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Babá da Herdeira Encrenqueira

Vertigem, Conhaque e o Espaço Pessoal

O despertador de Charlotte Austin não precisou tocar duas vezes. Às cinco e meia da manhã, ela já estava de pé, praticando sua rotina de yoga com uma precisão milimétrica. Às seis em ponto, trajando um terninho cinza impecável e com seus óculos devidamente ajustados, ela atravessou o corredor da cobertura de luxo em direção ao quarto principal. O silêncio da casa era interrompido apenas pelo som rítmico das patas de Kiew, que parecia saber que a tempestade estava prestes a começar.

Charlotte abriu a porta do quarto de Engfa sem bater. O cheiro de álcool caro e perfume importado era quase sufocante. Roupas estavam espalhadas pelo chão de carvalho, e a herdeira das Waraha Enterprise estava enterrada sob um edredom de seda preta, apenas com um braço tatuado para fora.

— Srtª Waraha, o sol já nasceu e o mercado financeiro não espera por ressacas — Charlotte disse, abrindo as cortinas motorizadas com um toque no painel da parede.

A luz intensa de Bangkok inundou o quarto. Engfa soltou um gemido que parecia vir das profundezas de sua alma, cobrindo o rosto com o travesseiro.

— Saia daqui, Austin... — a voz de Engfa estava rouca, arrastada. — Eu vou mandar demitir você e depois vou processar meu pai por abuso psicológico.

— Você diz isso todas as terças-feiras — rebateu Charlotte, caminhando até a beira da cama e puxando o edredom com uma força surpreendente. — Faye e Freen deixaram você em casa às três da manhã. Eu vi as câmeras. Você tem uma reunião com os investidores coreanos em duas horas. Chuveiro. Agora.

Engfa sentou-se abruptamente, os cabelos castanhos totalmente bagunçados e os olhos semicerrados pela claridade. Se fosse qualquer outra pessoa — um segurança, uma empregada ou até mesmo seu pai —, Engfa provavelmente teria arremessado o abajur de cristal na cabeça do intruso. Mas era Charlotte. Era aquela mulher irritantemente organizada, que cheirava a lavanda e café, e que a encarava com um desdém tão elegante que chegava a ser excitante.

— Você é uma ditadora, sabia? — Engfa praguejou, levantando-se com dificuldade. Ela estava apenas de lingerie de renda preta, uma visão que faria qualquer um perder o fôlego, mas Charlotte apenas manteve o olhar fixo no cronograma em seu tablet. — Nem um "bom dia, meu amor, você está linda mesmo com cheiro de tequila"?

— Bom dia, Engfa. Você está com cheiro de arrependimento e irresponsabilidade — Charlotte respondeu, sem desviar os olhos da tela. — Preparei um suco detox e café preto extra forte. Estarei na cozinha. Você tem dez minutos antes de eu voltar aqui com um balde de gelo.

Engfa bufou, mas caminhou em direção ao banheiro. Ela odiava o fato de que, sob o olhar de Charlotte, seu instinto de rebeldia se transformava em uma estranha necessidade de obediência.

Vinte minutos depois, Engfa entrou na cozinha usando uma calça de alfaiataria e, fiel ao seu estilo, uma jaqueta de couro por cima de uma blusa de seda branca. Ela se sentou à ilha de mármore, observando Charlotte organizar alguns documentos.

— Sabe, querida... — Engfa começou, pegando a xícara de café — ...ontem à noite, enquanto eu estava na boate, Freen me perguntou se você era feita de gelo ou se apenas precisava de alguém que soubesse como te derreter.

Charlotte finalmente levantou os olhos, a expressão neutra.

— Espero que tenha respondido que estou ocupada demais garantindo que ela e a Becky não precisem pagar a sua fiança toda semana.

— Eu respondi que você é um desafio — Engfa deu um gole no café, fixando seus olhos escuros nos de Charlotte. — E que eu adoro desafios. Você fica tão fofa quando tenta fingir que não se importa com as minhas provocações. Suas pupilas dilatam, Austin. Sabia disso?

— É o efeito da luz, Engfa — mentiu Charlotte, sentindo uma leve pontada de nervosismo que se recusava a transparecer. — Coma sua torrada. Temos que sair em cinco minutos.

O trajeto até a sede da Waraha Enterprise foi um exercício de paciência para Charlotte. Engfa não parava de falar sobre a festa, sobre como Faye quase brigou com um segurança e sobre como o perfume de Charlotte combinava com a manhã. Charlotte apenas respondia com monossílabos, mantendo-se como uma fortaleza de profissionalismo.

Ao chegarem ao prédio, o clima mudou. A imponência do arranha-céu de vidro trazia de volta a seriedade que o sobrenome Waraha exigia. Elas entraram no lobby, recebendo cumprimentos reverentes de todos os funcionários. Engfa, apesar da ressaca, assumiu sua postura de herdeira — queixo erguido, passos decididos, o carisma transbordando em cada gesto.

