desacelerando minha descida enquanto mergulhava pelas nuvens. Eu precisava encontrar terra firme, ou pelo menos algo que eu pudesse dobrar.
Abaixo das nuvens, a floresta surgiu como um tapete verde escuro. Eu estava longe da cidade, muito longe. Mirei em um lago próximo e, segundos antes do impacto, criei um amortecedor de ar que me fez atingir a água com a suavidade de um mergulho olímpico.
Emergi da água gelada, tossindo e tremendo. O silêncio da floresta era absoluto, um contraste violento com o caos da última hora. Arrastei-me até a margem, desabando na grama úmida. Meus pulsos doíam, meu corpo estava exausto e eu estava perdida.
— Certo, Anne — falei para o nada, tentando recuperar o fôlego. — Você fugiu da prisão, foi sequestrada por cultistas malucos, saltou de uma fortaleza voadora e agora está no meio do nada. Nota dez para a sua sexta-feira.
Eu precisava de ajuda. Pensei nos meus amigos. Eles deviam estar na mansão agora, ou talvez escondidos no condomínio, esperando por notícias. E Beifong... ela devia estar furiosa. Mas, pela primeira vez, a fúria dela não me parecia algo ruim. Era proteção.
Levantei-me, cambaleando. Eu precisava voltar para a Cidade da República. Precisava avisar que algo muito maior que uma gangue de rua estava se movendo nas sombras. Aqueles homens, os seguidores de Kaelen, não iam parar. Eles queriam o Avatar, e agora eu era um alvo marcado.
Caminhei por horas pela mata, usando pequenos truques de dobra de terra para abrir caminho. O sol começou a nascer, pintando o céu de laranja e roxo. Finalmente, cheguei a uma estrada de terra batida. Ao longe, vi a fumaça das chaminés das fábricas da periferia.
— Quase lá — incentivei-me.
De repente, o som de motores rompeu o silêncio da manhã. Três jipes da polícia da Cidade da República surgiram na estrada, levantando poeira. O veículo da frente freou bruscamente a poucos metros de mim.
A porta se abriu e Lin Beifong saltou antes mesmo do carro parar completamente. Ela parecia ter envelhecido dez anos em uma noite. Seu uniforme estava sujo e seu rosto, geralmente impenetrável, mostrava uma mistura de alívio e pura raiva.
— Miller! — ela gritou, correndo em minha direção. — Onde diabos você estava?
Eu tentei dar um passo, mas minhas pernas cederam. Beifong me segurou antes que eu atingisse o chão.
— Chefe... — eu disse, com um sorriso fraco. — Você não vai acreditar na festa que eu perdi.
— Cale a boca, garota — disse ela, embora suas mãos, que me seguravam pelos ombros, estivessem tremendo levemente. — Você está segura agora.
— Eles têm uma fortaleza voadora, Chefe. E eles não gostam muito de Avatares rebeldes.
Beifong me ajudou a levantar e me encaminhou para o jipe.
— Nós vamos cuidar disso. Mas primeiro, vamos tirar essas algemas de você e te levar para um hospital.
— Hospital? Não, eu preciso ver meus amigos. Eles estão bem?
— Estão na delegacia, prestando depoimento. Eles não pararam de perguntar por você por um segundo — Beifong suspirou, fechando a porta do jipe. — Você tem amigos leais, Anne. E vizinhos muito barulhentos.
Enquanto o jipe acelerava de volta para a cidade, eu olhei pelo vidro traseiro. As montanhas ainda escondiam a fortaleza de Kaelen, mas eu sabia que a paz era temporária. Eu tinha entrado em uma encrenca que não podia ser resolvida com dinheiro ou manobras de skate.
A Lenda de Korra tinha terminado há anos, e o mundo esperava que o novo Avatar trouxesse equilíbrio. Eu só queria ser uma adolescente normal, mas enquanto sentia o peso do metal nos meus pulsos, percebi que a Cidade da República precisava de mim. E, talvez, eu precisasse aprender a ser mais do que apenas uma rebelde com dons extraordinários.
— Ei, Chefe? — chamei, enquanto cruzávamos a ponte que levava ao centro.
— O que foi agora?
— Aquela vitrine que eu quebrei no primeiro dia... você ainda tem a nota fiscal? Acho que agora eu realmente devo um favor para a cidade.
Beifong soltou um ruído que, se eu não conhecesse bem, diria que foi uma risada abafada.
— Você deve muito mais que um favor, Miller. Você deve explicações. E, a partir de amanhã, você deve presença obrigatória nos treinos de dobra com os mestres da Lótus Branca. Sem fugas. Sem desculpas.
Eu olhei para as luzes da cidade, que começavam a empalidecer com a luz do dia.
— Fechado — respondi. — Mas eu ainda quero meu skate de volta.
A aventura estava apenas começando, e as centelhas que eu carregava nos dedos eram apenas o início do incêndio que estava por vir. O equilíbrio do mundo estava em jogo, e a Avatar Anne Miller finalmente tinha decidido entrar no tabuleiro.