Babá da Herdeira Encrenqueira
Vertigem, Conhaque e o Espaço Pessoal
A sala de conferências secundária era menor, o que apenas agravava a sensação de confinamento que Charlotte tentava desesperadamente ignorar. Os investidores coreanos falavam sobre projeções de crescimento e logística de distribuição, mas, para Charlotte, o som era apenas um ruído de fundo. Seu foco principal estava voltado para a mulher sentada ao seu lado, que parecia ter transformado a reunião em seu playground particular.
Engfa não estava apenas presente; ela era uma força da natureza. Sob a mesa, Charlotte sentiu o joelho de Engfa pressionar o seu, um toque firme que subia e descia em um ritmo provocador. Charlotte tentou afastar a perna, mas Engfa a seguiu, prendendo-a com uma possessividade silenciosa.
— Como podem ver no gráfico da página doze — Charlotte começou, sua voz falhando por um milésimo de segundo quando sentiu a mão de Engfa deslizar por sua coxa, escondida pela toalha de mesa de veludo.
— Sim, os números são fascinantes — interrompeu Engfa, inclinando-se para frente como se estivesse interessada na apresentação, mas aproveitando o movimento para sussurrar no ouvido de Charlotte: — Mas não tanto quanto o jeito que sua respiração acelera quando eu te toco, querida.
Charlotte apertou a caneta entre os dedos com tanta força que os nós de suas mãos ficaram brancos. Ela olhou para Engfa, um aviso silencioso queimando por trás das lentes dos óculos, mas a herdeira apenas lhe devolveu um sorriso de satisfação, os olhos brilhando com uma malícia indomável.
Durante as duas horas seguintes, Engfa foi implacável. Ela pedia para Charlotte buscar documentos que estavam propositalmente perto demais de seu corpo, forçando Charlotte a invadir seu espaço pessoal. Ela fazia perguntas retóricas apenas para ver Charlotte se esforçar para manter a compostura profissional enquanto sentia os dedos de Engfa traçarem padrões invisíveis em seu pulso por baixo da mesa. Era uma dominação leve, mas absoluta. Engfa estava deixando claro quem ditava as regras ali, independentemente do cargo que Charlotte ocupasse.
Quando a reunião finalmente terminou e os investidores se retiraram, Charlotte fechou seu tablet com um estalo seco, o primeiro sinal visível de sua irritação.
— Isso foi inaceitável, Engfa — disse Charlotte, levantando-se e tentando recuperar sua aura de autoridade. — Estamos em um ambiente de trabalho. Seu comportamento foi infantil e...
— E excitante? — Engfa completou, levantando-se com uma graça felina e caminhando ao redor da mesa até cercar Charlotte contra a parede de vidro que dava vista para a cidade. — Você adora quando eu quebro sua rigidez, Austin. Admita. Você se sente viva quando eu te desafio.
— Eu me sinto exausta — rebateu Charlotte, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Agora, vamos. Temos compromissos fora da empresa.
Elas desceram para o hall de entrada, onde o movimento era intenso. Charlotte caminhava alguns passos à frente, tentando criar uma distância segura, quando uma voz masculina e animada ecoou pelo mármore do lobby.
— Charlotte? Charlotte Austin? Não acredito!
Um homem alto, elegante e com um sorriso radiante aproximou-se rapidamente. Era Mew Suppasit, um antigo colega de universidade e amigo de longa data de Charlotte. Antes que ela pudesse reagir, Mew a envolveu em um abraço caloroso e apertado.
— Meu Deus, Charlotte! Faz quanto tempo? Três anos? Você continua impecável — disse Mew, afastando-se apenas o suficiente para segurar os ombros dela, os olhos brilhando de admiração.
— Mew! Que surpresa — Charlotte sorriu genuinamente, a tensão em seus ombros relaxando por um momento. — Sim, faz muito tempo. O que faz por aqui?
— Negócios com o setor imobiliário. Eu ia te ligar, mas soube que você estava trabalhando para os Waraha e achei que estaria ocupada demais salvando o mundo — ele riu, deslizando a mão para o braço dela de uma forma amigável. — Precisamos jantar. Hoje? Amanhã? Eu não aceito um não como...
O convite foi interrompido por uma presença sombria que se materializou ao lado de Charlotte. O ar pareceu esfriar instantaneamente. Engfa se posicionou entre os dois, seu corpo agindo como um escudo humano, os olhos escuros fixos em Mew com uma intensidade predatória.
— Ela está ocupada — a voz de Engfa saiu baixa, carregada de uma possessividade que fez os pelos do braço de Charlotte se arrepiarem.
Mew piscou, surpreso com a interrupção abrupta.
— Oh, desculpe. Você deve ser a Srtª Waraha. Eu sou Mew Suppasit, um amigo de...
— Eu não perguntei quem você é — Engfa cortou, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Mew de forma intimidadora. — Eu disse que ela está ocupada. Comigo. O tempo dela pertence à Waraha Enterprise. E a mim.