— O auditório principal está em manutenção — informou o recepcionista. — A reunião foi movida para a sala VIP do 42º andar.

Charlotte assentiu e guiou Engfa em direção aos elevadores privativos. O interior do elevador era revestido de aço escovado e espelhos impecáveis. Charlotte apertou o botão 42.

O silêncio no pequeno espaço era denso. Charlotte olhava para o painel digital, vendo os números subirem: 15... 20... 25...

Engfa se aproximou, o ombro roçando levemente no braço de Charlotte.

— Você está muito tensa hoje, querida. É o café ou é a minha presença? — Engfa sussurrou, sua voz vibrando no espaço confinado.

— É a sua falta de foco, Engfa — Charlotte respondeu, mas sua respiração falhou levemente quando Engfa estendeu a mão para ajustar uma mecha solta do cabelo de Charlotte.

— Mentira. Você adora quando eu te desafio. Eu vejo no seu olhar. Você quer me colocar na linha, mas no fundo... você quer se perder comigo.

No exato momento em que Charlotte ia responder com uma frase ácida, um solavanco violento sacudiu a cabine. O som metálico de cabos rangendo ecoou pelo poço do elevador, seguido por um estalo seco. As luzes piscaram e se apagaram por um segundo, sendo substituídas pela luz vermelha de emergência. O elevador parou bruscamente.

O impacto fez Charlotte perder o equilíbrio. Engfa, com seus reflexos de praticante de Muay Thai, agarrou a cintura de Charlotte, puxando-a contra seu corpo para evitar que ela caísse.

O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pela respiração ofegante das duas.

— Mas que diabos... — Engfa murmurou, ainda segurando Charlotte com firmeza.

Charlotte se recompôs rapidamente, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. Ela se afastou um pouco e apertou o botão de intercomunicação. Nada. Tentou o botão de alarme. Apenas um som eletrônico abafado.

— Estamos presas — constatou Charlotte, sua voz mantendo a calma, embora suas mãos tremessem levemente ao pegar o celular. — Sem sinal. O metal do poço está bloqueando tudo.

— Presas no 40º andar? — Engfa soltou uma risada sarcástica, encostando-se na parede de espelhos e cruzando os braços. — Bom, pelo menos a vista é... ah, verdade, não tem vista. Mas a companhia é excelente.

— Engfa, isso não é hora para piadas. Temos uma reunião internacional e estamos penduradas por cabos de aço a centenas de metros de altura — Charlotte começou a digitar furiosamente em seu tablet, tentando encontrar uma conexão interna.

— Relaxe, Austin. O sistema de segurança deste prédio custou milhões. Os freios magnéticos já foram acionados. Não vamos cair — Engfa deu um passo em direção a ela, o brilho provocador voltando aos olhos. — Pense pelo lado positivo: você tem duas horas de isolamento total comigo. Sem planilhas, sem o meu pai, sem o Kiew para você dar mais atenção do que a mim.

Charlotte sentiu o espaço diminuir. O elevador, que antes parecia moderno, agora parecia uma caixa de fósforos. O calor corporal de Engfa era quase palpável na penumbra avermelhada.

— Eu preciso trabalhar, Engfa. Afaste-se — Charlotte pediu, mas sua voz não tinha a autoridade de sempre.

— Trabalhar em quê? Não tem sinal, não tem saída — Engfa ignorou o pedido, aproximando-se até que Charlotte estivesse encurralada entre o painel de botões e o corpo da herdeira. — Admita, Charlotte. Você está apavorada. Mas não é da altura. É de ficar sozinha comigo sem ter o trabalho como escudo.

— Você é uma narcisista — Charlotte sibilou, os olhos castanhos brilhando sob os óculos. — Acha que o mundo gira em torno dos seus caprichos. Estamos presas em uma situação perigosa e você só pensa em me provocar.

— Eu não estou apenas te provocando — a voz de Engfa baixou para um tom perigosamente sedutor. Ela colocou uma mão na parede, ao lado da cabeça de Charlotte, bloqueando qualquer rota de fuga. — Eu estou sendo honesta. Você passa o dia inteiro tentando me controlar, tentando me moldar. Mas quem controla você, Charlotte? Quem faz essa sua máscara de perfeição cair?

Charlotte sentiu a raiva borbulhar, mas era uma raiva misturada com algo muito mais sombrio e atraente. Ela olhou para os lábios de Engfa, que exibiam um sorriso vitorioso, e depois de volta para aqueles olhos escuros que pareciam ler sua alma.

— Ninguém me controla — Charlotte disse, entre dentes. — E certamente não será uma criança mimada que gasta o tempo em boates e brigas de rua.

Engfa soltou uma risada baixa, rouca.

— Uma criança mimada? — Ela se inclinou mais, o nariz quase roçando o de Charlotte. O aroma de sândalo e o leve toque de cigarro da noite anterior envolveram Charlotte. — Se eu sou uma criança, por que você está tremendo, querida? Por que sua respiração está tão curta?

— É o calor... o ar condicionado desligou — Charlotte tentou desviar o rosto, mas Engfa usou a outra mão para segurar gentilmente seu queixo, forçando-a a manter o contato visual.

— Mentirosa — sussurrou Engfa. — Você me quer tanto quanto eu quero te levar ao limite. Você odeia o fato de que eu sou a única que consegue ver através dessa sua fachada de COO impecável. Você não é apenas uma babá, Charlotte. Você é a minha obsessão. E eu sei que, por trás desses óculos e desse coque perfeito, existe uma mulher que está morrendo de vontade de perder o controle.

A tensão elétrica no elevador era tão forte que parecia que o ar poderia entrar em combustão a qualquer momento. Charlotte sentia o peito de Engfa subindo e descendo contra o seu. A lógica lhe dizia para empurrá-la, para gritar por socorro, para manter a dignidade. Mas o instinto — aquele que ela enterrava sob camadas de regras e horários — estava gritando mais alto.

— Você não sabe de nada sobre mim — Charlotte desafiou, a voz trêmula.

— Então me mostre — desafiou Engfa em resposta. — Estamos presas, Charlotte. O tempo parou. Não existe Waraha Enterprise aqui dentro. Não existe herdeira e assistente. Apenas nós duas.

Engfa diminuiu a distância final, seus lábios roçando os de Charlotte em uma promessa silenciosa. Charlotte fechou os olhos, sentindo a batalha interna ser vencida pelo desejo avassalador que vinha cultivando desde o primeiro dia em que viu aquela mulher de jaqueta de couro desafiar o mundo.

Justo quando Charlotte ia encurtar a distância e ceder ao beijo, o elevador deu um tranco violento. As luzes brancas voltaram a brilhar com força total, cegando-as por um momento.

— Alô? Srtª Waraha? Srtª Austin? Vocês estão me ouvindo? — a voz do chefe de segurança ecoou pelo alto-falante, clara e profissional. — Tivemos uma falha no sistema de energia, mas já reativamos os motores manuais. Vamos levar a cabine até o andar mais próximo em trinta segundos.

Charlotte empurrou Engfa imediatamente, ajeitando o blazer e os óculos com uma agilidade frenética. Seu rosto estava corado, e seu coração parecia que ia saltar pela boca.

Engfa, por outro lado, apenas soltou um suspiro de frustração, passando a mão pelo cabelo e dando um sorriso de lado, sem parecer nem um pouco abalada pela quase-tragédia.

— Salvas pelo gongo, hein, querida? — Engfa disse, a voz carregada de uma ironia deliciosa.

Charlotte não respondeu. Ela se postou diante da porta, as mãos entrelaçadas à frente do corpo, recuperando sua postura de "robô" como se nada tivesse acontecido. Mas suas mãos ainda tremiam levemente.

As portas se abriram no 38º andar. Uma equipe de técnicos e seguranças estava de prontidão.

— Vocês estão bem? — perguntou o gerente predial, visivelmente pálido.

— Estamos ótimas — Engfa respondeu, saindo do elevador com a confiança de uma rainha. Ela parou e olhou para trás, vendo Charlotte sair logo atrás dela, com a expressão gélida de sempre. — Na verdade, foi a reunião mais produtiva que já tive.

Charlotte passou por Engfa sem olhar para trás, caminhando em direção às escadas de emergência.

— Srtª Waraha, a reunião com os coreanos foi remarcada para daqui a dez minutos na sala de conferências secundária — Charlotte disse, sua voz voltando ao tom profissional e monótono. — Por favor, tente não se atrasar. E limpe o batom borrado no canto da sua boca.

Engfa levou a mão aos lábios, rindo baixo enquanto observava Charlotte se afastar. Ela sabia que a barreira tinha sido rachada. Charlotte Austin podia ser a mestre da ordem, mas Engfa Waraha era o caos — e o caos sempre encontrava uma maneira de se infiltrar.

— Isso ainda não acabou, querida — sussurrou Engfa para o corredor vazio. — O dia está apenas começando.

Enquanto caminhava, Charlotte sentia o calor do toque de Engfa ainda marcado em sua pele. Ela sabia que as regras tinham mudado. O elevador podia ter voltado a funcionar, mas a dinâmica entre elas tinha sofrido um curto-circuito irreparável. E, pela primeira vez na vida, Charlotte Austin não tinha uma planilha para lidar com o que viria a seguir.