Charlotte sentiu o sangue subir às bochechas por causa do comportamento absurdo de Engfa.
— Engfa, por favor! — Charlotte interveio, colocando a mão no braço da herdeira para puxá-la de volta. — Mew, me desculpe. A Srtª Waraha está tendo um dia estressante. Eu te ligo depois para combinarmos, tudo bem?
Mew, percebendo a tensão perigosa nos olhos de Engfa, assentiu lentamente, embora parecesse confuso.
— Claro, Charlotte. A gente se fala. Foi um prazer, Srtª Waraha.
Assim que Mew se afastou, Charlotte virou-se para Engfa, os olhos faiscando de raiva. Ela a conduziu rapidamente para fora da empresa, em direção ao carro de luxo que as esperava. Assim que entraram no banco traseiro e a divisória com o motorista foi levantada, Charlotte explodiu.
— O que foi aquilo, Engfa? Você agiu como uma adolescente possessiva! O Mew é um amigo de anos, uma pessoa respeitável. Você não tem o direito de tratar as pessoas assim.
Engfa estava sentada de braços cruzados, o maxilar tenso, olhando fixamente para a janela.
— Eu não gosto do jeito que ele te tocou — disse Engfa, sua voz vibrando com uma fúria contida. — E não gosto do jeito que você sorriu para ele.
— Isso é ridículo — Charlotte bufou, ajeitando os óculos. — Nós não temos nada, Engfa. Absolutamente nada além de uma relação profissional e do fato de que eu sou, infelizmente, sua assistente e babá. Você não tem poder sobre a minha vida pessoal ou sobre quem eu decido abraçar.
Engfa virou-se lentamente para ela. A raiva em seus olhos tinha se transformado em algo mais profundo, uma obsessão que beirava o perigoso. Ela se inclinou sobre Charlotte, prendendo-a contra o couro do banco.
— Você acha que é só trabalho, querida? — Engfa sussurrou, o rosto a centímetros do dela. — Você pode dizer a si mesma o que quiser. Pode dizer que é profissional, que é apenas um contrato. Mas você é minha. Cada minuto do seu dia, cada pensamento que você tenta esconder por trás dessa fachada fria. Eu não compartilho o que me pertence.
— Eu não sou um objeto, Engfa. Eu não pertenço a ninguém — Charlotte rebateu, embora sua voz estivesse perdendo a força diante da proximidade esmagadora.
— Pertence a mim — insistiu Engfa, a mão subindo para o pescoço de Charlotte, o polegar acariciando a linha do seu maxilar com uma possessividade febril. — E se aquele idiota chegar perto de você de novo, eu vou garantir que ele nunca mais consiga fechar um contrato nesta cidade.
Charlotte observou o rosto de Engfa. A herdeira estava visivelmente transtornada, uma mistura de ciúmes irracional e uma carência que ela tentava disfarçar com agressividade. Era a primeira vez que Charlotte via Engfa tão vulnerável em sua própria obsessão.
O silêncio no carro tornou-se pesado. Charlotte respirou fundo, sentindo a tensão emanando de Engfa como ondas de calor. Ela sabia que precisava acalmá-la, não apenas por profissionalismo, mas porque, no fundo, a intensidade de Engfa a atingia de uma forma que ela não conseguia mais negar.
Lentamente, Charlotte quebrou a distância. Ela não recuou. Em vez disso, inclinou-se para frente e depositou um beijo leve, quase casto, na bochecha de Engfa. Seus lábios demoraram um segundo a mais na pele macia, sentindo o perfume de Engfa inundar seus sentidos.
O efeito foi instantâneo. Engfa paralisou. A fúria em seus olhos se dissolveu, substituída por um choque silencioso e uma satisfação que ela não conseguiu esconder. Ela fechou os olhos por um momento, absorvendo o gesto raro de afeto de Charlotte.
— Você é impossível — sussurrou Charlotte, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. — Agora, comporte-se. Temos muito trabalho a fazer e eu não quero ouvir mais uma palavra sobre o Mew ou sobre quem eu sou ou deixo de ser.
Engfa deu um sorriso torto, o brilho provocador voltando ao seu rosto, mas desta vez havia uma suavidade nele que não existia antes.
— Você sabe que eu adoro quando você faz isso, querida — Engfa murmurou, recostando-se no banco, mas mantendo sua mão possessivamente sobre a de Charlotte. — Isso só prova que eu estou ganhando.
— Você não está ganhando nada, Engfa — Charlotte disse, voltando sua atenção para o tablet, embora um pequeno sorriso impossível de esconder surgisse no canto de seus lábios. — Você está apenas sendo tolerada.
— Por enquanto, Austin — Engfa entrelaçou seus dedos aos de Charlotte, apertando com firmeza. — Por enquanto.
O carro seguiu pelas ruas movimentadas de Bangkok. Charlotte tentava se concentrar nas planilhas, mas o calor da mão de Engfa sobre a sua era um lembrete constante de que a ordem que ela tanto prezava estava desmoronando, e que, talvez, ela não estivesse mais tão interessada em salvá-la.